Enquanto nos séculos XVI e XVII a evangelização impulsiona as grandes viagens, fazendo as pessoas deixarem seus países em busca de novos mundos, no século XVIII, o humanismo representa a maior motivação para o homem estudar a natureza.
A partir de então, a ciência começa a questionar tudo e cogitar incertezas, pedindo sucessivas revisões, inclusive cartográficas, transformando o século XVIII em “um grande
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laboratório para pesquisa acerca da História Natural. Jardins, Laboratórios de Experimentação, Hortos e Academias formam um conjunto de instituições que se articulam o tempo todo às explorações do mundo natural das colônias” (MUNTEAL FILHO; MELO, 2004, p. 13).
No entanto, anteriormente à existência das universidades e de seus jardins botânicos, surgidas no século XVI, não havia certificação dos produtos naturais. Por isso, a mesma planta recebia nomes distintos em diferentes localidades e era vendida em feiras dispersas por toda a Europa. A observação naturalista veio preencher esses vazios de informação científica. E foi nesse clima de necessidade de apropriação de novos conhecimentos e produtos comerciais que surgiram as expedições científicas.
Em vez de simplesmente coletar espécimes e objetos para as ricas coleções da época, os naturalistas viajavam para terras longínquas, a fim de estudá-los de perto, sempre acompanhados por riscadores (ilustradores) para documentar tudo, incluindo plantas nativas e animais encontrados durante o percurso das expedições. Esta fase crucial da convergência entre a Arte e a Ciência que, segundo Nuno Saldanha, atesta
a colaboração entre estes dois ramos, o especulativo e o prático, o científico e o pictórico, faz-se sentir de forma profunda. Os autores sentem cada vez mais preocupação de verem as suas obras profundamente ilustradas compreendendo a importante capacidade descritiva das imagens (SALDANHA, 199532, apud FARIA, 2001, p. 36).
“Esta conjunção de esforços para vencer o desconhecido, característica do pensamento iluminista, encontra no cientista itinerante ou no viajante cultivado, elementos fundamentais ao entendimento do processo criativo” que caracteriza as denominadas expedições filosóficas, todas elas assentadas “numa ideia corrente da época, a do viajante que transforma as suas rotas exploratórias em jornadas de constante aprendizagem” (FARIA, 2001, p. 36). Segundo o autor:
Revendo os testemunhos de políticos, naturalistas, artistas ou simples amadores viajantes, envolvidos nesta pesquisa visual, deparamo-nos com uma ordem de prioridades muito diversificada. A expressão da Natureza retida é tradutora das motivações principais de cada um daqueles grupos, constituindo o produto final a resultante, muitas vezes híbrida, desse equilíbrio de interesses.
Se ao cientista-naturalista o fundamental no registro gráfico era a produção de um documento visual rigoroso, centrado nos objetos do seu estudo, ao comissário político impunha-se, de igual modo, a precisão informativa, dispersa, porém, num maior leque de atenções, tendo em vista a sua aplicação econômica e estratégica (FARIA, 2001, p. 39).
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SALDANHA, Nuno. Poéticas da imagem: a pintura nas ideias estéticas da Idade Moderna. Lisboa: Editorial Caminho, 1995.
FIGURA 19 – Bambusa sp. – Herbarium Brasiliense – LISU33 Fonte: Original desta pesquisa – Foto da autora, 2011
Na ação de Alexandre Rodrigues Ferreira em sua Viagem Philosophica ao Brasil, entre 1783 e 1792, esses dois objetivos complementaram-se na múltipla vocação consagrada no programa da empresa: uma viagem simultaneamente política e filosófica.
Uma das primeiras notícias do Brasil na Europa deu-se em 1501, por meio da carta do italiano João Matteo Carnerino endereçada a Leonardo Loredano – Doge (primeiro magistrado) da República de Veneza. O documento noticiava a descoberta de novas terras ao sul daquelas encontradas por Cristóvão Colombo, e foi publicado, seis anos depois, na obra Paesi novamente retrovati... 34 A famosa carta de Pero Vaz de Caminha só seria publicada no século XIX.
Poucas expedições estiveram no Brasil entre os séculos XVI e XVIII, sendo que nenhuma delas foi tão extensa e profícua quanto a do naturalista Alexandre Rodrigues
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Coleção Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira – Século XVIII – Museu Bocage/MNHN.
