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Terrestrisk miljø

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Dentro deste contexto, surge a questão da inserção da mulher no mercado de trabalho. Rago (1997, p. 588) descreve que a crescente incorporação das mulheres na esfera pública fez com que o trabalho feminino fora do lar passasse a ser incluído entre discussões anteriores como adultério, virgindade, casamento e prostituição. Para muitos, o trabalho feminino fora do lar seria a desagregação da família, pois como elas poderiam trabalhar de dia, preocuparem-se com o marido, cuidarem da casa e educarem seus filhos?

A autora citada acima coloca que isto acabou por levar a delimitação de rígidos códigos morais para as mulheres de todas as classes sociais. As mulheres trabalhadoras pobres eram consideradas profundamente ignorantes, irresponsáveis e incapazes, mais irracionais que as mulheres das camadas médias, mais irracionais que os homens (RAGO, 1997, p. 588-589). A maior parte destas mulheres trabalhadoras pobres (europeias do século XIX) estavam no campo, trabalhando nas plantações, cuidando das colheitas, e nas cidades elas trabalhavam no interior das casas como empregadas domésticas, lavadeiras, cozinheiras, governantas, assim como em escolas, escritórios, lojas, hospitais, asilos ou ainda circulavam pelas ruas como doceiras, vendedoras de cigarros e charutos.

Rowbotham (1983, p.119-120) adverte que por trás da família perfeita se encontrava o

desgaste da força de trabalho feminino, desgaste este que ocorria por não ser valorizado

igualmente em relação ao trabalho do operário. Segundo Rowbotham (1983) trabalho no pensamento capitalista é somente para os homens, as mulheres só ganham dinheiro dos maridos, estes por sua vez olham com desconfiança para mulheres assalariadas, pois dinheiro significa sinal de independência.

No entanto, mesmo sendo necessário, o trabalho da mulher que ficava em casa era desconsiderado. Segundo as palavras de Rowbotham:

Em simples termos quantitativos, o trabalho doméstico, inclusive o cuidado dos filhos, constitui um grande volume de produção socialmente necessária. Contudo, numa sociedade baseada na produção de mercadorias, não é em geral considerado „verdadeiro trabalho‟, uma vez que não é comercializado (ROWBOTHAM, 1983, p. 120).

Essa realidade evidenciou-se nos depoimentos das mulheres que contribuíram com a pesquisa. Para M. R. (74 anos), o sustento financeiro da família dependia do seu trabalho fora de casa, mas isto não era algo admitido pelo marido que trabalhava como carpinteiro, mesmo quando o salário da esposa respondia pela maior parte das despesas domésticas. Além deste

não reconhecimento, havia a desconfiança da parte dele em relação as suas ausências, sendo que seus horários permaneciam constantemente vigiados. Já a Srª M.L.S. (56 anos) teve outra trajetória profissional. Seu esposo trabalhava na polícia militar e seu salário era suficiente para o sustento básico da família, mas ela, ainda assim, procurou manter atividades laborais que tinha desde o tempo de solteira, como uma maneira de alimentar certa autonomia em relação ao marido.

O contraste de um caso com o outro permite confirmar a hipótese de que realmente o trabalho externo a casa, possibilitava um sentimento de realização pessoal, quer pela consciência de que o núcleo familiar dependia do esforço, quer pelo fato de não ter de pedir para o marido o dinheiro necessário para despesas de ordem pessoal. Entretanto, nas duas situações, os esposos não admitiam abertamente que o trabalho da sua esposa era necessário ou importante no orçamento doméstico, pois isto significaria compartilhar o papel de provedor familiar que, historicamente, estava reservado para o homem.

Estendendo para uma compreensão macro da realidade, pode-se deduzir, que este não reconhecimento do trabalho feminino em casa, facilitou a construção de um comportamento coletivo feminino de menor engajamento, como grupo social identificado pelo gênero, ou seja, fez com que a mulher não tivesse um senso mais aguçado de valor como grupo, devido a sua condição de subordinação. Por isto, embora a mulher tentasse resistir à baixa estimativa de seu valor produtivo no mercado de trabalho, tal esforço tinha grandes obstáculos, pois era difícil se firmar moralmente sem ser valorizada no sentido monetário como mão de obra.

