A fenomenologia, enquanto uma escola da sociologia, estuda a vida cotidiana através de uma série de conceitos. Segundo a sociologia fenomenológica, no mundo da vida impera uma espécie de “atitude natural” dos fenômenos sociais onde cada objeto e cada ator não é percebido de forma isolada mas dentro de uma “familiaridade típica”, constituída por um “pré-conhecimento”, o que, por sua vez, implica em um não-questionamento desses mesmos fenômenos sociais. No mundo da vida cotidiana imperam as “experiências”, os “interesses pragmáticos”, os “papéis sociais” e os “estoques de conhecimento” (DOMIGUES, 2003, p. 464). Desse modo, para as correntes tradicionais da fenomenologia, assim como também no interior da obra de Habermas, o “mundo da vida” possui uma composição pré- reflexiva, que se toma como dada, aludindo à repetição das coisas tal qual elas são previamente conhecidas. Também a noção de ação supõe, a partir deste modo de interpretação, uma mera experiência ou “vivência” (erlebnis) sobre a qual não se pode refletir, “ou a sua reorganização aí sim reflexiva, de modo contemplativo, por meio da qual se atribuiu sentido à ação – a uma ação passada” (p. 467). Ao falar de cotidiano e experiência, as vertentes mais tradicionais da fenomenologia adotam uma perspectiva sobre a existência
social potencialmente “conservadora” ao renunciar à tematização da mudança dos valores, normas e instituições (p. 469-470).
Enquanto alternativa a esta deficiência da perspectiva fenomenológica, porém, em intenso diálogo com ela, a ideia de ação deixa de depender apenas do âmbito da experiência ou da simples “vivência”. Pois há outro fator constituinte da ação que reside no “horizonte de expectativas”, enquanto um aspecto que se desenvolve do mesmo modo que as experiências, ou seja, de forma intersubjetiva. Destarte, experiências e expectativas não podem existir em completa autonomia umas das outras, pois “as expectativas podem mudar a experiência, onde somente as novas experiências são surpreendentes excedendo os limites das experiências prévias” (DOMINGUES, 2003, p. 471). Com relação ao horizonte de expectativas dos movimentos sociais na era moderna, este corresponde, entre outras coisas, à “necessidade de realizar a transcendência das condições sociais imperfeitas em que nos encontramos e nas quais a liberdade (e a igualdade e a solidariedade) se vê manietada devido precisamente a essas limitações” (p. 474).
Conforme Tarrow (2009, p. 140) existe um paradoxo na forma como os movimentos desenvolvem seus horizontes político-simbólicos. Tal condição paradoxal situa-se no ponto em que os símbolos de natureza familiar às pessoas, os quais são baseados em suas próprias culturas podem levar à passividade. De modo oposto a isto, as possíveis transformações nos horizontes simbólicos dos movimentos...
[...] são o resultado de sua interação estratégica em seus cenários variados e sempre em mudança. Os símbolos da ação coletiva não podem ser lidos simplesmente como um “texto”, independente das condições de luta em que estão inseridos. Nem são simples projeções da cultura nativa nas estratégias políticas. De um reservatório cultural de símbolos possíveis, os organizadores de um movimento escolhem aqueles que supostamente farão a mediação entre o entendimento cultural do grupo ao qual se dirigem, suas próprias crenças e aspirações e suas situações de luta. Para relacionar o texto ao contexto, a gramática da cultura à semântica da luta, precisamos de uma conceito adequado à natureza interativa dos movimentos social. Um grupo contemporâneo de estudiosos propõe tal conceito através da ideia de “quadros interpretativos” da ação coletiva (TARROW, 2009, p. 143).
