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7.2 Test Results Discussion
As ideias de Vigotsky foram gestadas na Rússia pós Revolução Bolchevista23; entretanto, aqui no Brasil, em meados do século XX, surge o pensador Paulo Freire que tem em comum com Vigotsky a ideia da educação como uma prática ética, política e social. Ambos teóricos, mesmo vivendo e produzindo em épocas diferentes e realidades diversas, possuem preocupações semelhantes sobre os problemas educativos dos dois continentes.
A primeira aproximação entre os dois pensadores está na base epistemológica. Tanto Paulo Freire como Vigotsky utilizam alguns conceitos do marxismo para a fundamentação de sua teoria. Vigotsky se apropria do marxismo quando ressalta o papel dos instrumentos para a transformação da natureza, para então elaborar a noção de signo e sua função na transformação do psiquismo humano. O materialismo dialético e histórico é utilizado para a compreensão do contexto e as ações do sujeito, entendendo o fenômeno psicológico como algo vivo, em constante movimento (Petrônia e Souza, 2009). Os conceitos de práxis, de luta de classe e alienação de Marx contribuem para a formulação da proposta de Paulo Freire (Santos, 2000).
Os dois pensadores entendem o sujeito como um ser histórico-cultural. Para Vigotsky, o homem só se constitui mediado pela história porque, ao longo de seu desenvolvimento, sofre influência da cultura e da história na qual está inserido. Já para Paulo Freire, o homem se encontra inserido em uma realidade social que deve ser utilizada como ponto de partida para a sua compreensão (Santos, 2000). O homem deve ser compreendido em sua totalidade e não como um sujeito isolado, em que pensar e agir criticamente a realidade na busca de
23 A Revolução Bolchevique de 1917 foi resultado de uma série de eventos políticos na Rússia, como a
eliminação da autocracia russa, a instalação do Governo Provisório e o estabelecimento do poder do partido bolchevique. O resultado do processo foi a criação da União Soviética que durou até 1991.
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transformá-la, faz parte da sua natureza, no caminho de sua humanização (Paulo Freire, 1999).
Tanto Paulo Freire, quanto Vigotsky defendem que na interação e nas relações sociais os sujeitos se constituem e produzem conhecimento (Santos, 2000). Outro ponto de intersecção entre os dois pensadores é a importância dada ao diálogo por Paulo Freire e à Linguagem por Vigotsky.
Para Vigotsky (1998), a linguagem influencia o desenvolvimento do pensamento, e é por meio dela que o indivíduo transforma o concreto em abstrato, passa do âmbito do real para o simbólico, permitindo que o sujeito formule representações. A linguagem é constituída socialmente, por isso carrega tudo o que há de produção na sociedade.
Em Paulo Freire (1996, 1999), o diálogo é a fonte de comunicação entre os sujeitos, o que permite que se aproximem e expressem suas opiniões, estabelecem uma relação bidirecional, em que ambos possam aprender e ensinar, promovendo o desenvolvimento da consciência crítica.
Os dois pensadores afirmam que o conhecimento se constrói a partir da experiência. Freire (1996) afirma que o conhecimento deve ser construído partindo-se da necessidade reconhecida no cotidiano do sujeito. Para Marques e Oliveira (2005, p.5), “conhecer, na teoria freireana, é uma aventura pessoal num contexto social”. Em Vigotsky, o conhecimento ocorre a partir do que é sabido pelo indivíduo de seu cotidiano, do que ele internalizou ao longo de seu desenvolvimento, por meio das relações sociais estabelecidas, como produção cultural (Vigotsky, 1998).
Outro ponto no qual as ideias dos dois pensadores se assemelham, é em relação aos métodos de ensino que consideram inadequados. Ambos apresentam críticas à educação como simples transmissão de conhecimento, ao modo de ver o sujeito como individual, a-histórico, como se o seu saber não sofresse influência da cultura e o indivíduo não estivesse inserido em uma sociedade.
