Pesquisas qualitativas, de maneira geral, utilizam métodos que oferecem dados muito significativos e densos. Isso se deve ao fato de que os pesquisadores que elegem a abordagem qualitativa de investigação buscam perceber a intensidade do fenômeno, não somente a sua extensão (DEMO, 2000). Assim sendo, a análise de dados pode começar assim que os dados são coletados (ROBSON, 1993). A combinação entre análise durante e após a coleta de dados é comumente usada em investigações qualitativas. Enquanto os dados são coletados, o pesquisador registra-os e conduz análises básicas, o que serve para facilitar o efetivo tratamento e cobertura do tópico de pesquisa. Após a conclusão da coleta, ocorre a intensificação da análise, focando em aspectos mais específicos das questões de pesquisa, o que é útil para refinar e verificar a análise inicial (SARANTAKOS, 2005). Esta proposta de pesquisa seguiu esta modalidade analítica.
À medida que cada entrevista foi realizada, a pesquisadora realizou a transcrição dos discursos na íntegra. Em seguida, ocorreu o agrupamento das respostas em torno das questões feitas e a alocação do material em categorias gerais. Durante a análise dos dados, surgiram significações que geraram categorias específicas. Como argumenta Demo (2000), categorizar o material é uma necessidade, no entanto a formalização do material deve ocorrer com flexibilidade, para que a trama não linear do fenômeno possa ser percebida.
Ainda de acordo com Demo (2000), a pesquisa qualitativa depende muito da retórica e da análise do discurso. Desse modo, será utilizada a técnica Análise do Discurso para analisar os dados obtidos por meio das entrevistas. A Análise do Discurso, como o próprio nome sugere, não trata da língua nem da gramática, ainda que ambas lhe interessem. Ela lida com o discurso, entendido como produção de sentidos, de lugares provisórios de conjunção e de dispersão, de unidade e de diversidade, de incerteza, de ancoragem, de trajetos e de vestígios;
isto é, lida com a palavra em movimento. Mesmo daquelas não ditas (ORLANDI, 1999). Gill (2002), por sua vez, destaca que o termo discurso refere-se a todas as formas de fala e de textos, seja quando ocorre nas conversações de forma natural, seja quando é apresentado como material de entrevistas ou textos escritos de todo o tipo. O discurso produzido pelo indivíduo interessa particularmente ao pesquisador porque é o espaço em que emergem as significações (BRANDÃO, 2004).
Nos enunciados que o locutor emite evidencia-se a relação entre o próprio locutor, seu enunciado e o mundo. Esta relação está no centro das reflexões sobre a Análise do Discurso, com enfoque primordial na posição sócio-histórica dos enunciadores. Nesta perspectiva, a linguagem enquanto discurso e modo de produção social não é neutra ou inocente, por essa razão é o lugar privilegiado da manifestação ideológica (BRANDÃO, 2004). Desse modo, a Análise do Discurso constitui-se de uma leitura minuciosa que percorre o texto e o contexto, no intuito de examinar o conteúdo, a organização e as funções do discurso. Em outras palavras, é uma interpretação, fundamentada em uma argumentação minuciosa e uma atenção criteriosa ao material em estudo (GILL, 2002). Todavia, a Análise do Discurso não se limita à interpretação, pois trabalha seus limites, seus mecanismos, como parte dos processos de significação (ORLANDI, 1999).
O processo de interpretação envolve dois dispositivos: o dispositivo teórico da interpretação e o dispositivo analítico construído pelo analista. No dispositivo teórico da interpretação existe uma parte que é de responsabilidade do analista e uma parte que procede da sustentação no rigor do método e no alcance teórico da Análise do Discurso. Não há Análise do Discurso sem a mediação teórica em todos os passos da análise, trabalhando a intermitência entre descrição e interpretação, que constituem o processo de compreensão do analista (ORLANDI, 1999).
Já o dispositivo analítico é construído pelo analista face ao material em análise, que constitui o corpus que se pretende compreender, e em função do domínio científico que vincula seu trabalho. Nesse sentido, é de responsabilidade do analista formular questões que desencadeiem a análise. Ainda que o dispositivo teórico encampe o dispositivo analítico e o inclua, quando há referência ao dispositivo analítico, pensa-se no dispositivo teórico já particularizado pelo analista em uma análise específica. Assim sendo, o que define o formato do dispositivo analítico é a pergunta feita pelo analista, a natureza do material que analisa, sua prática de leitura, a finalidade da análise e seu trabalho com a interpretação (ORLANDI, 1999).
Orlandi (1999) destaca que a interpretação aparece em dois momentos da análise. No primeiro momento, o participante que fala interpreta. No segundo momento, o pesquisador busca descrever o gesto de interpretação do participante, que constitui o sentido submetido à análise. Nesse instante, ocorre a interpretação do analista, pois não há descrição sem interpretação. Por essa razão, faz-se necessário introduzir o dispositivo teórico que possa intervir na relação do analista com os objetos simbólicos em análise. O que se espera do dispositivo do analista é que ele permita uma posição relativizada frente à interpretação, não uma posição neutra.
A Análise do Discurso apresentou-se como uma opção de estratégia de análise dos dados para esta pesquisa, porque possibilitou compreender como a linguagem produz sentidos para e por sujeitos. Conforme Brandão (2004), o linguístico é o lugar que dá materialidade às ideias, aos conteúdos e às temáticas dos quais o homem se faz um sujeito concreto, histórico e porta-voz de um amplo discurso social.
Em suma, para análise dos dados, foi utilizada a estratégia da Análise de Discurso (BRANDÃO, 2004; GILL, 2002; ORLANDI, 1999). Para tanto, ocorreram, inicialmente, a transcrição das entrevistas na íntegra, o agrupamento das respostas em torno das questões feitas e a alocação do material em categorias gerais. As categorias instituídas foram delineadas a partir dos objetivos específicos do estudo; ou seja, explorar conceitos de
expertise aplicados a professores, investigar processos de aprendizagem para expertise de
professores, identificar características de professores experts, identificar condições ambientais que possibilitaram o alcance do desempenho superior e investigar aspectos motivacionais que levaram e mantêm as docentes no desempenho superior. Cabe destacar que os objetivos referentes a conceito e a características de experts foram agrupados em uma única categoria e que o conjunto das falas permitiu a criação da categoria ‘obstáculos: dificuldades e limitações’.
Em seguida, subcategorias foram criadas em correspondências aos conteúdos discursivos específicos. Segmentos de fala foram, então, justapostos por critério associativos de contingência, contraste ou similaridade. Finalmente, os dados obtidos foram comparados com o aporte literário da área, a fim de identificar fatores determinantes para o alcance da