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The Atlantic salmon marked in Chile, Norway, Tasmania

Os blogueiros street-style alavancaram papéis e níveis profissionais diversificados e estão no patamar dos produtores culturais. Nos eventos de moda mais importantes estão lado a lado dos “buyers” (compradores e lojistas) e editores e, discute-se que teriam passado à frente desses atores sociais, em termos de repercussão. A despeito de a maioria não ser especialista na temática de publicação, são considerados profissionais, muitos deles tidos como produtores/consumidores de imagens, críticos de moda e pesquisadores de tendências – “style-

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hunters” (“caçadores de estilo”) – em função da credibilidade obtida a partir de sua visão de

moda e criatividade.

Apesar das mudanças nos padrões de beleza e nas relações sociais, os blogs do gênero são um espaço de consagração do estilo de rua e do blogueiro, considerado, a priori, um amador no assunto, mas herói do cotidiano (CERTEAU, 2009), que “não é menos artista que o artista consagrado pela modernidade. Sua arte é apresentada como um ato de bricolagem facilmente efetuado” (ROCAMORA; BARTLETT, 2009, p. 109)189. Nesse viés, a flânerie do século XIX,

uma das primeiras experiências que documentam a cultura metropolitana, vem sendo traduzida

por meio dos relatos urbanos digitais dos street-style bloggers, que formam a base de representações de uma moda de rua que é capturada, expressa e atualizada nos blogs.

Através das observações, pesquisas e clicks (snap-shots), os blogueiros renovam o

footing e o aperitivo dos boulevards como uma experiência urbana inserida nas tecnologias do

imaginário, a despeito de admitirmos as idiossincrasias dos conceitos e contextos de ambas as

figuras (flâneur e blogueiro). Partimos do raciocínio de que ao retirar inspiração da curiosidade

acerca do universo das cidades e metrópoles (ruas, bairros, seus pedestres, estilos, modismos, culturas) e documentar essas experiências e imagens sociais, os blogueiros renovam a flânerie da modernidade.

Baudelaire referia-se à obra de arte de Jan Van Eyck ou Constantin Guys, depois veio a fotografia de rua, mas hoje se pode associar a atividade de flânerie à da blogagem de moda de rua, porque há diversos suportes, plataformas e formas de expressão nos quais as sensibilidades afloram renovadas, não de forma menos criativa e, também, porque os blogueiros street-style também admiram as cidades e sua multidão, ali circulam, e refletem sobre o movimento e a fisionomia urbanos, chegando a editá-los. Em ambos os casos, estamos falando da aproximação a uma sensibilidade popular, pois aliam, em diferentes épocas, o concreto e o poético, o trivial e o fantástico, o monótono e o excepcional, tomando Baudelaire (1988).

A precisão dos traços, característica de um pintor ou das primeiras câmeras portáteis dos fotógrafos de rua pode ser comparada à qualidade e tecnologia das objetivas de hoje, que permitem igualmente precisar aspectos da história dos homens pelos detalhes do estilo de vida e vestuário.

189 Tradução livre da autora do trecho: “[...] qui n’est pas moins artiste que l’artiste consacré par la modernité. Son

139 Sobretudo, não se trata da simples repetição da prática, mas de sua reelaboração: o

blogueiro street-style como uma extensão contemporânea do flâneur. Reconhecemos que o blogueiro street-style no contexto da cultura narcisista digital, diferentemente do flâneur do século XIX, tem a tendência a observar lugares privilegiados (eventos de moda e ruas conhecidas da moda) e focados em estéticas específicas e até isoladas ao visar imagens

fashionistas.

Por sua vez, muitos blogueiros do gênero pautam-se pela errância, ociosidade e nomadismo característicos para satisfazer suas curiosidades. Ademais, de modo geral, eles mantêm o espírito curioso e voyeurista do andarilho flâneur do século XIX. O que se conserva entre as paisagens urbanas e o ambiente digital é, pois, um “espírito” flâneur em torno da

observação, da curiosidade, do interesse pelo novo, e da valorização da paisagem urbana.

A flânerie blogger se origina nos contatos urbanos e se concretiza nos contatos online, logo, nas instâncias física, digital e interacional (ou nas duas instâncias relacionais/interacionais: físico-urbana e na digital). Isto é, parte do andar pelas ruas das cidades e pelas portas dos desfiles, contempla também as interações com os leitores e a ciberflânerie190, considerando a

navegação dos autores em outros sites e blogs em busca de referências. Assim, a atividade fundante do blogueiro é o circular pelas ruas, a participação em semanas de moda e outros eventos, quando se misturam entre a plateia e os convidados, entre os leitores, entre os colegas blogueiros e entre celebridades no trabalho de registro dos passantes ou personagens preparados, “como um esporte” (RIO, 2008, p. 27).

