Dando continuidade à análise das entrevistas realizadas às coletividades, apresento outra filarmónica, a SFSA, presidida pelo sr. Sérgio Ferreira.
Embora tenha sido a entrevista mais complicada de conseguir, por motivos de incompatibilidade de agendas, era importante realizá-la, uma vez que, tendo em conta o seu passado, está intimamente ligada com a SFSA. Apesar de a entrevista ter sido realizada num café no centro de Leiria e eu temesse a qualidade da gravação, acabou por correr tudo pelo melhor e a entrevista, do meu ponto de vista, foi bastante produtiva. O Sr. Sérgio Ferreira tem 55 anos de idade e acompanha a SFSA há já sete anos. No entanto, só há dois anos e três meses é que assumiu o cargo de Presidente, reconhecendo o impacto da Filarmónica como “bastante positivo até …” , pois como todos sabem, “há
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duas filarmónicas, o que é inédito no concelho de Leiria” e se verificarmos, “são poucas, não deve de haver mais freguesias com duas filarmónicas, que envolve logo cento e tal pessoas […] numa freguesia” (cf. Apêndice 2B e 2C).
Este mostra ter conhecimento do que aconteceu no passado e reconhece existirem “pessoas do antigamente que ainda ligam um bocado a isso, pessoas de 70, 80 anos”. Porém, e com a evolução dos tempos e das mentalidades, estas rivalidades entre as filarmónicas e os respetivos lugares da Freguesia, de acordo com a opinião do Sr. Sérgio Ferreira, para “os miúdos já não faz sentido nenhum, porque eles hoje são amigos, vão para os cursos juntos” (cf. Apêndice 2B e 2C).
Exemplos diretos que mencionou foram o projeto SOAR, já anteriormente mencionado e que pode ser de “um momento para o outro, reaberto”, dado que “ambas contribuem bastante para a união dos miúdos e para a projeção da Freguesia” bem como na transmissão de “valores que passam para os garotos e ficam para a vida de quem passa por uma filarmónica” (cf. Apêndice 2B). O segundo exemplo é a organização da Sinfónica que, embora mais recente, está sobre a responsabilidade da SAMA e da SFSA que, direta ou indiretamente, vem ajudar a pôr em concordância as ideias de ambas, estabelecendo um trabalho em rede constante, promovendo as relações interpessoais dentro da Filarmónica.
Ainda abordando o Projeto SOAR como um exemplo direto de mediação entre as duas filarmónicas, importa também perceber o ponto de vista do Presidente da SFSA sobre o mesmo. Ao que partilhou, embora ainda não estivesse como Presidente “foi agradável ver, ao vivo mesmo, uma coisa que muita gente imaginava que não seria possível ao ver as duas filarmónicas juntas. Embora não tivessem cem por cento representadas, […] foi um passo bastante importante para mostrar às pessoas, de uma vez por todas, que já não havia nenhuma intriga entre elas. Não havia nada. É uma coisa que não faz sentido” (cf. apêndice 2B e 2C).
No que diz respeito a atividades que a Instituição desenvolve colaborativamente com outras entidades, é notória a preocupação do mesmo, ao afirmar que “sempre que somos solicitados para alguma coisa que aconteça na freguesia, como foi agora o caso do Festival do Feijão, com o Rancho Folclórico do Freixial (RFF). Foi com a Junta de Freguesia que
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também estivemos a colaborar, foi-nos pedida a nossa colaboração, sendo que […] foram bastantes elementos da direção e músicos, e nós fizemos aquilo que eramos capazes”(cf. apêndice 2B e 2C).
Ao dar continuidade à entrevista, e de modo a tentar compreender até que ponto é que o trabalho em rede pode ser melhorado, o Sr. Sérgio Ferreira reconhece que pode ser bastante melhorado e partilha com tristeza um episódio em que as pessoas não reconheceram o esforço das coletividades:
“Eu vou-lhe dar um exemplo, como sabe […] nós fizemos um aniversário virado para a freguesia, para a comunidade toda. […] não é todos os dias que vem cá uma orquestra do exército. Contavam-se pelos dedos das duas mãos as pessoas que estavam de fora da freguesia, fora do Soutocico, a ver o concerto. Fiquei triste, entristeceu-me bastante” (cf. apêndice 2B e 2C).
