2. Teori og tidligere forskning
2.4. Teorier om maskuliniteter og menns handlinger
A organização do trabalho (Dejours, 1992; 2000, 1994, 2001, 2004) é compreendida como sendo a vontade de um outro (instituições, empresas) que se opõe à vontade e ao desejo do trabalhador. Ela está segmentada na divisão do trabalho, traduzida pela divisão de tarefas entre os trabalhadores, o conteúdo da tarefa, a cadência e o modo operatório prescrito; a divisão de homens, caracterizada pela repartição das responsabilidades, pelo sistema hierárquico, pelas modalidades de comando, pelas relações de poder e pelo controle. Enquanto a divisão de tarefas e o modo operatório evocam o sentimento e o interesse para o
trabalho, a divisão de homens, dado o seu aspecto social, incita as relações entre os trabalhadores e mobiliza investimentos afetivos, como o amor, a amizade, a solidariedade, a cooperação, a confiança, ou os sentimentos contrários a esses.
No início do desenvolvimento da abordagem da Psicodinâmica, as condições de trabalho eram privilegiadas nas pesquisas por ter como alvo o corpo do trabalhador submetido a um ambiente físico, químico, biológico e sob condições de higiene e segurança nem sempre humanamente adequadas à saúde. Com o avanço das pesquisas, a organização do trabalho passou a ser evidenciada por atuar no funcionamento psíquico do trabalhador, já que reprime o seu desejo para que ele não interfira e desvirtue um comportamento operatório previsto. Em conseqüência, o trabalhador deverá lutar contra o seu desejo para não entrar em conflito com o trabalho e poder prosseguir nas suas tarefas, embora, ao atacar o desejo, a regulação natural do seu equilíbrio psíquico fique ameaçada.
Com os resultados de pesquisas, Dejours (1992, 1994) confirma a relação do sofrimento e a organização do trabalho. O sofrimento emerge quando todas as possibilidades de adaptação ou de ajustamento à organização do trabalho foram esgotadas pelo sujeito, e, em na havendo concordância com o seu desejo a relação subjetiva com a organização do trabalho estará bloqueada. Nesse caso, o sofrimento torna-se patogênico.
Dejours (1992, 2001, 2002), Dejours e Jayet (1994), Dejours e Abdoucheli (1994) estabelecem diferenças entre a organização do trabalho prescrita e a organização do trabalho real. A organização do trabalho prescrita representa a vontade de um outro, ou seja, de uma instituição que se opõe ou até se impõe ao trabalhador. Ela está expressa no planejamento, nos objetivos das tarefas, no estabelecimento das regras de comportamentos, nas normas e nos procedimentos técnicos, nos estilos de gestão, nas pressões e nos regulamentos do modo operatório.
Por outro lado, o real do trabalho se dá a conhecer, essencialmente, pela defasagem irredutível entre a organização prescrita e a organização real do trabalho (Dejours, 2001, p. 30). O real é tido como aquilo que se faz conhecer por sua resistência ao domínio técnico e ao conhecimento científico; caracteriza-se por sua resistência à descrição e somente é apreendido pelo fracasso, sob a forma de experiência vivida, que desencadeia reações e sentimentos.
A partir dessa constatação, Dejours (2002, 2004) define o trabalho como atividade coordenada, desenvolvida por homens e mulheres para enfrentar aquilo que, de caráter utilitário, não pode ser obtido pela execução estrita da organização prescrita . Essa
definição sugere que o trabalho decorre da gestão da defasagem entre a organização prescrita e a organização real, na qual o trabalho é decorrente de uma dimensão humana e inter-humana resultante da ação. Refere-se ainda à mobilização da inteligência criativa, da inteligência astuciosa , prática ou corporal (a mètis), para dar conta daquilo que não é dado, que não está previsto no prescrito. A noção de coordenação pressupõe os requisitos éticos e sociais de cooperação, enquanto a distinção entre homens e mulheres evidencia o lugar diferente que lhes é atribuído na organização do trabalho (Dejours,2004).