Os blogueiros street-style guardam, pois, o hábito observador dos flâneurs, mesmo que tenham se tornado a curiosidade eles mesmos no cenário contemporâneo. Significa dizer que consideramos os street-style bloggers uma espécie de flâneurs do século XXI, isto é, indivíduos de ambos os sexos que, ao realizar um trabalho stalking de pesquisas de street-looks com foco

190 A ciber-flânerie, concepção anterior proposta por Lemos (2001), concebe o ciber-flâneur prioritariamente como

o observador aventureiro e nômade entre os sites e blogs, por meio de um modelo de conexão generalizada, constantemente deslocado pela atividade da errância (LEMOS, 2001, p. 02). Ou seja, a atividade que se caracteriza pelo andar (clicar) ocioso, gratuito e errante no ciberespaço, como a flânerie urbana, também é uma atividade da qual se extrai material para inspiração para escrita, segundo o autor. O foco de seu conceito está calcado na potencialidade do ciberespaço para penetrar em novos ambientes e entreabir diferentes experiências. Trata-se da navegação entre os sites/blogs na web, que, por vezes, caótica, deixa livre um imaginário que solicita ser compartilhado. O ciber-flâneur é um “observador que olha sem julgar, que busca a imersão e não a compreensão, que clica desesperadamente sendo levado a novos espaços digitais[…] um aventureiro que ao mesmo tempo em que segue o percurso dado, as estruturas de links da rede (ou seja lê o ciberespaço), constrói e deixa traços, na construção de seus caminhos imprevisíveis (ou seja, ele escreve o ciberespaço)” (LEMOS, 2001, p. 01).

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no autêntico, atravessando e caminhando por diversas calçadas e ruas, renovam a prática dos

flâneurs que buscavam o pitoresco da sociedade moderna.

O blogueiro é, nesse entendimento, um outsider, um inventor do cotidiano na construção de relatos e perspectivas da moda de rua, relatos do cotidiano urbano que só se realizam na potencialidade de serem vistos e nas interações que são capazes de gerar com os leitores. O veículo, o formato e o conteúdo propõem a atividade de flânerie, que propicia a troca de informação de moda, partilha de jeitos de ser, de viver (na rua e na Internet) entre os interagentes da blogagem.

Na prática, prevê partir sem destino preciso pelas ruas ao encontro das pessoas, como argumentamos, iniciativa que pode ser tomada por qualquer pessoa. “Se deparar pelas ruas, com qualquer um com um look particular, que está bem vestido, mas não necessariamente com roupas caras. Um look, uma apresentação como esta, que prende a atenção”, como o próprio blogueiro Frederic Laphoto (2011)191, do Easy Fashion Paris enfatiza. No mesmo sentido, Tiago Petrik192 (2012), do RIOetc, acredita que está nas ruas o mais interessante da blogagem: “Essa é a parte mais legal do trabalho, é conhecer pessoas, interagir com essas pessoas”.

Cumpre lembrar que os relatos urbanos contemplam relatos pessoais dos autores, cujas escolhas e edição dos personagens-look – dos “outros” (ou de si) – revelam seu senso estético e seu imaginário acerca do street-style. Neste caso, os blogs (e suas escolhas) se confundem com seus autores, conforme Recuero (2003).

Vislumbramos que as funções e atuações dos blogueiros street-style na dinâmica recente da blogagem são plurais: operam como fotógrafos, editores estilistas e modelos. Em um primeiro ponto de vista, ao selecionar o look de qualquer pessoa ou personagem nas ruas, atuam como editores de moda dos seus sites. Ao mesmo tempo, sob outro aspecto, um blog poderia ser comparado à coleção de um estilista e, portanto, as escolhas postadas poderiam ser consideradas os modelos (peças da coleção).

Uma ótica central, sobretudo, tem a ver com o fato de os blogs street-style terem se tornado formas de celebrar roupas, estilos e pessoas, transformando desconhecidos em protagonistas e “ditadores” de estilos, ou consagrando artistas já famosos como padrões de

191 Fred Laphoto, em entrevista à pesquisadora, no dia 02 de novembro de 2011, em Paris, no Café La Fourmi,

Montmartre. A partir desta, todas as declarações do blogueiro são da mesma ocasião.

192 Tiago Petrik , em entrevista à pesquisadora, no dia 19 de setembro de 2012, no Rio de Janeiro, no Bureau de

141 estilo. Isso porque é comum também reiterarem o prestígio de nomes do showbizz ao publicar o que eles vestem.

