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Testing the Hypotheses and Relating Evidence to the American Grand Strategy

Chapter 6. Findings and Closing Remarks

6.2 Testing the Hypotheses and Relating Evidence to the American Grand Strategy

Entrevista concedida em 26/05/2012 na colocação Boa Vista, localizada no PAE Cachoeira. Idade da colaboradora em 2012: 27 anos

Eu moro aqui, eu nasci e me criei no seringal Cachoeira. Não nessa colocação, n‟outra colocação chamada Brasilzinho, já extremando com a Bolívia. Do Brasilzinho para o Rio Xipamano dá 40 minutos, depois já é a Bolívia. Eu nasci e me criei lá. Aos 14 anos eu me ajuntei. Meu esposo e toda família dele mora aqui. Daqui até o Brasilzinho são cinco horas de viagem. Eu me juntei e vim morar na colocação Pontão, próximo ao Cachoeira. Moramos lá

por dois anos. Depois meu marido trocou uma colocação por outra e vim morar aqui na colocação Boavista, que pertence ao meu sogro. Está com 10 anos que moro aqui.

Eu gosto daqui, para mim a zona rural é muito importante. Quando eu morava no Brasilzinho eu não tive oportunidade de estudar. A escola era muito longe, ficava distante cinco horas de viagem a pé, não tinha como estudar. Fiquei sem estudar até os 16 anos. Só se eu fosse para a cidade, mas naquele tempo os pais não deixavam. Hoje em dia não, a criança já vai para a cidade.

Fiquei sem estudar até me ajuntar, depois que casei. E como meu esposo nunca proibiu de estudar, daí eu fiz minha segunda série com 16 anos. Hoje tenho 27 anos. Nesse ano quero terminar meu primeiro grau. Já tenho minha filha com 9 anos, que está na quarta série. Aqui não tinha ensino médio, agora tem.

Nasci e me criei na floresta e gostaria de criar meus filhos todos aqui, porque aqui é muito bom. A gente planta arroz, milho, feijão e a mandioca. É do que nos alimentamos. Aqui também tem caças da mata que a gente mata, aqui tem nambu (ave típica da região amazônica, parecida com a galinha d‟angola, de cor parda). Gosto daqui também devido a frieza. Porque aqui é frio. A gente vai para a cidade fazer a feira e sente a temperatura quente, que não é como a daqui. A noite é quente demais. É muito quente. Em Rio Branco é ainda mais quente. Aqui não, a noite é friozinho, e a gente dorme bem tranquilo.

Eu, desde pequena, tinha muita vontade de aprender a ler e escrever. Hoje já sei ler e escrever. Eu até já quis desistir dos estudos, mas meu esposo é muito bom para mim e sempre diz: “você não tinha vontade de estudar, então continua. Tu não estás indo bem?” Mas para a gente dar conta da escola, dos filhos, da casa, é muito trabalho. Continuo estudando e meu sonho é arrumar algum trabalho, mas aqui na mata mesmo. Aqui na comunidade mesmo. Quem sabe arrumar algum emprego aqui na mata.

Os professores daqui são todos da cidade, e falam para a gente: “quem sabe, depois vocês não se tornarão os professores daqui”. Mas para ser professor tem que ter muita paciência. Eu tenho muita paciência, mas o que eu gosto mesmo é de trabalhar na mata. Quando eu morava com meu pai, toda vida quebrei castanha. Só seringa eu não cheguei a cortar (sangrar a árvore), mas ia colher ajudando meus irmãos. A castanha até hoje vou com meu esposo colher quando está no tempo da castanha. Deixo meus meninos e vou.

Eu acho muito boa a vida da zona rural. Tem muitos que vem para cá e não gostam, tem outros que vem e não querem mais voltar. Aqui vem muita gente de fora, de São Paulo do

Rio de Janeiro. É boa demais a vida na floresta. Ave Maria! Toda vida achei muito bom aqui. Graças a Deus.