Nesta perspectiva, encontra-se o isolamento íntimo da mulher, ou seja, o fato dela ter ficado somente em casa, em torno de suas funções de lavar, cozinhar, passar, criar e educar os filhos, fez com que ela se isolasse do contato social exterior da casa, diminuindo suas possibilidades de auto-realização. Este isolamento estava associado com a identidade de gênero da mulher, que naquele período histórico remetia para os afazeres do lar e a educação das crianças.

Conforme declaração da Srª M.R. (74 anos), quando lhe foi oferecido um emprego, ela tinha certeza que o marido não iria aceitar, pois ele a controlava constantemente. Além disso, como a vida inteira sempre fez o serviço relacionado ao lar, ela mesma achava que não serviria para nada além do trabalho doméstico. Segundo sua expressão, a vida de casada havia lhe tornado “xucra”, uma vez que não tinha contato com mais ninguém e no fundo tinha medo de ter que trabalhar fora de casa. No entanto, quando assumiu o trabalho de servente escolar, mesmo realizando trabalhos de limpeza semelhantes aos que fazia em casa, ela passou a se

sentir mais valorizada, ter orgulho de estar trabalhando assalariadamente e de ter saído daquele mundo doméstico que ela havia se recolhido até então.

Mas este isolamento social não impedia que ocorressem relações de reciprocidade, nas quais as mulheres davam apoio umas as outras, como o caso das entrevistadas A.V.R. (73 anos) e M.R. (74 anos). Ambas se apoiaram em vários momentos de dificuldades, apoio este que foi muito importante para as duas, principalmente para A.V.R., que nos dois momentos de viuvez se viu isolada de todos aqueles que antes frequentavam sua casa. Ela declara que M.R. foi a única que continuou lhe dando apoio, quando menos esperava sua amiga estava em sua casa apoiando-a no que fosse necessário.

O mesmo ocorreu entre N.F.D. (53 anos) e E.R.S. (49 anos), que eram amigas e se amparavam reciprocamente em suas dificuldades. Em algumas ocasiões, E.R.S. recebeu apoio de N.F.D., como na oportunidade que precisou convencer seus pais para permitirem seu casamento com o namorado. N.F.D., por sua vez, conseguia encontrar-se secretamente com o namorado, graças a cobertura que recebia da amiga. M.E.R. (55 anos) informou que se sentia mais à vontade para falar de seus problemas pessoais com a amiga M.M.L.(74 anos), especialmente sobre os problemas que tinha com seu marido, recebendo conselhos e encorajamentos para reagir.

Fica claro, que por mais que existisse o isolamento íntimo da mulher no âmbito familiar, havia a possibilidade de encontrar apoio nas amigas mais próximas, como algo natural entre elas. Esses laços íntimos de amizade reforçaram suas identidades de mulheres e auxiliaram a projeção da mulher no convívio social. Este elo de ajuda mútua fez com que elas mantivessem uma relação de reciprocidade afetiva, como o caso das entrevistadas M.R., M.M.L. e A.V.R., que durante todo o período pesquisado sempre se auxiliaram. Isso fez com que elas conseguissem enfrentar com mais facilidade as barreiras impostas pela sociedade para se tornarem plenas cidadãs.

Rowbotham faz um prognóstico romântico e idealizador das possibilidades de reversão deste quadro histórico da mulher domesticada no lar, ignorando que a alteração passa pela ruptura de relações de poder e dependência e da própria reelaboração da visão de si mesmo, quando a mulher sai do interior da casa e se enquadra nas relações de produção assalariadas. Segundo esta autora, tal desigualdade alimentada pela relação matrimonial só seria reversível “quando a ideia do valor humano se generalizasse numa sociedade isenta de exploração, e quando o relacionamento entre homem e mulher e as relações dos seres humanos com a natureza deixassem de ser determinadas pela necessidade da produção de bens (ROWBOTHAM,1983, p.121-122)”.

