4.2 Kunnskapsløftet‐2006 (KL 06)
4.2.2 The basis of the assessment
O candidato do PT aparece no escritório, com pessoas ao fundo. Ele usa camisa branca e gravata vermelha (sem terno). O enquadramento e o cenário acompanham a tendência dos telejornais internacionais (é como se o apresentador ou âncora apresentasse o programa dentro da própria redação, e não em um estúdio separado).
Lula fala, com um sorriso no rosto, que faltam poucos dias para as eleições. Destaca o fato de só ter falado de projetos para o país. Ele se apresenta (aqui, se trata do plano da sugestão, não da referência direta) como diferente dos seus três principais adversários, Serra, Ciro e Garotinho, que se engalfinharam ao tentar a ascensão nos índices de pesquisas de intenção de votos.
Lula pede licença para o espectador para, neste programa, não falar de projetos – como se fosse obrigado a isso. De qualquer forma, trata-se de uma maneira educada de
apresentar seu discurso, voltado, desta vez, para os eleitores que estão em dúvida e que consideram a possibilidade de votar nele. Ele classifica os “tipos de eleitores”, entre eles, o segmento ao qual ele se volta.
Ele, então, destaca a necessidade de mudança, de um Governo que, ao mesmo tempo, fomente o desenvolvimento e combata a miséria – o que condiz com a sua nova imagem pública projetada nos programas do primeiro turno. Lula destaca que merece esta oportunidade e lembra de seus esforços, de sua preparação intelectual para assumir o cargo.
Em seguida, Lula argumenta em favor de sua candidatura, buscando a cumplicidade do espectador. Lembra que tem um grande apoio para governar (ao contrário das campanhas anteriores): empresários, sindicalistas, economistas, de dois ex-Presidentes (Itamar e Sarney), políticos de outros partidos, assim como lideranças das forças armadas são citados. Lula lembra, entretanto, que “só falta o seu voto”. Faz uma pequena brincadeira, em tom de intimidade, e pede para que Deus ilumine a decisão do espectador.
3.2.1.1.4 Videoclipe
Neste momento do programa, é veiculado um videoclipe com a música “Bolero”, de Ravel. Música como marcha, repetitiva, forte e redundante. Imagens de um campo. Há um relevo no horizonte. No alto uma árvore com as folhas em um tom de verde. Mulheres surgem da parte não-visível da colina e começam a andar em direção à câmera, que se aproxima delas, fechando o enquadramento. São grávidas que descem do alto do relevo vestidas de branco ao som de Ravel. Cada uma delas acaricia a sua barriga, não coberta pela roupa. Várias estão sorrindo. Algumas carregam crianças nos braços. Elas marcham sorridentes, confiantes pelo terreno acidentado, amarelado.
Nos momentos finais da cena, ouve-se a voz de Chico Buarque, que diz que o espectador não pode escolher as características biológicas de seu filho, mas pode decidir que tipo de país quer para ele. A seguir, o artista surge no vídeo para falar da necessidade de o espectador mudar para que o Brasil mude. A cena se encerra com as grávidas, agora vistas de costas, continuando seu percurso.
3.2.1.2 O aspecto conjuntivo do programa
3.2.1.2.1 O contexto em que está colocado
Os momentos finais da campanha eleitoral no primeiro turno são particularmente tensos: se, por um lado, de acordo com pesquisa divulgada pelo Ibope no dia 24 de setembro42, Lula só precisava crescer dois pontos percentuais para vencer no primeiro turno43, por outro, Serra e Garotinho se vêem ao mesmo tempo como aliados (por conta da necessidade, para eles, de evitar a decisão no primeiro turno) e como adversários (disputavam um segundo lugar, uma eventual vaga na disputa do segundo turno) (Evelin; Montenegro, 2002, p. 33).
