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A monumentalidade na arquitetura pode ser definida como uma qualidade, uma qualidade espiritual inerente a uma estrutura que transmite a sensa- ção de que não é possível acrescentar ou mudar nada nela.

O resultado do concurso de João Monlevade deu fôlego à equipe para que entrassequase que paralelamente no concurso para o ediício da sede do BDMG, aberto em 1969 e acessível a arqui- tetos do Estado de Minas Gerais. Os mesmos arquitetos: Humberto Serpa, Marcus Vinicius Meyer, Márcio Pinto de Barros e William Abdalla, saíram vencedores e se tornaram responsáveis pela construção daquele que viria a ser um dos marcos da arquitetura moderna de Belo Horizonte. O lançamento de concursos públicos desse porte, inal da década de 1960 e início da de 1970, cor- respondeu ao milagre econômico brasileiro, período em que os invesimentos governamentais na área de infraestrutura urbana, construção de ediícios cívicos, administraivos, hospitalares, esco- lares e habitacionais foram acelerados. “O Estado passaria por um processo de modernização bu- rocráica” (SEGAWA, 1998, p. 160). A construção de Brasília, de certa forma, se tornou responsável por difundir e fortalecer o papel do arquiteto na concreização de empreendimentos importantes. O ediício localiza-se no entorno da Praça da Liberdade, em terreno de esquina entre as ruas da Bahia e Bernardo Guimarães. O projeto parte da malha estrutural como deinidora do objeto. Pilares trapezoidais em concreto aparente marcam os limites frontais do lote e sustentam o corpo do ediício que se materializa recuado e quase lutuante. O descolamento entre corpo e estrutura abre perspecivas, instaurando uma relação de visadas generosas entre o ediício e a cidade, ao mesmo tempo que dialoga com o pedestre, que passa pelo pilar da esquina, ofereci- do à rua. O acesso ao prédio movimenta a trajetória, já que o térreo está um metro abaixo do nível do passeio, protegido por taludes gramados, numa arquitetura sem cerceamentos, onde os espaços público e privado se misturam.

Como forma de reforçar a tensão do objeto e acertar a proporção do prisma em vidro fumê, os dois primeiros e os dois úlimos pavimentos recuam em relação ao corpo do ediício e adotam o fechamento em vidro incolor. Com esse ariício o volume principal se mostra pretensamente solto, como objeto independente e leve em sua relação com o rigor da malha estrutural.

[72] BDMG. Detalhe da facha- da, foto irada durante a obra. [73] Perspeciva apresentada no concurso, 1969.

[74] Fachada da Rua da Bahia apresentada no concurso, 1969. [75] Fachada da Rua Bernardo Guimarães apre- sentada no concurso, 1969. [76] Perspeciva apresentada no concurso, 1969. (próx. página)

[77] Perspeciva apresentada no concurso, 1969. Vista do hall principal.

[78] Perspeciva apresentada no concurso, 1969. Vista do mezanino.

Um núcleo central resolve as circulações vericais, sanitários e apoios, amarrando o sistema estrutural e desenvolvendo uma lógica e leitura espacial de planta livre que segue por todos os pavimentos. Térreo, mezanino, terraço e cobertura possuem perímetro menor, recuados três metros em cada face do prisma principal, de nove pavimentos. Além das áreas de escritórios e gabinetes, o programa conta com biblioteca, laboratórios fotográicos, gráica, dois níveis de garagem no subsolo, bar e restaurante no mezanino, com área aberta expandida conigurada por terraço com tratamento paisagísico. Também foi desenvolvida uma linha de mobiliário es- pecíica às necessidades do projeto: sofás, poltronas e mesas foram desenhados pelo arquiteto, permanecendo no ediício ainda hoje.

[80] BDMG. Planta do térreo, projeto execuivo.

Rua da Bahia

Rua Bernardo Guimarães

Hall Hall Arquivo Almox. Vazio do hall Hall Bar R es taur an te Terraço

[82] BDMG. Planta do pavimento-ipo, projeto execuivo.

Auditório

Ante-sala

Escritórios/gabinetes

A grelha vazada de concreto aparente no coroamento relete a lógica estrutural adotada, favo- recendo, juntamente com os pilares, a paricipação da luz natural como elemento de transfor- mação do espaço construído. A luz, assim como elementos ísicos e conceituais adotados na arquitetura - estrutura no alinhamento, caixa em vidro recuada, acesso rebaixado, opacidade e transparência - também possui papel transformador da paisagem, na relação de permeabilida- de e expressividade do ediício com seu entorno. Ela ocupa os vazios construídos.

A modulação estrutural e a construção de cheios e vazios apoiados pela iluminação natural repetem-se como elementos deinidores nos projetos do arquiteto.

O desenho inal sofreu ampliação de quatro pavimentos, em relação ao apresentado no concur- so. A elaboração do projeto execuivo e a coordenação para início da obra do BDMG se deram no mesmo ano de 1969. A construção teve início meses depois, correspondendo ao fôlego do milagre econômico, e parou no inicio da década de 1970, sendo retomada entre 1972 e 1973, quando, inalmente, a sede foi inaugurada.

Fayga Ostrower desenvolveu um projeto para o painel do hall principal, contratado pelo banco após o término da obra, mas que não foi executado.

Durante os anos de obra, Serpa foi o arquiteto da equipe que acompanhou a construção, sem nenhum compromisso contratual com o BDMG. Segundo ele1, foi a maneira que vislumbrou

para tentar garanir que o projeto fosse seguido integralmente. Apesar disso, discordante do projeto original, o fechamento do térreo e da cobertura que seria em vidro incolor, foi executa- do com o mesmo vidro fumê dos demais pavimentos.

O ediício seguiu íntegro por aproximadamente trinta anos, até que nos anos 2000 começou a sofrer modiicações que o descaracterizaram, estando hoje em processo de tombamento pelo Patrimônio Histórico Municipal. Tornou-se um marco arquitetônico em Belo Horizonte, aingin- do a monumentalidade através da correção formal.

Em 2012 o BDMG completou 50 anos, retomando um processo de cuidados com o ediício, que teve sua estrutura em concreto recuperada e limpa, mas que foi pintado, o que acabou por descaracterizá-lo, mudando sua tonalidade e eliminando a rusicidade natural do material.