Ao pedir um exemplo de um trabalho/atividade em rede que poderia ser ainda mais desenvolvida, o Sr. Sérgio Ferreira menciona o facto de haver uma representação ativa e assídua da SFSA em eventos de outras coletividades como um ponto fulcral para a criação de laços e intercâmbio dos públicos de cada uma das coletividades, justificando que “já disse mais do que uma vez aos colegas da direção, enquanto eu estiver, sempre que eu puder, eu ou alguém, vai estar sempre presente em qualquer atividade das outras coletividades, na freguesia. Pode ser que isso contribua, que as pessoas vão” (cf. Apêndice 2B e 2C).
No que diz respeito às críticas, o entrevistado menciona não ter, mas após eu ter explicado que estas poderiam ser também críticas construtivas, o Sr. Sérgio Ferreira refere como crítica positiva a realização do Arrabal em Movimento que “é precisamente um passo muito grande para que as pessoas se comecem a juntar. […] começarem a criar laços”, tendo na organização a JFA “tem feito um bom trabalho nesse aspeto” (cf. Apêndice 2B e 2C).
Este evento é visto por muitos dos entrevistados, como iremos observar ao longo da análise, como uma atividade benéfica e promotora das relações interpessoais e interassociativas, o que torna o desafio mais interessante e enriquecedor, e como o sr. Sérgio Ferreira sugere, “porque não, até juntar 2 coletividades ou 3 num só espaço, para as pessoas começarem a criar laços?” (cf. Apêndice 2B e 2C). Esses laços dependem
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diretamente da entreajuda das associações e entidades, constituindo um dos aspetos principais mencionados pelo sr. Sérgio Ferreira, em relação ao trabalho colaborativo na freguesia. Como é bastante evidente, não escapando aos olhos de ninguém, a Freguesia de Arrabal, tal como já foi referido anteriormente, tem muitos espaços físicos destinados às mais variadas coletividades existentes. É importante que, tal como sucedeu com o entrevistado, se reconheça esse pormenor, que em muito dificulta e preocupa os dinamizadores e responsáveis das entidades, pois quando se fala em dificuldades, não são apenas recursos financeiros. Embora sejam parte da solução para a maioria das dificuldades, estes espaços físicos traduzem-se muitas vezes em instalações débeis, antigas ou em ruína, falta de espaço, acústica deficiente.
Aqui, o entrevistado ao invés de referir apenas uma atividade que poderia ser melhorada, ainda sugeriu como proposta a criação de “um pequeno pavilhão multiusos, um anfiteatro, em que todas as coletividades contribuíssem para a construção total”, continuando a reforçar a ideia de que “não teria que ser a Junta de Freguesia nem a Câmara Municipal” responsáveis pela sua construção, criando assim uma cooperação entre todas as entidades da freguesia. Porém, é o primeiro a reconhecer a dificuldade maior, ao afirmar que “não é fácil, porque cada um olha para o seu umbigo” (cf. apêndice 2B e 2C), mostrando que há um longo caminho a percorrer, de modo a alterar mentalidades e a unir, de um modo quase total, toda a população dos vários lugares da Freguesia. Contudo, esta sugestão não é passível de ser realizada, considerando que pretendo criar uma atividade inserida no âmbito da animação sociocultural, mas com base nas necessidades e intenções das coletividades, recorrendo ao património das mesmas.
Porém, como já foi referido anteriormente pelo sr. Sérgio Ferreira, e que eu pretendo ter em consideração na elaboração do projeto, é a fomentação do intercâmbio entre as entidades, através da representatividade em atividades que não as suas, assumindo-se como estratégia possibilitadora de criação de laços, e intercâmbio dos públicos de cada uma das coletividades.