Cabe neste momento destacar que, para Aulagnier, o Eu é constituído por duas dimensões: a identificada e a identificante.83 A identificada cabe à mãe, ou
melhor, trata-se dos pensamentos pelas quais a mãe pensa o Eu do bebê, que ainda no ventre ela o antecipa e em seu espaço psíquico garante espaço de certos pontos de certeza. E a dimensão identificante, que “é o agente da ação psíquica”, investe na identificada e no futuro.
Ou seja, para Aulagnier o Eu é constituído por duas dimensões: a identificada (provinda do discurso materno) e a identificante (que não é produto passivo do discurso do outro). E, terá duas funções, a de pensar e investir.
Piera Aulagnier salienta que todo indivíduo nasce num “espaço falante” e que o Eu é estruturado pela linguagem. Tem-se que pensar nesse “micro-meio” como uma organização de forças libidinais e que tem a ação sobre a psique do infans, sendo esses organizadores essenciais do espaço familiar, “o discurso e o desejo do casal parental∗.”84
O processo originário e primário precisa de uma terceira forma de atividade psíquica, o processo secundário, que age num espaço heterogêneo ao deles. E Aulagnier considera “a representabilidade do pictograma e o cênico das figurações tem como materiais, objetos modelados pelo trabalho da psique materna.”85
Para que esses representantes tenham poder de representabilidade e de figurabilidade é necessário que tenham sido marcados pela psique materna, que os dota de índice libidinal. A marca que a mãe deixa no objeto é necessária para as duas metabolizações anteriores, do originário e do primário.
Ainda segundo a autora, uma mãe com saudável resolução edípica na sua infância deve ter as seguintes características:
83 Cf. Piera AULAGNIER, Os dois princípios do funcionamento identificatório: permanência e mudança. In: Um
intérprete em busca de sentido I.
∗ Afetos e sentimentos do discurso e desejo do casal parental retorna a cena psíquica da criança, para constituir
os primeiros rudimentos do Eu; são estes ‘objetos’ exteriores e já investidos pela libido que, a posteriori, darão nascimento ao Eu, designando-o como aquele que inveja, os possui, os recusa, os deseja. (VI – p.105-6)
84 Piera AULAGNIER, Violência da Interpretação: do pictograma ao enunciado, p.105 85 Ibid., p. 107.
A repressão bem realizada de sua própria sexualidade infantil; um sentimento de amor dedicado à criança; seu acordo com o essencial do que o discurso cultural do seu meio diz sobre a função materna; a presença, a seu lado, de um pai da criança, a quem ela dedica sentimentos positivos.86
Frente ao processo secundário está-se diante da instância enunciante. Esse modo de funcionamento psíquico tem exigência de significação. Toda a causalidade do vivido será atribuída a uma causalidade inteligível, é o postulado que rege esta instância.
De acordo com Violante em Piera Aulagnier: Uma Contribuição Contemporânea à Obra de Freud que: “os produtos deste modo de funcionamento são as idéias ou representações ideativas e os enunciados”.87
Para Aulagnier (1968), em Demanda e Identificação considera que: “o primeiro papel que o sujeito faz a linguagem desempenhar é exatamente o de veicular sua demanda”.88 Será na e para linguagem que o bebê vai constituir a linguagem do discurso.
O tempo da dialética identificatória será no estádio do espelho – o estádio formador da função do Eu. Esse estádio inaugura o registro imaginário como lugar das identificações do Eu. Aulagnier concorda com o conceito de estádio do espelho de Lacan, que é o ponto de partida para o segundo tempo da dialética identificatória, é “o momento no qual se realiza o encontro entre um olhar e um visto identificado por aquele que olha como idêntico a si mesmo.”89
Segundo interpretação de Violante:
Essa identificação consiste em identificar o visto (identificado) com o idêntico a si mesmo por aquele que olha (identificante) e diferente de qualquer outro objeto (a mãe). Da coincidência entre essas duas dimensões identificante e identificada (nomeada, investida, idealizada primeiramente pela mãe), resultará o Eu-Ideal, ou seja, a unidade imaginária do Eu, a ser auto-investida.90
Em suma, a trajetória do processo identificatório é marcada por três momentos: o primeiro momento corresponde ao nascimento e aqui se dá a
86Piera AULAGNIER, Violência da Interpretação: do pictograma ao enunciado, p.110. 87 Ibid.,p. 39.
88 Piera AULAGNIER, Demanda e Identificação. In: Um Intérprete em busca de SentidoI, p. 194. 89 IDEM, Desejo, Demanda e Sofrimento, In: Um Intérprete em Busca de Sentido I, p.201. 90 Maria Lucia Vieira VIOLANTE, A Criança Mal Amada, p. 106.
identificação primária. A seguir vem o advento do Eu, que corresponde a identificação imaginária ou especular e, o terceiro que culmina com a identificação simbólica, a identificação ao projeto. Neste terceiro momento caberá ao Eu a tarefa de remodelar os diferentes enunciados contraditórios a respeito de si, modificando a sua relação de dependências em relação aos pensamentos dos pais.
