O livro de Roger Hart, Children’s Experience of Place, publicado em 1979, descreve um estudo sobre as crianças, suas experiências com a paisagem e o desenvolvimento da experiência de lugar. Seu propósito era entender o comportamento espacial das crianças e o uso do espaço territorial “e ao mesmo tempo descobrir o seu conhecimento do, e sentimentos pelos lugares no seu ambiente.” (Hart, 1979: 13). Hart viveu por dois anos numa pequena cidade da Nova Inglaterra com o objetivo de estudar crianças e seu comportamento espacial. A localidade de sua pesquisa recebeu o nome fictício de Inavale.
Trata-se do arquétipo de pequena comunidade da Nova Inglaterra, aparentemente auto- suficiente e contida em si mesma. A decisão de excluir qualquer consideração do mundo além das montanhas locais faz sentido, pois Inavale é um casulo, o tipo de lugar em que muitas pessoas, em momentos de devaneio, gostariam de ser criadas. O quão especial é essa comunidade? Não há minorias étnicas ou raciais mencionadas; não há pessoas muito ricas, sendo a distinção social maior entre moradores da classe trabalhadora e a recém-chegada classe média. Há uma geografia social, mas as distinções parecem triviais... [...] As crianças de Inavale não são certamente crianças da crise. A única crise enfrentada pelas crianças de Inavale é a prototípica de seres humanos: de se ajustar ao mundo ao redor delas. (Downs, 1980: 229. tradução livre da autora)33
32 When the polish children were asked to suggest changes they would make ‘if they were the architects’,
they made plans very similar to those that architects normally make – plans not particulary congruent to their own experience and interests. Social roles are powerfull, even in the imagination.
33 It is the archetypal, small New England community, seemingly self-sufficient and self-contained. The
decision to exclude any consideration of the world beyond the local hills makes sense because Inavale is a cocoon, the sort of place where many persons, in moments of romantic daydreaming, would like to have been reared. How special is this community? There are no ethnic or racial minorities mentioned: there are no very rich people, the major social distinction being between working-class locals and middle-class new-comers. There is a social geography, but the distinctions seem trivial… [...] the children of Inavale are most definitely not the children of crisis. The only crisis faced by the children of Inavale is the usual human one of coming to terms with the world around them.
Hart identificou dois agrupamentos, com idades entre quatro e onze anos, e pouco a pouco passou a conhecer as crianças e suas famílias, obtendo a concordância delas para observar seus comportamentos e envolvê-las em uma variedade de atividades relacionadas ao espaço durante os dois anos de estudo.
O cotidiano da vida mundana interessava a Hart, pois segundo ele os “cientistas sabem mais sobre a vida dos primatas na selva do que sobre a vida das crianças nas cidades” (Hart, 1998 : 1).
Para o autor, “todas as crianças têm o impulso de explorar a paisagem que as rodeia, de aprender sobre ela, de lhe dar ordem e investi-la de sentidos – tanto compartilhados como privados” (Hart, 1979: 3)34. Nesse estudo, ele mapeou as amplitudes dos movimentos das crianças no bairro e na comunidade e desenvolveu uma tipologia aplicada a cada grupo etário consistindo de: 1. livre amplitude; 2. distâncias maiores com liberdade de alcance; 3. distâncias maiores com alcance “com permissão”; 4. distâncias maiores com alcance “com permissão e com outras crianças”. Além disso, ele descreveu os caminhos e os atalhos percorridos pelas crianças de triciclos ou de bicicleta.
Os lugares também foram classificados de acordo com o que as crianças expressavam: lugares assustadores, perigosos, altamente valorizados, favoritos, mágicos, de verão e de inverno. Hart concluiu que todas as crianças criam lugares que são do tipo casa. Em outras palavras, de uma maneira ou de outra, elas fazem uma “casa” ou um cercado – nas florestas, no quintal de casa, embaixo das escadas, num cantinho do quarto de brincar...
Como geógrafo, o propósito de Hart nesse estudo era compreender o comportamento espacial das crianças e suas necessidades relativas ao design dos bairros e das comunidades. Seus resultados mostram que os aspectos da paisagem que favorecem as ligações das crianças com o lugar são: as possibilidades de atividade espacial, o conhecimento que a criança tem do lugar, os valores e sentimentos em relação ao lugar e o uso que faz dele. Quanto às preferências das crianças pelos lugares, ele observou que se dão pelo uso do local para brincadeiras, pelas pessoas que ali estão, pelo que podem comprar, pela beleza ou pelo sentimento despertado pelo lugar.