Nesta monografia, propõe-se outra perspectiva que destaca a mulher como sujeito capaz de reagir e transformar sua realidade por múltiplas estratégias de resistência, sobretudo no interior da família. Exemplar desta atitude ativa e transformadora destaca-se com o ocorrido com a Srª M.R. (74 anos). Quando ela trabalhava somente dentro de casa, lavando para fora e fazendo quitutes para o marido vender, por mais que o lucro deste trabalho ajudasse na subsistência familiar, ela não se sentia valorizada como mulher e pessoa. No entanto, depois que passou a trabalhar fora de casa isto mudou. Por mais que seu marido continuasse menosprezando sua contribuição, ela percebia que as pessoas com quem trabalhava a respeitavam como profissional.

Outro exemplo foi o da Srª. A.V.R. (73 anos), que antes do falecimento de seu marido já trabalhava para ajudar nas despesas da casa, mas após o falecimento do mesmo passou por dificuldades. Tais problemas não se restringiram ao dinheiro necessário para o sustento da família, mas nas dificuldades que sentiu ao ter de tratar de assuntos jurídicos referentes à pensão e às dívidas a serem pagas. Por não se sentir totalmente apta para administrar esse problema, optou por deixar o assunto nas mãos de um advogado que, além de homem, era um profissional que entendia de leis. O resultado final foi que, por dois anos, ela foi desfalcada nos recursos que teria direito e só pôs fim a essa exploração porque um colega de trabalho lhe alertou que estava sendo enganada e que devia reagir e buscar os seus direitos indo contra este advogado. Foi isto que fez, conseguindo reagir e adquirir seus direitos novamente.

Percebe-se que na vida matrimonial, quando o marido assume as maiores responsabilidades pelas decisões econômicas, a mulher acaba acomodando-se e perdendo o traquejo com assuntos jurídicos e administrativos que envolvam providências mais complexas, criando-se uma divisão social de responsabilidades no interior do casamento que leva para um progressivo despreparo da mulher para o pleno exercício da cidadania.

Este isolamento em relação à esfera pública dos negócios, somada à desvalorização econômica do trabalho doméstico, acaba por favorecer certa “invisibilidade”, na medida em que a mulher se torna pouco aparente no sentido de não ser percebida como ator social plenamente inserido nas relações econômicas, que se expandem a partir da unidade básica de geração e acumulação de riquezas ou de trabalho que é a família. Para Rowbotham:

Os homens não veem, em geral, sua execução. A mulher trabalha isolada em casa, quando o marido esta ausente. Ao voltar, ele nota falhas, coisas que deixaram de ser feitas. A rotina diária de tarefas não é óbvia porque resulta apenas na criação de um ambiente normal para ele. Só a mulher, e talvez os filhos, olha para uma sala e percebe as transformações por que ela passa através do dia. Mas o trabalho

doméstico não parece, muitas vezes, um trabalho, nem mesmo para a mulher. É muito diferente do que se faz lá fora (ROWBOTHAM, 1983, p. 124).

Rowbotham destaca que, para a mulher a casa não é um local de trabalho, pois nele não tem relógio-ponto para marcar hora de entrada e saída, é algo que se prolonga por toda a existência. O lar é o emprego e o emprego é seu lar, de tal maneira que todos os seus afazeres são divididos em pequenas partes, todas completamente distintas e separadas: levanta, prepara o café da manhã, faz a limpeza, esfrega, busca as crianças, lava, passa e etc. Seu dia é cuidadosamente delineado, com afazeres repetidos infinitamente, tendo seus dias todos iguais (ROWBOTHAM, 1983, p.124-125).

Para Rago (1997, p. 597), as relações entre homem e mulher deviam ser transformadas em espaços de sociabilidade. Em um mundo em que os dois desfrutassem oportunidades iguais, as mulheres teriam novas perspectivas não só no trabalho, mas na vida social. Assim o trabalho fora do lar, o casamento, a família e a educação seriam pensadas de maneira renovada.

Sarti (2008, p. 28) argumenta que, existe uma divisão de autoridade entre o homem e a mulher na instituição do casamento tradicional, onde o homem é considerado responsável pela família e a mulher pela casa, com papéis sociais complementares, mas em uma situação hierárquica. Para esta autora:

Em consonância com a precedência do homem sobre a mulher e da família sobre a casa, o homem corporifica a ideia de autoridade, como uma mediação da família com o mundo externo. Ele é a autoridade moral, responsável pela respeitabilidade familiar. À mulher cabe outra importante dimensão da autoridade: manter a unidade do grupo. Ela é quem cuida de todos e zela para que tudo esteja em seu lugar (SARTI, 2008, p. 28).

