CHAPTER IV: DATA ANALYSIS
4.4 The impact of the ICC on political stability
Quando no segundo capítulo citamos algumas linhas de Shaye J. D. Cohen (1999) falávamos do modo como os judeus antigos imaginavam o mundo dividido entre apenas dois grupos étnicos: o “nós” e o “eles”. Essa divisão simplória não é somente imaginária, mas
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ideológica, culturalmente estabelecida, e resulta numa compreensão limitada de mundo que caracteriza a maioria das sociedades arcaicas. Conforme Mircea Eliade:
O que caracteriza as sociedades tradicionais é a oposição que elas subentendem entre o seu território habitado e o espaço desconhecido e indeterminado que o cerca: o primeiro é o “mundo”, mais precisamente, “o nosso mundo”, o Cosmos; o restante já não é um Cosmos, mas uma espécie de “outro mundo”, um espaço estrangeiro, caótico, povoado de espectros, demônios, “estranhos” (equiparados, aliás, aos demônios e às almas dos mortos). (Eliade, 2010, p. 32)
Em vários documentos literários do antigo judaísmo só podemos mesmo distinguir dois grandes grupos étnicos, os judeus e os gentios. Eles sabiam que os gentios podiam ter vários nomes, habitar vários lugares, mas não faziam questão de estabelecer as diferenças entre eles, assim como nem sempre davam importância às diferentes faces do próprio judaísmo.134 Porém, mesmo reconhecendo a validade das afirmações de Eliade e Cohen e admindo que esse modo de interpretar o mundo seja uma característica durável do antigo judaísmo, é também verdade que havia no primeiro século outras leituras que não respeitaram os mesmos moldes tradicionais. Desde que impérios poderosos passaram a dominar grandes extensões territoriais, a proximidade entre diferentes grupos étnicos e os choques culturais ocasionados expunham a insuficiência daquelas antigas leituras do mundo. Falando dos romanos, eles integraram povos distintos, puseram-nos em contato com os já plurais valores Greco-romanos, e produziram um mundo tão heterogêneo tal qual nunca houvera. Com razão, hoje as Ciências Sociais já não admitem a criação de fronteiras tão rígidas mesmo quando falamos de culturas antigas, e evita-se a construção de identidades sociais fixas estabelecidas por laços meramente raciais (Guarinello, 2013, p. 8).
Falando do tempo do Evangelho de Mateus, era óbvio que o povo judeu sentiria, como os demais, os impactos daquele momento histórico. No final do primeiro século operavam
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O passado nos legou ideias limitadas em relação à homogeneidade de grupos sociais como os antigos judeus. Para abordar tal questão, citaremos algumas linhas de Pedro Paulo A. Funari, escritas para a introdução da obra Identidade Fluídas no Judaísmo Antigo e no Cristianismo Primitivo, da qual Funari é um dos organizadores:
As Ciências Humanas e Sociais haviam, por muitas décadas, procurado entender a sociedade como um organismo coeso e homogêneo. Os conflitos e contradições sociais, as reivindicações dos diversos grupos no interior da sociedade eram encaradas como anomalia, doenças ou desvios de comportamento. Esses modelos interpretativos, oriundos do nacionalismo, foram chamados, posteriormente, de normativos, pois enfatizavam a existência de normas sociais que seriam compartilhadas por todos, por meio de um sentimento de pertencimento a um todo harmônico [...] Esse movimento afetou, de forma decisiva, o estudo do mundo antigo, que ainda era muito marcado pelos modelos normativos e pela analogia direta entre o antigo e o moderno. (Nogueira (et al.), 2010, p. 12-13)
sobre eles fatores condicionantes como a exigência de múltiplas redefinições após a guerra dos judeus contra Roma entre os anos 66 e 70 EC, o que estimulava o desenvolvimento de novas rupturas e adesões. Estabeleciam-se distintas comunidades judaicas na terra de Israel e na diáspora, dentre as quais o próprio cristianismo primitivo em toda sua pluralidade deve ser incluído. O autor do Evangelho de Mateus fazia parte desse cenário complexo, e na sua obra, além de considerar judeus e gentios como categorias particulares seguindo os padrões legados pelos textos judaicos mais antigos, também desenvolve no interior do próprio judaísmo uma nova fronteira imaginária (talvez ainda não vista como definitiva) que divide alguns judeus influentes social e religiosamente dos seguidores de Jesus. Lendo-o, ainda temos dificuldades para distinguir os diferentes grupos étnicos que ele chamava de gentios, e somos constantemente colocados diante de uma “multidão” passiva cuja identidade é difícil de definir; mas suas novas definições identitárias também parecem estabelecer limites internos ao judaísmo. Se de um lado temos Jesus, os apóstolos e os discípulos, do outro temos “esta geração”, os judeus das sinagogas, os fariseus, os escribas, os sacerdotes.135 Este imaginário de um judaísmo dividido provavelmente reflete as discussões que acabariam por gerar, algum tempo depois, a ruptura definitiva entre judaísmo(s) e cristianismo(s).