34 All children have an urge to explore the landscape around them, to learn about it, to give order to it, and
Estudos anteriores sobre playgrounds haviam indicado que as crianças descobrem e usam áreas próprias para brincar, que são distintas das planejadas pelos adultos. Isso ocorre por que os arranjos institucionais para as crianças são insuficientes para fornecer um cenário social propício. Então como são e onde estão esses lugares dos quais as crianças naturalmente se aproximam? Como eles satisfazem as experiências das crianças?
Hart faz perguntas enganosamente simples. O que é uma paisagem fenomênica? Como uma criança chega a conhecer aquele minúsculo segmento da superfície terrestre que é literalmente o lugar onde ela cresce? Como medos e sentimentos, esconderijos e tocas surgem em lugares que os adultos ignoram? Como e por que o espaço se torna um lugar? Em um sentido, o mundo da criança é mundano. Mas se você aceitar os pontos de partida de Hart, de que o mundo é ativa e conscientemente explorado e construído por uma criança, então o livro torna-se um ensaio fascinante sobre a redescoberta e reexploração de algo que todo o adulto experimentou e de igual maneira, perdeu. (Downs,1980: 230, tradução livre da autora) 35
Em seu estudo, Hart documentou como as crianças exploram, usam e manipulam o seu ambiente cotidiano, definido por ele como paisagem fenomênica. Ele notou que evita-se fazer construções em lugares limpos e organizados, dando preferência a lugares desarrumados em que prevalece um sentido de posse da criança. As crianças preferiam os lugares com grama, arbustos, árvores e com diversos objetos ali largados, abandonados, que elas se sentiam livres para usar de modo a alterar o ambiente. Esses lugares estavam normalmente a uma distância de 100 metros de casa e pertenciam à categoria livre-acesso-desacompanhado-de-adultos.
As qualidades e disponibilidades dos elementos nas paisagens fenomênicas encorajavam atividades específicas das crianças entre oito e onze anos. Dentre as mais importantes situavam-se o modelar e o construir, que davam à criança a possibilidade de aprender atividades de construção diretamente do ambiente. Ao realizar essas atividades em que tinham de interagir umas com as outras, elas não apenas adquiriam as habilidades para as tarefas de solucionar problemas, mas também aprendiam habilidades relacionadas à territorialidade, à propriedade e à comunidade. Esse desenvolvimento de
35 He asks some deceptively simple questions. What is the "phenomenal land-scape"? How does a child
come to know that minuscule segment of the earth's surface that is literally the place where he grows up? How do fears and feelings, hideaways and haunts grow out of places that adults ignore? How and why does space become place? In one sense the world of the child is mundane. But, if you accept Hart's starting points, namely that the world is actively and willingly explored and constructed by a child, then the book becomes a fascinating essay in the rediscovery and reexploration of something that every adult experienced and, equally well, lost.
habilidades para atividades compartilhadas era amplamente favorecido pela proximidade de casa, ausência da possessão do adulto e presença de paisagens flexíveis compostas por pedaços ou partes de coisas perdidas.
Hart sugere que as áreas para as brincadeiras incluam, em suas paisagens, algumas qualidades importantes para as crianças, tais como água, árvores (para subir), arbustos, argila (para modelar), objetos descartados e uma topografia variada, com declives.
Os caminhos são importantes elementos do lugar na paisagem fenomênica e se apresentavam de muitas formas para as crianças. Como atalhos através de pequenas aberturas, impossíveis de ser atravessadas por adultos, funcionavam como uma forma de manter distância deles e, às vezes, como um fim em si mesmo; eram uma oportunidade para as crianças simplesmente caminharem, em seu próprio tempo e espaço.
No livro, Hart argumenta que os adultos devem estar atentos às atividades das crianças em suas experiências com o ambiente físico. A razão para tanto é que as crianças, como participantes, vêem as coisas de forma que nós, como observadores, podemos não ver ou entender. As idéias das crianças acrescentam uma dimensão necessária e freqüentemente negligenciada no processo do design.
2.4. Sobre espaços polissêmicos: a visão de Colin Ward
Essas visões e propostas não foram imunes a críticas e, em vários lugares, registraram-se vozes divergentes sobre as possibilidades de conhecimento das relações que podem ser estabelecidas entre crianças e cidades. Colin Ward pergunta se
[...] a cidade, como instituição humana, adota um helping mode para com seus jovens cidadãos ou se Paul Goodman estava certo quando declarou anos atrás que “a cidade, sob as inevitáveis condições modernas, não pode mais ser abordada de maneira prática pelas crianças”, porque a “tecnologia, a mobilidade das famílias, a perda da terra, a perda da tradição do bairro e o desaparecimento do espaço de brincar, levaram embora o verdadeiro ambiente”. (Ward, 1978: vii; tradução livre da autora)36
36[...] the city as a human institution, adopts a helping mode towards its young citizens, or whether Paul
Goldman was right when he declared years ago that “the city under inevitable modern conditions, can no longer be dealt with practically by children” because “concealed technology, family mobility, loss of the country, loss of neighborhood tradition, and eating up of the play space, have taken away the real environment.