Os quadros interpretativos das ações coletivas, ou os “frames de movimento”, aos quais este autor faz referência, compõem uma categoria especial de entendimento cognitivo, através dela é que se pode enfatizar “a gravidade e a injustiça de uma condição social” ou redefinir como “injusto ou imoral o que era visto anteriormente como desastroso, mas talvez tolerável” (TARROW, 2009, p. 143-144). A partir disto, os movimentos nomeiam “os descontentamentos, conectando-os a outros descontentamentos” formando, assim quadros repletos de sentidos, os quais dialogarão com “as predisposições culturais de uma população e enviarão uma mensagem uniforme para os detentores de poder e outros” (Ibid.). A
constituição de frames não está relacionada unicamente com a generalização dos descontentamentos, mas contribui para a definição de um “nós” e de um “eles” no interior de um contexto de conflito (p. 41). Além disso, os enquadramentos interpretativos das ações coletivas dos movimentos buscam dignificar e justificar essas ações, aperfeiçoando as perspectivas políticas dos movimentos (p. 121). Deste modo concebidos, os quadros interpretativos estão vinculados às experiências cotidianas que configuram um determinado contexto cultural e estratégico e às expectativas de mudança social das situações de injustiça que afligem os catadores em sua organização enquanto um movimento social, ou seja, em sua atuação coletiva que luta por “transformações sociais obtidas através de ações intencionais” (DOMINGUES, 2003, p. 482).
A partir dessas considerações, sentidos e quadros interpretativos são escolhidos como importantes definições operacionais a serem utilizadas nesta pesquisa. Primeiramente, quando se fala de sentido está se falando de uma junção de significados conferidos ao ato de agir dos catadores em relação à sua vida organizacional e ao seu trabalho cotidiano. E em segundo lugar, quando se fala de quadros interpretativos da ação coletiva, ou “frames de movimento” está-se referindo a um conjunto de sentidos provenientes das experiências e das expectativas dos atores. Estes atores nutrem, por sua vez, uma gama de expectativas comuns relacionadas com os descontentamentos e com as injustiças que configuram as possibilidades de mudanças históricas presentes na questão social da reciclagem. Neste sentido, uma das principais tarefas que cabem aos movimentos sociais é trabalhar os descontentamentos através de quadros interpretativos que situam as injustiças, apontam responsáveis e propõem soluções e encaminhamentos às suas questões coletivas. Este processo de enquadramento é de natureza “cognitiva e avaliadora” e tem por função traduzir os descontentamentos em reivindicações mais amplas destinadas às autoridades (TARROW, 2009, p. 145).
Os indicadores que dizem respeito às experiências e expectativas constantes neste estudo contribuem para reconstrução teórica e reflexiva tanto do quadro interpretativo dos catadores do MNCR/RS, quanto do frame compartilhado junto a alguns outros atores e instituições no interior da questão social da reciclagem. Portanto, a estratégia de organização deste estudo dá-se, assim, da seguinte forma: a partir do recolhimento de informações empíricas sobre experiências e expectativas, verificar-se-á como as mesmas se constituem em sentidos compartilhados entre os atores e em quadros interpretativos da ação coletiva dos catadores, os quais possibilitam a própria existência do MNCR/RS enquanto um movimento social assim como as suas articulações em rede junto a outros atores e instituições.
Logo a seguir no diagrama 1 pode-se constatar a forma como está estruturado de modo operacional o presente estudo:
Diagrama 1 – Os indicadores e as definições operacionais de pesquisa
Fonte: O autor (2010)
Com a utilização das definições operacionais acima obtidas através do emprego dos indicadores de experiências por um lado,e de expectativas por outro, espera-se verificar como a história e a mudança social podem se articular à vida cotidiana, para além dos processos absolutamente não-intencionais e amiúde mais localizados que caracterizam esta última (DOMINGUES, 2003, p. 483). Além disso, pretende-se realizar uma mediação conceitual entre vida cotidiana e história como forma de colocar “em relação os vínculos estruturais e os comportamentos concretos” (MELUCCI, 2005, p. 323).
A relação entre ambas dimensões pode ser desenvolvida por um movimento social de luta pelos direitos dos catadores, tal qual o MNCR. Para fazer com que isto ocorra, este movimento precisa, entretanto, consolidar um modo de interpretação da realidade cotidiana dos catadores e da questão social da reciclagem como forma de não ficar em desvantagem na luta contra poderosas instituições pela definição dos sentidos, assim como conseguir respaldo para suas propostas junto a outros atores sociais e políticos. Assim como afirma Tarrow (2009, p. 41): a luta dos movimentos não ocorre “apenas nas ruas, mas nas disputas pela significação”. Para elucidar os processos que visam consolidar outros sentidos a cerca da
referida questão social através dos elementos conceituais estabelecidos acima, é que foram estipulados os seguintes problemas e os objetivos de pesquisa.