Sobre essas primeiras asserções, agora acrescentemos novo dados: estudiosos das Ciências Sociais com o olhar voltado para os movimentos religiosos constataram há muito que, no conflito ideológico entre diferentes grupos e crenças, um fenômeno comum no processo de criação de fronteiras identitárias é a chamada “demonização” do outro (Silva, 2011, p. 127-128), que é uma espécie de depreciação dos rivais hoje considerada característica mais evidente nos movimentos religiosos chamados de “fundamentalistas” (Oro, 1996, p. 127-129). Essa tal demonização ou estigmatização pode adquirir muitas formas, mas sua função será sempre a mesma: legitimar o nós através da condenação do eles. Podemos dizer que o outro é demonizado e tratado como diferente porque possui características (que formam sua identidade social real) que não correspondem às características esperadas ou tidas como ideais (que constituem a identidade social virtual), que geralmente são características definidoras da identidade do nós (Goffman, 1988, p. 7-15). Por conta dessas diferenças que nem sempre são tão evidentes, o outro é rejeitado, impedido de ter um convívio social pleno com o nós, e pode passar a sofrer discriminação ganhando atributos depreciativos no discurso
135 Quem trabalhou para tentar definir com mais exatidão os diferentes grupos representados pelo autor de
Mateus foi Anthony Saldarini, que em A Comunidade Judaico-Cristã de Mateus lidou não somente com o chamado grupo mateano e a sua ekklesia, mas também com as nomenclaturas mais abrangentes como Israel e as nações. Aos interessados, vale a consulta aos capítulos 2 a 5 (Saldarini, 2000, p. 51-204).
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interno do grupo que estigmatiza, como é o caso da identificação do adversário com o demônio nas tradições literárias e imagéticas judaico-cristãs. Assim, para o nós, resistir ao
eles pode ser o mesmo que resistir ao diabo.
Se, como temos dito, o Evangelho de Mateus transmite em suas narrativas um conflito social entre discípulos de Jesus e líderes religiosos de outra forma de judaísmo, não seria de se esperar que neste discurso também encontrássemos sinais de estigmatização do outro? Não seria de se esperar que o autor de Mateus falasse pejorativamente dos fariseus e escribas, associando-os ao diabo e aos demônios seguindo o modelo de outros textos religiosos de seu tempo e lugar? Seria, mas Mateus possui um modo muito peculiar de deslegitimar seus vilões, e apesar da rivalidade evidente entre os dois grupos judaicos figurativizados nos personagens ainda podemos notar certa afinidade entre eles, uma espécie de ligação (talvez étnica) que as recentes desavenças ainda não puderam romper por definitivo. O texto mateano, ainda que construa com muita clareza a rivalidade entre os dois grupos, deixa transparecer que em seu momento histórico ainda não haviam sido criadas as fronteiras que afastariam judeus e cristãos. Trata-se de um paradoxo da linguagem, da criação de um grupo distinto ao seu próprio que ainda não se distanciara tanto ao ponto que se considerasse possível os tratar como eles. É exatamente por ainda serem parte do nós que esses líderes religiosos são tão culpáveis, ou melhor, é por isso que as expectativas mateanas em relação a eles se revelam tão grandes. Portanto, o mais evidente conflito constatável no Evangelho de Mateus ainda não pode ser enquadrado nos padrões de choque entre seitas distintas, e por isso mesmo, observaremos que o processo de deslegitimação ou demonização dos seus vilões é feito com especial cuidado.