Uma geração gosta de se reconhecer e de descobrir a sua identidade numa grande figura mitológica ou lendária, que reinterpreta em função dos problemas do momento: Édipo como emblema universal, Prometeu, Fausto ou Sísifo como espelhos da condição moderna. Hoje, é Narciso que, aos olhos de um importante número de investigadores, sobretudo americanos, simboliza o tempo presente. (LIPOVETSKY, 1989, p. 47).
Longe de referir-se à paixão desmesurada pela própria imagem, como se pode pressupor, o mito de Narciso ilustra o não-reconhecimento ou a não-aceitação da separação entre o eu e seu meio circundante, acalentando a ilusão de onipotência e o desejo de regressão como estratégia de sobrevivência e proteção – o “mínimo eu” mencionado por Lasch (1990).
Por essa razão, Narciso não sabe que a imagem que vê nas águas do lago é um reflexo de si; 16
por não haver diferenciação entre eu e não-eu, “base de todas as outras distinções, inclusive da distinção entre a vida e a morte” (LASCH, 1990, p. 169), Narciso não teme a morte nem precisa ter cuidado com sua segurança; afogar-se é, simbolicamente, promover um retorno ao oceânico útero materno.
A cultura do narcisismo não é necessariamente uma cultura na qual as restrições morais ao egoísmo entraram em colapso, ou na qual as pessoas, libertas dos vínculos dos compromissos sociais, perderam a si mesmas num excesso de auto-indulgência hedonista. [...] Em nossa época, a sobrevivência, e com ela a realidade do mundo exterior, o mundo das associações humanas e das memórias coletivas, apresenta-se como cada vez mais problemática. O desvanecimento de um mundo durável, comum e público – podemos conjeturar – intensifica o medo da separação, ao mesmo tempo que enfraquece os recursos psicológicos que tornam possível enfrentar tal medo de forma realista. (Ibid., p. 177).
As transformações socioculturais de base capitalista, associadas à glorificação da juventude pela indústria da propaganda, à promoção da intercambialidade sexual e generacional e à indistinção entre ilusão e realidade na cultura mediática (de massa e cibercultural) concorrem para a conformação de uma cultura que enfraquece a autoridade dos pais, superprotege a criança da experiência do fracasso e insufla no imaginário infantil ideias de independência e onipotência.
Para Lasch (1990), é possível enxergar nas enfermidades psíquicas as expressões características de uma determinada cultura. No narcisismo generalizado se delineia o perfil do sujeito pós-moderno: hábil em administrar impressões, cativo de uma sensação de auto- suficiência, ávido por elogios e gratificações, cheio de um certo “vazio” e sempre aterrorizado com o envelhecimento e a morte.
Apesar de todo seu sofrimento íntimo, o narcisista possui muitos traços que permitem o sucesso em instituições burocráticas, as quais valorizam a manipulação de relações interpessoais, desencorajam a formação de ligações pessoais profundas e, ao mesmo tempo, dão ao narcisista a aprovação que ele precisa para validar sua auto-estima. Embora possa recorrer a terapias que prometem dar sentido à vida e superar seu senso de vazio, em sua carreira profissional o narcisista, com frequência, goza de sucesso considerável. (Id., 1983, p. 69).
Nesse sentido, o funcionário ideal “seria uma pessoa sem vínculos, compromissos ou ligações emocionais anteriores, e que evite estabelecê-los agora, [...] acostumada a um
16 Diferentemente da criança que se reconhece na imagem de seu corpo, no estádio do espelho
ambiente em que “acostumar-se” em si – a um emprego, habilidade ou modo de fazer as coisas – é algo malvisto e, portanto, imprudente” (BAUMAN, 2008, p. 17-18). Ao descrever o recorrente discurso empregado pelos especialistas da era líquido-moderna aos seus ansiosos “consulentes”, Bauman (2004, p. 77) revela entre as recomendações: desapego a rotinas, lugares e pessoas, entusiasmo e predisposição a mudanças, “mais apreço, vigília e cuidado por si mesmo, maior atenção à capacidade interior para o prazer e a satisfação – assim como “depender” menos dos outros e dar menos consideração às demandas destes por atenção e cuidado”. Configura-se um perfil de época essencialmente narcisista.
Marcado pela descrença no futuro, que considera incerto, mostra-se incapaz de identificar-se com a posteridade; indiferente com a tradição, sente dificuldade em tomar-se como parte do fluxo histórico ou sensibilizar-se com o passado – o sujeito da cultura narcisista retrai-se sobre um presente eternizado e inaugura uma forma inédita de apatia (LIPOVETSKY, 1989). Os sucessivos desdobramentos do tempo presente fizeram-no evanescer em um “sem número de vias de escape e fuga”; o fenômeno da perda do presente reflete esta dificuldade crescente do sujeito sentir-se em seu aqui e agora (BAITELLO Jr., 2005, p. 43).
