1. Chapter one: Introduction
5.1 The Madal – traditional assembly arena (Shir dhaqameed)
A sociedade contemporânea está intrinsecamente associada às mudanças relacionais e comportamentais intensas e contínuas, que repercutem em várias esferas sociais (GIDDENS, 1991), tais como na família, educação, orientação religiosa, sexualidade, entre outros. Referenciais sociológicos e antropológicos demonstram que essas novas formas de relacionamento entre os indivíduos possibilitaram um diálogo peculiar entre o indivíduo e a sociedade. A ênfase no indivíduo, enquanto sujeito dotado de particularidades e que atua na realidade empírica, adquire relevância na atualidade.
A reflexão em torno da denominada sociedade moderna também parte desse entendimento entre a complexa relação indivíduo e sociedade. Nessa perspectiva, Bauman (2008) destaca que a modernidade é caraterizada pelo intenso processo de individualização do sujeito.
Agora, somos todos indivíduos; não por escolha, mas por necessidade. Somos indivíduos de jure, sem importar se somos ou não indivíduos de facto: a auto-identificação, o autogerenciamento e a auto- afirmação, e acima de tudo, a auto-suficiência no desempenho de todas essas três tarefas são nosso dever, comandemos ou não os recursos que o desempenho do novo dever exige (um dever à revelia, mais do que por planejamento: Simplesmente não existe outra agência para fazer o trabalho por nós). Muitos de nós somos individualizados sem que antes nos tornássemos indivíduos, e muitos são assombrados pela suspeita de que não são indivíduos o bastante para enfrentar as consequências da individualização (BAUMAN, 2008, p. 137, grifo do autor).
Enquanto indivíduos dos tempos ditos modernos, somos condicionados a considerar o discurso que apresenta o “eu em primeiro plano”. Nessa perspectiva, assumimos os ônus e os bônus dessa condição adquirida. Fazemos recair sobre nós a responsabilidade por nossos fracassos e desilusões, por não termos um terceiro a quem delegar esse sentimento de culpa latente. Isso acontece através da prática da auto reprovação e do autodesprezo. Assimilamos também a lógica de que possuímos o controle sobre nossos destinos e decisões, ou seja, dos nossos sucessos e frustrações futuras.
Nesta perspectiva, marcados por uma sociedade cujos valores estão ancorados no sistema capitalista – lucro, competição, inovação, consumismo, entre outros – os
ditos tempos atuais demonstram, nas práticas e discursos, significativas expressões de individualismo, o que dificulta articulação e condiciona a perda da capacidade para a ação coletiva. As relações estabelecidas inibem, portanto, a confiança mútua e o engajamento social.
A relação que esse sujeito individualizado mantém com o entorno social pode variar de acordo com a identificação a um grupo específico, com suas fronteiras e aproximações, podendo ser apreciado ou se tornar objeto de hostilidade na sociedade. Velho afirma que: “Em uma sociedade complexa moderna, os mapas de orientação para a vida social são particularmente ambíguos, tortuosos e contraditórios” (1997, p. 36). Possuem o caráter de contraditórios, na medida em que os indivíduos que formam esse tecido social são diversos entre si e, de acordo com suas características e trajetórias de vida particulares, condicionam distintas formas de viver e conviver em coletividade.
Atrelado a essas questões que tratam sobre a relação indivíduo e sociedade na contemporaneidade, inserimos a discussão sobre o indivíduo idoso e sua experiência de velhice(s) na atualidade. Entendemos, nesse momento, que o prolongamento da longevidade humana traz consigo inúmeras alterações na sociedade: relações familiares ressignificadas, convivência intergeracional e o amplamente divulgado impacto sobre o poder público. Sobre este difundido problema socioeconômico que a longevidade, outrora ostentada enquanto uma conquista, representa, assistimos ao surgimento de novas resoluções que normatizam adaptações em torno do acesso a direitos e deveres dos idosos, já garantidos legal e institucionalmente, tais como a previdência social, saúde, infraestrutura urbana, transporte, lazer, proteção. Essas esferas sociais são alguns exemplos que podemos acionar para explicitar um panorama preliminar desse conjunto de transformações que o aumento da expectativa de vida populacional ocasionou na sociedade.