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“É a primeira edição, impressa em Vincenza, em 3 de Novembro de 1507, de uma colectânea que foi verdadeiro sucesso editorial no século XVI. Organizada por Fracanzano da Montalboddo, compila diversos relatos de viagens de descoberta (ou redescoberta) empreendidas por portugueses, espanhóis e italianos, estes ao serviço das coroas peninsulares. […] Trata-se da primeira vez que se editou em italiano a terceira viagem de Américo Vespúcio. Mas, muito mais importante do que isso, inclui um dos primeiros relatos publicados sobre a viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. Essa é uma das razões do seu sucesso e da sua quase imediata tradução para latim e alemão.” (BIBLIOTECA JOANINA. Paesi novamente retrovati… 1. ed. 3 nov. 1507. Disponível em: <http://bibliotecajoanina.uc.pt/obras_raras/paesi_novamente_retrovati>. Acesso em: 12 ago. 2012.
Ferreira. Aventureiros como Hans Staden – nas décadas de 1540/1550 35, Ultrich Schimidt – em 1559, e o inglês Anthony Knivet – em 1585, também estiveram em terras brasileiras, e cada um fez o próprio relato de sua experiência. Também os holandeses deram sua contribuição, relatando a experiência vivenciada na capitania de Pernambuco entre 1630 e 1654.
De um modo geral, as demais visitas de estrangeiros ao país não foram além da Serra do Mar, duraram pouco e não geraram muitos relatos. Em 1601, esteve na desembocadura do Amazonas um inglês chamado William Davies, que viajou em um navio italiano na condição de escravo, e se encantou com a floresta amazônica e a profusão de aves. Mas dentre as narrativas, há que ressaltar o relato do francês Louis de Pezieu, em 1603, “que em coro com seus companheiros capuchinhos instalados no atual Maranhão, Yves d’Evreux e Claude d’Abbeville – Arsène de Paris, conta que onde se encontrava se vivia ‘eterna primavera’” (FRANÇA, 2010, p. 21). Segundo o autor:
Todos os visitantes são unânimes em destacar, por exemplo, quão rica, bela e “generosa” era a natureza dos trópicos. Corel e Dampier, extasiados com tanta exuberância, chegam mesmo a dedicar parte substantiva das suas descrições às “plantas, árvores e frutas do Brasil”.
Os demais não vão tão longe, mas a maioria não deixa de ressaltar, com mais ou menos detalhes, mais ou menos paixão, o verde exuberante e eterno da vegetação, a variedade das plantas, frutas e animais, o colorido e a diversidade dos pássaros, a fartura das águas, a piscosidade do mar e, sobretudo, a prodigalidade do solo, que suscitou de Jemina Kindersley o seguinte comentário: “O trabalho do agricultor é pouquíssimo requisitado por aqui, na medida em que, com um clima e um solo como estes, os mais variados frutos da terra crescem quase espontaneamente” (FRANÇA, 2010a, p. 60).
Nos trabalhos de campo, o material coletado era desenhado e pintado sob condições muito adversas, porque os ilustradores faziam seus esboços e o estudo dos animais e plantas em seus ambientes naturais. Neste sentido,
Não é difícil imaginar as provações e privações que sofreram os componentes da “Viagem Philosophica” (assim chamada por ser orientada pela ciência ou filosofia da natureza).
Oito anos de permanência no Brasil viajando em canoas, enfrentando índios agressivos e animais ferozes (além das pragas de mosquitos), o risco de doenças, as agruras do clima, e toda sorte de perigos fazem da “Viagem Philosophica” uma verdadeira epopéia (MINDLIN, 2002, p. 6).
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Autor do livro intitulado: História verdadeira e descrição de uma terra de selvagens, nus e cruéis
comedores de seres humanos, situada no Novo Mundo da América, desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas Terras de Hessen até os dois últimos anos, visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a conheceu por experiência própria e agora a traz a público com essa impressão. Tal livro conheceu
sucessivas edições, constituindo-se num sucesso editorial devido às suas ilustrações de animais e plantas, além de descrições de rituais antropofágicos e costumes exóticos (WIKIPEDIA. Hans Staden. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Hans_Staden>. Acesso em: 13 ago. 2012.
FIGURA 20 – Caixote com material biológico Fonte: Original desta pesquisa – Foto da autora (2010).
Em algumas dessas viagens científicas os registros se perderam, pois eram feitos em papel de qualidade discutível. Outro fator negativo é que as coletas nem sempre eram guardadas sob condições ideais de umidade e temperatura. No caso da expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira, os cuidados com o material botânico foram redobrados e as exsicatas enviadas a Portugal, devidamente preparadas, embaladas e transportadas.