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Sobre amostragem, o aspecto mais relevante que importa notar Ž o fato de que, contrariamente ao que acontece com tŽcnicas de an‡lise de estat’stica descritiva, a ARS n‹o usa tŽcnicas de amostragem de popula•‹o. Tipicamente, a an‡lise passa por identificar alguma popula•‹o, na qual se realiza um censo sobre um determinado tipo de rela•‹o, isto Ž, incluem-se no estudo todos os elementos da popula•‹o como unidades de observa•‹o. No entanto, na medida em que s— s‹o coletados dados sobre alguns tipos de rela•›es, podemos pensar nessas rela•›es escolhidas como uma amostragem de uma popula•‹o das poss’veis rela•›es entre os atores da popula•‹o.

Alba (1982) mostrou que n‹o Ž pelo fato de termos uma amostra representativa de atores que obtemos uma amostra representativa de rela•›es. Burt (1983) tambŽm escreveu acerca dos problemas levantados pela amostragem [...] Ele considera que a perda de dados relacionais Ž igual a (100-K) por cento, representando K o tamanho da amostra. [...] Scott (1991) menciona tr•s solu•›es para este problema de amostragem. A primeira consiste em n‹o utilizar qualquer amostra e limitar-se a uma popula•‹o restrita para a qual Ž poss’vel obter informa•›es sobre as rela•›es entre todos os atores. Como segunda s o l u • ‹ o p r o p › e a u t i l i z a • ‹ o d a t Ž c n i c a d i t a Ô b o l a d e neveÕ (snowballing). [...] a terceira solu•‹o consiste em proceder a um inquŽrito, a fim de analisar as vari‡veis que remetem para as rela•›es existentes entre quem responde e algumas categorias de atores (LEMIEUX e OUIMET, 2004, p.44).

Efetivamente, a escolha da popula•‹o Ž um dos aspetos de maior controvŽrsia em qualquer ARS, sobretudo porque pequenas diferen•as na popula•‹o inicial podem estar na origem de enormes diferen•as nos resultados finais da an‡lise. N‹o h‡ um mŽtodo correto de escolha da popula•‹o para an‡lise, sendo que esse est‡gio de uma ARS depende em grande medida, por um lado, do critŽrio e sensibilidade do pesquisador, e por outro, da necessidade de racionaliza•‹o de recursos de pesquisa (tempo e dinheiro) na sele•‹o da popula•‹o alvo do estudo. Com base em Hanneman, em seguida apresentam-se os tr•s tipos cl‡ssicos de sele•‹o de popula•‹o para uma ARS, a saber, o mŽtodo de rede completa, o mŽtodo ÔsnowballÕ e o mŽtodo das redes Ego.

O mŽtodo de rede completa passa por coletar as informa•›es sobre as rela•›es de cada um dos atores da popula•‹o com todos os demais e, na medida em que forem coletadas informa•›es sobre todos os la•os entre todos os pares de atores, Ž poss’vel obter uma imagem completa dessas rela•›es entre esses atores.

Uma rede completa permite descri•›es e an‡lises muito poderosas das estruturas sociais. Infelizmente, a coleta de dados de algumas redes completas pode ser muito dispendiosa e dif’cil especialmente nos casos em que a popula•‹o Ž muito numerosa. Em particular, nos casos de redes de rela•›es humanas, a coleta de dados faz-se atravŽs de question‡rios aos quais os atores respondem. A obten•‹o de dados de todos os membros de uma determinada popula•‹o, e o procedimento de que todos esses membros hierarquizem ou avaliem as rela•›es com todos os outros membros pode ser uma tarefa bastante desafiadora. Entretanto, essa tarefa pode torna-se mais gerenci‡vel quando se pede aos entrevistados que identificarem um nœmero limitado de indiv’duos com os quais se relacionam (HANNEMAN, 2001, p.7 Ð tradu•‹o livre do autor).

O mŽtodo ÔsnowballÕ prop›e uma abordagem inspirada na imagem de uma bola de neve descendo uma encosta. O processo inicia-se, num ponto mais alto da encosta, com um ator central ou um conjunto de atores. Cada um desses atores responde a um question‡rio onde se solicita que nomeie algumas ou todas as suas rela•›es com outros atores. Nesse momento identificam-se os novos atores que se encontram no caminho da bola de neve encosta abaixo, isto Ž, atores que n‹o faziam parte da lista original. Repete-se o procedimento com estes novos atores que indicaram as rela•›es com os atores j‡ inclu’dos na pesquisa e por ventura, novos atores. O processo continua atŽ que n‹o sejam identificados novos atores, ou atŽ que se decida parar, seja por raz›es de tempo e recursos, seja porque os novos atores que v‹o sendo nomeados s‹o marginais para o grupo e tipo de rela•›es que est‹o sendo estudadas. Um fator cr’tico no mŽtodo ÔsnowballÕ pode ser o critŽrio de sele•‹o dos n—s inicial isto porque diferentes atores iniciais podem dar origem a processos iterativos muito diferentes de novos atores (HANNEMAN, 2001, p.8).