As pesquisas estatísticas, frequentemente, expõem dados referentes a essa realidade cada vez mais presente. Estudos demográficos (BARROS, 2006; PEIXOTO, 2008) apontam que a população considerada idosa é a que mais cresce em quase todas as nações. Esse fato, por si só, é apontado como um dado importante, visto que sociedades que envelheceram gradativamente e adaptaram-se às mudanças, compartilham essa realidade com aquelas caracterizadas por condições sociais e vitais insuficientes à nova conjuntura que se configura no cenário mundial. No caso do Brasil, as pesquisas realizadas nas últimas décadas do século XX (BERQUÓ, 1999; PAPALÉO NETTO, 2002) já sinalizavam para o crescente índice da população idosa, que deveria
consolidar-se no século XXI, dado este que se confirma nos dias atuais. O último levantamento censitário realizado apontou que a população idosa no Brasil atingiu a porcentagem de 11% (Anexo II). Embora essa alteração social fosse prenunciada nas pesquisas realizadas, não foram feitos “ajustes” ao longo das transformações demográficas. Ressalvando-se alguns municípios e estados, o discurso em torno da perspectiva de apresentar o Brasil como um país tradicionalmente jovem permanece, assim como o foco de atuação no planejamento e execução de políticas sociais, com a adoção de prismas que vislumbram um futuro “jovem” e para jovens, ignorando os dados contrários.
Concomitante a isso, o reconhecimento da longevidade a nível mundial, diversa por excelência, contribui para identificarmos o idoso enquanto sujeito peculiar, com vivências, necessidades e aspirações heterogêneas. Beauvoir (1990), em 1970, já apontava a heterogeneidade do idoso, assim como Bosi (1994, p. 77), que afirma: “além de ser um destino do indivíduo, a velhice é uma categoria social. Tem um estatuto contingente, pois cada sociedade vive de forma diferente o declínio biológico do homem”. Inserimos também a pesquisa realizada por nós (SILVA, 2012), que aponta para o caráter heterogêneo da velhice, a partir da discussão das experiências de sociabilidades e do encontro entre idosos oriundos de agrupamentos caracterizados por propostas diferenciadas: um grupo formado por idosas voluntárias de uma associação de caridade que realiza práticas caritativas junto aos idosos residentes de uma instituição de longa permanência na cidade de Campina Grande – PB. Assim, a maneira de ser do idoso e de como é tratado, reflete no relacionamento humano e social que se estabelece. Indivíduos detentores do peculiar traço da heterogeneidade, os idosos estão submetidos a compreensões de si e do (e em relação ao) outro complexas e, por vezes, contraditórias. Associações construtivas quanto à sabedoria, experiência, memória, percorrem lado a lado com estereótipos forjados para identificar os indivíduos de mais idade, atrelando-os à decrepitude, isolamento, doenças, morte, muitas vezes, coexistindo ambas as posturas diante da velhice do outro. Cada sociedade, bem como cada agrupamento, reafirma ou desconstrói tais associações com maior ou menor intensidade, particularizando-se.
