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5.7 Learning Judgement at University

5.7.3 The Faculty of Mathematics and Natural Sciences

Hegel inicia a seção de suas Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie dedicada a Wolff, com a seguinte afirmação: “A filosofia de Wolff é diretamente conectada com a filosofia de Leibniz; desde que ela é praticamente uma sistematização desta última e, por isso, é também chamada [filosofia] Leibniz-wolffiana”.35

Essa interpretação que Hegel apresenta da filosofia wolffiana não é inédita. Principiando na década de 1720, vários wolffianos estabeleceram suas posições filosóficas mediante a forte intenção de mostrar uma suposta conexão intrínseca do pensamento de Wolff com a filosofia de Leibniz. É com esse intuito que surge a expressão “filosofia leibniz-wolffiana”.36

Entretanto, num período imediatamente precedente e durante o qual Wolff elaborava as suas principais obras, o mesmo intuito já seria proclamado como errôneo pelo próprio Leibniz.

É, assim, que, em uma carta de 1714, Leibniz afirma o seguinte:

‘ciências matemáticas’. Contudo, diferentemente de muitos dos seus contemporâneos sectários, ele nunca perdeu contato com a ‘ciência divina’ praticada pelos escolásticos”.

35 HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie III. In:

Werke in zwanzig Bänden mit Registerband. Band 20. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1979.

36 Consideram-se os seguintes adeptos do pensamento de Wolff:

BÜLFINGER, Georg Bernhard. Dilucidationes philosophicae de Deo, anima humana, mundo et generalibus rerum affectionibus, 1725.

HARTMANN, Georg V. Anleitung zur Historie der Leibnitzisch-Wolffischen Philosophie, 1737. LUDOVICI, Carl. G. Neueste merkwürdigkeiten der Leibnitz-Wolffischen Weltweisheit, 1738. Obras citadas por CORR, Charles Anthony. Christian Wolff and Leibniz. Journal of the history of ideas, vol. 36, p. 243.

O senhor Wolff concorda com algumas das minhas intenções. Contudo, dado que ele está muito ocupado lecionando, especialmente matemática, e que nós não mantivemos muita comunicação sobre filosofia, ele mal pode saber mais sobre as minhas opiniões além daquelas que eu tenho publicado.37

É também em uma carta, esta escrita já em 1696, que Leibniz declara: “[...] aquele que conhece apenas o que eu tenho publicado não me conhece”.38

Ora, que a equidistante posição de Wolff seja de não apenas apresentar um pensamento que discorde das intenções fundamentais de Leibniz acerca do método da filosofia, mas também siga o singular propósito de garantir o que Leibniz não garantira, é anunciado de modo igualmente explícito. Assim, em uma carta, de maio de 1746, ao conde von Manteufell, Wolff afirma que o “[...] (sistema de Leibniz), enquanto tal, tem o seu princípio onde o meu termina”.39

O “término”, que Wolff veria como essencialmente imprescindível para a garantia do seu sistema, consiste no estabelecimento positivo do método da filosofia. Essa tarefa deve ser empreendida mediante a prova do princípio de razão suficiente. Wolff está certo de que o sistema de Leibniz depende, essencialmente, da conclusão do seu próprio sistema, uma vez que, embora

[a] importância deste princípio [...] tenha sido evidenciada pela primeira vez pelo senhor von Leibniz mediante magníficas provas tanto na sua Teodiceia como nas cartas que estabeleceu com o inglês Clarke acerca de algumas questões conflitantes, [e]le o aceitou como um princípio baseado na experiência e contra o qual não é possível fornecer qualquer exemplo e, portanto, não forneceu nenhuma demonstração apesar de Clarke ter exigido.40

Que Leibniz tenha apenas chegado ao resultado de que o princípio de razão suficiente é “um princípio baseado na experiência” e não tenha fornecido “nenhuma demonstração” dele, se deve, vale lembrar, a sua insistência em não aderir a uma fundamentação matemática, mediante a dedução a partir do

37 Carta a Remond ou Pierre de Montmort de julho de 1714. In: GERARDT, C. I. (Ed.). Die

philosophischen Schriften von Gottfried Wilhelm Leibniz, 7 vols. Hildsheim: Olms, 1960-61. vol. III, p. 619; apud CORR, Charles Anthony. Christian Wolff and Leibniz. Journal of the history of ideas, vol. 36, p. 248, 1975.

38 Carta a Vicent Placcius de 1696. In: DUTENS, Luis. (Ed.). Gothofredi Guillelmi Leibnitii

Opera Omnia. 6 vols. Genova: Tournes, 1968. vol. IV, p. 65; apud CORR, Charles Anthony. Christian Wolff and Leibniz. Journal of the history of ideas, vol. 36, p. 246, 1975.

