Marx (1999 e 2008) analisa a produção para explicar o desenvolvimento do ser humano e a transformação da natureza por meio do trabalho. Para compreender o materialismo histórico-dialético é necessário compreender o que seria a produção que ele com tanta frequência têm utilizado nos seus escritos. Marx não limitou esse conceito ao nivel econômico, mas, por meio do entendimento do que seria a produção, explicou o desenvolvimento humano, a sua humanização no processo dialético entre natureza e processo social, ou seja, a produção explica a formação ontológica e sociológica do ser humano. Como a produção não define só o nivel econômico, mas é um conceito dialético que nos permite conhecer uma totalidade social. O modo de produção não descreve uma coisa, não tem essa intenção de descrever as particularidades visíveis. Por exemplo, não chegamos a compreender uma sociedade pela descrição particular do
nivel econômico. Se um país não está desenvolvido, não encontraremos a causa só na pobreza, no nivel econômico. É necessário captar ou descrever as contradições existentes nesse país para explicar a causa intrínseca da falta de desenvolvimento desse país. Isto pode ser aplicado a qualquer objeto para compreender o problema real do objeto. Se observarmos de que há problemas de aprendizagem ou de ensino, não podemos só aceitar como verdades os resultados da simples descrição do problema. Devemos pensar e analisar a totalidade do objeto. Daí importante compreender de que o produto é a síntese de muitas determinações de unidades e contradições no próprio objeto. O produto, também, é um instrumento para analisar em forma científica as diferentes etapas do desenvolvimento humano ao longo da própria história.
Hernecker (1983) faz uma interessante diferenciação entre modo de produção de bens materiais e modo de produção, nestes termos:
Pois bem, não se deve confundir a expressão “modo de produção de bens materiais” com o conceito de modo de produção. A primeira é uma noção descritiva e se refere apenas à econômica da sociedade; o segundo, pelo contrario, é um conceito teórico e se refere à totalidade social global, isto é, tanto à estrutura econômica como aos demais níveis da totalidade social: jurídico-político e ideológico (HERNECKER, p. 134, 1983).
O modo de produção determina a forma como se processa historicamente a atividade humana e como a própria atividade, desde a perspectiva do trabalho é à base de toda ordem histórico-social do ser humano.
A sociedade humana faz parte do mundo material porque o próprio ser humano se caracteriza como material e como a matéria mais desenvolvida porque está constituído de cérebro, de um psiquismo, de uma consciência, vontade e tem uma finalidade, um objetivo próprio para apropriar-se da natureza e objetivar-se nela, fazendo que a própria natureza seja humanizada pelo ser humano. A sociedade humana é o espaço onde o ser humano se desenvolve, onde acontece a vida social. Então, a vida social é o produto da atividade humana. Por isso, não falamos só do homem como ser, senão falamos dele como ser social, categoria que lhe imprime uma característica peculiar e bem formal para diferenciá-lo do animal irracional, usando uma expressão aristotélica.
Falamos de ser social porque só o ser humano é capaz de transformar a natureza e a partir dela constituir a sua própria história, uma história humana de desenvolvimento e de grandes realizações humanas. Só o ser humano é social porque consegue fazer, escrever a sua própria história, uma história dialética que pressupõe o desenvolvimento, aquisição e apropriação do produto humano realizado ao longo da história. O ser humano imprime uma característica humana a própria natureza.
Marx (1985) especifica a sociabilidade desta perspectiva:
Por isso precisamente é somente na elaboração do mundo objetivo que o homem se afirma como um ser genérico. Essa produção é a sua vida genérica ativa. Mediante ela aparece a natureza como a sua objetivação da vida genérica do homem, pois este se desdobra não só intelectualmente, como na consciência, mas ativa e realmente, e se contempla a si mesmo num mundo criado por ele. (MARX, K., 1985, p.112).
A especificidade humana esta caracterizada em que ele, o ser humano, elabora um mundo objetivo e concreto, mediante a sua atividade que é realizada em conjunto, em uma esfera social. Afirmar-se como ser genérico indica que só o ser humano é capaz de elaborar esse mundo objetivo mediante a sua atividade e só ele pode objetivar-se em seu produto social. O mundo objetivo é resultado da própria atividade humana e, também, este mundo objetivo serve como objetivação dele próprio. Notamos que o mundo objetivo é a objetivação do ser humano e não uma simples exteriorização do ser humano. Quando afirmamos que este mundo real e concreto é a objetivação do ser humano estamos afirmando que o ser humano se relaciona com o seu produto, se apropria da essência primeira e primária do objeto e encontra nele, no mundo real, a forma das necessidades sociais, características sociais humanas. O produto humano é uma necessidade social, não é uma necessidade de sobrevivência, que só caracteriza aos animais. O ser humano se objetiva14 no produto resultante da atividade humana.
