2.3 Success criteria
2.3.2 The CORAL method for risk-driven security testing
Segundo Farr (1990; 1998), Durkheim foi um dos primeiros autores a afirmar a importância da diferenciação entre o estudo das produções mentais dos indivíduos, que seria do interesse da psicologia, e o estudo das representações colectivas, como por exemplo a religião, que faria parte da sociologia.
Inaugurando uma nova tradição de estudo na psicologia social, Moscovici propõe, em 1961, o conceito de representação social, numa obra em que analisava a apropriação e difusão da teoria psicanalítica por membros da sociedade e por alguns órgãos da imprensa escrita francesa. Desde logo nessa primeira obra (Moscovici, [1961] 1976) bem como em alguns dos seus textos fundamentais ao longo das duas décadas seguintes (Moscovici, 1981; 1984; 1988; 1989;1998), Moscovici distancia-se do conceito de representações colectivas pela afirmação da natureza plural e dinâmica das representações sociais existentes nas sociedades modernas e pela forma como são alimentadas pela ciência. Moscovici (1981, p. 181) define as representações sociais "…como um conjunto de conceitos, proposições e explicações criado na vida quotidiana, no decurso da comunicação entre os indivíduos. São o equivalente na nossa sociedade dos mitos e sistemas de crenças das sociedades tradicionais… a versão contemporânea do senso- comum…".
A posição desde sempre assumida por Moscovici ([1961] 1976; [1969] 1973) quanto ao estatuto teórico-epistemológico do conceito de representação remete-nos para a ideia de construção, de remodelagem, de reconstituição. Moscovici ([1961] 1976; 1988) considera que
não existe uma ruptura ou mesmo uma distinção clara entre sujeito e objecto, entre o universo interior dos individuos ou dos grupos e o universo exterior. As representações sociais não são cópias fieis ou mesmo reproduções do real, mas antes uma reconstrução dos elementos desse real, que dá sentido aos comportamentos e prepara o individuo para a acção. Neste sentido, as representações sociais são "factores produtores de realidade" (Vala, 1993a, p. 356), que fazem parte integrante das nossas interpretações sobre a realidade e modelam as nossas respostas. Como afirma Moscovici, ([1961] 1976, p. 26) "…uma representação … produz e determina comportamentos, posto que define simultaneamente a natureza dos estimulos que nos rodeiam e nos provocam e o significado das respostas a dar-lhes…"
De salientar que o estudo das representações sociais enquanto forma de apropriação e elaboração da realidade que liga a actividade construtiva, de simbolização e interpretação, e expressiva, de um sujeito (epistémico, dinâmico, social ou colectivo) a um objecto (material, social ou virtual), incide simultaneamente sobre os processos e os produtos representacionais (Jodelet, 1989).
A par da actividade representativa, o conceito de representação social remete-nos também e fundamentalmente para um nível de análise específico, o do social de que nos dá conta Jodelet (1989) na sua definição exemplar de representação social: "…Uma modalidade de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, com um objectivo prático e contribuindo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social…" (Jodelet, 1989, p. 36).
Efectivamente, como sublinha Vala (1993a; 2000), as representações são sociais em função destes três critérios fundamentais, partilha, construção e funcionalidade: "… É no quadro definido por uma partilha colectiva, mas sobretudo por um modo de produção socialmente regulado e por uma funcionalidade comunicacional e comportamental, que as representações sociais devem ser entendidas…" (Vala, 1993a, p. 358).
Desta forma, a análise das representações sociais privilegia o estudo dos elementos cognitivos que participam na construção da realidade social, e igualmente dos
elementos dinâmicos implicados nesses processos de produção de significados bem como na orientação das comunicações e dos comportamentos (Moscovici, [1961] 1976).
Nesta perspectiva, Doise (1986; 1989; 1993) considera o quadro teórico das representações sociais como uma teoria geral sobre as relações entre o meta-sistema de regulações sociais e o sistema operacional cognitivo: "…as representações sociais são princípios geradores de tomadas de posição ligadas a inserções específicas num quadro de relações sociais e que organizam os processos simbólicos intervenientes nessas relações…" (Doise, 1986, p. 85); "… as representações sociais são sempre tomadas de posição simbólicas, organizadas de maneiras diferentes, por exemplo como opiniões, atitudes ou estereótipos, de acordo com a sua imbricação em relações sociais diferentes…" (Doise, 1989, p. 228).
É no quadro deste binómio cognição / dinâmica social, ou mais genericamente individuo / sociedade, que o campo de estudo das representações sociais ganha forma e, segundo Vala (1993a), se organiza em torno de três domínios de questões: a inserção e a natureza social
das representações sociais; os seus conteúdos e organização interna; e a sua função e eficácia social.
Contudo, e como salientam Billig (1988) e Vala (1993a; 2000), ao propor o conceito de representação social Moscovici ([1961] 1976) definiu-o desde logo a dois níveis: como um fenómeno particular das sociedades actuais que consiste na apropriação e difusão do conhecimento científico pelo homem comum, e como uma problemática universal na medida em que procura analisar os processos mediante os quais o homem constrói a realidade.
Nesta acepção mais abrangente, as representações sociais reportam-se à ciência mas igualmente a outras modalidades de conhecimento como os "…grandes eixos culturais, as ideologias formalizadas, as experiências e comunicações quotidianas..." (Vala, 1993a, pp. 353 e 354). Nesse processo de apropriação, as representações sociais adquirem contornos próprios, constituindo-se como um "saber naif" ou "natural", distinto das formas de conhecimento de que se alimentou (Jodelet, 1989, p. 36). "... A passagem do nível da ciência ao das representações sociais implica uma descontinuidade, um salto de um universo de pensamento e de acção para
um outro, e não uma continuidade, uma variação do mais ao menos… esta ruptura é a condição necessária de entrada de cada conhecimento físico, biológico, psicológico, etc. no laboratório da sociedade. Eles reencontram-se todos, dotados de um novo estatuto epistemológico, sob a forma de representações sociais…" (Moscovici, [1961] 1976, p. 26).