Mas não significa que não exista casos em que isto ocorre ao contrário, a Srª. A.V.R. (73 anos), em sua entrevista declara que em seu primeiro casamento existia uma relação em total sincronia, onde tanto ela, como seu marido, tinham direitos iguais. Ele não só concordava com ela em todos os sentidos, como sempre concordou com ela trabalhar fora. Ele só não ajudava mais no serviço da casa e saia para pagar as contas porque como ele passava mais trabalhando fora, dava preferência para ficar mais tempos com seus filhos. Como ela não achava errado isto, pelo contrário até gostava, então preferia ela mesma fazer estas coisas. Pois percebia que isto não acontecia com suas colegas, elas sempre reclamavam que seus maridos além de não ajudá-las não davam bola para os filhos também, então ela agradecia a Deus por isto.

Já no segundo casamento, sua situação foi totalmente ao contrário. Ele era totalmente o oposto de seu primeiro marido. Tanto que quando ela ficou viúva do primeiro casamento, ela demorou a se casar novamente, porque não esquecia ele, não aceitando sua perda. Já no segundo relacionamento, ela não voltou a casar novamente para não correr o risco de cair na mesma armadilha, ela só havia casado por conta da pressão que sofria pelo fato da sociedade cobrar muito isto dela, mas desta vez ela preferiu enfrentar tudo novamente sozinha, jurando que não casaria novamente.

Quando a mulher assume a responsabilidade econômica do lar, ocorre uma alteração nesta relação de autoridade dentro da família, permitindo que a mulher assuma para si o cargo de “chefe da família”, abalando a representação da autoridade masculina no interior da família. Mas esta “perda” de autoridade masculina, como provedor não gera um vácuo no interior da instituição familiar, porque isto comprometeria a existência da família como um elemento básico de agregação social. Nesse contexto muito particular, que pode ser provocado pela viuvez ou pela separação do casal, a mulher substitui a figura masculina e assume este papel de provedora (SARTI, 2008, p. 29).

Já com o papel de mãe-esposa-dona de casa, ocorre o mesmo processo de substituição de papéis.

A sobrevivência dos grupos domésticos das mulheres „chefes de família‟ é possibilitada pela mobilização cotidiana de uma rede familiar que ultrapassa os limites da casa. Tal como acontecem com o deslocamento dos papéis masculinos, os papéis femininos, na impossibilidade de serem exercidos pela mãe-esposa-dona de casa, são igualmente transferidos para outras mulheres, de fora ou dentro da unidade doméstica. (SARTI, 2008, p. 30).

Entre os depoimentos colhidos, encontra-se o da Srª M.L.S. (56 anos), que foi abandonada pelo marido que constituiu nova unidade familiar com outra mulher. Segundo suas palavras, este fato foi dramático e difícil, pois ele sumiu e não deu nenhuma satisfação, ficando com três filhos pequenos. Como moravam de aluguel e ela não tinha como pagar e nem alimentar os filhos, foi para a casa dos pais, deixando eles com sua irmã para poder trabalhar. Quando se mudou para Santa Maria, passou a deixar seus filhos com a sua sogra para poder sustenta-los filhos, pois por um bom tempo ficou sem pensão alimentícia para eles, tendo como única renda financeira a dela. Criou seus três filhos sem apoio nenhum de seu ex- marido, foi pai e mãe a vida inteira, só depois de certo tempo que com a ajuda de seus sogros é que conseguiu pensão para seus filhos, mas a renda principal sempre foi a dela.

A responsabilidade pela renda familiar ocorre especialmente nas famílias mais pobres e costuma ser parte do pacto nupcial – explícita ou implicitamente. Dificilmente uma família pobre consegue liberar seus integrantes do esforço da subsistência, de tal maneira que a mulher traz para dentro da sua casa trabalhos como lavar roupa ou cozinhar doces/salgados ou procura desempenhar tarefas semelhantes fora do lar. Em alguns casos, essa perspectiva é tratada de maneira clara como parte do acordo que o casal estabeleceu entre si, para unirem-se em casamento, tal como aconteceu com a Srª M.R. (75 anos).