O projeto identificatório pode ser entendido como uma construção contínua do Eu pelo Eu, essa autoconstrução é uma projeção temporal que faz o sujeito ir a direção ao seu futuro, “projeção que depende à própria existência do Eu”.91
Postula Aulagnier:
O Eu nada mais é do que saber do Eu sobre o Eu [...] tem como condição e como finalidade, assegurar ao Eu um saber sobre o Eu futuro e sobre o futuro do Eu. O ‘Eu constituído’ designa, por definição, um Eu suposto capaz de assumir a experiência de castração [...] de renunciar ao atributo de certeza.92
A partir do Complexo de Édipo, o sujeito está apto a modelar a imagem à qual o Eu espera tornar-se. Há dois tempos para atingir essas novas referências identificatórias. No primeiro, quando a criança enuncia: “quando eu for grande”, essa enunciação implica a conjugação de um tempo futuro. No segundo momento, a criança enuncia: “eu serei isto”. A partir deste ponto, esse sujeito tem acesso a um predicado possível e adequado ao sistema de parentesco que ele partilha. Características que confirma o acesso ao registro simbólico e a uma problemática identificatória adequada a esse registro.
Mas, para se chegar a formular “quem é o Eu” este sujeito terá de renunciar a crença de ter sido, de ser ou vir a ser o objeto do desejo da mãe. A coincidência entre o Outro e a mãe deverá se dissolver definitivamente. Segundo Aulagnier, “a voz materna não tem mais o direito, nem o poder de dar uma resposta dotada de certeza, que exclua a possibilidade de dúvida e de contradição ao: ‘quem sou Eu?’ E ao ‘o que deve o Eu tornar-se?’ A essas duas questões que devem, entretanto, ter uma resposta, o Eu responderá em seu próprio nome, pela autoconstrução contínua de uma imagem ideal, que ele reivindica com seu bem inalienável e que lhe garante
91 Piera AULAGNIER (1975), A Violência da Interpretação: do Pictograma ao Enunciado, p.154. 92 Ibid., p.154.
que o futuro não se revelará, nem como efeito do acaso, nem como forjado pelo desejo exclusivo de um outro Eu.”93
Quanto ao trabalho de elaboração psíquica de reconhecimento do espaço do separável entre o Eu e o Outro, quanta necessidade do reconhecimento do próprio desejo para que se possa preservar um projeto futuro. E necessário que este sujeito suporte o paradoxo de suas próprias exigências identificatórias. Deve apoiar-se num desejo de um tempo futuro, para formular um novo projeto, num movimento que só terminará com a morte.
Segundo Aulagnier: “Entre o Eu e seu projeto deve persistir uma separação: o que o Eu pensa ser, deve revelar uma ‘a menos’ sempre presente, em relação ao que ele deseja tornar-se.”94
Então, entre o Eu e o seu projeto há uma lacuna que é acrescida de uma esperança que se aliada ao Eu pode-se chegar ao Ideal, mas essa esperança nunca chega, está aí posta para fazer o sujeito caminhar e, a abertura para esta constatação é a descoberta da sua própria castração, definida por Aulagnier, em Violência da Interpretação, “como a descoberta, no registro identificatório, de que não ocupamos jamais o lugar que acreditávamos nosso e que inversamente já estávamos destinados a ocupar um lugar no qual não poderíamos ainda encontrar- nos”.95
Para o Eu, não ser solapado por angústias, ele necessitará de referências que o asseguram de suas identificações. Quando não há como se assegurar em suas identificações, o sujeito esbarra-se numa “ausência, num luto, numa recusa, numa mentira que obrigam o sujeito ao doloroso questionamento de seus objetos, de suas referências, de sua ideologia.”96
Concluindo com Aulagnier, então,
eis porque a castração é uma experiência na qual podemos entrar, mas da qual, num certo sentido, não podemos sair: podemos nos recusar a participar dela, podemos empreender uma desesperada marcha-ré, mas é uma ilusão acreditar que dela podemos sair. O que podemos fazer é assumir a experiência da forma a preservar para o
93 Piera AULAGNIER, A Violência da Interpretação: do Pictograma ao Enunciado, p.156. 94 Ibid., p.157.
95 Ibid., p.158. 96 Ibid., p.158.
Eu alguns pontos fixos, que servirão como apoio, quando surgir o conflito identificatório.97
A psique tendo de dar conta da diferença sexual anatômica, ser privado ou não de um pênis, joga este sujeito a ter de pensar nesta sua “primeira descoberta que faz o Eu no campo de suas referências identificatórias”.98 Essa primeira divisão
entre os sujeitos remete-os a nunca poder conhecer o que é o gozo do outro sexo. Aulagnier99 vai postular que a angústia de castração é a mesma coisa que a
angústia identificatória e, é o tributo a ser pago a esta instância chamada Eu, e sem a qual ele não poderia ser sujeito de seu destino. E que uma vez o Eu constituído, a castração e a identificação são duas faces de uma mesma unidade e, a angústia romperá diante das oscilações das referências identificatórias. Nem a estrutura psíquica, muito menos qualquer cultura impedirá de advir a experiência da angústia.
Entretanto, pode-se sustentar que na estrutura familiar, como na estrutura social, “existem formas particularmente ansiogênicas e, devido a isto, particularmente aptas a induzirem no sujeito reações psicóticas ou comportamentos que, de maneira mais ou menos camuflada, se aproximam delas.”100