Chapter 3: Literature Review
3.3 The capability approach
Na aula relatada a seguir ocorreu a segunda parte da “Gincana Dourada”, em que foram estudadas a subtração e a comparação de “Números com Vírgula”. Esta aula foi
conduzida por Maíra, na turma 4º ano A, no dia sete de novembro de 2013. Aula 4
A aula teve início com a Professora Supervisora chamando atenção dos alunos da turma em relação ao comportamento deles, em especial ao tratamento que eles têm dado a um dos colegas da turma. Neste momento, a professora pediu que esse aluno, que aqui chamaremos João, se ausentasse da turma por alguns minutos. Foi iniciada a conversa:
A turma silenciou;
A professora, em tom comumente usado, pois dificilmente o alterava, mas bastante séria, discutiu com os alunos os modos de tratamento, as palavras e brincadeiras de mau gosto utilizadas pelos colegas com João;
Os alunos levantam o dedo solicitando falar;
A professora argumenta que a turma deve mudar o comportamento em relação ao João e que ela não gostaria de presenciar aquele tipo de situação novamente, porque foi constatado por ela que os colegas o estão provocando com um assunto muito desagradável.
Uma aluna justificou que João tem tido atitudes semelhantes com ela; outro aluno questionou que João também precisava mudar;
A Professora afirmou que João tem mudado muito e que os colegas deveriam reconhecer.
Foi uma conversa longa com os demais alunos, em que ficou acordado melhorias nas relações da turma em relação ao João. A conversa durou cerca de 30 minutos. Após esse tempo, o aluno voltou à sala.
A aula foi conduzida por Maíra, com o auxílio do Residente, Supervisora, Tainá e eu. A turma foi organizada em seis grupos. A seguir, assim como ocorreu na primeira parte da Gincana Dourada com a adição, Maíra orientou novamente sobre o uso e cuidado com o material utilizado (Anexo B). Explicou que as atividades seriam colocadas na lousa à medida que os alunos as fossem resolvendo nos grupos.
Essa aula foi um pouco mais rápida devido à necessidade de diálogo sobre a conduta dos alunos entre si na turma.
Começou-se, assim, como na primeira parte da gincana, organizando a turma em seis grupos. Posteriormente, foram iniciadas as tarefas, anotando na lousa:
61 Aula 24 - 07∕11 – Gincana (Parte 2): Subtração e comparação de números com vírgula
1) Qual é o resultado das continhas abaixo? a) Três décimos – 4 centésimos
b) 1,7 – oito décimos
c) Sete décimos e um centésimo – 0,32 d) 1,69 – 0,90
e) 1,5 – 0,09
f) 2,04 – seis centésimos
2) Utilizando o material dourado, coloque os três números em ordem CRESCENTE:
a) 0,1 0,09 0,45 b) 2,0 0,2 0,02 c) 3,05 3,50 0,35
d) Vinte e cinco centésimos três décimos um inteiro e) Treze centésimos treze décimos um inteiro
Para abordar a subtração de números com vírgula, os grupos contaram com o apoio do material dourado entregue. Cada responsável pelo acompanhamento dos grupos fazia anotações para que os alunos percebessem que estavam sendo avaliados pelo cumprimento e envolvimento nas atividades.
Nas aulas em que aconteceu a Gincana não era possível fazer muitas anotações, pois eu também auxiliava os alunos.
Os alunos se envolveram bastante nas atividades, salvo algumas poucas exceções. Tainá também participou acompanhando os grupos. Ambas estagiárias estavam bem à vontade na turma.
Sobre a escolha de iniciar com as gincanas antes de apresentarem os algoritmos da adição e subtração, as licenciandas avaliaram positivamente essa experiência. Como destacou Maíra, “Os meninos se saíram muito bem na gincana e assimilaram com êxito o conteúdo (...) a ideia é estimulante por trabalhar com competição” (MAÍRA, RELATO SEMANAL,
13∕11∕13). Iniciar a apresentação de conceitos matemáticos de maneira mais formalizada nem
sempre é conveniente, como defendem Moreira e David (2010). Isso indica um tratamento típico do conhecimento escolar. Desse modo, iniciar com manipulação do material dourado foi importante etapa no processo de ensino-aprendizagem das operações. Em relação ao estudo e contato com abordagens de números decimais, anteriormente, Maíra e Tainá relatam:
Então, a frase que fica na minha cabeça, que eu tenho certeza que eu ouvi é: vírgula embaixo de vírgula (risos), eu tenho certeza! Só isso, sabe. (...) o meu contato foi com eles, a gente foi aprendendo junto. Tanto é que o meu contato inicial era passar o algoritmo, depois passar a trabalhar com o material e Joana sugeriu que não: “se você passar o algoritmo eles vão se prender ao algoritmo. Então, trabalha primeiro com o material concreto.”
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Aí, nós trabalhamos, mas enquanto nós trabalhamos com o material concreto já tinha menino com a folha fazendo o algoritmo (MAÍRA, ENTREVISTA, 05/12/2013).
Não lembro. Com toda honestidade, não lembro. E eu fiquei assim pensando, tentando relembrar: poxa, eu nunca vi isso! E não consegui recordar-me (TAINÁ, ENTREVISTA, 05/12/2013).