39 Apud OSTERTAG, Heinrich. Der Philosophische Gehalt Des Wolff-Manteuffelschen

Briefwechsels. Hildesheim: Georg Olms, 1980. p.60.

40 WOLFF, Christian. Vernünftige Gedanken von Gott, der Welt und der Seele des Menschen,

auch allen Dingen überhaupt. Halle, 1719. Reimpressão: CORR, Charles Anthony (Ed.). Hildesheim: Georg Olms, 1983. Trad. Augustín González Ruiz. Madrid: Akal, 2000. § 30, p. 69- 70. Nas citações seguintes “Metafísica alemã”.

princípio de contradição. Essa posição leibniziana deixa em aberto a justificação do método próprio da filosofia, mas traz consigo a convicção de que esse método não pode ser concebido a partir do método da matemática.

Agora, como uma justificação positiva do método da filosofia é apresentada no percurso do pensamento de Wolff, é a questão que carece de consideração. Essa questão é, sim, intrinsecamente conexa ao status do conceito de “possibilidade” e da busca de uma “demonstração" do princípio de razão suficiente.

No que segue, será considerada a argumentação de Wolff acerca do problema da justificação do método da filosofia, principalmente a partir de quatro obras capitais que apresentam o núcleo do seu pensamento: A Lógica alemã de 1712, a Metafísica alemã de 1719, o Discurso preliminar de 1728 e a Ontologia de 1730.

Nas primeiras palavras do parágrafo 29 do Discurso preliminar, Wolff afirma o seguinte:

Filosofia é a ciência dos possíveis na medida em que eles possam ser.

* Eu descobri essa definição de filosofia em 1703 enquanto participava das aulas particulares de filosofia na Academia de Leipzig. No início do ano de 1705, eu me correspondi com Gaspar Neuman, inspetor das igrejas de Breslau e das escolas de confissão de Augsburg, um homem de juízo refinado. Nas minhas cartas eu defendi essa definição contra as suas objeções. Então, em 1709, tornei pública essa definição no prefácio da minha Elementa aerometriae [...].Fiz isso de modo que ficaria evidente, depois que eu primeiramente tivesse pensado em tratar a filosofia com um método mais apurado, como eu conceberia a sua noção. Por isso, sempre direcionei todos os meus pensamentos em filosofia de acordo com essa definição.41

Na Elementa aerometriae de 1709, Wolff havia afirmado: “Eu costumo definir a filosofia como a ciência das coisas possíveis [rerum possibililum] enquanto tais”.42 E, quase nos mesmos termos, pode-se também ler a definição

41 WOLFF, Christian. Discursus praeliminares de philosophia in genere. Frankfurt, 1728.

Reimpessão: ÉCOLE, Jean (Ed.). Hildesheim: Georg Olms, 1983. Trad. Richard J. Blackwell. Indianapolis: The Bobbs-Merrill Company, Inc., 1963. § 29, p. 17. Nas citações seguintes "Discurso preliminar".

42 WOLFF, Christian. Aërometriae Elementa, in quibus aliquot aëris vires ac proprietates iuxta

methodum Geometrarum demonstrantur. Leipzig, 1709. Reimpessão: Hildesheim: Georg Olms, 1981; apud LÜTHJE, Hans. Christian Wolffs Philosophiebegriff. Kantstudien, n. 30, p.39, 1925.

dada na Lógica alemã, três anos mais tarde: “Filosofia é a ciência das coisas possíveis, juntamente com o modo e a razão da sua possibilidade”.43

Que, pelo menos até 1712, esse conceito de possibilidade, mediante o qual Wolff compreende a filosofia como a “ciência das coisas possíveis”, é pensado apenas como sinônimo de “possibilidade lógica”, fica evidente a partir da definição de “possível” dada por Wolff também na Lógica alemã: “Eu chamo possível qualquer coisa que pode ser, ou qualquer coisa que não implica contradição, existindo realmente ou não”.44

A definição de “possível”, dada sete anos mais tarde na Metafísica alemã, não deixa tão clara, contudo, a restrição do conceito de possibilidade à possibilidade lógica. Nesta última obra, Wolff afirma: “[...] possível é aquilo que não contém em si nada de contraditório, ou seja, aquilo que não somente pode existir juntamente com outras coisas que são ou podem ser, mas que também contém o que pode coexistir entre si”.45

Ora, enquanto que na Lógica alemã a “possibilidade” ou “não contraditoriedade” de uma coisa poderia ser estabelecida “existindo [esta]

realmente ou não”, agora, na Metafísica alemã, Wolff refere o conceito de

possibilidade de uma coisa explicitamente à sua existência, em relação às outras coisas, e à coexistência de suas marcas características. Nesta última obra, Wolff parece estar buscando uma justificação para a tarefa peculiar da filosofia, anunciada já em 1712, i.e., empreender não apenas a “possibilidade” das coisas, mas também o “modo” e a “razão” da sua possibilidade.

