TOTATT
1. Tertialrapport 2017
3.1.1.
3.1.1.
3.1.1. O (in)sucesso na educaçãoO (in)sucesso na educaçãoO (in)sucesso na educaçãoO (in)sucesso na educação
No domínio educativo existem várias perspectivas distintas de insucesso: há autores que relacionam o insucesso com a obtenção de fracos resultados escolares; outros entendem que o insucesso tem a ver com as dificuldades de aprendizagem apresentadas pelos alunos; outros associam este termo à falta de valores, às atitudes incorrectas, à má formação; outros referem- no para lembrar a necessidade de trabalhar para atingir o sucesso; outros ainda estabelecem a distinção entre o insucesso do aluno e o insucesso da instituição. Em suma, o termo insucesso pode ter diferentes sentidos, consoante as diferentes perspectivas de quem o utiliza.
Numa acepção mais restrita, Alexandre (1999: 8) considera que “há insucesso ou fracasso escolar quando algum ou alguns dos objectivos da educação escolar não são alcançados”. Num sentido mais amplo, Perrenoud (2000: 18) apresenta um conceito mais abrangente de insucesso, referindo que normalmente se define “o fracasso escolar como a simples consequência de dificuldades de aprendizagem e como a expressão de uma falta objectiva de conhecimentos e competências”. Para o autor (2003: 2), falar de sucesso escolar, hoje em dia, significa falar de duas coisas distintas: o “desempenho dos alunos: obtêm êxito aqueles que satisfazem as normas de excelência escolar e progridem nos cursos” e “o sucesso de um estabelecimento ou de um sistema escolar no seu conjunto; são considerados bem- sucedidos os estabelecimentos ou os sistemas que atingem seus objectivos ou que os atingem melhor que os outros”.
Nesta linha de pensamento encontra-se também Rovira (2004: 83), para quem o insucesso pode ser analisado em duas perspectivas distintas: a perspectiva do aluno e a perspectiva da instituição, tal como apresentamos no Quadro 3.1:
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INSUCESSO ESCOLAR
Alunos Instituição escolar
- aqueles que não se conseguem adaptar às normas da escola;
- os que não conseguem manter o seu comportamento dentro dos limites que a comunidade escolar estabelece (onde se enquadram aqueles que são violentos, ruidosos, mal-educados e conversadores);
- os que são pouco trabalhadores.
- quando o aproveitamento dos alunos é baixo;
- quando a adaptação social dos alunos é deficiente;
- quando se destrói a auto-estima dos alunos.
QUADRO 3.1 – Insucesso escolar a nível dos alunos e da instituição escolar (adaptado de Rovira, 2004)10
Perrenoud (2003: 6) acrescenta, ainda, que o sucesso escolar, ao contrário da felicidade e do sucesso na vida, que se definem tendo em consideração factores pessoais, depende de critérios “devidamente estabelecidos e proclamados pelo sistema educacional”, o que lhe permite afirmar que o “sucesso ou o fracasso não são características intrínsecas dos alunos, mas o resultado de um julgamento feito pelos agentes do sistema educacional sobre a distância desses alunos em relação às normas de excelência escolar em vigor.” A propósito das desigualdades existentes no ensino, Perrenoud (2003:25) refere que “tratando todos os alunos, por mais desiguais que sejam de fato, como iguais em direitos e deveres, o sistema escolar é levado a dar, na verdade, sua sanção às desigualdades iniciais diante da cultura”. Também Bourdieu (1975: 58) se encontra nesta linha de pensamento, defendendo que “Ao atribuir aos indivíduos esperanças de vida escolar estritamente dimensionadas pela sua posição na hierarquia social, e operando uma selecção que – sob as aparências da equidade formal – sanciona e consagra as desigualdades reais, a escola contribui para perpetuar as desigualdades, ao mesmo tempo em que as legitima”.
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Com uma clara alusão ao empenho imprescindível para atingir o sucesso, Nóvoa (2006: 3) sublinha que “em educação é impossível colher aquilo que não se semeia” e questiona-se sobre “Quem está disposto a bater-se pela escola? Quem acredita na importância da cultura escolar (literária, artística, científica), de uma cultura que é feita de trabalho, de persistência, de continuidade, de justiça, de diálogo?” Também Jesus (1998: 33-34) sublinha que “o sistema instituído fomenta o facilitismo, a preguiça e a malandrice”, no sentido de chamar a atenção para a necessidade de não perdermos a qualidade necessária no ensino.
Como podemos concluir, definir insucesso parece tarefa árdua dadas as várias perspectivas existentes. Pires (1987: 11) afirma até que “não existe esta definição porque não pode existir!”, afirmando ainda que “não existe um, mas vários insucessos escolares. Depende tudo da perspectiva em que nos colocamos: insucesso em relação a quê? – em relação ao aluno ou em relação à escola?” Tendo em consideração estas duas perspectivas do insucesso, o mesmo autor (1988) distingue entre insucesso visível (de cariz quantitativo, traduzido em repetências, reprovações e abandonos) e invisível (de índole qualitativo como as frustrações individuais, a formação inadequada e o alheamento face à preparação para a participação democrática.
Independentemente da definição de sucesso ou insucesso escolar (ou educativo), o mais importante é que a escola se organize de forma a proporcionar condições ao aluno para concretizar o pleno desenvolvimento das suas potencialidades. É nesse sentido que Fernandes (1990: 78-80), tendo em consideração uma perspectiva educativa de formação integral do aluno, defende que
“a escola, além de promover os valores, deve conduzir os educandos ao pleno desenvolvimento da sua personalidade e levá-los, progressivamente, a colocarem-se em condições de assumirem as responsabilidades da sua existência; deve prepará-los para que se integrem na comunidade a que pertencem e dispô-los a serem acessíveis aos outros para o diálogo e o amor, a orientá-los no serviço do bem-comum.”
Antes de finalizarmos a nossa análise conceptual, importa ainda estabelecer a distinção entre sucesso escolar e sucesso educativo.
O sucesso escolar parece mais restrito e “deveria coincidir com o conjunto das missões da escola, portanto cobrir uma parte da acção educativa, aquela que caberia à escola assumir” (Perrenoud, 2003: 10). No entanto, existe também “um
sucesso educativo global
, incluindo a acção da escola, mas também levando em conta o trabalho das outras instâncias, a família, a mídia, a rede de associações, a comunidade, os clubes desportivos”(idem
: 11). Parece-nos,54
pois, que o segundo conceito é mais abrangente e se encontra mais concordante com os nossos propósitos, sendo adoptado por nós ao longo do trabalho na medida em que ele pressupões que o (in)sucesso dos alunos pode ser influenciado pelas práticas de articulação curricular, deslocando o foco dos deficits do aluno. De salientar, ainda, a advertência de Perrenoud quando afirma que “A ideia de sucesso educativo tem um significado eminentemente político” (
idem
: 12) e que para se atingir depende de determinadas premissas e factores definidosà priori
pelo sistema político vigente. Por conseguinte, não o podemos considerar ingénuo e absoluto, antes relativo e circunstancial.Após esta breve abordagem ao conceito de sucesso, importa reflectir sobre o que está na origem do insucesso educativo.