O enfraquecimento dos vínculos sociais, ao passo que constitui uma defesa contra a dependência do outro, 17 aumenta o isolamento e a solidão. Satelitizado pelos meios de
comunicação, cercado por aparatos tecnológicos de última geração, o sujeito encontra-se “em rede”, conectado ao todo, mas opera suas relações sociais a partir de um bunker 18que revela a
natureza dessas: deseja falar ao outro para exibir-se e até gozar de intimidade instantânea; mas impede a aproximação na esfera presencial. Eis o “mínimo-eu” de Lasch (1990), encapsulado na tecnologia de operação comunicacional à distância em tempo real, resguardado nas imagens que projeta (fidedignas ou não a si) e retraído sobre o tempo presente.
Embora o narcisista possa funcionar no mundo cotidiano e, com frequência, encantar outras pessoas [...], a desvalorização dos outros, junto à falta de curiosidade a respeito deles, empobrece sua vida pessoal e reforça a “experiência subjetiva de vazio”. Faltando-lhe qualquer compromisso intelectual real com o mundo – não obstante uma estimativa frequentemente inflacionada de suas próprias capacidades intelectuais -, ele possui pouca capacidade de sublimação. Depende, consequentemente, dos outros para constantes injeções de aprovação e admiração. [...] Ao mesmo tempo, seu medo de dependência emocional, junto à sua abordagem exploradora,
17 Em face dos horrores da modernidade, o outro deixa de ser digno de confiança. O isolamento, como
estratégia de defesa, é também uma manifestação de hostilidade e revela uma crise de confiança generalizada.
manipuladora, das relações pessoais, tornam essas relações amenas, superficiais e profundamente insatisfatórias. (LASCH, 1983, p. 65).
A promoção do individualismo na ética da permissividade e do hedonismo incita um hiper-investimento no eu, obtendo-se o efeito contrário: segundo Lipovetsky (1989, p. 53), “quanto mais o eu é investido, feito objeto de atenção e de interpretação, mais a incerteza e a interrogação crescem”; o eu jaz corroído, “esvaziado da sua identidade”.
Sua fantasia de onipotência é exacerbada pela produção de mercadorias e imagens que assumem “simultaneamente a aparência de um espelho do eu” (LASCH, 1990, p. 180), apagando as fronteiras entre o sujeito e seu meio circundante. Em sua fascinação pelo “espetáculo das novas tecnologias informatizadas”, o sujeito pós-moderno “persegue exaustivamente a fama e a celebridade como um direito natural” (SEVERIANO, 2001, p. 35); na era da visibilidade mediática, a proliferação e distribuição de imagens levam o sujeito a ser para a imagem, transformar-se em imagem, viver na imagem, acondicionando seu senso de identidade 19 e realidade aos imperativos do exibir-se. A imagem deixa de ser uma tentativa de
registro do real para conformar o real à sua lógica exibicionista, espetacular. O narcisista “vê o mundo como um espelho de si mesmo e não se interessa por eventos externos, a não ser que devolvam um reflexo de sua própria imagem” (LASCH, 1983, p. 72-73). Nesse labirinto de ecos e cacos, a busca por si mesmo é interminável: o espelho está vazio.
Como aponta Baitello Jr. (2005, p. 43-44): “Quanto mais imagens, menos visibilidade e quanto mais visão, menos propriocepção, o sentido por excelência do aqui e agora, da corporeidade”. A explosão espetacular de imagens de si gera o caos da visibilidade
20 e o paradoxo da invisibilidade na visibilidade. À desenfreada aparição de tudo e todos nas
janelas comunicacionais da visibilidade mediática (TRIVINHO, 1998, p. 55-60) segue-se a saturação por excesso informacional. Chega-se à invisibilidade.
não mais por obra do esquecimento deliberado, por obra do descarte, mas antes por atuação excessiva e descontrolada das imagens, pelo descontrole e pelo excesso da reprodução, portanto, pela sua inflação. Trata-se aqui não mais da fadiga do objeto e seus materiais, mas da fadiga do olhar e seu corpo, provocada pelo desmesurado abuso na reprodutibilidade da imagem. (BAITELLO Jr., 2005, p. 18).
19 Exatamente por condicionar o senso de quem se é (identidade no singular) aos humores do momento
que o sujeito pós-moderno se vê às voltas com múltiplas (e até mesmo contrárias) identidades.
20 Para Trivinho (1998, p. 57), “visibilidade significa evidência temporária no conjunto dos fluxos do
sistema, e não algo que seja, literalmente, visível”. Nesse sentido, Baitello Jr. (2005) fala em imagens visuais, auditivas, táteis, gustativas, olfativas e proprioceptivas.
A hipertrofia das imagens sinaliza a hipertrofia dos sentidos da distância (visão, audição), o que denuncia o uso desmesurado das tecnologias como parte das estratégias de sobrevivência de um sujeito cuja mentalidade, bunkerizada, busca a qualidade de ser visível- invisível na superexposição projetada por trás da barricada computacional. Como pode este sujeito hiperconectado com o mundo e disperso pelas redes informacionais sentir-se tão vazio, tão sozinho?