CHAPTER IV: DATA ANALYSIS
CHAPTER 5: CONCLUSION
Mateus, a princípio, segue a maneira judaica tradicional de olhar para os gentios como
eles, e sem nos surpreender demonstra que os gentios estão sob o domínio das trevas,
possuídos por demônios, em um estado de miséria física e espiritual. Em Mateus as referências mais claras aos demônios e suas opressões estão relacionadas aos personagens não judeus, que quase sempre entram na narrativa pontualmente nas rápidas excursões de Jesus aos territórios gentílicos. Recordemos algumas dessas passagens, a começar pelo capítulo 8 em que Jesus decide atravessar o Mar da Galileia em direção ao território gentílico e precisa
exorcizar os ventos e o mar para realizar tal travessia (Mt 8.23-27).136 Do outro lado Jesus se defronta com dois endemoninhados gadarenos cujos demônios são expulsos e tomam os corpos de porcos para poderem fugir em direção àquele mesmo mar tenebroso (8.28-34). No capítulo 14 encontramos Jesus outra vez atravessando o mar em direção a Genesaré, e outra vez os discípulos enfrentam a força das trevas que se expressam nas águas turbulentas até que Jesus demonstra sua autoridade sobre os demônios andando sobre o mar (14.22-36). Nesta mesma viagem, noutra cena que acontece fora da Palestina (na região de Tiro e Sidom), Jesus encontra uma mulher que sofre por ter a filha endemoninhada e é convencido por essa mulher a agir também em favor dos gentios (15.21-28). Mais à frente, passando pela região de Cesareia de Filipe (16.13), Jesus exorciza um menino que os seus discípulos não puderam exorcizar (17.14-18).137 Nos exemplos citados, fica clara a relação entre os territórios gentílicos e os personagens endemoninhados,138 mas isso não significa que Mateus esteja
estigmatizando os gentios, representando-os pejorativamente e buscando criar fronteiras que
os mantivessem separados. Pelo contrário, o triste estado dos gentios é um dos motivos das investidas de Jesus às terras gentílicas, o que faz desse eles um alvo, e não um inimigo.
Verdadeiras tentativas de demonização que visam deslegitimar o diferente são proferidas contra o próprio Jesus. Em Mateus 12.22-28 Jesus exorciza um endemoninhado num sábado, e o texto mostra que do ponto de vista dos fariseus há uma incoerência entre o suposto desrespeito à Lei relativa ao sábado e o poder sobre os demônios demonstrado por Jesus, pelo que eles não hesitam em atribuir este poder a Belzebu, o príncipe dos demônios (12.24). Obviamente Jesus se defende da acusação, mas curiosamente não a devolve, não atribui qualquer inspiração demoníaca aos seus oponentes, mostrando que Mateus é muito mais respeitoso com os judeus (mesmo quando estes se fazem adversários) do que o
136 Carlos Guilherme Magajewski, em sua dissertação de mestrado, desenvolveu a partir da leitura dessa
passagem no Evangelho de Marcos (4.35-41) a ideia de que existe uma relação entre os estranhos fenômenos da natureza que ameaçam a vida dos discípulos e as “palavras mágicas” de Jesus (v. 39), alegando que a narrativa apresenta um mar tomado por forças demoníacas e que Jesus faz uma espécie de exorcismo (2009, p. 119-121). É verdade que Mateus ameniza a força desse embate excluindo as tais “palavras mágicas” de Marcos, deixando apenas o leitor saber que Jesus repreendeu o mar (Mt 8.26); ainda assim, a leitura proposta por Magajewski parece útil para explicar a trajetória de Jesus rumo aos gentios e a oposição dos demônios que querem impedir sua indesejável invasão.
137 Em Mateus 4.24 lemos que pessoas endemoninhadas são trazidas a Jesus ainda no começo do seu trabalho na
Galileia, quando sua fama começava a se espalhar. Esse versículo parece indicar que os endemoninhados que Jesus cura são todos provenientes da Síria, o que manteria nossa impressão de que o território gentílico, muito mais que Israel, está sob domínio dos demônios. Comentamos a passagem em nota de rodapé para que as possíveis dúvidas da sua leitura não desviem o leitor da argumentação que estamos oferecendo.
138 Levemos em conta que há também menções à presença demoníaca na Palestina, embora nesses casos as
narrativas sejam mais econômicas. Isso vemos, por exemplo, em passagens como Mateus 8.16, na qual Cafarnaum é o cenário; também em Mateus 9.32-33, e no envio e capacitação dos discípulos para a missão no capítulo 10, que prevê o confronto com demônios na atuação dos discípulos em Israel (10.1,5-6,8).