Na Lógica alemã, Wolff afirmara que “[u]m filósofo deve conhecer, portanto, não apenas a possibilidade de uma coisa, mas também a razão daquela possibilidade”.46 Na Metafísica alemã, fazendo referência a este trecho

de 1712, Wolff apresenta o dever do filósofo de modo curiosamente diferente: “[...] um filósofo não só tem que saber que algo é possível ou real, mas também tem que poder mostrar a razão pela qual é possível ou real”.47

43 WOLFF, Christian. Vernünftige Gedanken von den Kräfften des menschlichen Verstandes

und ihrem richtigen Gebrauche in Erkänntnis der Wahrheit. Halle, 1712. Reimpressão: Arndt, H. W. (Ed.). Hildesheim: Georg Olms, 2006. Tradução: London: L. Hawes, W. Clarke, and R. Collins, 1770. § 1, p. 1. Nas citações seguintes “Lógica Alemã”.

44 Ibidem, § 3, p. 1. Negrito adicionado.

45 Metafísica alemã, § 12. Negritos adicionados. 46 Logica alemã, § V.

Assim, já em 1719, Wolff concebe a filosofia, enquanto “ciência das coisas possíveis”, mediante dois conceitos distintos de possibilidade: um em sentido lógico, correspondente à não contraditoriedade de algo, e outro em sentido “real”, referido à existência de algo. O que precisa ser decidido, agora, é se e como Wolff apresenta uma justificação da filosofia no que concerne ao “mostrar a razão” da possibilidade real das coisas. Ou seja, se e como o conceito de possibilidade real é justificado no pensamento de Wolff.48

Até este ponto, pode-se desconfiar que o conceito de “possibilidade” é o pilar fundamental de edificação do sistema wolffiano de filosofia. A partir do esclarecimento acerca do status desse conceito, ter-se-á, também, descoberto o modo como Wolff pensa a legitimação do método da filosofia e, com esta, a “demonstração” do princípio de razão suficiente.

Sobre esse ponto, apresentam-se duas alternativas: Wolff concebe a filosofia ou (i.) mediante a derivação de um conceito real de possibilidade a partir do conceito lógico, ou (ii.) mediante uma justificação autossuficiente de um conceito real de possibilidade em relação ao conceito lógico.

A defesa da primeira alternativa compreende a defesa de que a tese do projeto wolffiano é a da justificação do método da filosofia a partir do método da matemática, a qual culmina na necessidade de dedução do princípio de razão suficiente a partir do princípio de contradição.

A defesa da segunda alternativa, pelo contrário, colocaria propriamente em cheque a tese da primeira alternativa. Contudo, para tal, exigiria outra

48 O principal trabalho na literatura a fazer alusão a dois conceitos de possibilidade na filosofia

de Wolff é LÜTHJE, Hans. Christian Wolffs Philosophiebegriff. Kantstudien, n. 30, p. 39–66, 1925. Lüthje defende que “Wolff distingue aqui 1. Um conceito ‘extensível comum’ de possível = o que não contém contradição = absoluta possibilidade ou possibilidade absolutamente válida, o que se chama de possibile internum sive intrinsecum, e 2. um conceito ‘mais estreito’ de possível = ‘aquilo que também traz realidade’ = o possível neste mundo ou o latino possibile respective tale, considerado a partir de outro possibile externum sive extrinsecum, e destaca que ambos os conceitos devem ser cuidadosamente tomados como separados”. Ibidem, p. 41. Também vale considerar VAN PEURSEN, C.A. Christian Wolff's philosophy of contingent reality. Journal of the history of philosophy, vol. 25, n. 1, p. 69-82, 1987. Neste trabalho Van Peursen sustenta que Wolff “[…] destaca a distância entre essência enquanto uma mera possibilidade e existência enquanto uma realidade concreta”. Ibidem, p. 76. Ora, não obstante a precisão teórica desta distinção entre dois conceitos de possibilidade, ou ainda, entre “essência enquanto mera possibilidade” e “existência enquanto realidade concreta”, há de ter presente que Lüthje e Van Peursen não apresentam em Wolff uma justificação filosófica para um conceito de possibilidade que “também traz realidade” ou que fundamenta a “existência enquanto realidade concreta”. Este último empreendimento compreende propriamente o problema seminal da filosofia de Wolff.

justificação para o método da filosofia e para a “demonstração” do princípio de razão suficiente que não aquela de uma fundamentação última teológica.

