O surgimento da ilustração científica remonta ao período renascentista europeu, mais precisamente no século XVI. Assim, é um equívoco pensar que tenha antecedido ou procedido a constituição das ciências modernas, uma vez terem surgido e evoluído conjuntamente, como atestado pela conservadora do gabinete de “Desenhos do Museu do Louvre” Madaleine Pinault, no prefácio do catálogo relativo à Exposição Dessin et Sciences XVII-XVIII, realizada em 1984, ao sublinhar que o principal elemento caracterizador das obras apresentadas é resultante da “colaboração entre sábios e desenhadores” (FARIA, 2001, p. 32).
Assim, Ciência e Arte são duas áreas do saber que se complementam, que se sobrepõem, somam esforços e produzem comunicação. Segundo o ilustrador português Pedro Salgado, essa componente visual da comunicação da ciência é a própria ilustração científica: “A Ilustração Científica é a arte, ou ofício, de comunicar ciência através de imagens. Partindo de um modelo, a IC observa, desenha, interpreta, reconstrói... explica. Com todo o rigor. Não necessariamente realista, embora eventualmente hiper-realista” (SALGADO, 2003, p. 3).
Neste sentido, é no terreno da ciência que a ilustração científica se desenvolve, seja transmitindo conceitos novos ou apenas ajudando na compreensão dos já existentes. Em alguns casos, ela amplia e propõe pontos de vistas e novas abordagens. Esse tipo de ilustração exerce papel importante na divulgação e no entendimento de fenômenos e fatos científicos, possibilitando sua comunicação. Mas importante observar que
Uma ilustração poderá ser de qualidade, mas perde todo o seu valor se estiver cientificamente incorrecta. E toma o nome da ciência que comunica – ilustração médica, veterinária, arqueológica, e ilustração de história natural, botânica, zoologia, paleontologia, etc. (SALGADO, 2003, p. 4).
Assim, para ser considerada científica, a ilustração precisa ter um compromisso absoluto com a veracidade das informações. Todos os detalhes devem ser observados, medidos e contextualizados em seu tempo. A única invenção possível é o modo de torná-la visível ao mundo, o que antes era percebido apenas por um número limitado de pessoas. Por ter uma missão científica a cumprir é que
A IC não é criada para acabar pendurada numa parede. Diz-se que Illustrators do
it for reproduction. Isto realmente quer dizer que uma ilustração científica
transmite uma mensagem, para isso foi criada, e será necessariamente reproduzida em algum suporte (papel, plástico, formato digital, etc.). Não é o original que conta, mas a imagem impressa e acessível a todos (SALGADO, 2003, p. 4).
FIGURA 6 – Adenocalymma Comosum Var. Nitidum Fonte: KIKO SENE ILUSTRAÇÃO, 2012.14
Para atingir tal finalidade, a ilustração científica usa das mais variadas técnicas do desenho, buscando ser fiel, correta e concisa em suas interpretações. Afinal, trata-se de um trabalho intelectual que transita entre a Ciência e a Arte e que contribui para a cultura da sociedade. Segundo Faria (2001, p. 31): “Um objetivo lentamente maturado desde o final da Idade Média, e que impôs ao artista um progressivo domínio da técnica obrigando-o a sucessivas incursões pelos domínios das ciências exactas”.
O desenho esclarece, tira dúvidas, possibilita entender em menos tempo e torna visíveis imagens constituídas a partir de fragmentos. É uma atividade investigativa e, por isso mesmo, requer domínio de técnicas, acuidade visual e conhecimento científico. Especialmente quando se trata de ilustração biológica, é importante conhecer a morfologia da espécie observada. Por isso, é
o ilustrador com formação (ou informação) em ciência e arte que estará em melhores condições de executar trabalhos tecnicamente correctos, explicativos, atractivos, e cientificamente válidos. Nos trabalhos actuais de biologia, por exemplo, as ilustrações são realizadas por biólogos que aprendem técnicas artísticas, ou artistas que aprendem biologia. Todo o ilustrador científico tem necessariamente formação bivalente (SALGADO, 2003, p. 4).
