Diferentemente daquilo que foi feito com as demais análises, em que viemos abordando cada um dos processos que se apresentavam, buscaremos com essa última proposta verificar as respostas que ela poderia nos dar aos problemas observados, essencialmente, na abordagem de Coetzee (2005).
Como já foi devidamente discutido, tal modelo busca explicar a variação a partir de uma gramática de percepção e de uma gramática de produção, que se constitui como um subconjunto da primeira. Na gramática de percepção, os processos que determinam a variação são previstos e, por conseguinte, identificados para que o falante possa escolher o input a ser utilizado na gramática de produção. A partir da variedade dialetal, o falante escolhe um input e ranqueia as restrições de fidelidade nas posições mais altas do tableau, mas abaixo do ponto de corte, obtendo, assim, um output igual a esse input, dado o mapeamento que se estabelece entre eles.
Como tudo isso já foi apresentado na seção 2.4.1.4, passemos a discutir as possibilidades que se apresentariam, começando pela variação entre três outputs possíveis, como é o caso apresentado pelo item ‘moeda’. O que ocorreria, primeiramente, nesse caso?
O primeiro passo seria determinar todos os inputs possíveis para a língua em questão. Para isso, apenas as restrições que estivessem acima do ‘ponto de corte’ seriam consideradas invioláveis. Por outro lado, entre aquelas restrições que se posicionassem abaixo
do ‘ponto de corte’ não haveria qualquer relação de dominância. Assim, teríamos o seguinte tableau:
Tableau 69 - IDENTSTR(HEIGHT/ATR),IDENT[ΑBACK],IDENT[+LOW],IDENT[+HIGH]//AGREE, IDENT[ATR],IDENT(HEIGHT),*MID
m/o/eda IDENTSTR(HEIGHT/ATR),
IDENT[αBACK], IDENT[+LOW], IDENT[+HIGH]
AGREE IDENT[ATR] IDENT(HEIGHT) *MID
m[]eda * *
m[o]eda * *
m[u]eda * *
Lee & Oliveira (2006) consideram que a restrição AGREE aplica-se também em
relação à vogal alta e, por isso, todos os candidatos apresentam-se em igualdade de condições. Observe que, nesse momento, todos os candidatos são considerados ótimos e, por conseguinte, são os inputs a serem utilizados pelos falantes. Além disso, é importante lembrar que os processos fonológicos são identificados na gramática de percepção, uma vez que todas as possibilidades são ilustradas aqui. Agora, o falante pode ‘ escolher ’ , conforme a sua variedade dialetal ou idioletal, qual o input que determinará a sua produção, uma vez que o mapeamento entre input e output é feito com as restrições de fidelidade ranqueadas no ponto mais alto do ranqueamento. Vejamos, portanto, como isso seria realizado:
Tableau 70 - IDENTSTR(HEIGHT/ATR), IDENT[ΑBACK], IDENT[+LOW], IDENT[+HIGH] // IDENT[ATR], IDENT(HEIGHT)>>AGREE,*MID
m/o/eda IDENTSTR(HEIGHT/ATR),
IDENT[αBACK], IDENT[+LOW], IDENT[+HIGH]
IDENT[ATR] IDENT(HEIGHT) AGREE *MID
m[]eda * *
m[o]eda * *
m[u]eda * *
Tableau 71 - IDENTSTR(HEIGHT/ATR), IDENT[ΑBACK], IDENT[+LOW], IDENT[+HIGH] // IDENT[ATR], IDENT(HEIGHT)>>AGREE,*MID
m//eda IDENTSTR(HEIGHT/ATR),
IDENT[αBACK], IDENT[+LOW],
IDENT[+HIGH]
IDENT[ATR] IDENT(HEIGHT) AGREE *MID
m[]eda * *
m[o]eda * *
Tableau 72 - IDENTSTR(HEIGHT/ATR), IDENT[ΑBACK], IDENT[+LOW], IDENT[+HIGH] // IDENT[ATR], IDENT(HEIGHT)>>AGREE,*MID
m/u/eda IDENTSTR(HEIGHT/ATR),
IDENT[αBACK], IDENT[+LOW], IDENT[+HIGH]
IDENT[ATR] IDENT(HEIGHT) AGREE *MID
m[]eda * *
m[o]eda * *
m[u]eda * *
Observe que, em todos os tableaux, a escolha que o falante faz em relação ao input é que determina qual seria o output, uma vez que, conforme já discutimos, o mapeamento entre os dois é feito com as restrições de fidelidade nas posições mais altas do ordenamento da gramática de produção.
Algumas indagações poderiam surgir, como, por exemplo: uma vez que o ordenamento determina a possibilidade de três outputs na gramática de percepção, como fazer em relação a um dialeto como o da região Sul de Minas, onde só se observa, no máximo dois outputs?
A resposta a isso seria dada pelo próprio falante. A gramática de percepção determina os inputs potenciais; porém, esses inputs só serão efetivos se o falante escolher algum deles, caso contrário, não teremos produção mapeada a partir do falante para os inputs que não foram escolhidos. O aspecto interessante da abordagem de Lee & Oliveira (2006) é exatamente esse, ou seja, ele prevê todos os inputs possíveis, mas a escolha para a produção fica a cargo do falante.
Em função dessas observações, não teríamos mais problemas com candidatos como r[i]lógio, por exemplo, que não é atestado em nenhum dialeto, mas que poderia ser um output possível na proposta de Anttila & Cho (1998) e na de Coetzee (2005).
Como foi possível apreender, essa proposta parece apresentar uma grande capacidade explicativa da proposta, uma vez que não exclui candidatos que podem vir a ser
atestados, desde que estes não violem restrições que estejam ordenadas acima do ‘ponto de corte’.
Outro aspecto é o fato de as escolhas do tableau de percepção não garantirem a observação de nenhum candidato como ‘ ótimo ’ no tableau de produção, pois o que determinaria isso seria a seleção de inputs pelo falante, demonstrando a possibilidade de exclusão daquilo que não é recorrente no dialeto, na língua.
Acreditamos, por conseguinte, que prosposta de Lee & Oliveira (2006a; 2006b) apresenta vantagens bastante superiores em relação àquelas que foram discutidas anteriormente e é com esta curta explanação sobre ela que encerramos nossa discussão relacionada à variação das vogais médias em posição pretônica nas regiões Sul e Norte de Minas Gerais.
No próximo capítulo, apresentaremos nossas últimas considerações, buscando responder a todas as perguntas que vieram se interpondo durante este trabalho.
4.3 Sumário
Neste capítulo, discutimos os dados que resumiam as observações constantes do capítulo 3 à luz da TO, sendo que observamo-los sob quatro perspectivas: clássica, abordagem variacionista de Anttila & Cho (1998), abordagem variacionista de Coetzee (2005) e, finalmente, abordagem variacionista de Lee & Oliveira (2006a; 2006b). Concluímos, pois, que esta última é a que fornece os melhores subsídios para tratar os fenômenos de variação.