A elevada audiência e o grande número de interações dos blogs acabaram se tornando uma moeda: ser fotografado e aparecer em blogs de street-style é chancela no mundo da moda. Um blog street-style consagrou-se como o lugar digital do burburinho e do bochicho: “é lugar para ser visto”193. Nesse contexto de profissionalização que os levou a ser considerados veículos de comunicação-chave no mercado, seus autores, legitimados pela imprensa, foram projetados a artistas da televisão ou de Hollywood – figuras olimpianas (MORIN, 2006) –, isto é, celebridades com privilégios, convites disputados para eventos, visual impecável, roupas de marcas de luxo e uma aura de glamour.

Nesse processo, deixaram de ser apenas fotógrafos e passaram para o outro lado: assumiram o papel de personagens ou “modelos” e são, com frequência, fotografados por outros blogueiros de moda ou mesmo por fotógrafos de outros veículos. Eles têm sido requisitados para estes papéis, tornando-se um “novo perfil de celebridades”. Trata-se do fenômeno do blogueiro não apenas como interlocutor fundamental no setor, mas também como uma figura de moda emblemática. Uma profissão desejada e às vezes célebre, quer dizer, constituída de um imaginário social que significa qualquer status, imaginado ou construído.

Chegam a ser considerados ícones de estilo da internet (e-cons)194 e também “it-girls”195, principalmente as blogueiras196, pela audiência, qualidade das fotografias e pelo estilo pessoal

admirado (armários “impecáveis”). Por isso, são convidados para estrelar campanhas publicitárias, como Scott Schuman, Yvan Rodic, Brian Boy, Garance Doré, Chiara Ferragni (The Blonde Salad197), Leandra Medine (The Man Repeller198), Karla Deras (Karla’s Closet199),

193 “Obviously a place to be seen” (Obviamente um lugar para ser visto), frase do fotógrafo Mario Testino,

publicada na capa do livro (2009) do blogueiro Scott Schuman, em referência ao blog The Sartorialist.

194 Expressão usada na materia “Rise of the e-con: the internet style icon”, de 24 de novembro de 2009, do jornal

ingles The Guardian. <http://www.guardian.co.uk/lifeandstyle/2009/nov/24/internet-style-icons-fashion-bloggers>

195 A discussão foi parar no The New York Times, em fevereiro de 2012, no artigo intitulado “It” Girls work both sides of the camera. Laura NEILSON. The New York Times. February, 15, 2012. Disponível em: <http://www.nytimes.com/2012/02/16/fashion/female-street-photographers-work-both-sides-of-the-

camera.html?pagewanted=all&_r=0> Acesso em: 10 jul. 2012.

196 A moda de rua digital não é mais um gênero de alguns fotógrafos do sexo masculino. Um número significativo

de fotógrafas mulheres, de Nova York, Paris e diversas metrópoles do exterior têm sido merecedoras de destaque.

197 <http://www.theblondesalad.com/> 198 <http://www.manrepeller.com/> 199 <http://www.karlascloset.com/>

142 Rumi Nelly (Fashion Toast), Hanneli Mustaparta (Hanneli200), e as brasileiras Camila Coutinho (Garotas Estúpidas201), Cris Mesquita (Hoje eu vou assim202), Mariah Bernardes (Blog da

Mariah203).

As campanhas publicitárias com envolvimento dos blogueiros têm sido realizadas principalmente desde 2008 e são estratégicas por colocá-los, quase sempre como fotógrafos ou como personagens-protagonistas. Trazem a moda das ruas, propõem um tom pessoal, confessional e intimista. Assim, conquistam o público, seduzido pela sua imagem de sucesso. A blogueira norueguesa, que vive nos Estados Unidos e também trabalha como jornalista para a

Vogue.com, Hanneli Mustaparta204, por exemplo, protagonizou um filme para Coach and Rag &

Bone, no qual falava sobre sua rotina e suas motivações na hora de escolher os looks. O casal

Scott Schuman e Garance Doré são outros que já trabalharam para diversas empresas, como

Tiffany’s, DKNY, Burberry, Gant, e Yvan Rodic, para Esprit e Emporio Armani, apenas para dar

alguns exemplos.

Em função do blog e desses trabalhos, há blogueiros e blogueiras que se tornaram figuras midiáticas de renome e aparecem com regularidade em sites e revistas femininas, em entrevistas, fotos ou para dar dicas de estilo e também nas dezenas de reportagens que abordam a explosão e a importância dos blogs e de seus autores. Em diversos casos, chegaram mesmo a ser capa de revista, como Chiara Ferragni (fevereiro 2010, na italiana Spray Style Magazine); Tavi Gevinson, Style Rookie205 (outubro de 2011, na L’Officiel Paris) e Leandra Medine (marco

2012, Avenue, EUA), por exemplo.