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Evangelho de João, que declara os judeus filhos do diabo (Jo 8.44). Uma acusação mais direta que faz uso da demonização em Mateus pode ser encontrada em 12.38-45, onde escribas e fariseus, duvidando e desafiando Jesus são chamados de “geração má e adúltera” (v. 38-39), e ouvem a previsão de que acabariam possuídos por demônios e num estado lastimável (v. 43- 45). Entretanto, mesmo neste caso os adversários de Jesus ainda não possuem demônios, mas estão agindo de maneira reprovável, o que permite a Jesus fazer previsões pessimistas sobre o futuro deles.
Em resumo, no Evangelho de Mateus as fronteiras étnicas tradicionais ainda estão mantidas. Ainda existem os judeus e os outros, mas o discurso mateano retrata os gentios como vítimas que devem ser resgatadas das trevas, e os fariseus, embora mais próximos etnicamente, como vilões reais. Conclui-se que a possessão demoníaca não funciona em Mateus como estratégia de deslegitimação, mas ressalta a carência dos povos e a necessidade de que os discípulos de Jesus passem “para o outro lado do mar” a fim de os livrar do estado opresso em que se encontram (Mt 28.19-20). Daí decorre que se o estado de possessão demoníaca não é um instrumento de deslegitimação nas páginas do evangelho, ele não seria um recurso retoricamente eficaz contra os verdadeiros vilões. Aqui entramos mais especificamente no tema desse capítulo, alegando que em Mateus o instrumento deslegitimador, a acusação estigmatizante, possui caráter econômico.
Se voltarmos àquele nosso primeiro texto, Mateus 6.2-4, lembraremos que ele (e todas as subunidades textuais consecutivas até 6.18) acusam os “hipócritas” porque praticam caridade, oram e jejuam para receber recompensas terrenas. Segundo nossa leitura da crítica de Mateus, estes tradicionais gestos religiosos estavam sendo usados como benefícios oferecidos aos homens a fim de obter deles algum tipo de retribuição imediata, tais como riquezas, honras e status social. Mateus condena a religião dos seus rivais por sua integração à cultura clientelista, por se vincularem a patronos, frequentarem seus jantares, desejarem o status dos ricos senhores romanos se pautando na ambição pessoal e não na verdadeira religiosidade. Por isso, ele não invalida a oração, a caridade, o jejum, a guarda do sábado ou a reverência à Torá, mas procura repensar tais práticas a partir do seu ideal, a partir da sua resistência à reciprocidade institucionalizada nas relações interpessoais. Os fariseus não são fiéis a Deus como dizem e segundo o discurso mateano, imitam os gentios buscando a proteção de patronos terrenos. Eles buscam a admiração e o favor dos gentios que lhes podem dar prestígio e dinheiro (23.5-12), procuram se vincular a João Batista como um protetor
religioso e são repreendidos (3.1-12), tentam até mesmo seguir Jesus, mas a opção deste pela pobreza os impede (8.19-21; 19.16-22).
No capítulo 3 nosso objetivo foi demonstrar como Mateus idealiza um reino inspirado por padrões celestiais, onde só há um senhor ou patrono, mas no qual os seres humanos assistem uns aos outros criando um convívio solidário, uma sociedade igualitária. Nos textos que analisamos a prioridade sempre foi os “mais pequeninos”, os mais carentes, aqueles que estavam endividados e sob pressão, aqueles que não encontraram oportunidades de trabalho e precisavam de seu “denário” cotidiano, aqueles que estavam nus. Sobre todos esses personagens havia um patrono governando, o oikodespotes, o senhor, o rei, ou o “filho do homem” que ele elegera; essa autoridade única, masculina, próspera e poderosa, beneficia ou protege aqueles que trabalham pela sociedade igualitária ideal, mas despreza os que cuidam dos próprios interesses e se esquecem do próximo. Diante dessa religiosidade solidária idealizada, o discurso mateano vai procurar deslegitimar seus oponentes exatamente alegando que tudo o que fazem é por interesse, e em vez de demonizar os homens, demonizará os tesouros terrenos que buscam. Nesse quarto e último capítulo, também nos dedicaremos à análise de três perícopes de Mateus, e o objetivo será sempre demonstrar como o desprezo pelas riquezas e o elogio à pobreza se integram no discurso econômico e antipatronal de Mateus.