Nesse sentido, o trabalho é constituído na oposição entre as situações já conhecidas e aquelas ainda desconhecidas; portanto, uma tarefa não pode ser obtida pela execução simples e rigorosa do prescrito. Ao incidir sobre a dimensão humana, a execução da tarefa se configura como aquilo que deve ser ajustado, rearranjado, imaginado, inventado, acrescentado pelos homens e pelas mulheres para dar conta dos imprevistos, dos acontecimentos fortuitos, das contradições, das fontes de erros, das informações que se perdem ao longo do caminho, enfim, de tudo aquilo que para atingir os objetivos da tarefa escapa de uma previsibilidade. Caso contrário, sem essa parte de inovação, sem o engajamento do corpo e da inteligência humana, da engenhosidade e da criatividade, a execução mecânica estrita das prescrições conduz ao que é conhecido como greve de zelo ou operação padrão (Dejours, 2002, p. 43).
Assim, é nesse espaço de conflito e de tensão - defasagem - entre o prescrito e o real que é desencadeado todo processo de sofrimento do trabalhador, e quanto mais rígida for a organização do trabalho, menos ela facilitará estruturações favoráveis para a economia psicossomática individual (Dejours, 1992, p.128). Para a gestão dessas contradições existentes na organização do trabalho faz-se necessário um espaço de discussão .
O espaço de discussão (Dejours, 1999, 2001, 2002, 2004; Ferreira e MendeS, 2003) é um conceito teórico importante para a Psicodinâmica do Trabalho e foi inspirado nas idéias de Hannah Arendt e Jürgen Habermas. Trata-se de condições em que é permitida aos trabalhadores a oportunidade para a confrontação de opiniões, mediante a mobilização subjetiva e coletiva para gestão, adaptação e arbitragens da distância entre a organização prescrita e a real, para o trabalho ocorrer. Ou seja, refere-se a situações em que se confrontam opiniões não apenas técnicas do trabalho. Esse espaço é importante para a elaboração de regras do trabalho que definem e organizam as relações intersubjetivas que dizem respeito à solidariedade, aos valores de trabalho, à construção de confiança e cooperação, à convivência, à sociabilidade e à proteção. Nesse caso, não se trata de um espaço institucionalizado pelas
prescrições; ele surge em momentos informais do dia-a-dia de trabalho que viabilizam a construção de condições para a discussão de temas contraditórios; é um espaço de palavra, de expressão, de manifestação da subjetividade do trabalhador e ocasião, por excelência, para a ressignificação do sofrimento.
Em razão da participação humana nesses ajustes, a organização prescrita é considerada como uma relação socialmente construída, e não apenas uma formulação tecnológica. A organização do trabalho se negocia. Ela não é só técnica nem regulamentarista, ela é também objeto de um complexo jogo de relações sociais de trabalho (Dejours, 1994, p. 101).
Atualmente, dadas as excelentes condições tecnológicas voltadas para o trabalho, fica parecendo que com elas o sofrimento no trabalho se esvaiu, só existe em caráter excepcional, extraordinário. Porém, a despeito desse desenvolvimento tecnológico, por trás das vitrines do progresso está um mundo de sofrimento, pois as condições de riscos para a saúde do trabalhador aumentaram em determinadas tarefas.
Há o sofrimento dos que temem não satisfazer, não estarem à altura das imposições da organização do trabalho expressas pelas imposições de horário, de ritmo, de formação, de informação, de aprendizagem, de nível de instrução e de diploma, de experiência, de rapidez para a aquisição de conhecimentos teóricos e práticos. Enfim, de um conjunto de exigências que, cada vez mais, diante da intensificação das metamorfoses do trabalho, geram ameaças de demissões e cortes nas ofertas de emprego, ao mesmo tempo em que crescem as pressões por produtividade. Esse quadro provoca medo, insatisfação e ansiedade nos trabalhadores (Dejours, 2001).