4. Likestillingsforståelse og likestillingspraksis hos likestilte menn
4.3. Likebelastning eller oppheving av kjønnsarbeidsdelingen
Para o trabalhador, o sofrimento poderá ser ressignificado por ocasião do reconhecimento do trabalho. A dinâmica do reconhecimento faz parte da visibilidade dos achados da inteligência prática (mètis) e está na constatação, pelos outros, da contribuição do trabalhador para a organização do trabalho.
As relações intersubjetivas é que possibilitam o julgamento do trabalho realizado no que diz respeito à sua utilidade e beleza. O julgamento da utilidade técnica, econômica e social da atividade realizada só poderá ser proferida por quem estiver no topo da linha vertical da hierarquia, ou seja, só o chefe, o executivo, o coordenador é que estarão em condições de avaliar o trabalho. Eventualmente, os subordinados e os clientes também terão essa prerrogativa de julgamento de utilidade.
O julgamento de beleza vai constatar se a realização da tarefa está em conformidade ou não com as regras do trabalho, com as regras da arte do ofício e se existe originalidade no estilo utilizado e qualidade. Este quesito só poderá ser atribuído pelas pessoas que conhecem muito bem o trabalho e suas regras. Esse tipo de julgamento é feito pelos colegas, ou seja, na linha horizontal e confere ao trabalhador pertencimento ao coletivo de trabalho e, conseqüentemente, reconhecimento e identidade (Dejours, 1999, 2002, 2004).
Nesse processo, inicialmente o que é avaliado é o trabalho; posteriormente, o trabalhador se reapropria desse reconhecimento para a construção de sua identidade, que é o nó central para a saúde do trabalhador (Dejours, 1999, p.94). O reconhecimento é uma forma específica de retribuição moral-simbólica atribuída ao trabalhador pela sua contribuição com a organização do trabalho, pelo engajamento de sua subjetividade e inteligência (Dejours, 2002, p.56).
Nesse sentido, a reapropriação do sofrimento via dinâmica do reconhecimento viabiliza a construção da identidade na dimensão social, mediada pelo trabalho. Para que esse processo ocorra é necessário o olhar do outro que julga e constata a utilidade do trabalho realizado e que também expressa gratidão pela contribuição recebida. Essa dinâmica só é possível mediante a construção de relações intersubjetivas no coletivo de trabalho (Dejours, 1999; 1992; 2004).
Para a Psicodinâmica do Trabalho, a saúde no trabalho é uma construção mediada pela dinâmica do reconhecimento, que ao conferir julgamento de utilidade, de beleza, de originalidade e de qualidade, possibilita a construção da identidade do trabalhador, uma vez que ela é central para a obtenção da saúde psíquica. Dessa forma, nenhuma relação de trabalho é neutra no que diz respeito à saúde, pois é a qualidade das relações intersubjetivas que contribui para sua construção, tanto no registro do amor (lado erótico) quanto no campo das relações sociais de trabalho. Nesse mesmo sentido, a construção da saúde, ou da normalidade, fundamenta-se na relação da pessoa com um terceiro (Dejours, 1999).
Se a dinâmica do reconhecimento funcionar, o resultado do trabalho repercute em favor da auto-realização e da construção da identidade. Caso contrário, se o reconhecimento não é exercido, o sofrimento não pode ser subvertido em prazer e o trabalho perde então seu sentido subjetivo, gera alienação e, por fim, o aparecimento da crise de identidade e de outras patologias. Como não há neutralidade no campo do trabalho, que pode proporcionar saúde ou doença, é importante considerar que, de acordo com a Psicodinâmica do Trabalho, quase toda descompensação psicopatológica supõe uma crise de identidade (Dejours, 1999).
