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ao entrar no galpão expositivo, tinha acesso a um caderno com as traduções das interpretações feitas por várias profissionais e suas respectivas identidades:

Sophie, O título é um tanto descuidado. Há algum tempo venho querendo lhe escrever e responder ao seu último email. Ele deveria ter respondido imediatamente. Ao mesmo tempo, me pareceria melhor conversar com você e dizer o que tenho a dizer de viva voz. Frase desajeitada: pesada e deselegante. Mas pelo menos será por escrito. E daí? Como você pôde ver, não tenho estado bem ultimamente. Coitadinho! É como se não me reconhecesse na minha própria existência. Não nos interessa; ele não deveria falar de si. (Aliette Eicher, Condessa Von Toggenburg, Consultora de etiqueta e protocolo, 2009, p.26)

As mulheres que participaram do projeto foram selecionadas de acordo com suas profissões e deveriam relacionar a proposta de acordo com a sua especialidade na produção dos textos ou em suas interpretações. Segundo a artista, a proposta era

“jogar” com a frieza técnica: “Pedi às participantes que analisassem a carta

profissionalmente. A gramática teria de falar de gramática”, explica, e “não que as mulheres expressassem seus sentimentos por mim”. Obedecendo ao pedido cada profissional respondeu de acordo com sua profissão:

ANÁLISE DE UMA CARTA ANÔNIMA [...] E “é claro que ele sofrerá se não puder mais vê-la”, mas ele rapidamente se curva à decisão por ela tomada de pararem de se ver, e ele a fez sentir-se um pouco

mais culpada ao dizer que “sentirá saudade dela”. Não há dúvidas de que a mulher para quem ele escreve o lisonjeava, mas ele não dá a mínima para o seu sofrimento, para a frustração produzida pela dor que ele causa. Eu estou destruindo você, estou partindo o seu coração, estou devastando você, mas, o que quer que aconteça, cuide de você! Por fim, um pequeno refrão romântico: “Eu amo você, nunca deixarei de amar você, etc., etc.” Como se fosse ela que o tivesse deixado. Os papéis estão

invertidos. (Michèle Agrapart-Delmas,

Criminologista, 2009, p.41)

A exposição reuniu ampliações das versões comentadas de uma psiquiatra, uma escritora de cartas, de palavras cruzadas, professora de educação infantil, revisora, historiadora, tradutora, entre outras. Algumas profissionais analisaram a proposta e elaboraram textos específicos, outras com linguagens menos ortodoxas, como o Braile, Código Morse, Código de barras ou notas musicais. No elenco dessas mulheres, também participaram uma vidente, uma jogadora de xadrez, uma sexóloga e a própria mãe da artista:

Compartilho do seu desapontamento com tudo isso, mas não precisa fazer muito drama. O seu “amor” durou apenas três ou quatro estações e vocês sequer chegaram a morar juntos. Se você tivesse ficado 25 anos com um homem e depois fosse trocada por uma garotinha por causa da crise da meia-idade, essa seria uma situação clássica, e muito mais dolorosa. Pense que o que você tem em mãos é o melhor tipo de carta. Um músico teria dito que ouviu uma nota errada em seu coração. Um encanador teria falado que seus sentimentos estão vazando pouco a pouco, um eletricista teria mencionado um

repentino “curto-circuito” e um representante de uma loja de eletrodomésticos teria recorrido ao fim da garantia. Lembremos de antigos provérbios: “antes só do que mal-acompanhada”, “há males que vêm para o bem”, etc. (Monique Sindler, Mãe de Sophie Calle, 2009, p.50)

Calle se vale, literalmente, da sua experiência pessoal como elemento propositor de seus projetos, da vida real e imaginária, criativa e polêmica. Com esse trabalho especificamente, ela atingiu o público feminino em cheio. De acordo com Solange Farkas, curadora da exposição no Museu de Arte Moderna da Bahia, em entrevista à

Revista Valor: “não há como não entender a idéia geral, que não deixa de ser engraçada

e mesmo comovente. Poucas mulheres não vão se identificar com a iniciativa da artista e sua capacidade de transcender a dor” (Revista Valor, Cadão Volpato, junho de 2009).

Na obra de Sophie, o momento passado se torna presente, o anônimo se revela aos quatro cantos, um momento de intimidade torna-se uma performance coletiva; sujeito e objeto da obra não se separam e acabam por atingir o público de forma iminente, direta ou indiretamente permitindo à prática artística experimentações sociais diversas.