Nesta passagem podemos observar a formação dialética da história, quando o ser humano transforma o mundo como afirmação da sua essência humana. Transformar é produzir e, esta produção é de vital importância para o ser humano porque significa
14 Não entraremos em detalhar a diferença entre objetivação e exteriorização agora, mas, podemos indicar de que exteriorização, no conceito marxista, indica alienação. Objetivação e exteriorização são elementos discordantes. Uma pedagogia pautada no biologicismo usa sempre a categoria exteriorização.
ultrapassar a questão da sobrevivência para elaborar produtos sociais por mediação da sua atividade consciente e intencional.
Marx (2008) formula a clássica fundamentação materialista da história humana no seu famoso livro “Contribuição à crítica da economia política”. É interessante citar toda essa larga exposição para que o leitor compreenda o desenvolvimento humano realizado a partir da sua atividade, seu trabalho, ao longo da história.
Diz Marx (2008) sobre a conceição histórica do ser humano:
Na produção social da própria existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; essas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrario, é o seu ser social que determina a sua consciência. (MARX, 2008, p. 47).
Nesta passagem podemos falar sobre a dialética da apropriação e da objetivação do ser humano no processo de produção como resultado de toda a atividade humana, concretizada a apartir da perspectiva do seu trabalho.
A produção é o resultado da atividade de transformação da natureza por meio de instrumentos, como as ferramentas e a própria consciência humana. Na produção material interferem vários homens. Daí que a produção sempre será uma produção social, não uma produção individual. Neste caso nos referimos ao produto em si mesmo. Este produto é concreto e real. É resultado da intervenção humana na natureza. Por exemplo, o ser humano produz casas, camas, variados instrumentos, que o ajudam na sua cotidianidade etc. Mas, não só o homem produz algo bruto, material na transformação da natureza. Na produção da própria matéria, o ser humano se produz como humano. Quando o ser humano está elaborando um dado objeto material, ele também passa a produzir-se como ser humano. Ele se destaca no objeto, no produto, e desde esta ótica ele se diferencia do animal. O homem se humaniza, torna-se humano, na sua atividade objetivada no produto. Diríamos que o produto humano carrega as marcas históricas do seu desenvolvimento psíquico e, também, mostra como o mundo
se humaniza por meio da sua atividade produtora e transformadora. O produto em si mesmo mostra esse processo histórico de humanização.
A totalidade dessas relações de produção constitui a base do processo de desenvolvimento humano. Daí Marx (2008) fala o que constitui a estrutura econômica da sociedade. Entendemos por estrutura econômica a vida em totalidade, um processo histórico de cada época e que deixa a sua marca para cada geração. Por isso falamos que a produção em si mesma carrega essa história humana e que em cada época, o homem vai apropriando-se destes produtos, frutos do trabalho humano, da sua atividade.
O homem é um ser social, porque não consegue viver sozinho nem consegue ser humano na sua própria individualidade em si. O ser humano constitui-se em ser social por meio de seu trabalho. Este ser social determina o próprio ser do homem, porque lhe imprime uma categoria de humano. Por meio da fabricação do seu produto, o homem modifica o seu ser filogenético. Se não fosse pelo seu produto, pelo seu trabalho, o ser humano não conseguiria objetivar-se nem apropriar-se da totalidade da essência de seu produto.
O papel que desempenha a produção na história humana e na sua vida social é de vital importância para que compreendamos esse dinamismo da transformação do ser humano e da própria natureza, que se apresenta como natureza humanizada pela atividade consciente e intencional desde a perspectiva da produção.
Vásquez (1986) diz o seguinte:
O homem se distingue do animal por sua atividade produtiva e, nesse sentido, a produção não é um traço entre outros da existência humana, e sim um traço essencial (VÁSQUEZ, 1986, p. 165).
Isso significa que o ser humano começa a diferenciar-se do animal no momento em que o humano começa a produzir seus meios de existência física e espiritual. Por isso a produção é um traço essencial, inato, no próprio ser humano porque é o meio da concretização da sua própria vida material e espiritual.
Nota-se que a produção relaciona entre si de forma dialética as forças produtivas e as relações de produção que se verificam na própria vida social humana. Não podemos pensar a produção como algo estático dentro da sociedade humana, mas, a produção é
algo dinâmico porque está em constante transformação por meio da própria atividade humana e por meio do uso de instrumentos mediadores.
Mediante a produção, o ser humano busca objetivar-se na natureza e no social porque na produção o ser humano se objetiva mediante o seu trabalho. O trabalho é a atividade mediada pelo qual o ser humano humaniza a natureza e se humaniza a si mesmo, de forma consciente e intencional. Poderíamos concluir dizendo de que produção é autoprodução ou autocriação do próprio ser humano. Isto significa que no processo de produção o ser humano supera o seu estado natural biológico, eleva-se sobre sua própria natureza bilógica para constituir-se em ser humano histórico-social.
O que fica claro nesta forma de produção é que o ser humano por meio da sua produção, por meio da sua atividade, elabora um mundo objetivo e concreto.