Part 1: Theoretical background
2: The concept of the FEER
Antes de iniciar a discussão do primeiro ponto deste capítulo, que é o Paro de 10 de dezembro de 2001, é importante, a título de informação, que destaquemos três fatos que ocorreram no segundo semestre de 2001, em que se definem algumas das principais forças políticas em pugna no país e seus respectivos representantes. Falamos da eleição de Carlos Ortega à presidência da CTV – Confederación de Trabajadores de Venezuela -; a eleição de Pedro Carmona Estanga à central patronal Fedecámaras – Federación de Cámaras y Asociaciones de Comercio y Producción de Venezuela -; e a eleição de dois dirigentes sindicais do Movimiento Corriente Clasista La Jornada para o sindicato Fedepetrol de Puerto La Cruz, estado de Anzoátegui.
Com esta iniciativa, não desejamos fazer a história das personalidades, mas conferir a devida atenção ao significado que cada uma destas forças políticas e seus respectivos representantes tiveram na luta de classes venezuelana. Neste sentido, a localização de cada um destes atores representa estas forças sociais e políticas se movendo no ringue da luta, entretanto, não queremos dizer com isto que todos os trabalhadores estivessem localizados nestes blocos ou que refletiam diretamente estes interesses.
A eleição de Carlos Ortega à CTV – Confederação de Trabalhadores de Venezuela –, em novembro de 2001153, traz muitos elementos contraditórios. Primeiro
porque ainda que ocorram uma reorganização e um ascenso dos setores populares se organizando e cobrando cada vez mais seus direitos e espaços, como tivemos com os Círculos Bolivarianos – CBs -, o setor operário continua nas mãos da burocracia sindical dos partidos AD e COPEI, históricos dirigentes destas entidades. Assim, ainda que usando de uma descarada fraude eleitoral, pois 56% das atas eleitorais foram roubadas dos sindicatos, Carlos Ortega, a partir de dentro das instalações físicas da Fedecámaras, vai ser proclamado Presidente da CTV com somente 42% das urnas apuradas154.
153 Falta de estructura organizativa selló derrota de Istúriz en la CTV. El Tiempo Puerto La Cruz, lunes 26
de nov. de 2001. N. 16. 358, p. 10 e 11.
154 Dados obtidos a partir da entrevista com Elio Colmenares, em 12-10-2008. Elio, juntamente com
Maria Cristina Iglesias, em fins de 2001, são os representante da FBT – Força Bolivariana de Trabalhadores – que, junto com outras forças políticas e sindicais, estavam negociando para exigir a anulação das eleições fraudulentas da CTV, para chamar novas eleições sem fraudes.
148 Este feito coloca uma dificuldade ao governo, pois, ainda que tivesse usado de todos seus meios para que seu candidato Aristóbulo Istúriz, ex dirigente de La Causa Radical – LCR - e agora participante do MVR, fosse o vencedor destas eleições, não logra o intento. Isto coloca Chávez fora do controle da principal organização burocratizada dos trabalhadores, a CTV. É necessário dizer que ao governo não faltou iniciativa em impulsionar um movimento operário sob sua égide, e assim criou a FTB – Força Bolivariana de Trabalhadores -, contudo, não obteve o êxito que pretendia em controlar o movimento operário. Isto mostrava uma vez mais que este governo vinha de um ascenso a partir dos setores populares, pós processo de 1989, e não do movimento operário organizado do pais, ainda que o governo estivesse constantemente trazendo para sua órbita este movimento operário. O fato do governo não estar inserido nas organizações operárias nos leva a supor que Chávez sempre foi um corpo estranho ao movimento operário venezuelano, ainda que lhe interfira, pelo peso de sua personalidade.
O outro campo político que se prepara para os embates que teremos, a partir do final de 2001, é a Fedecámaras, que elege seu novo presidente Pedro Carmona Estanga, em julho deste ano. Carmona eleito inicia um discurso de conciliação com o governo, que, neste momento, não é bem visto pelos empresários. Tenta, nestes primeiros meses, essa conciliação e não sua remoção violenta ou rápida, como irá pleitear três meses depois. Assim, o novo presidente da Fedecámaras lança a discussão sobre três problemas centrais, que são a desconfiança em relação ao governo, o desemprego e a violência com alto número de criminalidade, situação em que vivia o país naquele período de crise. Para isto faz um chamado ao diálogo:
Esta misma semana solicitaré una entrevista con el Presidente de la República para tratar de sentar las bases de una relación seria, respetuosa e institucionalista, preservando la búsqueda de salidas para avanzar en los grandes problemas que padece el país y a lo cual debemos abocarnos todos, sector público y privado155.
Nos principais jornais, neste momento, o enfoque é a necessidade da conciliação e do diálogo para tirar a Venezuela da crise. Assim sendo, percebe-se uma intensiva
155 Carmona: el desempleo es el drama social del país. El Tiempo Puerto La Cruz, lunes 30 de julio de
149 propaganda da mídia, capacitando Carmona a ser este homem de que a Venezuela necessita nesta hora difícil, um homem que trabalha 18:00h por dia, deixando de prestar atenção aos problemas da família, embora seja bom esposo, para cuidar dos problemas do país, a que inclusive sacrifica seus próprios momentos de lazer:
Sacrificios: Anteriormente tenía una rutina clara de ejercicios. Pasaba largos
ratos practicando aviación, mi hobby. De vez en cuando jugaba golf. Pero todo eso he tenido que abandonarlo; casi también hasta mi familia, a la que ahora veo poco.