Na argumentação procedente, são tomadas em apreço as referidas alternativas. Primeiramente, será feita uma rápida consideração dos trechos comumente apontados como elementos de apoio à segunda alternativa mencionada, a fim de defender que tal alternativa não representa, em si, uma justificação do método próprio da filosofia no pensamento de Wolff, dado que ela não foge à necessidade de um fundamento teológico para esse método. Para tal, será argumentado que, também em Wolff, a busca de justificação autossuficiente de um conceito de possibilidade enquanto possibilidade real – bem como de “demonstração” autônoma do princípio de razão suficiente em relação ao princípio de contradição – só poderia ser garantida mediante um argumento que, em última instância, recorre à existência de um ser supremo. Num segundo momento, visando à defesa da segunda alternativa mencionada, será reconstruído o percurso do pensamento de Wolff em defesa de que a especificidade desse pensamento compreende a justificação para o método da filosofia segundo o método da matemática, o que seria possível por meio da dedução do princípio de razão suficiente a partir do princípio de contradição e, assim, da busca de garantia de um conceito de “possibilidade real” partindo de um conceito lógico de possibilidade.

i. a base teo lógica de uma justificação auto ssuficiente do conceito de possibilidade real

O título do parágrafo 13 da Metafísica alemã ressalta: “O que é possível não existe já por si”. Nesse parágrafo, Wolff afirma que, “[p]ara que algo exista, não é suficiente que não contenha em si nada contraditório, [pois] quando reconheço que algo é possível, não posso supor que ele exista realmente, ou que tenha existido no passado ou procederá no futuro”.49

A falta de suficiência no conceito de não contraditoriedade para definir a “existência” de algo é apontada, aqui, como o elemento de justificação da diferença entre o que é possível apenas logicamente e o que é possível realmente, i.e., existente. Ou seja, “[...] há de se fazer uma distinção entre o

que é absolutamente possível [...] e o que só pode se suceder segundo a interconexão presente das coisas neste mundo”.50 Assim, “[...] entende-se

porque nem tudo que é possível pode se converter em existente”, pois só “[...] se converte em existente [...] o que está fundamentado na interconexão de coisas que constitui o mundo presente”.51

A justificação de como algo “se converte em existente” consiste precisamente na justificação de um conceito de possibilidade real. Essa justificação, segundo Wolff, depende de que se legitime que o “algo” em questão está “fundamentado na interconexão das coisas que constitui o mundo presente”. É justamente aqui que a argumentação de Wolff, no que concerne à necessidade filosófica de “mostrar a razão” de algo que é real, apresenta um passo ao domínio teológico. Quer dizer:

[t]em-se, portanto, que adicionar algo mais à possibilidade para que algo exista, mediante o qual o possível obtém a sua consumação. E esta consumação do possível é precisamente o que chamamos de existência. O que consiste esta, isto é, como que o possível alcança a existência, se mostrará mais adiante no lugar oportuno (§§ 928 e 929) quando se trata de Deus como um ser necessário e existente por si mesmo (§§ 572 ss. e § 930) e do resto dos seres.52

A referência de Wolff aos parágrafos da Metafísica alemã nos quais é justificado um ser supremo, enquanto necessário e existente por si mesmo, como “razão” de existência ou “razão” de possibilidade real dos seres contingentes no mundo conduz imediatamente a um argumento definido como “demonstração a posteriori” da existência desse ser. Esse argumento é apresentado na Metafísica alemã e desenvolvido amplamente na Teologia natural de 1739.

