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Como ocorre a construção do conhecimento humano?

Para responder a pergunta foram desenvolvidas várias teorias. Dentre elas a de Lev Semenovich Vigotsky que enfatiza o caráter transformador da atividade humana. Em sua visão o sujeito é herdeiro da evolução filogênica e cultural e o seu desenvolvimento ocorre na relação homem-mundo.

Por essa concepção, na interação com os outros o indivíduo elabora seus conhecimentos. Dessa forma o conhecimento tem sua gênese nas relações sociais, sendo produzido na intersubjetividade e marcado por condições culturais, sociais e históricas.

Para Vigotsky (1984), o homem produz seus conhecimentos por meio da linguagem nas inter-relações com outros sujeitos e pela apropriação do saber da comunidade em que o indivíduo vive. Assim, são construídos instrumentos e signos linguísticos como elementos facilitadores da relação entre o homem e mundo.

Os instrumentos foram criados pelo homem para exercer a sua atividade, servem de mediadores com o meio. Os instrumentos potencializam o corpo e a mente humana. Externamente, a atividade do homem é mediada por instrumentos técnicos que favorecem e ampliam as suas ações sobre os objetos. Quando a sua mão não alcança o alvo que deseja, o homem procura ou constrói um objeto que favoreça a sua ação. O uso desses recursos pode não advir simplesmente da presença deles no seu campo perceptual, mas de sua capacidade inventiva e criadora em busca de resolução de um problema. O homem, por desenvolver imagens mentais, conserva em sua experiência e guarda o instrumento, passando a usá-lo como mediador em outras situações.

Nesta perspectiva, o trabalho humano une a natureza ao homem e cria a cultura e a história do homem, desenvolve a atividade coletiva, as relações sociais e a utilização de instrumentos. Os instrumentos são utilizados pelo trabalhador, ampliando as possibilidades de transformar a natureza, sendo assim, um objeto social.

Segundo Vigotsky (1984) o mesmo ocorre com a utilização de instrumentos psicológicos - os signos linguísticos que serve de mediadores para a interação sócio afetiva e cognitiva dos indivíduos, desenvolve suas funções psicológicas superiores, aquelas ligadas à consciência, que marcam o seu desenvolvimento como pessoa – sua ontogênese. A atividade

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humana regulada pelos instrumentos psicológicos dá origem ao pensamento e permite ao indivíduo controlar o seu próprio comportamento, as suas ações sobre os outros homens. O que permite ao ser humano conservar, registrar e transmitir suas experiências favorecendo a continuidade de sua história.

A capacidade humana para a linguagem faz com que o homem crie os signos, meios que auxiliam a função psicológica superior e permitem ao homem realizar operações cada vez mais complexas sobre os objetos. Segundo Vigotsky, com o uso dos signos ocorrem duas mudanças qualitativas no pensamento humano: o processo de internalização e a utilização de sistemas simbólicos. A internalização está relacionada ao recurso da repetição onde o indivíduo apropria-se da fala do outro, tornando-a sua. Já os sistemas simbólicos organizam os signos em estruturas complexas e articuladas. Essas duas mudanças demonstram a importância das relações sociais na construção de processos psicológicos e no desenvolvimento dos processos mentais superiores. Os signos são internalizados e compartilhados pelo grupo social, permitindo o aprimoramento da interação social e a comunicação entre os sujeitos.

Nesta perspectiva, todas as funções psicológicas superiores, aquelas ligadas à consciência, como estabelecer relações, planejar, comparar e lembrar supõem um processo de representação mental. Entretanto, lidar com essa representação significa possibilitar ao homem libertar-se do espaço presente, em estabelecer relações mentais na ausência das próprias coisas, imaginar, planejar, ter intenções. Assim, quando se trabalha os processos mentais superiores que se distinguem do funcionamento psicológico típico dos seres humanos, as representações mentais da realidade exterior são na verdade os principais mediadores a serem considerados na relação homem-mundo.