O índice de indecisos, de acordo com matéria veiculada na revista Época, chegava a 5%, assim como 29% diziam que poderiam mudar o voto até o dia 6 de outubro (Evelin; Montenegro, 2002, p. 32). A campanha do PT deveria, portanto, tentar assegurar o índice que
42 Disponível on-line no seguinte endereço:
http://www.ibope.com.br/calandraWeb/servlet/CalandraRedirect?temp=6&proj=PortalIBOPE&pub=T&db=cald b&comp=pesquisa_leitura&docid=2C79A7A0900A3A5283256EA100640AD5
43 De acordo com o instituto de pesquisa, Lula tinha 48% dos votos nominais, que excluem brancos e indecisos.
Lembramos que, na apuração dos votos, são descartados os brancos e nulos. O tipo de dado apresentado é, portanto, uma pesquisa de “votos válidos”, que pretende mostrar quais seriam as porcentagens de votos alcançados por cada candidato se as eleições fossem realizadas nos dias em que a pesquisa foi feita.
já tinha, ou seja, não perder eleitores, e conquistar parte dos indecisos ou dos que poderiam mudar o voto no último momento.
Lula, na reta final, sobe consideravelmente nas pesquisas: de 39% das intenções de voto entre os dias dezessete e dezenove de setembro para 43% entre vinte e oito e trinta do mesmo mês.
Mas os números de Lula, vistos em profundidade, apresentam um problema: os seus três principais concorrentes tinham percentuais semelhantes entre homens e mulheres, ao passo que a diferença no que diz respeito a Lula era visível e preocupante. Em pesquisa espontânea, na qual se pergunta diretamente em qual candidato o entrevistado votará, 40% dos homens apontaram Lula, ao passo que apenas 25% das mulheres deram igual resposta; assim como 19% dos homens e 34% das mulheres não souberam ou não opinaram44.
Quando a lista de candidatos era apresentada para os entrevistados, o resultado foi o seguinte: 44% dos homens e 34% das mulheres escolheram o candidato do PT e 6% dos homens e 12% das mulheres não souberam ou não opinaram45.
Quando interrogados sobre quem ganharia as eleições, independente do voto do entrevistado, a diferença entre gêneros também é nítida: para 59% dos homens e 46% das mulheres, o vencedor seria Lula, ao passo que 9% dos homens e 20% das mulheres não souberam ou não opinaram46.
Outros números insistiam na dificuldade de Lula conquistar o público feminino: em uma questão, o entrevistado poderia escolher uma de quatro frases que retrataria melhor a
44 Pesquisa divulgada em 22 de setembro de 2002. Ver:
http://www2.ibope.com.br/CalandraKBX/filesmng.nsf/Eleicoes/2002/Downloads/eleicoes_2002_pres_opp357_0 0.pdf/$File/eleicoes_2002_pres_opp357_00.pdf, p. 13.
45 Id Ibid, p. 16. 46 Id Ibid, p. 27.
opinião dele sobre Lula. Delas, três são significativas: 45% dos homens e 32% das mulheres assinalaram “Com certeza votaria nele para Presidente da República”; 21% dos homens e 24% das mulheres escolheram “Poderia votar nele para Presidente da República”; 26% dos homens e 31% das mulheres apontaram a resposta “Não votaria nele de jeito nenhum para Presidente da República”47.
Havia ainda mais duas perguntas interessantes: na primeira (quem é o candidato mais preparado para governar), Lula obteve 37% dos homens e 27% das mulheres48; na segunda, 54% dos homens e 47% das mulheres disseram que Lula tem preparo49.
Desta forma, o desafio da campanha de Lula, a essa altura, já é bem nítido. Seus líderes, ao mergulhar nas pesquisas de intenção de votos, traçaram um perfil mais específico do alvo, de quem poderia dar a vitória ao PT no primeiro turno:
Descobriu-se que é mulher, naturalmente. Pobre da classe C, com mais de 45 anos, das regiões metropolitanas do Sul e do Sudeste. Está cansada do governo FHC, mas quer “mudança com segurança” – não por acaso o mote da campanha de Serra. De olho nessa eleitora, o marqueteiro Duda Mendonça tem aumentado o tom comovente do programa de TV do partido. (Montenegro; Camarotti, 2002, p. 60)
É este o contexto no qual deve ser visto o programa em foco, o último da campanha, veiculado no dia três de outubro, no segundo horário – das 20:30 às 20:55 –, portanto em momento considerado nobre na televisão, visto que os índices de audiência costumam ser grandes. Deste quadro é que partimos para interpretar o programa.
47 Id Ibid, p. 31.
48 Id Ibid, p. 59. 49 Id Ibid, p. 123.