Compreende-se, portanto, que a velhice é um processo complexo de alterações na trajetória de vida das pessoas. Cada contexto tem suas particularidades que vão alterar o estilo de vidas de cada um com isso, os modos de revelar o significado da velhice e processo de envelhecer
para os idosos dependerão de como viveu essa pessoa e como fazem as adaptações e enfrentamentos cotidianos. A repercussão do envelhecer é respondida por eles de maneira diferente, dependendo da história de vida pessoal, da disponibilidade de suporte afetivo, das redes sociais, do sistema de valores pessoais e do estilo de vida adotado por cada um (FREITAS; QUEIROZ; SOUZA, 2010, p. 410). Discutir a heterogeneidade das experiências de envelhecimento é também trazer para o cerne do debate as demarcações etárias e os termos destinados a caracterizar os indivíduos de mais idade, na medida em que esses elementos contribuem para que as particularidades de cunho sociocultural que permeiam as relações sociais se acentuem. Assim, “elementos fundamentais na organização e na cultura das sociedades, as idades participam de sua dinâmica – constroem-se, reconstroem-se e mudam de significado” (MOTTA, 2007, p. 226).
O marco legal da Política Nacional do Idoso e do Estatuto do Idoso reconhece enquanto idosos todos aqueles que estão inseridos na população de 60 anos e mais de idade. Bourdieu considera que “a idade é um dado biológico socialmente manipulado e manipulável” (1983a, p. 113). Reflexões teóricas e observações empíricas nos permitem constatar que essa manipulação social apontada pelo teórico francês se dá em todas as idades. Trata-se das políticas etárias que favorecem certos elementos constitutivos do arcabouço social. Em relação à velhice, isso acontece de forma mais visível no plano das políticas públicas projetadas e executadas, dos direitos e deveres trabalhistas e previdenciários, dos agentes de gestão da velhice (BARROS, 2006; DEBERT, 1999), tais como grupos de “terceira idade”, instituições de longa permanência, turismo e lazer voltados à “terceira idade”, entre outras. Embora com restrições quanto a essa demarcação etária imposta pelo poder público, manteremos no nosso estudo, a investigação realizada com sujeitos inseridos nesse momento do curso da vida, a partir dos 60 anos de idade, visto que os espaços estudados na presente pesquisa apresentam maior contingente de participantes inseridos nessa faixa etária.
Conforme já expresso, consideramos que o enquadramento da velhice em termos numéricos é insuficiente e, desta forma, não abrange os aspectos subjetivos dos indivíduos. Bourdieu ainda esclarece que: “O reflexo profissional do sociólogo é lembrar que as divisões entre as idades são arbitrárias” (1983a, p. 112), visto que desconsideram a diversidade, bem como o caráter dinâmico da sociedade. Arbitrárias também porque são impostas por documentos que normatizam e distinguem os
indivíduos entre si, desconhecendo os aspectos objetivos e subjetivos que acompanham o reconhecimento de si e do outro enquanto criança, jovem, adulto e idoso.
(...) essas categorias são constitutivas de realidades sociais específicas, uma vez que operam recortes no todo social, estabelecendo direitos e deveres diferenciais em uma população, definindo relações entre as gerações e distribuindo poder e privilégios (DEBERT, 2007, p. 53). Na esteira desse entendimento relacionado às demarcações etárias, Debert (1999) aponta os limites da acepção de “ciclo de vida”, na discussão sobre os “tempos” da vida social. A ideia de ciclo contém em si a compreensão de algo começou em determinado momento e posteriormente findará, porque “naturalmente” é assim. Estabelece, portanto, limites explícitos à vivência do indivíduo. Como alternativa, a autora propõe a concepção “curso da vida”. Ao adotar tal termo, as vivências vitais seriam identificadas a partir da noção de processualidade social, movimento, conferindo a esse conceito a perspectiva de trajetória não conclusa, que não findou, não fechou um “ciclo” na velhice. Ainda pode e continua atuando e sofrendo influências de toda a extensão da sociedade, enquanto sujeito/cidadão que possui direitos e deveres.
