11. Outcomes and implications
11.4 The Expanded Networks and More Engaged People
A abordagem da Teoria da Cognição Distribuída (TCD) tem como objetivo aplicado contribuir com o projeto e implementação de sistemas colaborativos (ROGERS; ELLIS, 1994). Para tanto, considera os contextos social e cultural de realização das tarefas para a seleção e integração de tecnologias (ROGERS; ELLIS, 1994). Isso porque na perspectiva da TCD a atividade cognitiva é distribuída através das mentes humanas (individuais e grupos) e artefatos cognitivos externos, além de ser situada nas práticas humanas reais (ROGERS; ELLIS, 1994; HUTCHINS, 1995; ZHANG; PATEL, 2006).
Em relação aos artefatos cognitivos externos, a abordagem compreende que artefatos e ferramentas proporcionam diferentes ações, e carregam inteligência dentro deles, representando a decisão de alguns indivíduos ou a decisão de uma comunidade sobre os meios oferecidos. Na perspectiva de história cultural, as ferramentas e as práticas de uma comunidade são os maiores transportadores de padrões de raciocínios prévios. Elas podem contribuir para padrões de inteligência distribuída configurados na atividade (PEA, 1993).
Tendo em vista o estudo e a aplicação das tecnologias em ambientes colaborativos, a TCD apresenta um framework para analisar as interações entre pessoas e artefatos, de modo a identificar as características dos processos de resolução de problemas de forma distribuída, bem como identificar os problemas que emergem nestes contextos (ROGERS; ELLIS, 1994). Hollan, Hutchins e Kirsh (2000) apontam que, na observação da atividade humana, é possível identificar três formas de distribuição dos processos cognitivos:
Distribuição entre os membros de um grupo social.
Distribuição através do tempo – os produtos de eventos anteriores podem transformar a natureza de eventos posteriores.
Coordenação entre estruturas internas (mentais) e estruturas externas (materiais ou ambientais).
Para revelar esses processos de distribuição, Hutchins (1995) afirma ser necessário realizar um estudo de campo etnográfico para captar as configurações do ambiente, as atividades realizadas pelas pessoas, suas interações com os meios materiais e outros artefatos cognitivos. Neste sentido, objetos como horários, listas, planilhas são considerados como parte do sistema de cognição distribuída e considerados artefatos cognitivos, visto que coletam e fornecem informações e evoluem ao longo de várias condições. Assim, quando se parte para a análise do sistema distribuído como um todo, é possível identificar como as estruturas distribuídas, incluindo os artefatos cognitivos utilizados neste contexto, funcionam e são coordenados. Para realizar este reconhecimento, Rogers e Ellis (1994) e Rogers (2004) afirmam ser necessário investigar:
as contribuições do ambiente em que as atividades de trabalho ocorrem;
os tipos de mídias representacionais utilizados no contexto do trabalho (ex: instrumentos, displays, manuais, gráficos); o uso interacional de artefatos de apoio;
as interações dos indivíduos uns com os outros;
formas de propagação de informação por meio de diferentes mídias.
Por sua vez, Zhang e Patel (2006) afirmam que, para descrever essas questões, os sistemas cognitivos devem ser vislumbrados em termos de representações internas e externas. A representação interna está relacionada ao conhecimento individual, à estrutura que está na mente dos indivíduos, como proposições, esquemas de produção, imagens mentais, ou outras formas. Já a representação externa está no mundo, está relacionada ao conhecimento das configurações do ambiente de trabalho, a estrutura que ele oferece para a realização das atividades.
Para uma pessoa que realiza uma tarefa, uma representação simplesmente é o meio (interno e/ou externo) sobre o qual o executor a realiza. Na perspectiva de um sistema distribuído, as representações externas são coordenadas com as representações internas. Desta forma, possibilitam que o conhecimento individual, retido na mente do indivíduo, seja externalizado em uma representação externa. Os conhecimentos externalizados e representado no ambiente externo,
podem ser acessados e coordenados com a representação interna de outro indivíduo, implicando em um ciclo de processamento ininterrupto e dinâmico de distribuição entre pessoas. A interrelação entre os tipos de representação pode ser compreendida por meio da Figura 7.
Figura 7 - Representações interna e externa
Fonte: Elaborado pelo autor (2015)
Uma vez que a representação externa está no mundo, são as propriedades destas representações é que darão suporte e guiarão a realização das atividades em um contexto real. Zhang e Patel (2006), apresentam uma síntese das propriedades:
fornecer ajudas para as memórias de curto prazo e longo prazo de modo que a carga de memória seja reduzida; fornecer informações que possam ser diretamente percebidas
e utilizadas para reduzir os esforços para interpretar e formular informações explicitamente;
fornecer conhecimentos e habilidades que não estão disponíveis a partir das representações internas;
suportar operadores perceptivos que possam facilmente reconhecer características e fazer inferências diretamente; ancorar e estruturar comportamento cognitivo;
mudar a natureza da tarefa gerando sequências de atividade mais eficientes;
suportar repetição/ensaio para tornar as informações invisíveis e transitórias visíveis e sustentáveis;
ajudar a processabilidade limitando a abstração;
determinar estratégias de tomada de decisão por meio da maximização da precisão e minimização de esforços. Por fim, de acordo com Rogers e Ellis (1994), a forma como o conhecimento é externalizado ou internalizado nos estados representacionais tem relação com as formas de comunicação. Ou seja, a comunicação verbal, a comunicação visual, a transformação de modalidade das informações (textual para visual, oral para escrita, e assim por diante) para que elas possam ser operadas, bem como a construção de novos modos de representação utilizando as representações externas. Portanto, as informações e as atividades disponíveis em um ambiente externo, devem ser dispostos de modo que o indivíduo, por meio de suas faculdades perceptiva e cognitiva, possam assimilá-las e internalizá-las, e novamente possam operá-las para externalizar (comunicar) novas informações.
2.3.4.1 Affordances na perspectiva da Cognição Distribuída
Na TCD, considera-se que as affordances de um sistema estão distribuídas e estendidas entre ambiente e organismo, considerando as estruturas de representação inerentes a cada um. De acordo com Zhang e Patel (2006), as categorias são manifestas pela junção dos espaços de representação interna e externa e podem ser descritos tanto em termos restrições como de ações permitidas. Os espaços de representação interno e externo formam, juntos, o espaço de representação distribuído, que é o espaço de affordances, o qual, Zhang e Patel (2006) categorizam da seguinte forma:
Affordance biológica – baseada em processos biológicos. Por exemplo: uma alimentação rica em vegetais tem affordance para uma vida saudável, enquanto uma alimentação rica em gordura saturada tem affordance para colesterol alto.
Affordance física – para tarefas que são principalmente restringidas por estruturas físicas, por exemplo, em relação a locomoção e movimentos possíveis.
Affordance perceptiva – fornecidas principalmente por meio de mapeamentos espaciais.
Affordance cognitiva – providas por meio das convenções culturais. Ex: as luzes verde, vermelho e amarelo para semáforos.
Affordance mista – combinação de mais de um tipo de affordance.
Dada a diversidade de elementos (atividades, processos, tecnologias, entre outros) considerados no projeto de sistemas colaborativos baseados na web, as affordances tendem a ter um caráter misto, com ênfase nos aspectos perceptivos e cognitivos. Tendem a explorar desta forma os mapeamentos espaciais e as convenções culturais como forma a facilitar o manuseio e uso das tecnologias disponíveis.