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Embora se refira às representações sociais da saúde e da doença em geral, o trabalho de Herzlich ([1969] 1973) debruça-se mais especificamente sobre o domínio da saúde e da doença física (Itza, Pinilla & Paez, 1987), enquanto que outros autores, designadamente Jodelet (1986; [1989] 1991), DeRosa (1987), Morant (1995) Itza e colaboradores (1987) abordam em particular as representações sociais da doença mental, nas suas diferentes expressões - loucura, doença de "nervos", psicose, neurose. Importa pois clarificar os aspectos comuns e diferenciadores das representações sociais da saúde-doença nos domínios físico e mental, bem como definir os contornos específicos das diversas expressões da doença mental.

Genericamente, a doença mental é definida pelo homem comum em termos negativos, associados às ideias de anormalidade, perigo, diferença, desvio social (Morant, 1995). A doença mental é tida como uma ameaça e os doentes mentais são encarados com medo e suspeição, suscitando nos demais indivíduos (e grupos) atitudes e práticas de rejeição e de exclusão (Jodelet, [1989] 1991).

Segundo Jodelet, (1986) estudar as representações sociais da doença mental e dos doentes mentais constitui uma oportunidade significativa para compreender "…o desenvolvimento de um saber espontâneo e a manutenção de um saber tradicional (...); a alteridade do doente mental (...); a carga afectiva e imaginária da loucura..." (Jodelet, 1986, p. 173).

No seu estudo sobre as representações sociais da doença mental numa “colónia familiar” francesa (sistema de colocação de doentes mentais em famílias de acolhimento numa comunidade rural, sob controlo de um hospital psiquiátrico), Jodelet ([1989] 1991) verificou que apesar de os sujeitos (membros da comunidade rural, designadamente das famílias de acolhimento) terem contacto com conceitos modernos e de especialistas na área da saúde mental (nomeadamente o pessoal médico e de enfermagem do hospital psiquiátrico responsável pela

“colónia familiar”) sobre a doença mental, praticamente não usavam esses conceitos e baseavam- se sim em sistemas de crenças arcaicos segundo os quais a doença mental se pode contagiar através dos fluidos corporais e do contacto visual com o doente mental.

Segundo Jodelet ([1989] 1991), os sentimentos de medo e de fragilidade gerados pela ameaça latente de contágio levam à construção de uma imagem dos doentes mentais como diferentes, como "os outros", e à adopção de práticas de exclusão. Em causa está assumir uma distância física e social que diminua os "riscos de contágio" e simultaneamente preserve uma identidade social distinta (Jodelet, [1989] 1991).

No mesmo sentido vão os resultados obtidos por DeRosa (1987) numa investigação em que verificou que as representações sociais da doença mental se associavam a imagens de estranheza, à ideia de desvio, de perigo. A loucura é objectivada em imagens de pessoas "mágicas-fantásticas", monstruosas e socialmente desviantes. A ancoragem da loucura é, assim, claramente feita em sistemas de crenças arcaicos.

Morant (1995) numa investigação sobre as representações sociais da doença

mental realizada com profissionais de saúde mental constatou que o sentimento de medo e ameaça encontrado junto da população comum não é geralmente expresso pelos profissionais. Verificou, no entanto, que estes também criam distâncias e fronteiras na sua prática (ex: casas de banho separadas) as quais sugerem algum grau de receio e ameaça.

A autora encontrou duas formas de ancoragem diferentes: uma ancoragem da doença mental na teoria e prática médica, uma compreensão médica e psiquiátrica da doença mental, em que o DSM-IV surgia como elemento de ajuda na compreensão e comunicação profissionais; uma outra forma de ancoragem, construída a partir da questionação e renegociação da visão médica, em que a doença mental era encarada como inabilidade para "lidar com" e funcionar perante certos aspectos da realidade e em que o impacto dos sintomas na possibilidade de a pessoa viver uma vida satisfatória surgia como elemento central (Morant, 1995).

Segundo Morant (1995) a classificação dos doentes mentais como "os outros" (other) diferentes, ou como "nós" (same), semelhantes, é feita pelos profissionais para diferenciar os indivíduos que experimentam o mundo de forma diferente (diagnosticados com psicose) daqueles (com neuroses) cujas vivências e sentimentos suscitam empatia e reconhecimento do potencial doente mental que existe em todos nós (Morant, 1995).