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Além dessa área científica, podemos incluir também as ilustrações destinadas ao atendimento das demandas da Cartografia, Medicina, Antropologia, Arqueologia, Geologia e Astronomia. Conforme Faria (2001, p. 31-36): “A anatomia, as leis da óptica e da geometria projectiva são exemplos de áreas investigadas pelos artistas no aperfeiçoamento de suas representações do natural”.
Desse modo, a história da ilustração científica confunde-se com a história da própria ciência que ilustra. A somatória das imagens e dos textos dialogam entre si através do tempo, possibilitando maior compreensão dos fatos e das descobertas científicas. Assim: “Esta aprendizagem mútua entre arte e ciência permanece como um dos aspectos nucleares em que se sustentam os progressos de ambos os domínios nessa ‘conquista da realidade’ ” [...] (FARIA, 2001, p. 36).
FIGURA 7 – Albrecht Dürer (1741 – 1528) – Aquarela e guache sobre papel de Düre Das Grosse Rasenstüch (1503); Graphische Sammlung Albertina, Viena (41x32 cm).
Fonte: STEVE ART GALERY LLC, USA, 201215.
Dentre os precursores da ilustração científica que, ao que tudo indica, encarnaram esse conceito estão Albrecht Dürer (1471-1528), com suas aquarelas expostas no Museu Albertina, em Viena, e Leonardo da Vinci (1452-1519), com seu olhar investigativo e sua extensa obra em várias áreas do saber. Esses dois artistas mostram que ilustrar é um ato de consciência e uma interpretação para comunicar alguma coisa através da imagem.
Como visto, o período conhecido pelo nome de Renascimento (século XIV a meados do XVII) caracterizou-se por uma conjugação de esforços que culminaram em descobertas, novos saberes e no desenvolvimento de técnicas diferentes das tradicionais, sendo considerado o período da descoberta do mundo e do homem. A despeito de sua expansão nessa fase histórica, há que se lembrar que a ilustração com temas de plantas e animais é bem anterior ao Renascimento, mesmo não sendo revestida de um caráter científico, haja vista pertencer a uma época anterior à constituição das ciências modernas no mundo. Porém, como atesta Salgado (2003, p. 3): “As ilustrações dos tratados medievais sobre plantas medicinais cumpriam, na sua essência, a função da IC, embora ainda de forma rudimentar”.
Há que se reconhecer, pois, a importância desse trabalho no âmbito do processo histórico, pois determinante para a evolução da ciência e da arte do desenho. De fato, Leonardo da Vinci observava com um olhar científico os fenômenos naturais e, com rigor, representava por meio de seus desenhos em sanguínea e sfumato o que percebia e buscava entender. E entendendo, comunicava suas experimentações. O artista fez anotações e registros de Botânica, Zoologia, Medicina, Mecânica e outras áreas científicas. Segundo o professor da Universidade de Parma, Peter Hohenstatt:
Leonardo da Vinci destacó en casi todos los ámbitos del arte y de la ciencia: tanto en física, mecánica, ingeniería, matemáticas, geometría, anatomía, geología, botánica y geografía, como en música, arquitectura, escultura y pintura. Consiguió dominar los mundos opuestos del arte y la ciencia y obtener nuevos conocimientos de cada uno de los campos a los que se dedicaba (HOHENSTATT, 2007, p. 6).16
Por sua versatilidade científica, a história da arte e da ciência apresentam Da Vinci como engenheiro, cientista e artista, quando na verdade também foi ilustrador científico de primeira geração – um autodidata numa profissão que ele e outros criaram com sua produção e atuação interdisciplinar. No entanto, não se pode dizer que todo ilustrador científico possua a mesma genialidade do incomparável desenhista e pintor italiano, mas tudo indica que caminha pelos mesmos trilhos paralelos que unem o conhecimento científico ao artístico.
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“Leonardo da Vinci se destacou em quase todos os âmbitos da arte e da ciência: tanto em física, mecânica, engenharia, matemática, geometria, anatomia, geologia, botânica e geografia, como em música, arquitetura, escultura e pintura. Conseguiu dominar os mundos opostos da arte e da ciência, e obter novos conhecimentos de cada um dos campos aos quais se dedicava” (Tradução da autora).