Confirmando as palavras de Maíra, já apresentadas anteriormente, sobre seus contatos anteriores com números decimais, em especial em outros momentos na Licenciatura que viessem a auxiliar no preparo dessas aulas e no estudo dos Números Racionais, Tainá nos esclareceu a importância que teve nesse sentido a disciplina Números na Escola Básica.
Na disciplina de Números [na Escola Básica] a gente foi umas três ou quatro vezes ao LEM, que é o Laboratório de Ensino [de Matemática], e a gente foi trabalhar com o material dourado...
Eu já tinha tido aula com ele, mas para trabalhar unidade, dezena e centena. E lá eu revi o material. (...) trabalhou com muitos materiais legais. O ábaco... para poder trabalhar... dentro da disciplina de Números (TAINÁ, ENTREVISTA, 05/12/2013).
Em relação ao trabalho com Fração, procuramos saber se Tainá já havia presenciado outras aulas, além das aulas da Supervisora Joana, ou cursado alguma disciplina que viesse auxiliar em relação às estratégias de ensino que adotaram nas suas aulas, que envolveu a escrita fracionária e decimal. Questionamos também se ela estudou alguma metodologia no curso que viesse a ajudar no preparo dessas aulas. Ela nos esclarece:
Nunca. Nem lembrava também da minha aula quando eu aprendi. Não. Primeira vez!
[...] a gente fez um trabalho que foi uma análise de coleções de livros, da disciplina Números [na Escola Básica], e aí o trabalho foi dividido em números naturais, números inteiros... aí tinha uma parte que falava dos negativos, racionais e irracionais. Como a gente poderia escolher, a gente escolheu números racionais. E aí, a gente tinha duas coleções pra analisar na turma, né? Pra turma toda era a coleção do Imenes e do Dante. Só que a do Imenes os meninos já adotam, então a gente tinha acesso ao livro. Então, a gente escolheu também, e também a gente entrou em contato com outro grupo que a gente queria ficar com o Dante e eles poderiam ficar com o Imenes. Deu tudo certo pra gente poder analisar toda a abordagem de Números Racionais da coleção do Dante. Desde o quinto ano até o nono. Isso aí ajudou. Ajudou pra gente ter uma ideia de como isso é visto na Educação Básica, mas no quarto ano a gente não pode ver como que era a abordagem do quarto ano, porque a gente começou do quinto, né? Então, foi uma coisa assim muito nova. A gente conversou muito com Joana pra poder planejar essas aulas e, como a gente já tinha visto a parte de fração, já sabia mais ou menos como ela fazia. Então a gente tentou meio que encaixar nas atividades, na folhinha, pra gente preparar a folhinha, a agente lembrava das folhinhas que ela fazia! (TAINÁ, ENTREVISTA, 05/12/2013).
63 Tainá indica que a disciplina “Números”, pertencente ao campo das práticas na Licenciatura, ofereceu referenciais significativos no seu processo formativo. Essa disciplina estava sendo cursada em paralelo ao estágio desenvolvido no quarto ano e, segundo ela, poderia ter auxiliado ainda mais, pois tudo ainda era muito recente. Já Maíra, apontou alguns descompassos em relação a essa disciplina e seu estágio.
Não, não. A primeira disciplina que eu fiz da área de educação foi Álgebra e Função na Educação Básica, no semestre passado. Mas mesmo assim, ela num tinha nada a ver. Então, é, a matéria que eu fiz nesse semestre, que foi Números [na Escola Básica], foi a matéria mais próxima da experiência que eu vivi, mas mesmo assim foi tudo muito rápido no estágio, né? Então, a disciplina não me acompanhou. O que eu aprendia na escola eu levava para sala, não era o que eu aprendia na sala e levava para escola. Era o contrário.
[...] Eu vi assim né, na disciplina de Álgebra [e Função na Escola Básica] você vê a construção... todo o processo mas, por exemplo, coisas que eu poderia passar para os meus futuros alunos, eu vi agora nessa última disciplina que eu fiz [Números na Escola Básica] (MAÍRA, ENTREVISTA, 05/12/2013).
A partir da fala de Maíra observamos que o desenvolvimento das atividades de seu estágio, em paralelo ao curso da disciplina Números na Escola Básica, poderia ter sido mais significativo caso o estágio tivesse sido realizado posteriormente a essa disciplina. Ela reconhece ter estudado a construção dos Números Racionais, a importância dos processos formativos em disciplinas como Álgebra e Função na Escola Básica, mas não identifica que tais aprendizagens tenham lhe auxiliado com o trabalho que desenvolveu no estágio. Para ela, a disciplina Números na Escola Básica é que ofereceu ou ofereceria maior “suporte” para seu trabalho no Estágio, porém, devido à intensidade e rapidez com a qual o trabalho na escola básica fluiu, não foi possível auxiliá-la como poderia. São descompassos não previstos pela formação. Entretanto, é importante reconhecer a importância do diálogo entre essas esferas formativas, pois a prática não se limita simplesmente à aplicação dos conhecimentos adquiridos nas disciplinas cursadas.