lhe exigia e que tão bons discípulos deixou, d autue os quais, como menos ilustrado, sou eu um dos últimos. ." Ainda na atividade de professor, cansado por excessivo trabalho, desiludido com o mau estado das coisas indispensáveis e necessárias ao ensino, e, também, sua avançada idade, solicitou, definitivamente, a aposentadoria.
Durante largo período de sua vida, residiu o professor Marques numa rua junto ao üuteiro da Glória, bairro onde éabitavam pessoas conhecidas no meio social da Corte: Júlio César 'Mazzi, o barão de Sorocaba, poderoso por tantas títulos, a baronesa de S. Salvador de Campos.
Faleceu ein 1841, no Rio de Janeiro, sendo c» seu corpo inumado no claustro do convento de Santo Antônio. À beira do túmulo, levou as saudades da Acadtiria Imperial de Medicina, o seu secretário geral, Dr. De Simoni, que terminou a sua oração: "Joaquim José Marques mais não existe, mas para nós e para a ciência êle existirá sempre; nossa amizade e gra-tdão jamais deixarão de chorá-lo. e seu zelo, suas virtudes serão sempre o nosso espelho".
A Congregação da Faculdade designou o lente José Martins da Cruz Jobim, grande influência política e mais tarde, durante largo período, diretor, para se entender com o ministro, que se mostrou firme, a nada atendendo.
•Findas as provas, era Nunes Garcia aprovado, nomeado e .mandado tomar posse da cadeira, conforme os termos da seguinte portaria :
"Tendo o Regente, em nome do Imperador, por decreto üe 25 do corrente, junto por cópia, promovido ao Dr. José Maurício Nunes Garcia, lente substituto das cadeiras desta Escola de Medicina, a lente proprietário da de Anatomia geral e descritiva da mesma escola, assim o manda comunicar a Vossa Mercê, para sua inteligência e execução. Deus guarde Vossa Mercê. Paço, em 29 de outubro de 1839 — Manuel António Galvão — Sr. Diretor da Escola de Medicina desta corte — Cumpra-se e registe-se — Escola de Medicina do Rio de Janeiro. 4 de novembro de 1839 — Dr. Manuel de Valadão Pimentel. Conforme, Dr. Luís Carlos Fonseca".
0 professor recém empossado atribuiu as dificuldades que encontrara à maneira dúbia de proceder de Jobim e jamais o perdoou. Ein sua aula inaugural aludiu a estes latos, diante dos alunos e numeroso auditório, composto de notabilidades médicas, amigos e admiradores que enchiam o recinto para ou vi-lo: "ousei vestir a capa da esperança, como substituto desta escola que não tinha competidores... bem já acabrunha-
do peia hidra da perseguição e protérvia".. . e Jogo após... "desembaraçado dêsses verdugos, dêsses inimigos gratuitos que deixei no pó da terra, sangrados de dor peia espada da
justiça ...
Não ignorava que Jobim lhe chamava "o negro mais desa- vergonhado da Escola".. . e, por isso, pelas folhas diárias, sob Qualquer ocorrência escolar, criticava acerbamente sens atos e sua personalidade. Apontava-o como decorador de discursos alheios que pronunciava como seus e que escrevia com o titulo de "Jobinadas".
Em 1843 dirigia á Congregação longa "Representação e Queixa" contra Jobim, então na diretoria, a respeito da revalidação dos títulos de certo cirurgião portuense, Manuel Leite de Pinho Correia.
Mostrava Nunes Garcia que o dito Correia não oferecia documentos em ordem, para obter a licença de clinicar no país e dizia... "O diretor usurpou direitos da Comissão da Faculdade com arbitrário procedimento".
E, mais, que abandonava freqüentemente o cargo, entretido corn as semanas que permanecia como médico da Imperial Câmara, esquecido dos seus deveres e das suas funções, com prejuízo para o ensino. Em outra ocasião, se insurgia contra a autorização concedida a certo boticário inglês para exercer no Império.
Apesar de conhecedor profundo da matéria, não prendia muito a atenção dos alunos, por não possuir certa clareza na exposição dos assuntos em debate. Organizou um regulamento para exercícios práticos, adotando o livro de Lauth, com acréscimos originais e idéias retiradas dos tratados de Bédard. a parte de dissecção de Cruvellier, de Marjolaim e outros autores da época... As aulas eram dadas em casa situada na ladeira do Castelo, em local impróprio e até antihigiênico e, mais tarde, no "Instituto Anatômico". Nunes Gania reuniu, em. dois volumes, com perto de 400 páginas o primeiro, de cêrca de 500 o segundo, editadas em 1854-55 as SUÍU lições, com o titulo de "Curso
Elementar de Anatomia Humana ou Lições de Antropolomia". O livro logo que saiu era encontrado nas mãos estudan tinas, mas, com o correr dos tempos, foi esquecido, por seu estilo difuso, pouco claro e em certos pontos até confuso; aliás, todos os seus escritos se ressentiam dêsses defeitos.
Os dois tomos, em uma só estampa, são enriquecidos com diversos quadros sinópticos e tratam da definição da Anatomia, suas divisões, métodos do seu estu.lo, suas civisões, da "organologia", ou a arte de dissecar, modos de conservação dos.
cadáveres, da "osteotomia"', aponevrotomia, espiancnologia. órgãos dos sentidos, etc. Não se esqueceu, em sua obra, de reproduzir o "mapa osteogènico" do Dr. Jônatas Abbott, sôbre a época em que se desenvolvem os diferentes ossos humanos.
