De uma forma sucinta, a Depressão Major pode ser definida como uma doença grave e recorrente, diretamente relacionada com a diminuição do funcionamento global e da qualidade de vida, da morbilidade e mortalidade (Bromet [et al.], 2011). No entanto, o diagnóstico de Depressão Major é amplo e heterogéneo, sendo fundamentais duas manifestações principais: o humor deprimido e/ou a perda de prazer na maioria das atividades. A gravidade da doença é determinada tanto pelo número e gravidade dos sintomas, como pelo grau de incapacidade associado (APA, 2006; Kessler [et al.], 2005).
Os sintomas nucleares dos episódios depressivos major como as queixas somáticas, a irritabilidade e o isolamento social são particularmente comuns em crianças, enquanto a inibição motora, a hipersónia e as ideias delirantes são menos comuns na pré- puberdade do que na adolescência ou na idade adulta. Em crianças pré-púberes e adolescentes os episódios depressivos major ocorrem mais frequentemente em conjunto com outras perturbações mentais (especialmente, perturbações disruptivas do comportamento, perturbações por défice da atenção e perturbações da ansiedade) do que isoladamente. Em adultos e idosos os sintomas cognitivos (desorientação, perda de memória, distratibilidade) podem ser particularmente proeminentes (APA, 2006).
De acordo com a American Psychiatric Association (APA) (APA, 2006), o diagnóstico de Depressão Major pressupõe que estejam presentes o humor disfórico e perda de interesse ou prazer em quase todas as atividades, também conhecida como anedonia e, concomitantemente, pelo menos quatro sintomas adicionais por um período de pelo menos duas semanas. Os sintomas devem ser clinicamente significativos ou causarem
35 Perfil de internamentos por Depressão Major no SNS português nos anos de 2008 e 2013: Variação em período
prejuízo no funcionamento social, ocupacional e em outras áreas de funcionamento (Gotlib & Joormann, 2010; Kessler [et al.], 2005; Williams Jr [et al.], 2000).
Para a realização do diagnóstico de Depressão Major devem utilizar-se sistemas de classificação de doenças, sendo que para as perturbações psiquiátricas podem ser utilizados dois sistemas de classificação de doenças amplamente discutidos em todo o mundo, o International Classification of Diseases 10 (ICD -10) da OMS (WHO, 2010) e o
Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV-TR) da APA (APA,
2006). Os sistemas de classificação resultam de consensos cujo objetivo é definir diferentes graus de gravidade das doenças, facilitando o seu diagnóstico e tratamento. A utilização destas ferramentas de diagnóstico deve considerar a diversidade de fatores biológicos, psicológicos e/ou sociais que podem ter um impacto significativo no curso da doença e na resposta ao tratamento, sendo importante considerarmos tanto a história clínica individual como a história familiar de Depressão Major ao realizar a avaliação diagnóstica.
O diagnóstico formal de Depressão Major através do sistema de classificação da OMS –
International Classification of Diseases 10 (ICD -10) (WHO, 2010), requer pelo menos
quatro de dez sintomas de Depressão Major, por outro lado, o sistema de classificação da APA – Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV-TR) (APA, 2006), exige pelo menos cinco de nove critérios para o diagnóstico de Depressão Major. Os sintomas devem estar presentes durante, pelo menos, 2 semanas e cada sintoma deve notar-se ao longo da maior parte de cada dia. Ambos os sistemas de classificação exigem, pelo menos, um (DSM-IV) ou dois (ICD-10) sintomas principais (humor deprimido, a perda de interesse e prazer ou a perda de energia) estejam presentes.
