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13. Prototype

13.4. Testing and test results

A análise das informações obtidas foi inspirada pelo construcionismo social, utilizando as cenas como unidade de análise privilegiada. Descrevo como as violências simbólica, física e econômica, incluindo as expressões de violência sexual e psicológica, perpassam a trajetória singular de cada uma delas desde o momento em que expressaram rupturas com os scripts de sexo e gênero em que foram socializadas. Utilizando a perspectiva de Avtar Brah para pensar a diferença como categoria de análise, analiso essa diferença em termos de identidade, experiência, relações sociais e

subjetividade. A diferença é pensada não de forma essencializada, nem toma como

referente a roteirização de sexo e de gênero hegemônica, mas sim de forma a compreender se ela é decodificada como forma de opressão ou, ao contrário, se diferença permite criatividade e expressão de diversidade.

Para discutir os temas da forma proposta, o trabalho se estrutura em um capítulo de metodologia, dois de resultados, dois de discussão e um de palavras finais. Em seguida, virão as referências bibliográficas utilizadas e alguns anexos.

As hipóteses que formam o eixo de interpretação dizem respeito à superposição do feminino e do masculino, que seria vista como uma espécie de “marca” das travestis. Em um contexto social marcado por um rígido binarismo de gênero, a ostensiva ruptura desta roteirização “engessada”, fundamental para a ordem vigente, representaria uma ameaça não apenas à norma, mas às relações de poder estabelecidas em função da divisão de trabalho e estruturação sociais de gênero. Da mesma forma, outros marcadores de diferença atravessam a produção das diversas formas de violência que atingem sistematicamente as travestis, como classe social e raça, por exemplo.

No próximo capítulo, Metodologia, apresento o desenho metodológico deste trabalho: como foi realizada a pesquisa de campo, incluindo o relato de como encontrei as colaboradoras, como me desencontrei de outras, quais foram meus critérios de busca e os procedimentos que foram utilizados durante as entrevistas realizadas. Detalho também neste capítulo todos os cuidados éticos que tive para desenvolver a pesquisa, informo dados sobre as colaboradoras e sobre o material obtido para a análise e descrevo o procedimento aplicado para analisar o conteúdo das histórias de vida. Em um breve referencial teórico, informo as bases teóricas utilizadas para a análise do conteúdo: o construcionismo social. Trabalho com a noção de carreiras sociais, condutas sexuais, cenários culturais com John Gagnon e as cenas como unidade de análise, conforme formulado por Vera Paiva. Destaco a articulação entre marcadores sociais de diferença com Avtar Brah, Adriana Piscitelli, Regina Facchini e Gustavo Venturi. Trabalho estigma e processos de estigmatização, utilizando Erving Goffman, Vera Paiva e Eliane Zucchi, Mario Pecheny. Trabalho também noções de subjetividades, identidades e estigmas, contando, além dos autores já mencionados, com Michel Foucault. Para trabalhar violências, uso principalmente Xavier Crettiez e Maria Cecília Minayo, entre outros. Para violência de gênero, me apoio em Gayle Rubin, além de Regina Facchini.

Os capítulos de resultado e discussão que vêm a seguir estão construídos para estruturar as análises da diferença em termos de identidade, experiência, relações sociais e subjetividade, conforme propõe Avtar Brah.

35 O terceiro capítulo (Mulheres com pau, mulheres na bolsa) é o primeiro capítulo de

resultados desta pesquisa em que focalizo identidade e experiência, sem desconsiderar

que subjetividade e relações interpessoais estão inextricavelmente ligadas. Assim, por meio da identidade busco mostrar como as pessoas que participaram desta pesquisa entendem o que é ser travesti, apontando características comuns, mas evitando dizer algo sobre elas além do que elas mesmas quiseram dizer de si próprias. A experiência é o que estrutura o segundo propósito (e subitem) deste capítulo. Vale antecipar que a experiência, para Brah, se constitui no próprio ato de narrar. Assim, busco ressaltar como as travestis significaram suas experiências no momento em que me contaram as suas histórias de vida. São oito pessoas que moram na grande São Paulo, têm mais de dezoito anos e se autoidentificam como travestis. Ao relatar o que ouvi, procuro mostrar como elas vivenciam a diferença: ora como estigma, diante de tantas violências sofridas, ora como fantasia, diversidade, ousadia e liberdade. Busco mostrar como elas experienciam as violências cotidianas, o que sentem e como as enfrentam. Aponto também algumas interseccionalidades dos marcadores de diferença que são perceptíveis a partir de seus relatos. Neste primeiro capítulo de resultados não utilizo as cenas, que foram apresentadas no capítulo seguinte.