Nas Ciências Humanas evitamos tratar noções e categorias de forma cristalizada. Portanto, permanentemente, questionamos: que velhice? O que é ser “idoso”? Que tipo de idoso? As categorias “velhice” e “idoso” já parecem “dadas” nas práticas, saberes e discursos socialmente produzidos. Com as novas gerações de idosos, as “imagens da velhice” que são difundidas tradicionalmente estão sofrendo profundas alterações. Para problematizar as diferenças que pulsam na realidade social, entendemos que os diversos termos existentes, utilizados para se referir aos indivíduos de mais idade, também revelam a dificuldade que temos em relação à velhice. Se assim não fosse, não se sustentaria a variedade de termos que, em sua maioria, embora sejam censurados no meio acadêmico e social, persistem e contribuem para reforçar estereótipos arraigados. Velho, velhote, idoso, terceira idade, quarta idade (PEIXOTO, 2007). Não existe consenso entre o termo isento de noções preconcebidas, mas usualmente utiliza-se “idoso” para referir-se aos indivíduos acima de 60 anos. Peixoto mostra que o termo “idoso simboliza sobretudo as pessoas mais velhas, „os velhos respeitados‟, enquanto terceira idade designa principalmente os „jovens velhos‟, os aposentados dinâmicos” (PEIXOTO, 2007, p. 81, grifo do autor). Ainda de acordo com Cabral (2002), o
termo “terceira idade” tornou-se um símbolo de sonhos e representação de um novo modo de envelhecer.
Além dessas expressões conhecidas na nossa realidade, no cotidiano, os sujeitos acionam inúmeros termos envoltos por “simulações de gentilezas”, mas que culminam por explicitar facetas depreciativas para se referir aos idosos, ora infantilizando-os sob a forma de tutela, ora destacando seus traços físicos não condizentes com a supervalorização do corpo jovem: “velhinho”, “cabeça branca”, “bruxa velha”, ou afirmando que tal indivíduo “não parece a idade que possui”, “é jovem de espírito”, entre outros. Assim, “quando se pretende elogiar uma pessoa idosa e para tanto é preciso negar a idade da pessoa, é porque não se tem uma interpretação muito favorável do fenômeno da velhice” (NEVES, 2012, p. 52). Essa constatação esclarece que o modo pelo qual nos expressamos expõe as representações particulares de cada sociedade, utilizadas para caracterizar grupos e/ou indivíduos. Ressaltamos que essas expressões pejorativas, muitas vezes, são reforçadas pelos próprios sujeitos que vivenciam essa condição social, que acabam por ditar entre si as condutas que devem ou não ser assumidas em um contexto social, na medida em que me reconheço enquanto indivíduo a partir do olhar do outro. Como apontado por Peixoto (1997, p. 156), “a representação de si é como um jogo de espelhos que reflete, através da representação do outro, a imagem que cada um tem de si”.
Com a finalidade de escapar à dicotomia jovens versus idosos, embora reconheçamos a relevância dos estudos sobre as relações intergeracionais estabelecidas, uma vez que estas repercutem numa dinâmica social cotidiana, buscamos problematizar a inserção do sujeito idoso na sociedade contemporânea, marcada por mudanças constantes e intensas. De formas mais brandas ou acentuadas, em todos os momentos do curso da vida são forjadas representações distintas, bem como termos e classificações que longe de serem discutidas enquanto “privilégio” de determinado segmento, encontram-se nuançadas na realidade social. Conforme assinala Debert: “não se pode supor que o avanço da idade, automaticamente, dissolveria distinções socioculturais que marcaram todas as etapas anteriores da vida” (1999, p. 161). Estes aspectos distintivos são múltiplos e perpassam desde questões objetivas, como situações de classe social, como nas instâncias mais subjetivas, como trajetórias de vida, elementos identitários, entre outros.
Diante desse panorama, encontrar e permanecer ocupando um lugar social relevante para si e perante os outros, constitui-se em um impasse para os idosos, nem
sempre solucionado. Além das questões de cunho econômico-social, aquelas relativas aos meandros da subjetividade adquirem, ao longo dos anos, seu espaço garantido dentre os desafios da longevidade. Como se inserir em uma sociedade formatada, com discursos e práticas, ao estereótipo de “país jovem” e “para jovens”?