Durante a semana, quem estuda, estuda. Quem vai trabalhar, trabalha. É muito difícil ter festa aqui. Às vezes passa dois anos para ter uma festa aqui na comunidade. Mas o que a gente se diverte mesmo, no sábado e domingo, é com o futebol. Todo domingo tem futebol. A gente vai ali na colocação Fazendinha onde tem um campo e fazemos torneios. Vem gente de todas as comunidades. Se ajunta todo mundo ali. Aí é uma festa. Passamos todo o domingo jogando. Eu e meu esposo demos certo, porque ele gosta de futebol e eu também. Nossa diversão maior é o futebol. Festa é alguma vez que tem. Só quando tem um aniversário de uma menina de 15 anos, ou de qualquer idade mesmo, quando os pais resolvem fazer uma festa. Mas futebol tem sempre.

A dificuldade aqui é que ralamos bastante para conseguir o produto, que é difícil de vender. Aí a gente vai levando, vai passando devagar. Com o preço alto ou com o preço baixo. Aqui a gente vende a castanha e a seringa. Tem ano que meu esposo corta e tem ano que não corta, pois meu marido já pegou várias doenças e não pode forçar muito o corpo. Ele só trabalha em serviço leve. O serviço mais pesado que ele pega todo ano é a extração da castanha. Está com um ano que adoeceu de pneumonia e passou vários meses sem trabalhar. Quando um adoece aqui os outros ajudam. Uns vão ajudando os outros, com mercadoria, com dinheiro.

Quando você produz arroz aqui, quando tem produto para vender, tem que ir vender lá em Xapuri, na feira. Às vezes nem consegue vender tudo. Arroz, feijão, ou galinha, quem tem para vender. O pessoal está deixando de produzir por aqui, pois estão proibindo de colocar roçado, de queimar. Aqui mesmo nós não colocamos roçado. O IBAMA proíbe. Até quem tem cartão do IBAMA eles proíbem. E nós que não temos cartão é mais difícil ainda. Como a terra é do meu sogro não temos o cartão (do assentamento) do IBAMA. Então não podemos colocar roçado, fazer queimada. Só colocamos junto com o meu sogro, que tem o cartão do assentamento. Daí está se acabando a produção aqui, ninguém mais pode colocar roçado. Pouca gente está colocando roçado aqui. O pessoal está deixando de produzir, porque o IBAMA está proibindo colocar roçado com a queimada.

O que favorece mais os moradores desse local é no tempo da castanha ou da seringa. Aqui são quatro estradas de seringa. Os moradores agora vendem o leite (látex), não é mais a borracha em péla. Agora é mais fácil. Nessa colocação as estradas (de seringa) são do meu sogro, e do meu cunhado. Não temos a nossa parte porque não deu para dividir mais. Os pais

repartem a colocação com os filhos, dividem as estradas com os filhos aqui. Se fossem seis estradas a gente teria a nossa, pois ficariam duas para cada filho. Mas como só tinha quatro, ele dividiu com o filho mais velho. Por isso não temos estradas. Só moramos de agregados aqui. Ainda tem o filho mais novo, que quando casar ficará como nós, morando de agregado. Sem estradas, só ficamos morando de agregado.

Meu esposo fica trabalhando aqui e ali. Uma diária aqui e outra acolá. Não pode fazer o roçado, pois não tem o cartão. Se o pessoal for brocar e colocar fogo eles vem e multam. Principalmente se não for o dono. É uma multa grande. Eu fico pensando como eles podem proibir, se é disso que o seringueiro vive. Eu penso que eles não podem proibir. Como vamos viver? Porque o feijão hoje tá caro. O arroz também. Tá tudo caro. Hoje em dia tá ficando difícil comprar. Não são altas queimadas, é só para plantar e tirar o ano, para viver. O feijão tá caro porque não tem mais ninguém plantando. Antigamente era tudo barato porque tinha muita gente plantando. Daqui uns dias será o arroz. Só aqueles que teimam colocam seu roçadinho vão levando. Aqueles que têm emprego vão passando.

Depois que a luz chegou é uma coisa boa. Mas ela traz tanto bicho (pausa). Trás carapanã, catuki, borboleta. Antes, não tinha tanto inseto durante a noite. A luz atrai. Mas é maravilhosa a energia (luz) na mata. A gente passa o dia trabalhando e a noite a gente pode assistir a uma novela, o jornal. Só não acho mais legal pois eles disseram que a luz era para todos, mas aqui no Cachoeira, que tem 85 famílias, a metade não tem luz. Em muitos ramais a luz não chegou.

