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In document Ragnar Frisch 1895-1995 (sider 28-48)

Camille Claudel sustentou por muitos anos uma idéia de ser roubada por Rodin, de seus projetos serem copiados por ele e, dia a dia, mais e mais acreditava nessa sua verdade. Quanta genialidade confiscada numa relação alienante, quanta colaboração; todavia, a bem da verdade, Rodin inspirava-se nela, mas pouco retorno havia pelo tanto que Camille colaborava e se dedicava. Na verdade, um ajudou o outro, ambos, dessa união, tiraram proveito para seu tempo criativo.

Whaba diz que, “é difícil avaliar o grau de responsabilidade de Rodin; existiu uma dose de egoísmo e de uso, ampliada destrutivamente pelo ambiente em volta e pelos conflitos interiores dela [...]”. E continua afirmando que muitas esculturas de Rodin, produzidas após 1893, “traziam temas que repetiam aqueles em que Camille tinha trabalhado, esculpindo ou ajudando a criá-los ou inspirá-los. Ao ver nas exposições e com os colecionadores, estas obras modificadas, um sentimento compreensível de revolta devia apoderar-se dela”.166

Está colocação de Whaba suaviza a responsabilidade de Rodin por trabalhos tão semelhantes, mas, o fato de Camille Claudel começar a esconder suas obras em Villeneuve, mostram indícios de defendê-las que sabia ser de sua autoria. Além do que Paris de la Chappelle radicaliza ao máximo a apropriação indébita feita por Rodin às expensas de Camille Claudel. São acusações que não se poderá chegar a uma conclusão, visto que muito pouco conheço da vida e obra de August Rodin.

Segundo Jacques Cassar, Camille, em 1909, escreveu uma longa e delirante carta a Paul:

[...] Toda vez que ponho um novo modelo em circulação são milhões que escorrem para os fundidores, os moldadores e os marchands. E para mim, 0+0=0 (...) De outra feita, uma faxineira pôs um narcótico no meu café, que me fez dormir doze horas direto. Enquanto isso, ela entrou no meu banheiro e pegou a mulher na cruz, três figuras de mulher na cruz, estimativa = 100.000 f. [...]

No ano passado, meu vizinho, o senhor Picard (colega de Rodin), irmão de um inspetor de polícia, entrou nos meus aposentos com uma chave falsa; havia encostada na parede, uma Mulher em Amarelo. Depois, ele fez várias Mulheres em Amarelo, tamanho

natural, todas parecidíssimas com a minha, e que ele colocou em exposição, estimativa por baixo = 100.000 f. Depois todo mundo começou a fazer Mulher em Amarelo; e, quando eu quiser expor a minha, eles vão dar o contra e farão com que seja proibida! [...]”167.

Camille ficou obcecada pela idéia de roubo e sabe-se que poucas obras tiveram sua assinatura própria, embora trabalhasse arduamente ao lado de Rodin. Essa dedicação transformou-se em mágoa e a certeza de ter sido roubada, roubada por Rodin, por Louise. Esse pensamento de perseguição somado à atitude de rejeição e à raiva da mãe e da irmã complicava o seu estado de saúde mental. A mãe não parava de condená-la, sua irmã era indiferente ao seu sofrimento, rivalizava e invejava a fama de Camille e a dedicação que o pai lhe ofertava.

Em 1906, Paul Claudel se casou e partiu novamente para a China. Rodin inaugurou “O Pensador” no Pantheon, e Camille passou a destruir suas esculturas e a enterrá-las no barro. Seu estado de saúde agravou-se consideravelmente. Esculpir para Camille era como dar vida à pedra, ao metal, ao barro, algo que pudesse forjar- se a si própria. Sua esperança era esculpir; enquanto esculpia, parecia dar vasão aos seus fantasmas e buscava um meio de interlocução com o outro.