Por último, destacamos um estudo realizado por Itza e colaboradores (1987) em que compararam as representações sociais (construídas por pacientes e seus familiares) da doença mental ou de nervos, da loucura e da doença física, do ponto de vista das causas, manifestações e comportamentos desenvolvidos face a esses fenómenos. No essencial, encontraram representações sociais bastante próximas: (1) inspiram-se no discurso médico; (2) recorrem essencialmente a uma interpretação em termos de causalidade externa - a doença associa-se ao efeito patogénico, do meio exterior sobre o sujeito; (3) utilizam a acção como critério de definição fundamental (a dimensão subjectiva-psicológica é secundária) - a doença tem manifestações concretas em termos de comportamentos socialmente desviantes e impede a actividade normal dos sujeitos; (4) referem-se à exclusão e marginalização social como sendo os comportamentos mais frequentes face à doença; (5) a sua objectivação é feita, em termos de esquema figurativo, na dicotomia "interno-saúde / externo-doença"; (6) a sua ancoragem é feita na noção de "actividade / inactividade"; (7) a sua funcionalidade prende-se com a desculpabilização do doente e família e com a defesa da sua identidade grupal já que a doença, é definida como inactividade involuntária, causada do exterior; prende-se ainda com a organização e orientação dos comportamentos e comunicações face à doença na medida em que define o papel do doente como passivo e impotente face ao seu problema (Itza et al, 1987).

Apesar destes contornos comuns são também de referir alguns aspectos que

distinguem as representações sociais da doença física, da doença mental e da loucura.

Comecemos pelas duas últimas.

Efectivamente, de acordo com diversos autores (Itza et al, 1987; Jodelet, [1989] 1991) é importante distinguir as representações sociais da doença mental ou de nervos e da loucura. A doença mental é definida principalmente por manifestações externas de mal-estar e o

doente mental surge como "inquieto, alterado, nervoso" (Itza, et al 1987, p. 329). O discurso médico naturaliza-se numa visão dos nervos como “entidade quase-tangível e autónoma” (Itza, 1987, p. 334) e as metáforas sobre a doença mental como doença dos nervos são diversas.

O louco, por seu lado, é sobretudo aquele que faz coisas anormais e estranhas, que tem um "…comportamento descontrolado, que é incapaz de pensar a realidade…" (Itza, et al 1987, p. 330). A loucura aproxima-se assim dos critérios de irracionalidade, perda de auto- controlo e comportamento anormal referidos na literatura anglo-saxónica (Itza, et al 1987).

Do ponto de vista das explicações causais, embora em ambos os casos predominem as causas externas, sociogénicas, a loucura associa-se também a causas físicas, designadamente à doença de nervos que não é tratada. Os autores referem-se ainda a uma dimensão avaliativa negativa face à loucura, muito relacionada com o sentimento de medo e que conduz essencialmente a condutas de marginalização do louco; essa dimensão avaliativa negativa não afecta tanto a doença mental, a qual suscita atitudes de compaixão e de ajuda, para além das de exclusão que no geral se associam à doença (Itza et al 1987).

Feita esta distinção entre as representações sociais de doença mental e de loucura, podemos traçar uma gradação das representações sociais de doença física para a de doença mental e desta para a de loucura. Como vimos, as alterações a nível da acção são o critério fundamental de definição da doença, seja ela física, mental, ou loucura, de tal forma que a ancoragem das três representações sociais se faz na noção de inactividade a que se associam as de desvio e de exclusão. No entanto, no caso da doença física encontramos uma franca valorização da dimensão subjectiva-psicológica relativa ao sofrimento do doente, cuja integridade pessoal e aceitação social podem não ser questionadas; no extremo oposto poderíamos posicionar a loucura, claramente associada às noções de desvio de comportamento, de anormalidade e a práticas de rejeição social (Morant, 1995); as representações sociais da doença mental situar-se-iam entre as da doença física e as da loucura, na medida em que também integram, pelo menos parcialmente, elementos relativos ao mal-estar subjectivo do doente o qual não é avaliado tão negativamente, com tanto receio, como o louco, suscitando atitudes de compaixão e de ajuda a par das de exclusão (Itza, et al 1987).