É simples, portanto, entender o apelo para qualquer um querer iniciar o seu próprio

street-style blog. A “rápida” passagem de alguns nomes desconhecidos para influenciadores,

respeitados como criadores de imagens e até de uma estética (CECI, 2011) consagrou a profissão. Nesse contexto, assédio, fotografias, notoriedade e influência são elementos de

200 <http://www.hanneli.com/>

201< http://www.garotasestupidas.com/> 202 <http://www.hojevouassim.com.br> 203 <http://www.blogdamariah.com.br/>

204 Em menos de tres anos, Hanelli foi considerado uma das 10 mulheres mais bem vestidas de 2011 (“10 best- dressed women of 2011”), evidenciando a tênue linha entre os dois papeis blogueira street-style de sucesso e ícone de estilo.

143 identificação de um blogueiro de moda, conforme declara Baldi (2011), no artigo “My Little

Guide to How to Recognize a Fashion Blogger”206.

Podemos afirmar que é um traço relativamente recente do street-style digital a quantidade de seguidores, fãs, curiosos, leitores e também fotógrafos que registram essa atmosfera festiva em torno do setor da moda, um movimento atualizado e potencializado em todas as semanas de moda. A exemplo da Paris Fashion Week, o número de fotógrafos (profissionais e amadores também) e curiosos interessados nas portas dos desfiles aumenta consideravelmente a cada estação: muitos deles blogueiros(as) anônimos(as) ou desconhecidos(as), na periferia da blogosfera.

Alguns estão em busca da melhor imagem, a mais chamativa e original que possa lhe dar audiência e até alçar seu conteúdo a um nível de credibilidade, e outros ainda sonham em ser percebidos, vistos e fotografados, na tentativa de ser simplesmente “modelos por um dia”. Em dinâmicas recentes observadas, evidenciamos que até mesmo blogueiros de renome mundial, ao constatar a febre “wannabe-one-day-model” e das “it-blogguers”, também os fotogram nas entradas dos eventos, deixando apenas de posar de modelos para colegas.

É válido resgatar que, no início, alguns desses autores eram formadores de opinião mais próximos da realidade dos leitores. A impressão que temos é de que publicavam fotografias de uma moda de rua mais espontânea e casual e, no caso das blogueiras de estilo pessoal, tinham rotina e até um guarda-roupa parecido com o do público. A inserção da publicidade e das parcerias com as marcas, a profissionalização, mudou inexoravelmente a independência do conteúdo dos blogs.

De qualquer forma, atrás ou na frente das câmeras, esses street-photographers continuam sendo marcantes no circuito da moda, não apenas pela descentralização e potencialização do meio digital, mas porque seus conteúdos operam como referência estética aos leitores, num processo de inspiração, de aspiração e de projeção, conforme Morin (2006).

Por fim, outro atributo importante nesse contexto está relacionado à realidade da prática nos dias de hoje. Tomando em particular autores como Schuman, que sozinho afirma ganhar em média um milhão de dólares anualmente em vendas de anúncios (2011), é preciso auferir que há

206 BALDI Erica, «My Little Guide to How to Recognize a Fashion Blogger» (“Meu pequeno guia sobre como reconhecer um fashion-bloger”) Artigo da blogueira italiana sobre as características para reconhecer de um blogueiro de moda. Disponível em: <http://www.glamour.com/fashion/blogs/slaves-to-fashion/2011/02/yp-my- little-guide-on-how-to-reco.html> Acesso em 02 de julho de 2011.

144 uma imaginário coletivo idealizado em torno desses (novos) profissionais e que, por outro lado, a maioria deles mantêm atitudes realistas no cotidiano, independente dos seus blogs e têm outras atividades profissionais. “Você definitivamente precisa ter projetos adicionais para a estabilidade financeira”, afirmou Tamu McPherson (2012)207, que mantém o cargo de diretora

no site Grazia.it.

Isso posto, vale ressaltar que, entre 2009 e 2011 dezenas de blogs street-style pararam de ser atualizados, outras dezenas tornaram-se conhecidos, popularizaram-se em reconhecimento como veículos, multiplicaram-se em número (chegam a quase 100 milhões no mundo todo e a cada dia são criados novos títulos). Milhares diversificaram-se em abordagens e, além disso, qualificaram o conteúdo. Nesse contexto, a renovação e reconfiguração de propostas, formatos e ferramentas seccionam tais blogs em diferentes tipos. É sobre as propostas diversas desses blogs que tratamos a seguir.