Moura (1998), assinala que tanto Paulo Freire como Vigotsky preocupavam-se com os problemas que afetavam a sociedade como a fome, a miséria, as injustiças, a opressão, ou seja, todas as formas de exclusão social, principalmente o analfabetismo; considerado como uma forma de “castração” dos sujeitos (Paulo Freire) e uma “interrupção no processo de desenvolvimento” (Vigotsky), constituindo-se como resultado de uma sociedade desigual e injusta. Ambos buscam a gênese histórica do analfabetismo e as suas consequências na vida dos sujeitos, procurando analisar as causas político-pedagógico para o fracasso escolar das
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crianças, traduzido na repetência, na exclusão e na expulsão precoce, que resulta no analfabetismo adulto.
Para Moura (1998), os dois entendem que a educação não é um ato de memorização mecânica desvinculada de um universo existencial. Ambos atribuem à linguagem um papel preponderante na vida dos sujeitos. Também atribuem à palavra um estatuto central de seus estudos e pesquisas. A palavra, como o signo responsável pelo desenvolvimento cultural dos sujeitos, já que ela é o signo cultural de mediação, responsável pela transformação das funções naturais de inteligência do sujeito para as funções superiores ou culturais. Em Paulo Freire, a palavra possui duas dimensões: ação e reflexão, que são unificadas na práxis. A palavra é a mediadora do homem com o mundo e tem a função de transformar o mundo.
Ainda para Moura (1998), tanto em Paulo Freire quanto em Vigotsky, a leitura e a escrita ao serem “interpretadas”, “construídas” e “internalizadas” pelos sujeitos, não só se consolidam como um ato cognoscente, mas também, engendram outros processos cognoscentes e interventivos. Para os dois, a “apropriação” da linguagem escrita é o resultado da relação entre o desenvolvimento da linguagem verbal, do pensamento e da representação da realidade. Para a autora, em Vigotsky essa representação se faz a princípio, em forma de “rascunho mental”, por meio do pensamento, da linguagem interior, para chegar ao processo de ensino-aprendizagem, à produção da linguagem enquanto um sistema de comunicação real.
Outro ponto de convergência entre Paulo Freire e Vigotsky, são as influências socioculturais sobre as capacidades cognitivas dos sujeitos. Paulo Freire afirma que a aprendizagem ocorre nas relações entre os seres humanos num espaço que não é apenas físico, mas histórico e cultural. Vigotsky assegura que o desenvolvimento das funções superiores ou da inteligência cultural do homem não é tão somente uma evolução fisiológica e biológica, mas histórica e cultural. Ambos entendem o homem como ser portador e produtor de cultura, um ser de relações socioculturais possibilitadas pelo trabalho, pela ação e transformação da natureza.
Eles dão ênfase ao diálogo como estruturante das relações sociais. Em Paulo Freire e Vigotsky a relação sujeito-sujeito e sujeito-mundo são indissociáveis. Isso fica claro na fala de Paulo Freire (1992, p. 68) quando ressalta que, “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”.
Os dois entendem que os conteúdos da experiência histórica do homem não estão consolidados somente nas coisas materiais, mas principalmente, nas formas verbais de comunicação produzidas entre os homens. É por meio da linguagem que se dá a interiorização
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dos conteúdos, pois ela faz com que a natureza social das pessoas se torne também sua natureza psicológica.
O termo experiência tem sido empregado para nomear diversas situações, como por exemplo, no sentido filosófico, no qual a apreensão de uma realidade por parte de um sujeito, uma forma de ser, um modo de fazer, uma maneira de viver, ou seja, a experiência, é um modo de conhecer algo imediatamente antes de todo juízo formulado acerca do apreendido; também pode ser a apreensão sensível da realidade externa, sendo essa realidade dada por intermédio da experiência.
Para a psicologia e a psicanálise, a experiência é aquisição prática, pelo indivíduo, dos conhecimentos que o contato direto com os eventos físicos ou mentais lhe proporciona. As duas áreas do conhecimento tem em comum a ideia de que a experiência remete àquilo que foi aprendido, experimentado e que em algum momento foi vivido pelo indivíduo na sua história de vida24.
Essa mesma ideia encontra-se em Vigotsky ao explicar que a imaginação nutre-se de materiais tomados da experiência vivida pelo indivíduo. Quanto mais rica for a experiência humana, tanto maior será o material colocado à disposição da imaginação, ou seja, a capacidade criadora está relacionada à ampliação da experiência cultural do sujeito.