No quarto capítulo (As violências contra as travestis), segundo capítulo de resultados deste trabalho, destaco as cenas narradas pelas travestis para mostrar a dinâmica psicossocial das violências sofridas. São relevantes os cenários culturais e os scripts de sexo e gênero que vivem cotidianamente. Nestes contextos, especialmente as relações

sociais com atores diversos contribuem para a construção de suas subjetividades, que se

constituem a partir da maneira como elas interpretam e atribuem significado às suas experiências. Internalizam scripts, vivenciando diversas formas de violência simbólica, física e econômica, bem como violências psicológicas e sexuais. Sempre que possível, apresento as articulação dos marcadores sociais de diferença compondo cenários, scripts e resistências.

No quinto capítulo (A singularidade das trajetórias psicossociais das travestis: da

infância ao mercado de trabalho ), faço uma primeira discussão dos resultados

apresentados nos capítulos anteriores, relacionando identidade, experiência e relações

sociais para sublinhar e dar maior relevo aos processos de subjetivação das travestis

colaboradoras que se dão a partir da dinâmica psicossocial das violências que elas vivenciam cotidianamente.

No sexto capítulo (Violência de gênero: uma proposta de ampliação), apresento uma proposta de formulação ampliada de violência de gênero que, espero, possa também comportar as experiências das travestis.

No sétimo capítulo (Outras palavras), apresento temas para possíveis futuras pesquisas, bem como discuto algumas políticas públicas para enfrentar as violências sofridas pelas travestis. Encerro este capítulo e o trabalho com algumas palavras finais, especialmente desvelando o impacto que o processo de pesquisa teve em minha vida. Em seguida, estão as Referências Bibliográficas utilizadas e os Anexos aos quais faço referência ao longo do texto.

Pela forma como o trabalho foi estruturado, algumas repetições de temas se tornaram inevitáveis. Tais repetições têm um sentido, porém: captar a atenção para algumas narrativas a partir de ângulos diferentes, na tentativa de deixar mais nítida a complexidade de certas dinâmicas. Escolhi correr o risco de talvez cansar o leitor para, ao (re)contá- las, ressaltar nas histórias os múltiplos nuances de análise e significados. Ao escolher trabalhar com relatos de histórias de vida não tenho a pretensão de reconstituir fatos verídicos ou realidades concretas . Como define Avtar Brah:

[...] 'experiência' é um processo de significação que é a condição mesma para a constituição daquilo a que chamamos 'realidade'. Donde a necessidade de reenfatizar uma noção de experiência não como diretriz imediata para a 'verdade', mas como uma prática de atribuir sentido, tanto simbólica quanto narrativamente: uma luta entre condições materiais e significado. (BRAH, 2006, p. 360)

Assim, aponto também, no decorrer do trabalho, algumas contradições presentes nas narrativas que mostram que se trata não de uma reconstituição absolutamente fiel de fatos e da história, mas de uma narrativa marcada pela relação que se estabelece entre a pesquisadora e as colaboradoras, que se entretece ainda pelo recorte feito pelo tema da pesquisa e que explica por que, afinal, não falei tanto de purpurinas, desejos e prazeres. Ainda que a violência esteja dolorosamente presente em todo o texto, peço que se leia a todo momento as histórias de oitos pessoas que, à sua moda, encontram forças para enfrentar a recorrente violação de seus direitos fundamentais, que se mostram como agentes de transformação com brilho, criatividade e ousadia. O que não estiver explícito, encontra-se nas entrelinhas.

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2. METODOLOGIA

A pesquisa se construiu a partir de uma abordagem qualitativa, porque ela nos “[...] permite compreender o ser humano na fluidez das relações sociais” (SPINK; MENEGON, 2004, p. 84), e pela crença de que não existe apenas uma única verdade a ser encontrada e revelada pela pesquisa.