Para explicar como ocorre esse processo, Dejours (1999, 2004) recorre às idéias de François Sigaut, autor que considera a alienação social como sendo o próprio objeto do sofrimento no trabalho. O trabalhador mantém uma relação com o real, mas essa relação não é reconhecida pelo outro, conforme está indicado na figura abaixo:
Desse modo, o não reconhecimento coloca o equilíbrio mental do trabalhador em risco. Nesse aspecto, há duas formas para lidar com esse sofrimento: na primeira, o trabalhador, não tendo o seu trabalho reconhecido por ninguém, acaba por duvidar daquilo que acredita ser verdade, daquilo que acredita saber fazer e compreender de sua relação como real de trabalho, ou seja, perde a confiança em si mesmo. Na segunda, o trabalhador mantém sua crença na legitimidade de sua relação com o real de trabalho mesmo que, para isso, tenha de lutar contra a opinião de todos; no entanto, aos poucos, acabará por ser visto como louco. De qualquer modo, essas duas formas de lidar com o sofrimento pelo não reconhecimento no trabalho levam ao adoecimento (Dejours, 1999, 2004).
As situações de alienação social que levam ao desenvolvimento de desequilíbrio mental não são raras no ambiente de trabalho, haja vista que o reconhecimento das contribuições dos trabalhadores à organização do trabalho é feito de forma parcimoniosa. Quando os trabalhadores reivindicam retribuição pelas tarefas realizadas nem sempre são atendidos; porém, não se trata de algo marginal, porque essas reivindicações estão inscritas mais no plano simbólico do que no material e, por isso, contribuem para a construção da saúde.
Para a Psicodinâmica do Trabalho, a saúde não é um estado natural, e sim uma construção intencional na qual o trabalho ocupa lugar importante. Portanto, os efeitos do sofrimento no trabalho podem ser conjurados e convertidos em mecanismos estruturantes; para tanto, depende da articulação do trabalhador com a organização do trabalho, com o
coletivo e com o seu próprio mundo subjetivo.
Vale ressaltar ainda que Dejours (1999, 2001, 2004) chama a atenção para uma questão importante: a saúde no trabalho não é colocada da mesma forma para os homens e para as mulheres, em detrimento do lugar diferente que lhes é atribuído na organização do trabalho, ou seja, pela divisão sexual de trabalho. Em decorrência dessa desigualdade socialmente construída, os benefícios simbólicos da sublimação para a saúde mental e o acesso à dinâmica do reconhecimento no trabalho são também atribuídos de forma desigual aos homens e às mulheres. Para o autor, essa é uma questão desafiante para a Psicodinâmica do Trabalho.
O sofrimento dos trabalhadores é explorado em prol do incremento do sistema produtivo e, para tanto, as empresas estimulam a continuidade do círculo vicioso que envolve tensão nervosa e produtividade. Esse processo se dá de modo que quanto mais tensos, mais agressivos, mais ansiosos e medrosos forem, mais os trabalhadores se tornam produtivos. Em decorrência desse fato, Dejours afirma que o sofrimento psíquico é o próprio instrumento para obtenção do trabalho: O trabalho não causa o sofrimento, o sofrimento é que produz o trabalho (1992, p. 103). Segundo o autor, para aumentar a produção, basta puxar as rédeas do sofrimento psíquico traduzidos em fadiga, frustração, tensão, agressividade, nervosismo, ansiedade, depressão e outros.
Em situações de pressão e de atividade repetitiva, individualmente, os trabalhadores criam procedimentos defensivos que os conduzem à aceleração frenética dos movimentos e das cadências de trabalho, provocando um retorno que impõe a si mesmos uma quietude, uma repressão das atividades fantasmáticas da mente, em proveito da organização do trabalho e da produtividade. Com isso, não há dispersão ou perda de tempo e de recursos.
Na construção civil, na indústria, nas atividades do setor terciário e em outros segmentos do setor produtivo, o medo dos trabalhadores diante das exigências e das pressões os levam a construir macetes , quebra-galhos e as habilidades de prudência que facilitam o domínio dos incidentes e a execução das tarefas. Esses arranjos têm se apresentado mais eficientes do que aqueles procedimentos e regulamentos ditados pelos gerentes.
As regras de ofício nem sempre estão de acordo com a organização oficial e, por isso, os trabalhadores sempre correm risco pelo seu uso. Esse tipo de inteligência sempre funciona em relação a uma regulamentação feita anteriormente pela organização prescrita, por isso, tem a função de subverter a prescrição para atingir os objetivos. O resultado dessa
inteligência é apropriado pela organização do trabalho para seu enriquecimento e atualização (Dejours, 1992, 1994, 2001, 2004).