Assim, uma quarta questão fundamental, analisada no quadro da teoria das representações sociais, é a do estatuto epistemológico das representações sociais (Jodelet, 1989; Vala, 1993a).
Moscovici (1984) contrasta a ciência e o senso comum e analisa as relações evolutivas entre estas duas formas de conhecimento, mas toma a ciência como base do senso comum. Embora seja este o foco de interesse da generalidade dos autores neste campo de estudo, alguns autores, designadamente Farr (1993), chamam a atenção para o papel das representações sociais na ciência e investigação científica: "… Não só a ciência é parte da cultura, como Moscovici demonstrou, mas também a cultura é parte da ciência …" (Farr, 1993, p. 16). Neste sentido, sendo as representações sociais, por definição, uma apropriação pelo senso comum do conhecimento científico, estas duas formas de saber estabelecem entre si uma relação dinâmica tal que a construção da ciência e dos factos científicos (ou de "certas produções mentais institucionais", segundo Jodelet, 1989, p. 48) é igualmente condicionada pelas representações sociais.
Estamos pois perante um conceito difícil de definir porque se refere a problemáticas complexas, mas também pela sua multidimensionalidade ou "…posição "mista", na confluência de uma série de conceitos sociológicos e de uma série de conceitos psicológicos…" (Moscovici, [1961] 1976, p. 39), e pela sua qualidade do ponto de vista heurístico que viabiliza o pluralismo conceptual e o ecletismo metodológico (Breakwell & Canter, 1993).
Como salienta Doise (1986), desta condição das representações sociais decorre uma pluralidade de significados, ou polissemia, na medida em que abarcam um grande número de fenómenos e processos (percepção, atitude, informação, imagem, comportamento,
comunicação, classificação, relação social, entre outros) e uma pluralidade de abordagens (psicológica, sociológica, antropológica, etc.), pluralidades estas que denotam a riqueza deste campo mas dificultam a sua manipulação e estudo. "…O que tem ocorrido é a produção de definições conceptuais que recortam no vasto mar do problema, dimensões e aspectos específicos, tendo presentes os propósitos também específicos de cada investigação" (Vala, 1993a, p. 360).
A "definição" de representações sociais por nós adoptada não fugirá a este padrão. Com ela pretendemos essencialmente contextualizar a problemática das representações sociais da saúde e da doença e, assim, fundamentar a nossa proposta de estudo do burnout no quadro da teoria das representações sociais.
Assim, e sem qualquer pretensão de exaustividade, a caracterização conceptual que a seguir se apresenta situa-se na grande teoria das representações sociais (1) (Doise, 1989; 1993; Sá, 1998) tal como apresentada por Moscovici na sua obra original ([1961] 1976) e em alguns dos seus textos fundamentais (Castro, 2000) escritos posteriormente (Moscovici [1969] 1973; 1981; 1984; 1988; 1989; 1998), bem como nas sistematizações elaboradas por Jodelet (1989) e Vala (1993a e 2000) e nos trabalhos realizados por Herzlich ([1969] 1973, [1984] 1995, 1986; Augé & Herzlich, [1984] 1995) no domínio da saúde e da doença.
Diríamos ainda que a par desta caracterização mais fiel às posições originais de Moscovici e que inspirou o estudo qualitativo das representações sociais do burnout por nós realizado (ver primeiro estudo apresentado neste capítulo), privilegiamos igualmente os trabalhos de autores como Breakwell (1993; no prelo), Doise (1986; 1989; 1993; Doise et al, 1993; e Clémence, Doise & Lorenzi-Cioldi, 1994) e Vala (1993a, 2000) no sentido de clarificar a dinâmica de relacionamento entre as representações sociais e as relações sociais, objectivo este
(1) – Como refere Sá (1998), no campo de estudo das representações sociais coexistem ainda pelo menos três correntes teóricas complementares - "…uma mais fiel a teoria original, liderada por Denise Jodelet, em Paris; uma que procura articulá-la com uma perspectiva mais sociológica, liderada por William Doise, em Genebra; uma que enfatisa a dimensão cognitivo-estrutural das representações, liderada por Jean-Claude Abric, em Aix-en- Provence…" (Sá, 1998, p. 65) - A nossa opção é, contudo, a de situarmos a reflexão conceptual na assim designada
que procurámos satisfazer em termos empíricos no segundo estudo realizado sobre as representações sociais do burnout (também apresentado neste capítulo).
Finalmente e no que refere à problemática da funcionalidade das representações sociais sentimos necessidade de complementar as abordagens habitualmente feitas com duas perspectivas de alguma maneira inovadoras neste domínio, a saber os estudos sobre a percepção de riscos (Lima, 1993 e 1998) e a teoria dos processos identitários de Breakwell (1993; no prelo), por forma a enriquecer a nossa compreensão, respectivamente, das funções de organização e orientação dos comportamentos e de construção das identidades sociais.
Esperamos, com esta proposta de reflexão teórica, ir ao encontro de Doise (1986, p. 91) quando afirma que "…O estudo das representações sociais nunca será exaustivo, mas será mais completo quando recorrer à articulação de modelos e níveis de análise…".