Aqui o pessoal mais adoece é de malária. Malária ataca muito aqui. Não ataca mais, pois o pessoal da SUCAM (hoje a Fundação Nacional de Saúde- FUNASA) vem de dois em dois meses colocar uma fumaça, um produto, para matar o mosquito. Daí passa muito tempo sem atacar. Depois que eles vieram fazer esse trabalho diminuiu a malária. Quando atacava muita gente adoecia.

Também o pessoal adoece de febre, de gripe. Porque o pessoal daqui é assim, trabalha na chuva, no sol. Meu esposo mesmo pegou pneumonia. Fomos ao médico e ele disse que é de um vírus. O médico perguntou se as pessoas adoecem muito onde moramos. Eu disse que não. A pneumonia é de um vírus, e quando pega numa pessoa adoecem várias.

Quando não tinha luz, chegava de noite e a gente jantava e ia dormir bem cedo. Alguns estudavam com a lamparina. Mas a gente ia dormir cedo. Quando hoje falta a luz, ainda temos a lamparina. Com a energia a gente vai dormir mais tarde. Pois depois da janta vamos assistir televisão. Antes, a gente dormia no mais tardar oito da noite, agora é dez, dez e

meia, assistindo TV. Os meninos dormem mais cedo, pois têm aula. Eles gostam mais de assistir de dia. Mas quando passa um filme bom eles querem ir até mais tarde. Mais eu não deixo porque não é bom. Daí eles se acostumam a dormir mais cedo.

Essa casa foi meu marido que fez, ele tirou madeira a pediu ajuda a um amigo para construir. Quem é agregado não ganha beneficio do Governo, como a casa da Caixa Econômica Federal (referia-se ao programa denominado Crédito Habitação). A Caixa fornece o crédito, mas ninguém pega no dinheiro. Eles mandam as coisas para a pessoa fazer a casa. Pagar o serrador, pagar o brasilit. Mas quem é agregado não ganha. Agora veio o Bolsa Verde do Governo, veio para um monte de gente. Mais o meu não veio. Perguntei para o homem: “porque o meu não veio?” Ele perguntou pelo meu cartão. Eu disse que nós morava de agregado. Respondeu: “É por isso que não veio”. Aqui só se consegue as coisas se você tiver o cartão de assentamento, que comprove que você mora lá.

De dez anos para trás mudou bastante as coisas por aqui. Quando eu morava com meu pai só tinha ramal até a colocação Fazendinha. Aqui, por todo canto, não tinha ramal. Ali para dentro você andava a cavalo ou a pé. Agora não, tem ramal em todo canto. Você pode andar de moto, até de carro. Antigamente, até para comprar uma bicicleta era a maior luta. Agora até carro alguns seringueiros compraram. Aqui no Cachoeira, por todo canto, tem ramal. Por isso digo que mudou bastante.

Escola, por exemplo. De onde eu morava a escola ficava a cinco horas de caminhada. Hoje do lado onde eu morava tem escola. Hoje tem escola perto para todo mundo. Aqui no Cachoeira tem quatro escolas. Antes, a escola era longe. De primeiro era mais difícil. Eu achei que mudou bastante.

As casas eram somente de palha. De ripa. De paxiúba. Era muito difícil encontrar uma casa de madeira aqui no Cachoeira. Hoje não. Todo mundo tem suas casas de madeira, coberta de brasilit, ou de cavaco. A nossa casa aqui é só a área de brasilit. O resto é de cavaco. Muitos têm até casa de alvenaria aqui no PAE Cachoeira. Antes, a gente não tinha condições de ter uma casa de madeira. Não tinha condições. O dinheiro que a gente pegava era bem baratinho. O dinheiro da seringa, da castanha. Uma lata de castanha era R$ 3,00, esse ano (2012) chegou a R$ 22,00. O leite era transformado em borracha que custava R$ 1,50 a péla grande. Hoje o produtor, só de leite (látex), faz R$ 200, R$ 300,00 por mês onde tem muita seringa. Antigamente não fazia nem R$ 100,00. Foi tudo que já mudou. As coisas hoje tem mais valor do que antigamente.