Quando aceitou namorar com seu futuro marido, o questionou com relação ao fato dele estar insistindo em querer namorar e casar com ela, pois já havia noivado e marcado casamento com várias moças e sempre rompia os compromissos. Ele respondeu que “tinha realmente desmanchado vários noivados, mas era porque as moças que havia escolhido não queriam trabalhar para ajudá-lo e ele não queria uma esposa assim”.

Além disso, ele já tinha informação de que “ela era muito trabalhadora, já sabia tudo sobre sua vida”, concluindo que ela era a esposa ideal para ele. Ela respondeu que, “realmente não se negava a qualquer tipo de trabalho, desde que não fosse trabalhar na roça. Caso chegassem a um acordo, ela até trabalharia em casa de família para ajudá-lo, mas que na roça jamais iria trabalhar”, pois já estava morando na casa dos seus padrinhos para evitar que seu irmão de criação a colocasse para trabalhar na roça. Ele respondeu: “que não precisava se preocupar, porque isto não iria fazer” e logo depois casaram.

Efetivamente, depois de casada ela fazia pastéis, pão, vianda e lavava roupas para fora, para ajudar financeiramente em casa, sendo que, todo o dinheiro adquirido através de seu trabalho ficava nas mãos do seu marido. Quando ela precisava de algo, era necessário pedir para ele, sem ter certeza que conseguiria alguma coisa e mesmo nas despesas da casa era seu marido que comprava o necessário e lhe entregava. Essa responsabilidade feminina pela subsistência da família acabou aumentando, porque apesar dele possuir trabalho, perdia em jogo de cartas, o que, segundo ela, era muito comum na época.

O cotidiano familiar vivido pela Srª M.R. não era um caso excepcional. Conforme seu relato, depois de um ano de casada, ela foi morar próximo da cantina da irmã do seu marido e pôde perceber que quem tomava conta da cantina e fazia o serviço mais pesado era sua cunhada e suas filhas. Estas mulheres assumiam estas pesadas responsabilidades não apenas pela imperativa necessidade de sobrevivência delas e de sua prole, mas porque não se esperava outra coisa da mulher pobre e decente, senão “auxiliar” o marido na manutenção da unidade familiar.

Deve-se lembrar, ainda, que nos anos cinquenta a esposa ideal, era aquela que fazia vista grossa para o fato de que seu marido a estava traindo. Por serem herdeiras de ideias antigas, segundo as quais a mulher nasce para ser dona de casa, esposa e mãe, preferiam manter a aparência da família estável diante da sociedade, pois isto implicava no reconhecimento social do seu papel na instituição família. (BASSANEZI, 1997, p. 607).

Este era o caso da entrevistada M.R. (74 anos), que após um dia árduo de trabalho para ajudar em casa, o marido chegava e mandava ela passar o terno branco dele para ele ir ao cinema. Como ela estava acostumada com isto, mantinha o terno passado e engomado para ele. Ela conta que, “sabia que ele iria, na realidade, namorar, pois as namoradas dele diziam isso a ela e zombavam que ela largava o „maridinho engomadinho‟ para ir namorar”. A Srª M.R. relata, que chorava muito, mas ficava quieta, pois se ela se separasse, certamente seria mal-vista pelos outros como uma “mulher largada do marido”.

A situação das mulheres ao término do seu casamento era bastante difícil, como se pode perceber no caso da entrevistada M.E.R. (55 anos), que tentou se separar por três vezes. A primeira foi logo durante a segunda gravidez, na década de 1970, quando ela teve apoio dos seus pais, mas ficou com medo de criar dois filhos sozinha em uma sociedade na qual ainda não via a separação com bons olhos. Já nas duas outras duas tentativas, quando já havia se passado vinte anos de casamento, ela entrou em depressão, pois até mesmo suas amigas e colegas de trabalho se afastaram totalmente dela pelo fato de ela estar separada.

No início ela não queria aceitar que era o fato de estar separada, mas depois começou a

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