As funções psicológicas superiores aparecem duas vezes no desenvolvimento do indivíduo. A primeira vez, no nível social, entre as pessoas - nível interpsicológico. A segunda vez, no nível individual, no interior do indivíduo - nível intrapsicológico. É a partir da internalização da cultura mediada por outro individuo, que o sujeito se constitui como singular. Vigotsky (1998) assinala que tudo o que constitui o sujeito já esteve antes no âmbito social, isto quer dizer que antes de fazer parte do intrassubjetivo, os processos psicológicos fizeram parte da intersubjetividade. Esse movimento ocorre pela internalização, que possibilita ao sujeito se apropriar do que existe no externo por meio da mediação de signos apropriados na relação com outros, para torná-la interna. Assim, o sujeito constrói a si e aos outros.

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Como o desenvolvimento ocorre do nível social para o individual, exige-se a utilização de instrumentos para transformar a natureza e, a forma, o planejamento, a ação coletiva, a comunicação social. Pensamento e linguagem associam-se devido à necessidade de intercâmbio durante a realização do trabalho. Assim, o grupo cultural fornece ao indivíduo um ambiente estruturado onde os elementos são carregados de significado cultural. Visto que os significados das palavras fornecem a mediação simbólica entre o indivíduo e o mundo. Para Vigotsky, é no significado da palavra que a fala e o pensamento se unem em pensamento verbal. Pensamento e linguagem iniciam-se pela fala social passando pela fala egocêntrica e atingindo a fala interior que é o pensamento reflexivo.

Nessa linha de pensamento, a fala egocêntrica da criança é a interiorização de uma linguagem social que ocorre inicialmente como uma forma de regulação do comportamento do outro. À medida que a criança se desenvolve, a fala egocêntrica expressa e permite uma auto regulação, o controle e o planejamento do próprio comportamento, ou seja, a fala egocêntrica assinala a passagem de uma linguagem social externa para uma linguagem individual interna (pensamento).

A fala egocêntrica emerge quando a criança transfere formas sociais e cooperativas de comportamento para a esfera das funções psíquicas interiores e pessoais. No início do desenvolvimento, a fala do outro dirige a ação e a atenção da criança, que se utiliza dela de forma a afetar a ação do outro. Durante esse processo, a criança passa a entender a fala do outro e a usar essa fala para regulação do outro. Ela começa a falar para si mesma, assumindo a função autorreguladora, e é assim que o indivíduo torna-se capaz de atuar sobre suas próprias ações por meio da fala.

O surgimento da fala egocêntrica indica a trajetória da criança, na qual o pensamento parte dos processos socializados para os processos internos. A fala interior ou discurso interior é a forma de linguagem interna, que é dirigida ao sujeito e não a um interlocutor externo. Essa fala interior se desenvolve mediante um lento acúmulo de mudanças estruturais, fazendo com que as estruturas de fala que a criança já domina, tornem-se estruturas básicas de seu próprio pensamento. A fala interior não tem a finalidade de comunicação com outros, portanto, constitui-se como uma espécie de dialeto pessoal, sendo fragmentada, abreviada.

Enfim, no convívio social, a experiência interpessoal possibilita o processo de elaboração e reelaboração de sentidos que organizam e integram a atividade psíquica dos participantes da relação. Este movimento relacional cria múltiplas possibilidades de significação, construídas no momento da relação, a partir de uma dinâmica complexa entre o

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pessoal e o social, que só pode ser compreendida no contexto de mútuas e contínuas influências, fazendo aparecer novas reorganizações que surgem em cada experiência intersubjetiva.

O meio como fonte de conhecimento, na perspectiva histórico-cultural é construído a partir da atividade relacional dos indivíduos com os elementos naturais e sociais que o constituem. Esse meio é natural e social e resultado das relações culturais. Essa noção de cultura, integrante do processo de construção de conhecimento, é a concepção central para a aprendizagem, e está incorporada na experiência dos indivíduos.