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5. Romances cidianos

5.6.2 Texto B

Segundo Tardif (2001), noções tão vastas como as de pedagogia, didática, Aprendizagem etc. não apresentam utilidade alguma se não forem diretamente relacionadas com as situações concretas do trabalho docente. Para o autor, um dos grandes problemas na pesquisa em educação é o da abstração, pois muitas pesquisas se baseiam em abstrações sem levar em conta coisas simples, porém fundamentais, como o tempo de trabalho, o número de alunos, a matéria a ser dada e sua natureza, as relações entre os pares, os saberes dos agentes, o controle da administração escolar... O que essas pesquisas deixam de lado é o fato de que a escola Ŕ assim como as indústrias, os bancos ou outros serviços públicos Ŕ se assenta no trabalho realizado por diversas categorias de agentes.

É, pois, primordial que o estudo da pedagogia seja sempre situado no contexto mais amplo da análise do trabalho do professor. “Omitir esse imperativo seria como falar de medicina, hoje, abstraindo o sistema de saúde, a indústria farmacêutica, as organizações de pesquisa subvencionada e as corporações médicas” (TARDIF, 2014, p. 115). Assim, faz-se necessário situar o lugar de que se fala de pedagogia e tentar defini-la da maneira mais adequada possível.

Considerando suas pesquisas referentes à análise do trabalho docente, Tardif (2014) propõe a seguinte definição de pedagogia:

A pedagogia é o conjunto de meios empregados pelo professor para atingir seus objetivos no âmbito das interações educativas com os alunos. Noutras palavras, do ponto de vista da análise do trabalho, a pedagogia é a „tecnologia‟ utilizada pelos professores em relação ao seu objeto de trabalho (os alunos), no processo de trabalho cotidiano, para obter um resultado (a socialização e a instrução) (TARDIF, 2014, p. 117).

De modo geral, essa definição diz que o que comumente se chama pedagogia, na perspectiva da análise do trabalho docente, é a tecnologia utilizada pelos professores. Tardif (2014) destaca que a importância de se associar a pedagogia a uma tecnologia do trabalho reside no fato de que o trabalho humano corresponde a uma atividade instrumental que se exerce sobre um objeto ou situação com a intenção de transformá-los visando um resultado específico. Como qualquer processo de trabalho, a ação docente supõe a presença de uma tecnologia capaz de

natureza da pedagogia e, consequentemente, do ensino no ambiente escolar. Seu intuito é mostrar como a análise do trabalho dos professores, considerado em seus diversos componentes, tensões e dilemas, permite compreender melhor a prática pedagógica na escola.

operar nos objetos ou situações as transformações almejadas. Em resumo, “não existe trabalho sem técnica, não existe objeto de trabalho sem relação técnica do trabalhador com esse objeto” (TARDIF, 2014, p. 117).

Ensinar deve ser considerado, a exemplo de todo trabalho humano, um trabalho constituído por componentes distintos os quais podem ser isolados de modo abstrato para fins de análise. Tardif (2001) propõe os seguintes componentes: o objetivo do trabalho, o objeto do trabalho, as técnicas e os saberes dos trabalhadores, o produto do trabalho e, por fim, os próprios trabalhadores e seu papel no processo de trabalho. Analisar esses componentes permite evidenciar quais são suas influências sobre as ações dos professores.

De acordo com o pesquisador, uma maneira eficiente para o entendimento do trabalho docente é a comparação com o trabalho industrial. Desse modo, é possível evidenciar as características do ensino e, ainda, perceber as principais diferenças entre as tecnologias que encontramos no trabalho com os objetos materiais e as tecnologias da interação humana, como a pedagogia. Eis o quadro comparativo proposto pelo autor:

Quadro 1

Quadro comparativo entre trabalho na indústria e trabalho na escola

Trabalho na indústria

com objetos materiais com seres humanos Trabalho na escola Objetivos do

Trabalho • Precisos • Operatórios e delimitados • Coerentes • A curto prazo • Ambíguos • Gerais e ambiciosos • Heterogêneos • A longo prazo. Natureza do objeto do trabalho • Material • Seriado • Homogêneo • Passivo • Determinado

• Simples (pode ser analisado e reduzido aos seus componentes funcionais)

• Humano • Individual e social • Heterogêneo

• Ativo e capaz de oferecer resistência

• Comporta uma parcela de indeterminação e de autodeterminação (liberdade)

• Complexo (não pode ser analisado nem reduzido aos seus componentes funcionais) Natureza e

componentes típicos da relação do trabalhador com o objeto

• Relação técnica com o objeto: manipulação, controle, produção.

• O trabalhador controla diretamente o objeto

• O trabalhador controla totalmente o objeto

• Relação multidimensional com

o objeto: profissional, pessoal, intersubjetiva, jurídica, emocional, normativa, etc.

• O trabalhador precisa da colaboração do objeto

• O trabalhador nunca pode controlar totalmente o objeto

Produto do

trabalho • O produto do trabalho é material e pode, assim, ser observado, medido, avaliado. • O consumo do produto do trabalho é totalmente separável da atividade do trabalhador

• Independente do trabalhador

• O produto do trabalho é intangível e imaterial; pode dificilmente ser observado, medido • O consumo do produto do trabalho pode

dificilmente ser separado da atividade do trabalhador e do espaço de trabalho • Dependente do trabalhador

A comparação que se faz nesse quadro permite um claro entendimento de que, embora o trabalho docente comporte todos os elementos comuns a outros ofícios, ao ter como objeto os seres humanos Ŕ e como principal meta promover transformações sobre estes Ŕ, é inevitável o surgimento de especificidades que fazem com que as ações de um professor sejam carregadas de inúmeras incertezas. Essa realidade exige desse profissional um manuseio preciso de sua tecnologia de trabalho, a pedagogia, e, também, constante interpretação e adaptação aos contextos inerentemente heterogêneos e mutáveis de sua ação pedagógica.

Seguindo essa mesma linha de pensamento que considera a atividade de ensino como um verdadeiro trabalho, apresentaremos a seguir, sobretudo à luz das reflexões de Cicurel (2007; 2011; 2013), o conceito de agir docente, a noção de tipificação desse agir e, ainda, os seus elementos constituintes.

In document Las caras del Cid: épica y romancero (sider 98-101)