3.1.4.1. Diagnóstico da Depressão Major segundo a ICD-10
Segundo o sistema de classificação ICD-10 da OMS, o diagnóstico de episódio depressivo deve subdividir-se em episódio ligeiro, moderado, grave sem sintomatologia psicótica ou grave com sintomatologia psicótica (codificados como F32.0, F32.1, F32,2 e F32.3, respetivamente); definindo que estamos perante um episódio depressivo quando o individuo apresenta humor depressivo, perda de interesse ou prazer, e perda de energia que conduz à fadiga e à diminuição da atividade. Outros sintomas comuns são: perda de concentração e atenção, autoestima e autoconfiança diminuídas, ideias de culpa, visão pessimista do futuro, ideação ou tentativa de suicídio, perturbações do sono e diminuição do apetite. Para o diagnóstico de qualquer episódio depressivo é
36 Perfil de internamentos por Depressão Major no SNS português nos anos de 2008 e 2013: Variação em período
necessária uma evolução de pelo menos 2 semanas desde o início da sintomatologia descrita (WHO, 2010).
O humor depressivo é mantido ao longo do dia, com poucas variações, e é muitas vezes indiferente às circunstâncias. Por vezes, alguns sintomas como a ansiedade, angústia, e agitação psicomotora são mais proeminentes do que a distimia que, adicionalmente, pode ser mascarada por características como a irritabilidade, o consumo excessivo de álcool, o comportamento histriónico e/ou a exacerbação de fobias preexistentes (WHO, 2010).
As categorias de episódio depressivo leve (F32.0), moderado (F32.1) ou grave (F32.2 e F32.3) devem ser utilizadas apenas quando se trata do primeiro episódio depressivo, caso contrário deve utilizar-se a classificação de perturbação depressiva recorrente (F33.-). A distinção entre episódio depressivo leve, moderado ou grave baseia-se no juízo clínico, que deve compreender o número, o tipo e a gravidade dos sintomas presentes (WHO, 2010).
3.1.4.2. Diagnóstico da Depressão Major segundo a DSM-IV-TR
Segundo a DSM-IV-TR, a caraterística essencial de um Episódio Depressivo Major é um período de pelo menos 2 semanas durante o qual existe ou humor depressivo ou perda de interesse em quase todas as atividades. O sujeito deve igualmente experimentar pelo menos 4 sintomas adicionais de uma lista que inclui: perda de peso, quando não está a fazer dieta, ou aumento de peso significativos ou diminuição ou aumento do apetite; insónia e hipersónia; agitação ou lentificação psicomotora; fadiga ou perda de energia; sentimentos de desvalorização ou culpa excessiva ou inapropriada; diminuição da capacidade de pensamento ou da concentração, ou indecisão; pensamentos recorrentes acerca da morte ou ideação suicida recorrente sem planos específicos; uma tentativa de suicídio ou um plano específico para cometer suicídio.
Para serem considerados, os sintomas devem estar presentes há pouco tempo ou ter piorado claramente em comparação com o estado da pessoa antes do episódio. Os sintomas devem persistir durante a maior parte do dia, quase todos os dias, durante pelo menos 2 semanas consecutivas. O episódio deve ser acompanhado por mal-estar clinicamente significativo ou deficiência no funcionamento social, ocupacional ou noutras áreas importantes (APA, 2006).
37 Perfil de internamentos por Depressão Major no SNS português nos anos de 2008 e 2013: Variação em período
Ainda segundo a DSM-IV-TR, a caraterística essencial da Perturbação Depressiva
Major é a evolução clinica que é caraterizada por um ou mais episódios depressivos major sem história de episódios maníacos, mistos ou hipomaníacos. Os critérios de
diagnóstico para Perturbação Depressiva Major Recorrente são a presença de dois ou mais episódios depressivos major, em que os episódios depressivos major não podem ser melhor explicados por uma perturbação esquizoafetiva, e não se sobrepõem a uma esquizofrenia, perturbação esquizofreniforme, perturbação delirante ou perturbação psicótica sem outra especificação. Adicionalmente, nunca existiu um episódio maníaco, um episódio misto ou um episódio hipomaníaco (APA, 2006).
38 Perfil de internamentos por Depressão Major no SNS português nos anos de 2008 e 2013: Variação em período