Segundo esse autor, a intersecção entre criança e cidade subverte o pressuposto inicial de que as crianças estão fora desses espaços ou de que precisamos construir metodologias para conhecer esses sujeitos individualizados e suas perspectivas. Para além disso, ele nos mostra que as crianças criam suas próprias maneiras de atuar nas cidades, de usar o espaço urbano, apesar de as condições de relação com esse espaço estarem profundamente constituídas por condições sociais e agendas políticas. A cidade precisa ser devolvida às pessoas, em particular às crianças, trancafiadas nos modelos de desenvolvimento urbano vigentes em que veículos e vagas de estacionamento têm mais valor que os seres humanos. Para Ward, o espaço das cidades não é um espaço tranqüilo, formado por vazios ou por locais previamente construídos e tampouco precisa ser dotado de lugares próprios para as crianças, uma vez que estas tendem a construir ativamente seu próprio espaço no mundo construído (o que não se faz sem disputas).
O autor procura problematizar essa relação, chamando a atenção para o fato de que as crianças já estão nos espaços das cidades . Não se trata de simplesmente definir um lugar onde elas deveriam ou não estar, ou mesmo o modo como elas deveriam ou poderiam estar, mas de retratar e relatar o espaço urbano como lugar de sociabilidade, compartilhado, discutindo como a cidade, por sua vez, também pode ser um lugar para crianças, com todas as “contradições” dessa convivência. No entanto, tais contradições não são colocadas a priori num plano em que se atribui à criança uma posição de inferioridade ou de submissão:
É difícil, sem dúvida, para aqueles que se dedicaram a campanhas pelo espaço físico para os jovens na cidade, uma luta que se autojustifica, se acostumarem à idéia de que, muito cedo na vida, outra demanda mais urgente e mais dificilmente reconhecida se manifesta: a demanda pelo espaço social; a demanda das crianças da cidade em ser parte da vida da cidade. (Ward, 1978: 31, tradução livre da autora)37
Colin Ward foi diretor da revista inglesa Anarchy, professor na London School of Economics e autor de vários trabalhos e livros sobre planejamento urbano e políticas sociais. É recorrente, nos seus escritos, a ênfase na importância de uma contínua
37 It is hard, no doubt, for those who have devoted themselves to campaigning for physical space for the
young in the city, a claim which is certainly self justifying, to accustom themselves to the idea that very early in life, another, more urgent and more difficultly met demand arises, for social space; the demand of the city’s children to be part of the city’s life.
negociação e contrato entre os governantes institucionais das cidades modernas e os grupos que lá vivem e agem no cotidiano, a partir “de baixo”, dando freqüentemente uma resposta mais eficaz a uma grande variedade de necessidades. Em seu livro Child in the City (1978), ele aborda as relações entre as crianças e as cidades na atualidade, questionando muitos lugares-comuns sobre a infância, construídos na modernidade, e que são considerados valores quase absolutos, impossíveis de ser discutidos sem levantar polêmicas de diversos tipos.
O livro chama atenção por não ser um catálogo sobre a condição desprivilegiada das crianças nas cidades. Sua visão vai além disso, partindo de um pressuposto: no que diz respeito à liberdade de movimentos, especialmente nas grandes cidades, as crianças são vistas como cidadãos de segunda classe, obrigadas a se restringir cada vez mais ao âmbito domiciliar. Isso não se deve ao fato de a cidade em si ser algo ruim para a criança. Resulta de uma confluência de fatores, tais como: a radicalização da concepção de infância como uma idade da vida que deve ser o mais possível protegida e dependente; uma situação metropolitana que, em geral, se mostra cada vez pior, com especulação imobiliária, planejamentos dissonantes e com o “direito natural” dos automóveis de ocuparem todos os lugares. O autor cita uma pesquisa da década de 1990, que revela que um menino de nove anos e meio tinha a mesma liberdade (negociada com seus pais) de que gozava um menino de sete na década de 1970.
A segunda metade do século XX, em que foram promulgados os direitos das crianças como preocupação também do Estado, também foi, segundo o autor, o período do triunfo do estilo de vida “casacêntrico” e “segregacionista”, que apresenta como desejável a progressiva restrição das crianças às atividades não programadas ou não supervisionadas por adultos e que propõe como único lugar seguro a casa.