FIGURA 8 – Milena Magnano de Leonardo Da Vinci (1452-1519)
“Quando as folhas se encontram entre a luz e os olhos, a que está
mais perto do observador aparecerá mais escura, e a mais distante será a mais clara, não se destacando sobre a atmosfera. [...] A parte mais brilhante do corpo será a que for iluminada por raios de luz do sol incidindo em ângulo reto” (DA VINCI apud UH, 2007, p. 161 e 163)17.
Fonte: WIKIPEDIA, 2010.18
Segundo Hohenstatt (2007), apesar de na Antiguidade clássica se estudar as plantas por suas virtudes curativas, a Idade Média cristã lhes atribuiu, também, um sentido simbólico. Deste modo, o lírio aparece em quadros sobre a Anunciação como símbolo da pureza de Maria. O autor esclarece:
Hay que tener en cuenta este punto de vista al analizar um dibujo de Leonardo, que apareció en relación con su primera tabla de la Anunciación. En La Virgen de las Rocas todavía uncluyó plantas simbólicas para ampliar la expresividad del cuadro. No fue hasta aproximadamente 1490, en Milán, cuando aparece que el interés de Leonardo por la anatomía y la proporción, que se hace evidente en los dibujos que realiza sobre caballos, cambió esencialmente sus trabajos acerca de la botánica. Para entender el processo de nacimiento y crecimiento Leonardo dejó de fijarse en la aparencia física de las formas y empezó a investigar la influencia que ejercían la luz, la tierra y el agua en las plantas. Observó que las plantas crecían en dirección a la luz. Esto resultó ser una regla general que le permitió entre otras cosas, pintar las copas de los árboles correctamente desde el punto de vista
17
SUH, H. Anna (Org). Apontamentos de Leonardo: Leonardo da Vinci. Lisboa: CentraLivros Ltda., 2007.
18
Disponível em:
<http://de.wikipedia.org/wiki/Datei:Leonardo_da_vinci,_figure_geometriche_e_disegno_botanico,_1490_cir ca,_parigi,_bibliothèque_de_l'institut_de_france.jpg>.
botánico. Además, aprendió sobre la importancia que tenía el agua para la alimentación de las plantas y, a partir de esto, intentó explicar las diferentes formas de raíces segun la diferente capacidad del suelo para almacenar el agua (HOHENSTATT, 2007, p. 106).19
FIGURA 9 – Lírios – Sanguínea de Leonardo da Vinci – Início do séc. XVI “Embora a fala ou a escrita nos permitam talvez fazer uma descrição exacta das formas, o pintor pode representá-las de tal modo que pareçam vivas”.
Fonte: SUH, 2007, p. 1220.
Assim, o pintor aproveitou seus conhecimentos científicos para melhorar a qualidade de sua pintura. O quadro A Estrela de Belém e outras plantas (FIG. 9) é um
19
“Há que se levar em conta este ponto de vista ao analisar um desenho de Leonardo relacionando-o com sua primeira tela da Anunciação. Em A Virgem das Rochas, todavia, incluiu plantas simbólicas para ampliar a expressividade do quadro. Foi aproximadamente em 1490, em Milão, quando parece que o interesse de Leonardo pela anatomia e proporção se fez evidente nos desenhos que realiza sobre cavalos, que mudou essencialmente seus trabalhos acerca da Botânica. Para entender o processo de nascimento e crescimento, Leonardo deixou de fixar-se na aparência física das formas e começou a investigar a influência que exerciam a luz, a terra e a água nas plantas. Observou que as plantas cresciam em direção à luz. Isto resultou numa regra geral que lhe permitiu, entre outras coisas, pintar as copas das árvores corretamente a partir do ponto de vista botânico. Além disso, aprendeu sobre a importância que tinha a água para a alimentação das plantas e, a partir disso, tentou explicar as diferentes formas de raízes segundo a diferente capacidade do solo de armazenar a água” (Tradução da autora).