O mŽtodo das redes ego Ž um terceiro mŽtodo de sele•‹o de atores para uma ARS, que pode incluir ou n‹o as conex›es com os alteres. Em muitos casos, n‹o ser‡ poss’vel ou necess‡rio rastrear as redes inteiras pelo que, nessas circunst‰ncias, uma abordagem alternativa passa por come•ar com uma sele•‹o de um ou alguns n—s, designados por ego e identificar os n—s aos

quais este(s) est‡(‹o) ligado(s). A an‡lise pode limitar-se a analisar as rela•›es do(s) n—(s) ego ou incluir tambŽm as rela•›es dos atores com quem o(s) n—(s) ego se relaciona(m). O mŽtodo da rede ego realmente foca num indiv’duo ou num reduzido nœmero de indiv’duos e n‹o na rede como um todo, no entanto, quando a analise Ž feita coletando tambŽm informa•›es sobre as conex›es entre o(s) n—s(s) ego e os alteres, uma imagem muito boa das redes locais ou de vizinhan•a dos indiv’duos pode ser obtida. Este tipo de an‡lise, para alŽm de fornecer uma imagem parcial da textura geral da rede, pode ser de grande utilidade quando o objetivo de pesquisa se centra no entendimento de como as redes sociais afetam determinados indiv’duos e seus comportamentos em particular (HANNEMAN, 2001, p.9).

Consequ•ncia do descrito na revis‹o te—rica sobre redes e no processo metodol—gico Ž o fato de que a especifica•‹o da fronteira dos grupos Ž outro desafio no desenho de uma ARS, isto Ž, a defini•‹o dos atores que s‹o e n‹o s‹o inclu’dos na an‡lise, isto porque a omiss‹o de atores pertinentes ou delimita•‹o arbitr‡ria de limites pode levar a resultados enganosos ou artificiais. Algumas t‡ticas de desenho de pesquisa podem ser usadas no sentido de tentar obviar a esses problemas, tais como Òt‡ticas baseadas em atributos de unidades que assentam em critŽrios de ades‹o estabelecidos por organiza•›es formais, tais como escolas, e organiza•›es de trabalhoÓ ou o fato dos atores ocuparem Òdeterminadas posi•›es sociais consideradas pertinente pelos pesquisadores para participa•‹o em, por exemplo, comunidades profissionaisÓ. No caso das tŽcnicas de amostragem ÔsnowballÕ, as pr—prias rela•›es sociais s‹o usadas para delinear os contornos da rede, sendo que a Òparticipa•‹o em um conjunto de eventos, como a publica•‹o em revistas cient’ficas, pode tambŽm ser usada como critŽrio de delimita•‹o de um conjunto de atores mutuamente relevantesÓ. No caso de redes ego, o problema da especifica•‹o da fronteira passa pela determina•‹o operacional de quais os demais indiv’duos devem ser consideradas como parte da rede de um determinado ator central. ÒGeralmente, esses dados referem-se ao subconjunto dos contatos diretos da unidade focal - a 'zona de primeira ordemÕ, na terminologia de BarnesÓ (MARSDEN, 1990, p.439 Ð tradu•‹o livre do autor).

A coleta dos dados sobre os atores e rela•›es de redes sociais pode ser um processo tedioso e demorado se exigir a realiza•‹o de uma sŽrie de entrevistas e question‡rios, sejam eles face a face por telefone ou qualquer outro meio. Deste ponto de vista, estudar rela•›es no espa•o da internet ou WWW pode dar-nos informa•›es valiosas sobre como certos la•os sociais s‹o

criados, mas n‹o exigindo mais esfor•o do que simplesmente executar um software rastreador on-line35 nas paginas web ou redes sociais eletr™nicas foco da pesquisa. Do ponto de vista da

administra•‹o de empresas, por exemplo, as redes de p‡ginas web e as redes sociais eletr™nicas abrem um novo leque de possibilidades para pesquisa e opera•‹o de marketing e vendas, desde a identifica•‹o de grupos de clientes ou potenciais clientes que podem estar interessados num determinado produto ou servi•o, passando pela divulga•‹o de informa•›es sobre o portf—lio de produto e servi•os, atŽ ao marketing viral e de relacionamento atravŽs das redes sociais eletr™nicas ou Ôaplicativos de relacionamento da internetÕ (ADAMIC e ADAR, 2001).

Uma quest‹o central nos processos de ARS, em particular aquando da coleta de dados, Ž saber Òse procuramos medir as rela•›es sociais que existem realmente, ou as rela•›es sociais tal como percebidas pelos atores envolvidos nessas redes, ˆs vezes chamadas de redes ÔcognitivasÕÓ (MARSDEN, 1990, p.437 Ð tradu•‹o livre do autor). Admitimos neste trabalho que as redes que resultam da aplica•‹o das tŽcnicas de ARS em organiza•›es, quando a coleta de dados Ž feita por question‡rio a agentes humanos, s‹o sempre uma combina•‹o de redes ÔreaisÕ e redes ÔcognitivasÕ na medida em que a Ôrealidade relacional individualÕ descrita por cada um dos atores ser‡ sempre uma combina•‹o de contatos e rela•›es que se realizam ÔobjetivamenteÕ, a que chamar’amos redes ÔreaisÕ, mas tambŽm incluem sempre alguns elementos relacionais que emergem de Ôrealidades cognitivasÕ individuais diferentes das realidades ÔobjetivasÕ. Quando a coleta de dados relacionais Ž feita recorrendo ˆ resposta de agentes n‹o humanos, como crawlers36 por exemplo, as redes resultantes s‹o redes ÔreaisÕ de acordo com os critŽrios de realidade de que esse agente n‹o humano Ž dotado. Importa estar ciente deste fator, sobretudo, no momento de fazer a an‡lise e tirar conclus›es de uma qualquer ARS porque Òo exato conhecimento de rela•›es realmente existentes Ž sem dœvida importante para o estudo, por exemplo, de determinados processos de difus‹o, enquanto que as rela•›es percebidas podem ser mais apropriadas para o estudo da influ•ncia social sobre comportamentos ou opini›esÓ (MARSDEN, 1990, p.437 Ð tradu•‹o livre do autor).

35 Internet crawler