As crianças têm cada vez menos oportunidades de estar no espaço urbano e de assim poder construir um equilíbrio pessoal entre a privacidade da vida doméstica e a vida exterior. Ao chegar à adolescência, essas crianças são lançadas no mundo urbano. Sem terem podido explorar a cidade, elas dificilmente a reconhecerão como sua. Ward usa a metáfora da caixa de areia para referir-se aos espaços públicos projetados para crianças, tais como as playland dos shoppings. Os pequenos brincam, e estão calmos, protegidos, enquanto os adultos conversam e os vigiam com o canto do olho, prontos para intervir:
Uma caixa de areia é um lugar onde os adultos estacionam as suas crianças para conversar, brincar ou trabalhar com um mínimo de interferência. Os adultos, tendo encontrado uma distração para as crianças, podem tocar as coisas sérias da vida. Há algumas recompensas para as crianças nisto. A caixa de areia lhes é dada como território próprio. Ocasionalmente, areia e brinquedos novos são colocados na caixa de areia acompanhados de uma advertência implícita de que essas coisas são fornecidas para minimizar o nível de barulho e incômodo. Se as crianças de fato ficam barulhentas e distraem seus pais, novos brinquedos talvez sejam trazidos. Se os ocupantes da caixa de areia escolhem lados e começam a bater nas cabeças uns dos outros, os adultos virão correndo, estapearão as crianças mais ou menos indiscriminadamente, acalmarão as coisas e então, talvez como algum tipo de penitência, trarão areia e brinquedos novos, passarão a mão na cabeça dos ocupantes da caixa de areia, e desaparecerão novamente nas suas preocupações e envolvimentos adultos. (George Sternlieb, apud Ward, 1978: 202; tradução livre da autora)38
Para o autor, a cidade que realmente se preocupa com as necessidades da criança não deve ser planejada para as crianças, mas deve ter aquelas necessidades em mente e tornar todo o ambiente acessível para as crianças, pois elas, diferentemente dos adultos, tentarão ocupar o espaço da cidade: “[...] as crianças irão brincar em qualquer lugar e com qualquer coisa. A provisão que é feita para as suas necessidades opera num plano, mas as crianças operam em outro plano”39 (Ward, 1978: 87, tradução livre da autora).
Ao falar dos parques e playgrounds e dos limites físicos impostos às crianças nessas áreas, Ward cita Joe Benjamin, um pioneiro nessa área:
Não importa como consideramos o potencial lúdico no desenho de nossos projetos presentes e futuros, as crianças continuarão a interpretá-los de maneira própria. A questão é que as ruas, o comércio local, a escadaria dos conjuntos habitacionais, e todas as coisas que a comunidade urbana oferece, são parte do hábitat natural da criança. Nosso problema não é desenhar ruas, prédios, postos de gasolina ou lojas que as autorizem a brincar, mas educar a sociedade a aceitar as crianças em bases participativas. (Ward, 1978: 87, tradução livre da autora)40
38 A sand box is a place where adults park their children in order to converse play or work with a
minimum of interference. The adults, having found a distraction for the children, can get on with the serious things of life. There is some reward for children in this. The sand box is given to then as their on turf. Occasionally, fresh sand and toys are put in the sand box, along with an implicit admonition hat this things are furnished to minimize the level of noise and nuisance. If the children do come noisy and distract their parents, fresh toys maybe brought. If the occupants of the sand box choose up sides and start bashing each other over the head the adults will come running, smack the juniors more or less indiscriminately, calm things down and then, perhaps in act of same contrition, bring fresh sand and fresh toys, pat the occupants of sand box on the head, and disappear once again into their adult involvement and pursuits.
39 “[...] children will play everywhere and with anything. The provision that is made for their needs
operates on one plane, but children operate on another.
40 No matter how we might consider play potential in our present and future designs, children will
continue to interpret this in their own way. The point is that streets, the local service station, the housing estate stairway, indeed anything our urban community offers, is part of the natural habitat of the child.
A idéia é chamar a atenção para os aspectos do universo infantil que devem ser levados em conta e o que se deve adaptar no ambiente, tendo em vista as necessidades da criança. Isso não significa que o planejamento ou a busca por relações com a criança não devam acontecer, pois as crianças adaptam o ambiente que lhes é imposto. Essa adaptação, contudo, não ocorre sem conflitos pelo uso dos equipamentos e mesmo dos espaços públicos. Um exemplo emblemático é o uso que as crianças fazem dos hidrantes das ruas para brincar com água e também a apropriação de espaços livres ou de terrenos baldios. De forma mais complexa, o autor cita o exemplo do Rochdale Canal, em Manchester, mostrando claramente que o uso que a criança pode fazer de um espaço público e comunitário nem sempre interessa a todos.
Ward conta que, com o fim da industrialização naquela cidade, em 1952, esse canal foi fechado, cercado e ficou um longo tempo sem uso, tornando-se um depósito para diferentes coisas que as pessoas lá jogavam, até que uma criança caiu, em parte porque as cercas estavam sem