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exemplo desta maneira de proceder. O desenho em bastões de sanguínea21, que foi realizado sobre papel pela primeira vez, reproduz possivelmente uma planta real e, sem dúvida, o artista a moldou com pluma e tinta. Desenhou de forma estilizada uma coroa de folhas em cujo centro brotam flores. O acerto desde o ponto de vista botânico é a união de princípios constitutivos artísticos como ritmo e proporção, o que desperta numerosos contrastes. O desenho não é uma cópia da realidade, mas bem que é a união da estética com a natureza, por apresentar, tanto ao botânico como ao amante da arte, uma lâmina de grande grandeza (HOHENSTATT, 2007, p. 106).
FIGURA 10 – Estrella de Belén y otras plantas (1505-1507)- Leonardo da Vinci Pluma y tinta sobre lapiz rojo (sanguínea) en papel – 19,8 x q6cm (facsímel).
Fonte: HOHENSTATT, 2007, p. 104.22
Em 1450, com a invenção dos tipos móveis, de tintas de impressão e com o aperfeiçoamento da gravura possibilitou-se a maior divulgação da ciência e da arte. Exemplos disso são as água-fortes e aquarelas de Daniel Rabel (1578-1637) e a obra Theatrum Rerum Naturalium Brasilia, de George Marcgrave (1610-1648), Nicholas Robert (1614-1685) e Claude Aubriet (1665-1742). Assim, como atesta Faria (2001):
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Sanguínea é uma espécie de “giz vermelho", mistura de caulim e hematita e tem um tom castanho- avermelhado escuro, semelhante à terracota e existe numa só dureza. Usada por Leonardo da Vinci, Rafael e Rubens. Emprega efeito de sfumato. A sanguínea, tal como o carvão e o pastel seco, deve ser fixada, embora neste caso apenas com uma camada suave de fixador apropriado, porque normalmente escurece e perde a
luminosidade inicial (WIKIPEDIA, 2011. Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Sangu%C3%ADnea>. Acesso em: 2 de nov. 2011).
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É a partir de três vértices fundamentais, em torno dos quais se desenvolve o espírito de colaboração entre a Arte e a Ciência de final de Setecentos, que se irá definir a actividade gráfica dos desenhadores de História Natural: Comunicação Visual, enquanto media, condutor de informação, crédito imediato da sua
utilidade; exactidão, enquanto auxiliar indispensável da Ciência Pura, e sentido
estético, enquanto manifestação artística. O primeiro define-lhe a função fundamental, os restantes condicionam e qualificam a informação recolhida (FARIA, 2001, p. 47).
As invenções de ferramentas de observação, como o microscópio (1590) e o telescópio (1608), ampliaram a visão do ser humano e seus conhecimentos. Em consequência disso, veio a profusão de achados que chegavam à Europa através das grandes viagens ao Novo Mundo. Importante registrar que,
Por seu turno, o criador de imagens oscilava entre o artista-aventureiro, livre de tomar os seus apontamentos visuais sobre o terreno e aplicá-los numa verdade topográfica, ou em reconstruções paisagísticas pitorescas e imaginárias, e o artista-funcionário, membro de uma equipa polivalente, não raras vezes chamado a executar tarefas estranhas ao seu múnus original, e que independente do seu virtuosismo plástico, deveria seguir as instruções que lhe eram transmitidas pelo comando da viagem, valendo o seu trabalho acima de tudo pela autenticidade da recolha (FARIA, 2003, p. 39).
FIGURA 11 – Systema Natvrae – Caroli Linnaei – Edição modificada de 1760, impressa em Hally – Alemanha.
Fonte: Wikipedia, 2005.23
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Com o tempo, os objetos coletados pelas expedições foram se acumulando nos gabinetes de curiosidades, gerando a necessidade posterior de classificação do mundo natural, de um saber enciclopédico, de modo a se fazer ciência e conhecer a totalidade desses novos saberes, como atesta a obra de Carl von Linné, Systema Naturae, publicada em 1735. É como se o mundo tivesse crescido e, junto com ele, os conhecimentos científicos e artísticos.