Diferentes entre si, as cartas de Frida e as interpretações enviadas à Sophie demonstram como é comum artistas utilizarem suas lembranças ou experiências de vida como elo com o público, conduzindo ou provocando, seja através das suas próprias recordações, ou as de outras pessoas, como explica Bourriaud (2009, p.85):

[...] há alguns anos vêm se multiplicando os projetos artísticos convivais, festivos, coletivos ou participativos, que exploram múltiplas potencialidades da relação com o outro. O público vê-se cada vez mais levado em conta. Como se agora essa “aparição

única de um distante”, que é a aura artística, fosse abastecida por esse público: como se a microcomunidade que se reúne na frente da imagem se tornasse a própria fonte da aura, o “distante” aparecendo pontualmente para aureolar a obra, a qual lhe delega seus poderes.

Quando nos apropriamos do que é do outro, a idéia do que pode ou não ser feito com essas informações é ilimitável. Segundo o autor, a arte contemporânea opera um deslocamento radical. As obras de Sophie, por exemplo, sempre resultam em efeitos coletivos, questionam o público, suas origens e seus resultados. No caso de Frida e Sophie, o efeito das cartas redigidas pela primeira e das interpretações recebidas pela segunda, é que, em todas elas, as memórias afetivas femininas predominam e

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funcionam como um dispositivo relacional .

No contexto das produções de cerâmicas contemporâneas, podemos encontrar diversos artistas que utilizam a memória como elemento para suas criações e o barro como suporte das mais diversas possibilidades. Eleger poéticas que tivessem afinidade com a minha própria e abordassem a temática da memória levaram-me a seguinte escolha: Zandra Coelho de Miranda, Caroline Harari e Maria Bonomi. Trata-se de três artistas contemporâneas que utilizam a cerâmica como suporte parcial ou total de suas obras, e uma determinada alusão a um tipo específico de memória significativa.

Durante o ano de 2008, um dos trabalhos exigidos na disciplina Metodologia da

Pesquisa Científica em Ciências Humanas, ministrada pelo Prof. Dr. João Cardoso de

8 Segundo Nicolas Bourriaud, uma obra pode funcionar como dispositivo relacional com certo grau de aleatoriedade, máquina de provocar e gerar encontros casuais, individuais ou coletivos. Boa parte do trabalho de Sophie Calle consiste em apresentar seus encontros com desconhecidos, formalizando sua experiência biográfica que a leva a “colaborar” com as pessoas com quem se deparou. (2009, p. 42-43)

Palma Filho, foi a análise metodológica de uma tese que se relacionasse com a minha própria pesquisa. A partir desta proposta, tomei conhecimento da primeira personagem que venho tratar nesta pesquisa, a ceramista Zandra Coelho de Miranda, que havia defendido na época sua tese de Doutorado: Impressões em Cerâmica: convite ao

encontro caótico entre a cerâmica, a gravura e o fogo, pela UNICAMP, provocando um

encantamento imediato.

Depois de algum tempo, sob a orientação da Profª. Drª. Lalada Dalglish, eu pude conhecer a obra da ceramista Caroline Harari, que, por intermédio da sua produção em cerâmica, resgatava a tradição dos bordados e das rendas, aliadas à tradição do barro com uma delicadeza impressionante.

Para pontuar definitivamente o estudo sobre a memória como elemento criativo das produções contemporâneas em cerâmica, adotei a artista multimídia Maria Bonomi, contemplando duas de suas obras mais importantes e monumentais que coabitam a cidade de São Paulo: Etnias - Do primeiro e Sempre Brasil e Epopéia Paulista, ambas instaladas em estações do metrô da cidade, convidando-nos à reflexão.

Distintas entre si, todas utilizam a mesma matéria-prima: o barro. A memória surge delineada por olhares singulares. Cada uma delas apaixonadas pelo seu fazer, aborda um viés diferente. Personagens que, ao longo da pesquisa, reforçaram a riqueza da arte cerâmica, a necessidade de se preservar valores históricos e sociais, tornando- se exemplos vivos de uma representativa soma: trabalho, dedicação e muito barro. Talentos femininos a favor de uma arte milenar, representantes de uma personalidade calcada por ideais e que vislumbram na cerâmica uma matéria do futuro.

Neste capítulo, serão abordados os processos criativos de cada uma delas, elucidando as características que constituem suas produções, investigando seus posicionamentos frente à arte e as relações que mantêm com a memória e o uso que

fazem da cerâmica como suporte perene de questões fugidias em nossa contemporaneidade.

2.2. Zandra Coelho de Miranda

encontros nao caoticos, unioes