Na Teologia natural, praticamente nos mesmos termos dos parágrafos 928 e 929 da Metafísica alemã, o referido argumento é apresentado conforme segue:

i. A alma humana existe ou nós existimos;

ii. Deve haver uma razão suficiente pela qual isso é assim; iii. Tal razão deve ser contida em nós ou em outro ser;

iv. Em qualquer evento, a razão deve estar contida num ser necessário caso tenha que ser verdadeiramente suficiente;

v. Portanto, um ser necessário existe;

vi. Um ser necessário é um ens a se ou um ser que contém a razão suficiente da sua existência na sua própria essência;

50 Ibidem, § 574.

51 Ibidem, respectivamente § 573 e § 572. 52 Ibidem, § 14.

vii. O mundo visível, os seus elementos ou a alma humana não podem ser ens a se;

viii. Portanto, Deus existe como um ser necessário e possível por si mesmo, sendo que o termo “Deus” é nominalmente definido como “o ens a se no qual é contida a razão suficiente da existência do mundo visível e das nossas almas” (§ 67).53

O problema desse argumento se localiza na circularidade resultante da admissibilidade da premissa “i”. Wolff parte injustificadamente da existência da alma humana e dos seres no mundo enquanto contingentes com objetivo de justificar uma existência necessária como razão suficiente daqueles, sendo que o que era exigido era precisamente a justificação da possibilidade real ou da existência dos seres contingentes.

Vale dizer que uma tentativa de encontrar, em Wolff, uma justificação do método da filosofia de modo independente em relação ao método da matemática – o que é correlato a uma justificação autossuficiente do princípio de razão suficiente em relação ao princípio de contradição e do conceito de possibilidade real em relação ao conceito de possibilidade lógica – não apenas conduz fundamentalmente à necessidade de uma base teológica para o método da filosofia, mas também leva ao impasse resultante da impossibilidade filosófica de superação do abismo entre os domínios da existência contingente e da existência necessária.

Como um último recurso de defesa da alternativa que sustenta a independência do método da filosofia em relação à matemática poderia, ainda,

53 Cf. WOLFF, Christian. Theologia naturalis, methodo scientifica pertractata. Pars Prior,

integrum Systema complectens, qua existentia et attributa Dei a posteriori demonstrantur. Frankfurt und Leipzig, 1739. Reimpessão: ÉCOLE, Jean (Ed.). Hildesheim: Georg Olms, 1978. Especialmente §§ 24, 34 e 67; apud CORR, Charles Anthony. Christian Wolff and Leibniz. Journal of the history of ideas, vol. 36, p. 259. No § 17 dessa obra Wolff afirma: “[...] as coisas contingentes no mundo não tem a sua razão suficiente na série dos [acontencimentos] sucessivos, mas em outro ente colocado fora da mesma série e que é necessário (Cosmologia, § 90)”. Este último trecho apud PAOLINELLI, Marco. Fisico-teologia e principio di ragion sufficiente. Milano: Vita e Pensiero, 1971. p.45. O argumento, nos parágrafos 928 e 929 da Metafísica alemã, é apresentado do seguinte modo: “Nós somos (§ 1). Tudo o que é tem a sua razão suficiente pela qual é ao invés de não ser (§ 30): e, portanto, temos que ter uma razão suficiente mediante a qual somos, então tal razão deve ser encontrada ou em nós mesmos ou fora de nós mesmos. Se é encontrada em nós mesmos, então somos necessários (§32); porém, se é encontrada em outro, este outro tem que conter a razão pela qual é em si e ser, portanto, necessário. E, por isso, existe um ser necessário. Quem queira fazer uma objeção contrária de que a razão pela qual somos também poderia se encontrar em algo que não contém em si a razão pela qual é, não entende o que é uma razão suficiente. Pois em relação a semelhante ser é necessário perguntar em que tem a razão pela qual é, e deste modo chega- se finalmente a algo que não necessita fora de si mesmo razão alguma pela qual é. [...]. À coisa que tem em si a razão da sua existência, e portanto de tal forma que resulta impossível que não possa ser, se chama ser autônomo. E resulta, assim, claro que um ser autônomo existe (§ 928)”.

ser apresentado outro argumento oferecido por Wolff, o qual parte dos atributos referidos a um ser supremo. O argumento de Wolff, denominado agora “demonstração a priori”, procede da seguinte forma:

i. Um ens perfectissimum é o ser “[...] ao qual pertencem todas as realidades passíveis de composição no seu mais absoluto grau” (§ 6);

ii. Existência é uma realidade passível de composição e existência necessária é o mais alto grau de existência, o grau apropriado para um ens perfectissimum.

iii. Deus possui existência necessária, isto é, ele existe necessariamente. Em outras palavras, “Deus existe mediante a sua essência ou sua existência é essencial” (§ 27).

iv. Portanto, de um ens perfectissimum, que existe necessariamente ou apenas mediante sua essência, podem ser derivadas todas as realidades passíveis de composição, ou seja, qualquer existência contingentemente determinada.54

Esse argumento não apenas buscaria estabelecer, mas já teria como pressuposta, uma base teológica enquanto justificação do conceito de possibilidade real dos seres contingentes. Aqui, qualquer “razão” de justificação