Nunes Garcia amava as pesquisas. Faleceu, no Rio, popular eunuco, do coro da Capela Real, ao tempo do regente português, possuidor 'de voz de tenor e que, no dizer de Vieira Fazenda, nas "Antiqualhas", era muito estimado pelas damas e camareiras de dona Carlota Joaquina. O seu esqueleto foi conservado durante muito tempo, na Faculdade de Medicina, para o estudo do professor de Anatomia.
Ficou, também, guardado corn êle o crânio do conhecido pregador e insigne patriota frei Sampaio para dele fazer, a respeito, análise minuciosa junto dos alunos.
Gostava de polêmicas pois dizia que "os golpes de pena devem ser respondidos corn golpes de pena". Assim, a memória do Dr. Vicente Sabóia sôbre fenômenos mecânicos do parto. sofreu imediatas impugnações do "Dr. A.", pseudônimo do professor de Anatomia, que publicou esse e outros artigos, combatendo a homeopatia, da qual se mostrou ferrenho adversário, na "Revista Obstétrica", de sua criação e que teve curtíssima vida.
Dedicou ao Dr. De Simoni um estudo sôbre fotografia fisiológica, na qual abordava a questão, se na retina dos indivíduos vitimados por morte violenta fica gravada a última imagem a ela sujeita, nos derradeiros instantes da vida.
Discutiu ainda com o Dr. Jobim sôbre um caso de ferimento mortal da cavidade toráxica, contestando, com calor, as opiniões emitidas e conclusões médico-legais a que chegou esse seu colega.
Na Academia Imperial de Medicina, da qual era membro honorário, tomava parte nos assuntos em foco; deu parecer sôbre uma observação do Dr. Feijó sôbre suptura do útero grávido; trata da grande mortalidade infantil no Rio de Janeiro, apreciando suas causas, entre outras, a alimentação imprópria, a amamentação por amas mercenárias doentes, o tratamento inadequado do cordão umbilical.
Publicou nos "Anais de Medicina Brasiliense" vários trabalhos, destacando-se longas observações sôbre "febre meningo-gástrica", curada com alta dose de sulfato de quinino: ferido penetrante do ventre, curada, após várias complicações; cancro da mama, quase manifesto, curado, em pouco tempo, com a massa de imbaíba ou imbaúba.
José Maurício Nunes Garcia, se não tivesse sido médico. professor de Anatomia, seria, não há negar, grande artista, o
melhor e mais dedicado discípulo de seu pai, o padre José Maurício, consagrado compositor de músicas sacras, de quem herdou parle do talento artístico. Viveram sempre, pai e filho, na mais estreita amizade, muito amigos, naquele sobrado pobre, antiga rua da Lampadosa, cuja escada em caracol, na frase pitoresca do Dr. 'Ferreira iFrança, devia ser 'semelhante às das naus de Pedro Álvares Cabral.
Nessa doce existência consagravam as horas vagas em serões freqüentes, ouvindo Beethoven e Seariatti. até que o sono surpreendia Nunc." Garcia, quando o bom velho, carinhosamente, lhe tocava no ombro: "José, essa Escola Médico-Cirúr-gica mata-te, deves ir repousar".
Ainda teve tempo o professor médico, de compor e publicar as "Mauricianas", dois volumes, com 65 números musicais, acompanhadas das respectivas poesias, dedicadas ao progenitor com a sua fotografia por êle desenhada.
Apaixonado pela pintura, deixou o seu auíc-retralo, hoje colocado nos corredores da Faculdade de que foi lente respeitado.
Embora de origem obscura, era recebido, com agrado e distinção, nas altas rodas, trajando com elegância e aprumo, fatos sempre escovados, variadas e lindas gravatas, cartola de pelo de coelho, sendo de opinião que homem bem vestido não chama atenção sôbre si.
Agradecido a Pedro II, conTa-se que, ao dar a sua última aula, descrevendo a Anatomia, seu valor e correlação com as outras matérias do curso médico, terminou còm um viva ao Imperador, que não encontrou eco na assistencia.
Possuía Nunes Garcia diversas condecorações e títulos honoríficos e científicos: Oficial da Imperial Ordem da Rosa, Correspondente da 'Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, do Instituto. Histórico do Rio de Janeiro, Professor Honorário da Academia de Belas Artes, Cavalheiro de Cristo.
Fugindo de todos, ferido por profundos desgostos íntimos, que o atormentavam, evitando inúmeros amigos que o procuravam e admiradores que o consagravam, quase octogenário, ha muito jubilado, arredado, portanto, da Faculdade, desapareceu melancòlicamente José Maurício Nunes Garcia, no Rio de Janeiro aos 1844, tendo trabalhado incessantemente durante 40 anos, repartindo os seus labores entre a cátedra, a clínica tocológica, a música e a pintura.
O seu enterramento, saído da mesma casa da Lampadosa, com grande cortejo, em caixão de 3.a classe, sepultado em cova rasa,
conforme seus desejos, pois, dizia, quem lidou antos anos no corpo humano, conhecendo as suas misérias, tanto fazia ser guardado em rico túmulo, como na humilde terra.
Eis aí como se esboçou o estudo da Anatomia no Brasil.
Na Bahia, após Soares de Castro e Abbott, ocupou a cátedra, entre outros, Lima Gordilho, futuro barão de ítapoã, raro talento, possuidor de variada ilustração, indo mais tarde lecionar Obstetrícia.
No Rio, após Marques e Nunes Garcia, vieram, para falar só dos mortos, Sousa Fontes, visconde do mesmo nome, Luís Pientznauer, Pereira Guimarães, Ernesto Crissiúma e Silva Santos...
Como chefes de escola, mestres de muitas gerações, Brant Pais Leme e Benjamim Batista.
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