O pessoal aqui também faz manejo. Manejo florestal. Mas no meu caso o manejo não era para existir. Não é porque não tenho colocação, mais não era para existir. O manejo é bom porque as pessoas vendem a madeira e pegam no dinheiro, mas derrubam as árvores. E para mim isso não era para existir. E quando for daqui uns tempos (pausa longa). Os filhos dos filhos vão viver de que?

No manejo todo ano pode tirar 10 árvores, e se for tirando todos os anos 10 árvores como vai ficar no futuro? Vai indo, vai indo e se acaba a floresta. Mas para os produtores eles acham bom porque é um dinheiro fácil. Com gado também é fácil fazer dinheiro, tem morador por aqui com até 50 cabeças de gado. Dá muito dinheiro.

Eles tiram com cuidado a madeira, mas o trator entra na mata e machuca as outras árvores. Eu acho que não era ideal, não sei não (pensativa). É bom por um lado porque o produtor pega em dinheiro, mas por outro a floresta está sendo destruída. Tem produtor que pega em 20 mil, 30 mil, mas eles recebem a madeira do produtor e depois de beneficiar eles ganham lá o dobro, ganham 50 mil, 100 mil com a mesma madeira. Então, o que tem de valor a gente tem que preservar.

Aqui no Cachoeira era para tá uma fazenda, os pecuaristas queriam comprar. Eu tinha três anos e meu pai contava que eles queriam comprar, mas os produtores não queriam vender. Então eles ameaçavam matar. Aqui teve um empate muito grande para conseguir o Cachoeira. Houve até a morte do Chico Mendes. Eles mandaram matar o Chico Mendes. Eu tinha três anos e meu pai, meus avós, minha mãe, contavam que eles ficavam a noite todinha acordados, pastorando. Pois eles queriam matar os produtores que não queriam vender as colocações. Eles queriam entrar na marra. Então, todos se combinaram e ficaram armados e não deixaram de jeito nenhum os pecuaristas entrarem. Por isso é que hoje temos o Cachoeira, se não isso tudo aqui onde nós mora era uma fazenda só. Eles teriam comprado e fariam fazenda.

Quando o Chico Mendes morreu eu tinha quatro anos. Meu pai conta que foi uma batalha grande. Foi em 1988. Eu sei a história porque meu pai conta. O Chico Mendes lutou muito junto com meu pai e os seringueiros. Agora a gente vive tranquilo aqui na Reserva. Desse tempo para cá virou Reserva e o IBAMA, o INCRA, cuida disso daqui. Ninguém mexe. Não pode vender o lugar, mas tem seringueiros que vão embora e vendem. Para isso é feito uma reunião com a comunidade, e se a comunidade concordar é possível vender. Mas tem que ser seringueiro, se for fazendeiro a comunidade não aceita. Antes de vender tem que

fazer esse processo todo, fazer uma reunião, esse processo todo. Se a comunidade aceitar vende, aí vem o outro.

Aqui tem muita ajuda entre a as pessoas da comunidade. Por exemplo, se estou precisando de ajuda é só abrir minha boca, aí vem muitos ajudar. Eu sou feliz aqui na floresta. Graças a Deus. Eu já morei na cidade com meu pai quando tinha oito anos de idade, mas nunca gostei de lá não. Também já morei com meu esposo um ano e cinco meses, mas não gostei. Eu gosto mais daqui. Não gosto muito da cidade não. Só gosto de ir para a cidade passear ou fazer compras. Vou para um evento como o 7 de setembro (semana da Pátria), o 20 de janeiro (festa de São Sebastião). Para um evento eu gosto. Mas vou e volto. Só durmo uma noite ou duas, e volto.

Para morar mesmo eu posso até me acostumar, porque dizem que com tudo na vida a gente se acostuma, mas eu não gostaria de ir para a cidade não. Na rua eu me sinto presa. Porque você não vai ficar andando na rua de cara para cima, sem fazer nada. Na rua você só tem sua casinha ali mesmo, do lado já tem o vizinho, do outro lado é outro vizinho, na frente já é a rua. Daí eu me sinto presa.

Aqui na floresta não, a gente vai para o roçado, vai estudar, domingo tem a bola, tem o igarapé para lavar roupa, tem o evangelho lá distante, vai ao vizinho que é lá distante. Você anda para vários cantos. Na rua não, você fica presa e é uma quentura horrível, aqui não, é muito ventilado. É bom demais, eu gosto.