A ansiedade dos trabalhadores também é explorada quando eles não detêm o conhecimento exato do funcionamento de um processo de trabalho e não dispõem de informações necessárias para sua execução. Para superar essa dificuldade, circula um saber próprio que não é formalizado, e sim fruto de um aprendizado que é coletivamente compartilhado por meio da transmissão oral entre os trabalhadores. Esse conhecimento pragmático é que permite o funcionamento do trabalho.
Dessa forma, aos poucos, toda a vida do trabalhador é atravessada pela ansiedade gerada pelo trabalho, pois mesmo fora ele não consegue se desligar, sempre se vê envolvido com as preocupações relativas às questões do cotidiano para a execução das tarefas. Nessas circunstâncias, o sistema produtivo se beneficia do sofrimento do trabalhador, considerando que, quanto mais ansioso ele estiver maior será a produtividade. Assim, o sofrimento é negado e tolerado no ambiente de trabalho.
O cenário atual sugere a existência de uma nova forma de tolerância ou banalização do sofrimento, possível mediante a estratégia adotada pelos novos métodos de gestão empresarial, denominados de distorção comunicacional por Habermas, conforme citado por Dejours (2001, p. 63). Os novos métodos de gestão, associados ao liberalismo econômico, negam a discrepância entre a organização real e a organização prescrita do trabalho. Esse processo resulta em perplexidade: de um lado a experiência prática da gestão do trabalho real, com suas dificuldades, riscos e perigos; de outro, o discurso satisfeito, triunfante e confiante contido na descrição gerencial. Ou seja, a negação do real de trabalho é a base da distorção comunicacional, associado à negação do sofrimento. Um exemplo de distorção comunicacional é a mentira (Dejours, 2001, p. 61), que ocupa os espaços vagos deixados pelo silêncio dos trabalhadores sobre o real e pela ausência de informações em relação aos resultados, aos fatos, aos fracassos e aos erros ocorridos no trabalho.
Enfim, inspirado pelos escritos de Hanna Arendt sobre o Caso Eichmann , Dejours (2001) analisa o mal infligido a outrem (p. 138) na forma de banalização do mal pela gestão do trabalho, decorrente do sistema neoliberal, e faz o seguinte: Por que dentro das empresas pessoas de bem, em sua maioria de senso moral, colaboram com a prática do mal?
De forma contundente, Dejours estabelece uma comparação entre a banalização do mal no sistema neoliberal com a banalização do mal no sistema nazista, considerando ambas
como fruto de um processo capaz de atenuar a consciência moral, ou seja, o retraimento da consciência intersubjetiva (Dejours, 2001, p. 114), que é marcado pela ausência de pensamentos em relação ao mundo distal. Trata-se de um comportamento normopático, próprio do oficial nazista Eichmann, que consentiu em colaborar no extermínio de pessoas durante a Segunda Guerra Mundial. O comportamento normopático é caracterizado pelo conformismo com as normas de comportamento social e profissional, pela indiferença para com outrem e pela suspensão da faculdade de pensar e de julgar.
Dejours (2001, 2004) afirma que nas organizações o mal infligido a outrem é decorrente das estratégias defensivas utilizadas diante do medo e dos riscos de precarização e de exclusão social. A divisão social do trabalho favorece o retraimento da consciência, pois leva a pessoa a ignorar o que se passa além do seu mundo proximal; conseqüentemente, serve como meio para a divisão subjetiva e reforça a adoção de um comportamento de omissão, de indiferença e de individualismo em relação a outrem.
De modo geral, em uma perspectiva crítica, os pressupostos teóricos da Psicodinâmica do Trabalho evidenciam que as configurações atuais da organização do trabalho têm impacto na subjetividade do trabalhador. As situações concretas colocam os trabalhadores em contato com o real de trabalho que se apresenta na forma de fracasso, no sentido de que o real de trabalho resiste às prescrições. A partir da vivência dessa dinâmica, os trabalhadores forjam um modo de trabalhar diferente daquele determinado; eles criam condições para adequar o trabalho a seus desejos, para serem mediadores da emancipação, para a construção de identidade via reconhecimento e manutenção da saúde.
A seguir, serão apresentados alguns estudos que adotaram os princípios da Psicodinâmica do Trabalho em diferentes setores produtivos e categorias profissionais.