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Assim que acabamos de ter uma unidade, ela se torna uma dualidade. Assim que temos uma dualidade, ela se torna uma multiplicidade. Assim que temos uma multiplicidade, ela se torna uma proliferação de fissuras que convergem em um vazio... Em si mesmo, o evento tem apenas extinção. Seu sucesso é sua evaporação na infinita interação de seus agitados componentes... O ser é fractal. (MASSUMI, 1992, p. 19- 21 apud DOEL, 2001, p. 86).

O estabelecimento das fronteiras do “quem sou eu” no Orkut é um ato complexo que envolve simultaneamente as relações entre o sujeito, seu corpo e sua imagem; o sujeito e o outro; e do sujeito consigo mesmo. De posse do instrumental facultado pela plataforma, o usuário busca construir uma identidade que lhe possibilite ser percebido como único, distinto, inconfundível, ao passo que integra um sistema que o perfila, classifica e indexa. A tensão uno-múltipla assim se apresenta: enquanto a plataforma busca reduzir a multiplicidade, agrupando-a, o sujeito-usuário quer expressar sua singularidade, circunscrever quem é, customizar-se. As comunidades são instrumentos de administração de múltiplas universalidades – nelas, a dinâmica é a da identificação; os perfis são instrumentos de construção de unidades múltiplas – neles, impera o desejo de identidade. Nas comunidades, os perfis indiferenciam-se; no perfil, as comunidades são agentes de diferenciação.

A identidade é relacional e, no Orkut, o processo de transposição sígnica do eu implica imiscuir-se no tecido contextual da rede, estabelecendo pontes, portas e janelas de acesso ao outro: este comparece introjetado em “nós” ao passo que o eu multiplica-se em cada outro, amigo, esparramando-se pelos nós da plataforma. A experiência própria de construir e manifestar-se por meio de um perfil aguça a sensação de “ser sujeito”, pois este constitui um centro subjetivo de atuação e auto-afirmação que não pode ser ocupado por outro, a não ser que este seja portador da senha de acesso. A dinâmica desta operação é egocêntrica, a

despeito das trocas intersubjetivas – com espaço para a produção e intervenção do outro na identidade-perfil – serem fundamentais.

A configuração do sujeito na virtualidade implica, paralela e simultaneamente, duas atividades: identificação e diferenciação. A identidade-perfil, que ficcionaliza e materializa o eu, congelando-o em uma resposta momentânea que engendra a ilusão de coerência, coesão e unidade, é exatamente aquilo que o distingue de uns e o assemelha a outros. Sob a lógica do “apareser”, a subjetividade torna-se identidade, o conteúdo é forma, o interior está no exterior, a essência na aparência, a realidade na representação, a imagem vira corpo, a visibilidade confere invisibilidade (em meio ao excesso), o privado torna-se público, a multiplicidade reune-se sob a unidade de uma identidade e a universalidade do ser humano esparrama-se na pluralidade de formas de vir a ser e publicizar-se. O sujeito busca seus contornos, mas confunde-se com a rede na qual é produzido; obra-em-processo, atualiza sua identidade-perfil com frequência tresloucada: as “práticas episódicas de auto-exposição” (ROSE, 2001, p. 140) são aquilo que lhe asseguram o status de ser sujeito.

Esse encapsulamento tecno-imagético do eu a partir do qual se processa a tele- administração das impressões pessoais e das relações sociais revela, por outro lado, as estratégias narcisistas de sobrevivência (LASCH, 1983, 1990; LIPOVETSKY, 1989) que tangenciam as práticas culturais relativas à publicação de sujeitos no Orkut – um “lugar seguro” para se estar (já que não é um lugar); nele, o corpo não pode ser alcançado ou atingido, o que fomenta a experimentação da independência, onipotência e segurança ontológica características da cultura narcisista. A operação de publicizar-se, ao mesmo tempo que derruba paredes, implode privacidades e vira do avesso o que se considerava “interior” para superexpor o eu, reveste-se da ingênua segurança de que a distância física do outro é suficiente para resguardar o sujeito; mas este, desejoso de aceitação social, e a título de descuidado passatempo, não apenas abastece o sistema com informações pessoais como reiteradamente as atualiza. Estar no Orkut, então, não se limita a ter um perfil, mas ter um

perfil atualizado, por meio do qual se processam, várias vezes por dia e até de forma síncrona,

os contatos pessoais.

A atividade de “administrar impressões”, inerente ao sujeito narcisista e pós- moderno, pode ser vislumbrada na quantidade de horas dispendidas na atualização dos perfis, na coleção de amigos e comunidades, e nas estratégias diárias mais comuns adotadas pelos sujeitos como formas de multiplicarem suas aparições ao longo dos nós da rede (assim é quando o usuário dispara mensagens indiferenciadas a todos os seus contatos, esperando que ao menos alguns respondam de forma particularizada).

O advento da proximidade virtual torna as conexões humanas simultaneamente mais frequentes e mais banais, mais intensas e mais breves. [...] A realização mais importante da proximidade virtual parece ser a separação entre comunicação e relacionamento. Diferentemente da antiquada proximidade topográfica, ela não exige laços estabelecidos de antemão nem resulta necessariamente em seu estabelecimento. “Estar conectado” é menos custoso do que “estar engajado” – mas também consideravelmente menos produtivo em termos da construção e manutenção de vínculos. (BAUMAN, 2008, p. 82).

Os indicadores de popularidade, a publicação de depoimentos e a quantidade de amigos dão mostras do quanto este sujeito é ávido por elogios e gratificações, ao passo que o excesso (de vínculos) não permite que se relacione de forma profunda com o outro, ou pelo menos não com todos aqueles que foram classificados igualmente como amigos. O enfraquecimento dos laços sociais, posto como defesa contra a dependência do outro, só faz acentuar o paradoxo da solidão e da sensação de vazio que se fazem presentes nesse estado de hiperconexão.

Assim, pode-se dizer que a experiência subjetiva no Orkut ilustra e está marcada pela própria crise de identidade que caracteriza a pós-modernidade. Na plataforma, cada eu exaurido e esgarçado que se super-expõe debate-se na loucura de existir em tempo real, recompondo-se a todo momento na pulsão identitária que ostenta no perfil. É absurdamente paradoxal que o recurso utilizado para manter a aparente integridade do eu seja o mesmo instrumental que o uniformiza e dissolve. Em uma extensa lista de amigos, por exemplo, há pouca distinção graças ao excesso que torna (in)visível tudo e todos.

CAP. 2 – Congruências entre

identidade e perfil

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1 Parte das análises e considerações que compõem este capítulo foi publicada e apresentada