Esta monografia teve por objetivo, compreender o contexto social que envolveu o cotidiano da sociedade de algumas mulheres de baixa renda no interior da família, entre as décadas de 1950 a 1970. Buscou-se entender como se deu a inserção destas mulheres no meio da sociedade e as alterações sociais que as envolveram isto em um mundo que permaneceu influenciado por princípios sexualizantes de divisão de trabalho, com uma padronização do comportamento e controle sobre o meio feminino, por parte do masculino. Para isso, procurou-se identificar a mulher como ator social no interior da instituição familiar e suas relações imediatas, onde ela buscou uma realização pessoal, ainda que em condições precárias.
Foi possível observar, com os relatos das entrevistadas, que as mulheres não foram somente sujeitos passivos. Mesmo em uma sociedade dominada pelos homens, elas usavam suas prerrogativas de esposas e mães e as tarefas que lhe eram dadas no espaço doméstico para estabelecerem contra poderes que subvertiam os papéis sociais de uma sociedade dominadora em relação às mulheres.
No período pesquisado entre as décadas de 1950 a 1970, ocorreu o movimento da contracultura no qual se levou em consideração temas como a condição feminina no mundo do trabalho; o uso dos métodos contraceptivos, que deram a mulher o controle da maternidade e o enfrentamento do padrão cultural dominante, que valorizava a virgindade antes do casamento. É necessário lembrar, que a imposição da inferioridade feminina era uma questão sociocultural, que tornava os temas mencionados anteriormente em campos de luta, no qual a mulher procurava se autovalorizar como ser social.
Neste contexto de conquista dos seus direitos e autovalorização encontra-se o casamento e a inserção da mulher no mercado de trabalho. Pela retrospectiva histórica realizada, percebeu-se que houve uma época em que a mulher era educada para casar e ter filhos, não possuindo liberdade de escolha, pois passava das mãos do pai para o marido, como se fosse mercadoria, sendo o casamento uma espécie de contrato vitalício, no qual a mulher casava e não podia se separar.
Analisando-se os depoimentos, percebeu-se que, durante muito tempo, as entrevistadas eram muito controladas, inicialmente por seus familiares e depois por seus maridos. Mas isto foi mudando, na medida em que a mulher deixa de ser criada para procriar, limpar, administrar, sofrendo o preconceito de ser inferior ao homem, passando a ter maior autonomia através de sua inserção no mercado do trabalho e afirmação diante do homem na sociedade.
Com isso, ela adquiriu maior equilíbrio no casamento, sentindo uma realização pessoal e percebendo-se como administradora da unidade familiar, quer por seu trabalho doméstico, quer pela renda que obtinha com trabalhos externos. Além disso, essa autovalorização possibilitou iniciativas como a do divórcio ou até mesmo a de escolher não casar, uma vez que aumentou as possibilidades de não depender financeiramente do homem e até mesmo poder manter a família com sua renda.
Foi observado, através das entrevistas, que as mulheres que trabalhavam fora do lar, mesmo exercendo as mesmas funções de seu trabalho doméstico em seu emprego, passaram por um processo de crescente autovalorização em relação às expectativas que existiam sobre ela, enquanto esposa e mãe. Para isso, foi necessário que elas obtivessem uma remuneração salarial fora de suas casas, superando a invisibilidade dentro do lar, uma vez que a mulher não era percebida por seus familiares como ser social.
A pesquisa demonstrou que a mulher, mesmo vivendo em uma sociedade dominada pelo conceito masculino, é um ser social que utilizou de seu espaço dentro da família para se estabelecer contra poderes que a subordinava aos papéis sociais concebidos por uma sociedade masculinizada. Obtendo renda por trabalhos manuais, controlando o encaminhamento dos filhos, administrando a rotina da casa, organizando a vida financeira da família, dominando progressivamente as técnicas contraceptivas e tomando iniciativas transformadoras como a do divórcio e a procura do emprego formal, a mulher afirmou-se como ser social, inicialmente – como etapa imprescindível – no cotidiano familiar e, depois, na sociedade em geral.
Sendo assim, o objetivo geral desta pesquisa foi atingido através das consultas bibliográficas e entrevistas orais feitas durante este processo. Conclui-se que as mulheres entrevistadas conseguiram conquistar maior inserção social a partir das relações de poderes que se estabeleceram no interior de suas casas, reagindo contra a dominação masculina e assumindo uma posição mais ativa com relação a si mesma e aos seus dependentes familiares.
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ZWEIG, Connie. Mulher em busca da feminilidade perdida, São Paulo: Editora GENTE, 1994.
ANEXO A – Roteiro geral das entrevistas
Nome completo: Idade:
Escolaridade: Profissão:
1. Antes de casar, como era o convívio com o pai e os irmãos? 2. E com a mãe?
3. Quais eram as suas responsabilidades no interior da família, antes do casamento? 4. Como ocorreu a relação do namoro, na sua casa, e que atitudes adotavam seus pais? 5. Trabalhava ou estudava antes do casamento?
6. Qual era a profissão ou trabalho do seu noivo e recém-marido?
7. Havia a necessidade do seu apoio em trabalho fora de casa? Como seu recém-marido entendia o trabalho da mulher fora de casa?
8. Quais eram os planos de vocês os dois com relação a ter filhos? 9. Como se sentia na condição de mulher na época?
10. Possuía liberdade de escolha? 11. Casou com que intenção? 12. Com que idade casou?
Eu casei com 19 anos
13. Após o casamento trabalhou fora do lar?
14. Caso positivo, sentiu-se mais valorizada pelo trabalho que fazia e pela contribuição no orçamento doméstico?
15. A situação da necessidade de ter que trabalhar mudou com o passar do tempo? Como? 16. Após o casamento você tinha maior nível de liberdade do que tinha antes de casada? 17. A pílula trouxe alguma mudança na sua relação conjugal ou no seu namoro?
18. Depois de casada, você sentia que havia algum tipo de controle por parte do seu marido ou filhos quanto ao tipo de roupa que usava ou como andava, dançava, comportava-se?
19. Quais eram suas estratégias para fazer valer a sua opinião e sua vontade dentro de casa?
20. Como você fazia para esquivar-se do controle ou do mando do marido em questões que você não concordava com ele?
21. Sobre quem pesava a maior parte dos encargos familiares como o cuidado com os filhos ou a
22. Quais eram suas melhores amigas ou mulheres com que você confidenciava ou compartilhava coisas íntimas?
23. Elas tinham uma vida familiar semelhante a sua? 24. Como vocês se auxiliavam reciprocamente?
25. Como você imaginou que seria a vida familiar da sua filha? Diferente da que você teve?
26. Educou de maneira diferente o filho homem da filha mulher? 27. Caso positivo, por quê?
28. Desde o começo da constituição da sua família até os dias atuais, mudou sua concepção do papel da mulher no interior da instituição familiar?
ANEXO B – Autorização das entrevistas
Santa Maria, _________de ______________2010
Nome: Idade:
Escolaridade: Estado Civil: Profissão:
Eu ____________________________________, declaro para os devidos fins que cedo os direitos de minha entrevista, transcrita e autorizada, para Izabel Cristina Ribas de Mello usar integralmente ou em partes, para leitura, sem restrições de prazos e citações, desde a presente data. Da mesma forma, autorizo a terceiros que a ouçam e usem citações dela, ficando vinculado o controle à UNIFRA, que tem sua guarda. Abdicando de direitos meus e de meus descendentes.
_______________________________________________ Nome e assinatura da colaboradora