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Computational Study

7.1 Test Case I: The Stern Trawler

Não creio que apenas os artistas contemporâneos anseiem por sentido. Talvez essa busca incessante seja algo inato, com tendência a se alargar, na medida em que evoluímos, mesmo sem saber para onde ou para quê. Essa instabilidade íntima e relacional repercute no meio artístico e vice versa: “A arte não redime mais. E os artistas contemporâneos incorporam e comentam a vida em suas grandezas e pequenezas, em seus potenciais de estranhamento e em suas banalidades” (CANTON, 2009, p. 34). O excesso de informações diárias a que estamos expostos gera estímulos e, ao mesmo tempo, um desgaste nas nossas relações. Por essa razão, a memória se tornou “condição básica da nossa humanidade [...] uma das grandes molduras da produção artística contemporânea...”(CANTON, 2009, p. 34). Essa condição nos desorienta a tal ponto que altera as nossas relações com o tempo: passado, presente e futuro se confundem e evaporam diante dos nossos olhos. Segundo Katia Canton:

[...] nas artes, a evocação das memórias pessoais implica a construção de um lugar de resiliência, de demarcações de individualidade e impressões que se contrapõem a um panorama de comunicação à distância e de tecnologia virtual que tendem gradualmente a anular as noções de privacidade, ao mesmo tempo que dificultam as trocas reais. (2009, p. 21-22)

De acordo com Bordini, a “virtualização das relações, operada pelos meios eletrônicos de computação, desafia os artistas da palavra - a trabalhá-la artisticamente para emancipar o indivíduo do século XXI da tirania do virtual, que já está instituída” (2005, p. 43). Não há dúvida que alguns artistas “ainda pintam e outros fazem aquilo a que a tradição se referiria como escultura, mas estas práticas agora ocorrem num espectro muito mais amplo de atividades”, ressalta Archer (2001, p.01). Contudo, apesar dessas afirmações e assimilações dos artistas junto às novas tecnologias, não são

apenas os artistas das palavras que são desafiados, nem mesmo pintores ou escultores.

Há uma categoria pouco mencionada nessas especulações, os ceramistas. É provável que o fato de trabalharem com o barro, uma matéria tão oposta aos novos meios tecnológicos, acabe por marginalizá-los diante destas considerações tão comuns à contemporaneidade. De acordo com Spinelli (1998-99, p.11): “Toda concepção artística pressupõe uma articulação - forma de representação ou de visão do mundo”. Para os artistas contemporâneos, essas representações não se cristalizam numa única configuração, suas obras devem ser abertas e atemporais. Para alguns ceramistas ou artistas que se utilizam da matéria-prima do barro, terra ou pó de tijolo, isso não é diferente:

Na exposição Gestos Arcaicos de Celeida Tostes,

exposta na 21ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, a ceramista utilizou quatro toneladas de argila para compor três imensos painéis repletos de peças disformes: "Gesto Arcaico foi o nome dado para a ação reflexa da mão que encontrou no barro macio [...] não há nenhuma intenção de forma, é uma construção onde o olhar irá construir a sua história, um objeto e sua respectiva referência”, explica Vicente de Percia.

Outra obra que trata do excesso é Muitos, uma instalação, da artista Anna Maria Maiolino. Nos anos de 1990, a artista conformou grandes quantidades de argila para realizar algumas de suas instalações.

Quando comecei o trabalho com acúmulos de formas na escultura moldada e nas instalações, era de certa maneira o querer driblar a

Fig. 24 Celeida Tostes Gestos Arcaicos Instalação cerâmica, 1991 Fig. 25 Ana Maria Maiolino N° 2. Muitos, uma instalação Galeria Gabinete de Arte Raquel Arnaud, São Paulo, 1995

pulverização da arte contemporânea. Me apegar ao gesto da mão que trabalha, sempre permanente e primordial, era querer me

4 segurar, encontrar um caminho de restauro .

Maiolino enfatiza a ação do artista como um gesto único nas suas formas mais simples, como os rolos de argila utilizados em suas instalações, que são realizados com a mesma técnica dos rolinhos, uma das mais antigas formas de modelagem. Segundo Paulo Venâncio Filho (2010):

[...] esses objetos de argila [...] podem muito bem representar o somatório das ações cotidianas que a mão realiza desmemoriadamente. São testemunhos concretos do fazer rotineiro que costuma dissipar-se sem registro. Em cada um deles está presente o tempo e a ação necessária para a sua realização.

Na exposição Heterotopias Cotidianas, apresentada no Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural Dragão do Mar em Fortaleza, Ceará, no período de novembro de 2009 a 19 de janeiro de 2010, Shirley Paes Leme, contribuiu com uma de suas instalações, intitulada Sua Terra. A artista também trabalhou com o acumulo, com o excesso, e na época seguiu preenchendo todo o piso de uma sala com um intenso

agregamento de terra cinza molhada. A desidratação da terra ocorre lentamente devido

aos raios de sol, que entram pelas vidraças até secar e rachá-la por completo. O chão do sertão aparece ali, num exercício da memória, seco e árido que nos enche de uma 4 Ana Maria Maiolino, Artigo realizado por Camila Molina. Jornal do Estado de São Paulo. Disponível em: http://estadao.br.msn.com/cultura/artigo.aspx?cp-documentid=25270076. Atualizado:

imensa solidão que finda nas paredes brancas da galeria e não nos sacia o olhar.