Em 1910, observa-se um recrudescimento de suas idéias delirantes com traços paranóides em Camille. Ela envolve Rodin e sua irmã Louise, a quem ela se refere como Madame de Massary. Camille não podia pensar conscientemente o ódio pela mãe, a rejeição da mãe por ela que foi nutrido por vários anos. Para tanto, deslocou este ódio e rejeição em novos representantes, a desconfiança, sentimentos persecutórios para com Louise e Rodin. Considero-os transferências de afetos inconscientes que nutria pela mãe desde os seus primórdios. Era uma maneira de proteger sua mãe de seus sentimentos hostis. Enquanto odiava Louise e Rodin, não precisava pensar na hostilidade de sua mãe por ela e vice-versa, e assim se poupava deste desprezo. Vou ao trecho de uma carta de Camille, endereçada ao primo Henri, datada de 1910 e citada por Paris de La Chapelle em seu livro

[...] Cada vez que um alemão precisa de um local ou uma propriedade, mata-se o francês que incomoda. Quanto a mim, também tenho a minha parte; ainda estou doente por causa do veneno que tenho no sangue, meu corpo queima; é o Huguenote do Rodin que faz que a dose me seja distribuída, pois espera herdar o meu ateliê com a ajuda de sua boa amiga a Dama de Massary... É

pela ação conjunta destes dois celerados que você me vê em semelhante estado. Há algum tempo eles concluíram um acordo nos bosques de Villeneuve, pelo qual ele se comprometia a me fazer desaparecer, para livrá-la de mim e ela se comprometia a passar a mão em meus trabalhos à medida que os faço. Selaram este acordo com uns bons beijos na boca e juraram amizades recíprocas [...] Eles tentam neste momento impedir mamãe de pagar meu aluguel para que eu seja forçada por este perverso calvinista a trabalhar por nada no Convento do Sacre-Couer, onde se instalou descaradamente. [...]168.

Outros aspectos da suposta “idéia delirante com traços persecutório” pode-se notar numa carta a Henriette, esposa de seu primo Henry, também citada por Paris de La Chapelle em seu livro:

Minha querida Henriette

Recebi a carta de participação da morte de seu parente. Desde a última vez que a vi, tive tantos aborrecimentos que não tenho mais cabeça para pensar em mim, não pude ir.

Neste momento, Sr. Rodin persuadiu meus pais a me fazerem enclausurar: estão todos em Paris para isso. O tratante se apoderaria, em conseqüência deste processo expeditivo, do trabalho de toda a minha vida. É assim que os protestantes e judeus arruínam os cristãos, incitando uns contra os outros. Se por acaso você passar por aqui, passeando (à noite, por volta das 8 ou 9 horas), bata na persiana, falarei com você, mas não poderei abrir, para não levantar mais uma vez suspeitas de cometer horrores! (...)

Em todo caso, queria que um membro da família estivesse informado do que se passa. Se eu conseguir afastar ainda uma vez esta tormenta, verei você em seguida e lhe explicarei o que acontece. Receba toda a minha amizade. Camille Claudel.

(Não fale de mim ao Dr. Robillaud, ele é um maçom, eu o vi no repertório maçônico). 169

O agravamento da idéia delirante desloca-se aqui de Rodin e seus familiares, para alemães, protestantes e maçons. Seu ódio e desconfiança se deslocam para essas outras categorias: enclausurar, apoderar-se de seu trabalho, arruinar a sua vida. Pode ter sido um possível dado de realidade percebido por Camille que sua família poderia estar providenciando, ou ao menos, pensando em um internamento para um futuro breve, quando recomenda cuidado com os maçons que estão no repertório. Os dados corroboram com a idéia de que Camille tinha realmente episódios delirantes.

168 Reine Marie Paris de La CHAPELLE, Camille Claudel: Esculturas, Desenhos e Pinturas, p.77. 169 Ibid., p.36

Um agravamento persecutório considerável dá-se após a morte de seu pai, Sr. Louis-Prosper Claudel em 03 de março de 1913. Ela recebe por telegrama a notícia da morte do pai: “Pai morto subitamente às três horas da manhã”170

Seus vizinhos já haviam denunciado as autoridades locais, pelo barulho que fazia com a destruição de suas esculturas. Outeiral e Moura escrevem que “ela não saia de casa, não comia e, por fim, estava sempre nua. Uma semana após a morte de seu pai, sua família autorizou a sua internação em Montdevergues”171, conforme Anexo A.

In document Ragnar Frisch 1895-1995 (sider 28-48)