Esos cambios lo he notado considerablemente a partir de mi elección como presidente de Fedecámaras, que es una institución que consume los siete días a la semana y las 24 horas del día.
He cumplido en el pasado algunas funciones públicas, pero siempre he estado ligado al sector empresarial. Desde mis comienzos he ocupado altas posiciones directivas en organizaciones industriales como Venoso156.
Assim, neste discurso de homem capaz e propício aos sacrifícios, se constrói a personalidade de Carmona como uma luz futura para a saída da situação de instabilidade por que passava o país. Destarte, os problemas principais da Venezuela são postos na pauta por ele, como: o sentido de confiança que o Presidente da República deve oferecer; uma abertura segura a investimentos, sair do estatismo e criar condições seguras para as inversões de capitais. Nestas condições, o economista Carmona faz um chamado à conciliação, lançando um programa que o governo deveria atender para que a conciliação ocorresse, e o país saísse da crise, obtendo, ao mesmo tempo, os alicerces sólidos para as inversões que propiciariam o crescimento da economia. Nesta crise, a que Carmona se refere, é a participação popular efervescente que coloca a burguesia em sinal de alerta.
O terceiro elemento que gostaríamos de pontuar, enquanto uma das forças sociais e políticas que estará no palco de lutas, é a eleição do sindicato Fedepetrol do norte do Estado Anzoátegui, em setembro de 2001, em que Gregório Rodrigues e Jose Bodas, dois integrantes de La Jornada, são eleitos proporcionalmente para a nova gestão sindical157. Cumpre observar que nenhum sindicalista da Força Bolivariana de Trabalhadores – FBT- foi eleito neste pleito da Fedepetrol de Puerto La Cruz.
156 Los mensajes del Presidente hay que evaluarlos con hechos. El Tiempo Puerto La Cruz, lunes 21 de
enero de 2002. N. 16.411, p. 11.
157 Fedepetrol-Puerto La Cruz pasó a manos de Plancha 1. El Tiempo Puerto La Cruz, lunes 20 de sep. de
150 Destacamos que este fato da eleição da Fedepetrol, como se viu anteriormente, quanto à CTV e à Fedecámaras, se torna um fator não quantitativo, mas qualitativo. Embora não estivessem nos principais cargos do sindicato, estes dois dirigentes, Gregório Rodrigues e Jose Bodas, a partir de todo o conjunto do Movimento Classista La Jornada, vão polarizar contra as políticas da CTV e da Fedecámaras. Em um dado momento, vão fazer da refinaria de Puerto La Cruz um exemplo para os outros operários, principalmente os petroleiros.
É importante frisar que isto somente foi possível devido à capacidade que tiveram em unificar os setores operários petroleiros com os setores populares lutadores e descontentes dos velhos partidos políticos, que, de fato, eram a maior força humana, que, neste momento, se percebeu com um mesmo objetivo e aí suas ações vão ser conjuntas. O que não quer dizer que a CTV e Fedecámaras também não unificassem uma grande massa humana ao seu redor. Fato que pode ser observado nas duas fotos seguintes, quando, já em finais de 2001 e janeiro de 2002, havia diversas mobilizações da oposição para depor Chávez. Na primeira foto desta abertura, se observa a participação de copeianos, além de outros grupos, se manisfestando contra Chávez. A segunda, uma manifestação nacional da oposição ao governo, que escolheu o dia 23 de janeiro data que simboliza para os venezuelanos um dia de comemoração a Democracia e a referência era que deveria se voltar a democracia em Venezuela.
Tudo isto vai se dar em meio a uma grande crise que será exposta ao longo deste capítulo, contudo, antes, seria necessário enunciar um pouco do que se entende por crise, relacionada a estes eventos em discussão. Destarte, é inegável que todo ano de 2002 será um ano de muitas crises. E o que se entende por crise está no centro da pergunta: quem governa? Todos os setores e classes sociais aqui expostas se faziam esta pergunta consciente ou inconscientemente. Neste sentido, a crise se dará em torno de se disputar qual classe social e, especificamente, qual setor vai dirigir a política do país, situação que não estava definida conjunturalmente, entre dezembro de 2001 a fevereiro de 2003. Deste modo, a pergunta sobre quem ganha ou quem perde com a crise não é bem colocada, a questão primordial é quem governa. Cabe ressaltar, assim, que, neste período venezuelano de disputas, ascenso e mobilizações, ao menos 3 setores mais organizados ou mais dinâmicos concorriam ao governo: um deles é Chávez, seus setores burgueses e sua base social entre populares; um segundo é a tradicional elite do país, inconformada com a perda do executivo, auxiliada pela CTV e a Igreja; e um terceiro setor formado de operários com suas bandeiras próprias, acompanhados de um
151 significativo setor social que, embora chavista, contudo, queriam aprofundar suas reivindicações.
Portanto, quando se analisa todo este capítulo e o processo histórico aí vivido, não se entenderá o sentido da crise, se não se percebe ao menos estes três blocos em permanentes disputas no ring da luta de classes, com a observação de que naquele momento nada estava definido, hoje é que se olha do futuro ao passado, naquele momento tudo era conjuntura presente. Assim, de modo claro e definido, o termo crise aqui exposto, ao longo destas discussões, está no sentido de saber quem governa o país, nisto os sucessivos episódios que veremos.
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