Para a criação desse projeto, levei em conta estudo sobre o conceito de heterotopias criado pelo pensador Michael Foucault, o espaço da cidade e o sertão cearense onde busquei estabelecer relações entre arte/vida como constituinte da obra. [...] como o espaço que se recorta do espaço cotidiano e traz condições para que haja experiências específicas e variadas e que se transformam constantemente. (LEME, ANPAP, 2010, p.1732)

Complexas, essas obras são exemplos de um tempo que se esvai, sobre o qual não temos controle, que não abraçamos e, também, não nos pertence mais. A memória

aparece como uma espécie de elemento gerador de algumas delas, pois permite que a lembrança sobrevoe um tempo de experiências novas, de uma paisagem ligada a nossa terra natal ou às recordações de nossa casa como faz Brígida Baltar (2008):

Acho que a primeira ação foi transformar o tijolo da casa que eu vivi em pó. Isso aconteceu em meados dos anos 1990. Foram muitos tijolos e algumas paredes. Isso foi se traduzindo para mim num sentido de desaparecimento de algo que, a princípio, é bastante sólido. Afinal a idéia de propriedade pode ser muito fixa e estável. É como se em pó a casa pudesse viajar para outros lugares. E depois este pó podia também servir para outros fins, outras construções, outras paisagens. Fiz minitijolos moldados deste pó e daí

Fig. 26 Shirley Paes Leme Sua terra Instalação da Exposição: Heterotopias cotidianas, realizada no Museu de Arte Contemporânea Centro Cultural Dragão do Mar, Fortaleza, 2009 Fig. 27 Brígida Baltar A horta da casa Temperos e ervas plantados em 25 tijolos Dimensões variáveis Paralela 2008, São Paulo

intervenções em frestas, espaços vazios, pequenas 5 ocupações, pequenos ofícios... (Informação verbal)

Em 2008, Brígida Baltar levou da sua própria casa alguns tijolos para compor a instalação Horta da casa, na mostra Paralela 2008.

Outros artistas brasileiros como Carlos Fajardo e Marepe, dentre outros, já utilizaram o tijolo para compor algumas de suas obras. No entanto, de forma muito singular, Brígida consegue captar outro significado para esse objeto tão usual e comum na construção civil. Ela transforma o pedaço de barro cozido, que exerce comumente a função de material construtivo em matéria receptiva de cultivo e de plantio.

O uso desse material não finda nessa única transformação. Transitório, o pó de tijolo arrancado da casa de Brígida passeia em outras criações da artista. O pó do tijolo é retirado do lugar de origem para ocupar outro espaço, transita e integra outras produções, como as obras Canto

brocado e Pó e paisagem, dentre outras. Surpreendentemente, em 1996, a

artista cava a própria parede de sua casa-ateliê para criar a obra Abrigo, em que projeta a forma da sua silueta, inserindo-se, depois, nessa espécie de casulo, assumindo o seu lugar.

Na arte contemporânea, assim como na vida, identidade e alteridade se mesclam [...] A evocação do corpo e o registro da memória pessoal na arte contemporânea passam a ser bandeiras 5 Trecho retirado da conversa entre Brígida Baltar e Marcelo Campos, curador da exposição E agora, toda terra é barro, realizada no Centro Cultural Banco do Nordeste, Fortaleza. 04/07/2008. Disponível em:

http://accosta.posterous.com/brigida-baltar-e-agora-toda-terra-e-barro.Informação verbal. Fig. 28 Brígida Baltar Abrigo Escavação em parede 1996

de resistência, demarcações de individualidade, impressões digitais que se contrapõe a um panorama de comunicação à distância e de tecnologia virtual, tendendo a gradualmente anular noções de privacidade e a dissolver as fronteiras da individualidade. Na obra de alguns artistas, a evocação do outro se torna uma homenagem à alteridade e a constatação da interdependência dos múltiplos eus que condensam a experiência vivida. (CANTON, 2002, p. 12)

Para evocarmos o outro é necessário doar algo de nós, materializando um desejo de expor experiências vividas ou deixar que elas ecoem de forma quase velada, a fim de instigar o público, convidá-lo, de alguma forma, a participar, refletir ou compartilhar.

Arte cerâmica: a memória como elemento criativo é um apanhado de retificações, no qual pretendo, por meio dos antecedentes sobre o legado azulejar, alcançar novas influências contemporâneas, explorando suas premissas na busca de uma nova identidade. As artistas mencionadas são exemplos distintos da transitoriedade, das possibilidades poéticas que podem abrigar o uso de materiais como o barro, a terra e o pó.

Essas referências me permitem transitar do plano bidimensional ao tridimensional, ao efêmero, ao relacional, e mais que tudo, expandir o olhar, possibilitando a continuidade da temática da memória, rumo a novas perspectivas teóricas ou formais, que transcendam e sugiram ampliações desta pesquisa.

Como mencionado, este primeiro capítulo trata de referências importantes e fundamentais, as quais promovem a reflexão e o fazer, em busca de uma nova produção em cerâmica, que é a matéria-prima deste trabalho. No segundo capítulo, vamos acompanhar, primeiramente, a importância das memórias femininas, por meio dos registros da escrita e da palavra como elemento criativo. Depois, discorrerei porque elejo Zandra Coelho de Miranda, Caroline Harari e Maria Bonomi, três artistas fundamentais

para a concretização dessa nova produção em cerâmica da qual trataremos mais adiante.

CAPITULO II

Mulheres que tratam da