IV. Ordforklaringer
3. Diskusjon om råd og prinsipper til oppsetting av fremtidige viltgjerder
3.1. Terrengformer og marktyper
(…) um homem morrer sem nenhuma causa aparente, um homem morrer apenas porque é um homem, nos leva tão perto da fronteira invisível entre a vida e a morte que não sabemos mais de que lado estamos. A vida se transforma em morte e é como se essa morte tivesse possuído essa vida o tempo todo. (...) Em outras palavras: a vida pára. E pode parar a qualquer momento. (AUSTER, 1999, p.11)12
12 Trecho retirado da apresentação do livro A invenção da solidão de Paul Auster, escritor nova-iorquino contemporâneo. Este livro se trata de um ensaio literário no qual Auster, logo após a morte do pai, tenta dar um significado para vida deste. Segundo o autor, seu pai vivia isolado na própria solidão, não permitindo qualquer contato mais íntimo; sendo assim, há no livro uma busca de se aproximar dessa figura tão distante e desconhecida. Outros trechos deste livro serão citados posteriormente.
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A morte, embora seja um desfecho certo para todos os seres vivos, parece-nos, ao menos na maior parte do tempo, algo distante, quase impensável, fora de nossas perspectivas. Quando dela nos aproximamos de alguma maneira, fica claro o quanto de angústia ela nos gera e o quanto precisamos negá-la para continuar vivendo em paz.
Freud, no decorrer de seus estudos e de suas reflexões clínicas, foi se dando conta de que havia algo no organismo dos seres vivos e em seu psiquismo que os conduzia à morte, ou melhor, ao retorno a um estado inorgânico, a um estado de excitação nula, ao chamado nirvana, sem qualquer prazer e/ou desprazer. A morte poderia ser uma representação extrema deste estado de ausência de demandas pulsionais, mas isso também poderia ser experienciado – não radicalmente, mas sim parcialmente – em vida, por meio do isolamento, do fechamento narcísico, da compulsão à repetição, do fim da espontaneidade e da criatividade, enfim, da estagnação do movimento vital.
Sendo assim, Freud pôde concluir e demonstrar que, por mais que a paralisia e, em última instância, a morte nos angustie profundamente, este estado de excitação nula, de ausência de desgaste energético nos exerce grande fascínio13 e há, dentro de nós, uma força que nos conduz em direção a isso, a qual foi denominada por ele de
pulsão de morte.
No entanto, embora reconhecendo a atuação da chamada pulsão de morte no organismo e no psiquismo dos seres humanos, Freud afirmou não considerar o medo da morte ou do aniquilamento da vida uma ansiedade primária, nas palavras de KLEIN (1948):
Em Inhibitions, Symptons and Anxiety, Freud expôs suas razões para não considerar o medo da morte (ou o medo de perder a vida) uma ansiedade primária. Baseou o seu ponto-de-vista na observação de que
13 Como apenas os artistas conseguem fazer, o escritor Mia Couto (2009), no livro Antes de Nascer o
Mundo, descreve a enorme angústia de viver em comparação à angústia de morte da seguinte maneira:
“Tememos a morte, sim. Mas nenhum medo é maior que aquele que sentimos da vida cheia, da vida vivida a todo peito” (p.269).
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„o inconsciente nada contém que, aparentemente, dê substância ao conceito de aniquilamento da vida‟ (p.295).
Melanie Klein prossegue afirmando que discorda deste posicionamento freudiano:
Não estou de acordo com esse ponto-de-vista porque minhas observações clínicas demonstram que existe no inconsciente um medo de aniquilamento da vida. Também penso que, se supusermos a existência de um instinto de morte, teremos igualmente de supor que nas mais profundas camadas da mente existe uma reação a esse instinto, na forma de medo de aniquilamento da vida. Assim, na minha opinião, o perigo resultante da atividade interior do instinto de morte é a primeira causa de ansiedade. Como a luta entre os instintos de vida e de morte persiste ao longo da vida, essa fonte de ansiedade nunca é eliminada e participa como fator perpétuo em todas as situações de ansiedade (KLEIN, 1948, p. 296).
Sendo assim, para esta autora, desde o início da vida, há no psiquismo um forte conflito entre a pulsão de morte (que conduz ao aniquilamento da vida) e a pulsão de vida (que busca a continuidade do movimento vital) e o resultado disso é a angústia, contra a qual o indivíduo irá encontrar maneiras diversas de se defender. Obviamente que a intensidade dessa angústia e, como consequência disso, os mecanismos de defesa utilizados para se ver livre desta variarão de acordo com o desenvolvimento psíquico do indivíduo; dessa forma, no início da vida psíquica, tanto a angústia é muito intensa, como os mecanismos de defesa utilizados contra esta são bastante radicais.
Vale dizer que, para Melanie Klein, o bebê sente a angústia de aniquilamento da vida pela ação da pulsão de morte provinda de seu mundo interior, assim como sente também essa mesma angústia a partir da não satisfação de suas necessidades pelos objetos externos (em geral, a mãe). Segundo KRISTEVA (2002):
A intensidade do desejo frustrado se chama, em Melanie Klein, angústia (...) e antes de um longo processo de integração do ego, sua violência é tal que não tolera a falta (...). Assim, não falta nada que possa ser desejado, mas tudo fere e faz ferir (...) (p.101).
Ou seja, o objeto ausente, não só faz sofrer pela falta, por não estar presente, mas porque, frustrando o bebê, ele o está expondo à angústia de ser aniquilado e,
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portanto, o está atacando e ferindo. Nesse período, o bebê quer vorazmente tudo que possa alimentá-lo e que assegure a continuidade de sua vida e se sente atacado por tudo que não o nutre, que nega a ele a garantia de sua sobrevivência14.
Diante de angústias tão intensas o ego arcaico, tão frágil e dependente, vai em busca de formas de se defender delas. Instala-se, assim, o que Melanie Klein denominou de posição esquizoparanoide, marcada pela angústia de aniquilamento a partir de dentro e/ou de fora e por defesas radicais e intensas.
Vale aqui fazer um breve comentário sobre o conceito de posição em Melanie Klein. Para esta autora, existem duas posições subjetivas básicas: a posição
esquizoparanoide e a posição depressiva. Cada uma delas é caracterizada por um
conjunto de ansiedades e de mecanismos de defesa, assim como por modos de percepção e relação com os objetos bastante distintos, como descreveremos a seguir. Para pensar a constituição psíquica, Klein optou pelo conceito de posição em vez do de
fases, como propunha Freud; isso porque, segundo ela, mesmo havendo um caminho
de amadurecimento psíquico na passagem da posição esquizoparanoide para a depressiva, não há a superação total de uma a partir da instalação da outra, mas sim uma oscilação relativamente constante entre esses dois modos de funcionamento no decorrer da vida de qualquer sujeito.