No capítulo anterior apresentamos a trajetória formativa do objeto de investigação desta pesquisa: o grupo ‘Batucan’, onde discorremos sobre sua legitimação no contexto sociocultural da Cidade de Cruz-Ce e da própria Escola Filomena Martins dos Santos - instituição onde suas práticas percussivas coletivas acontecem. Também descrevemos as principais atividades que conduziram sua estruturação como: oficinas, encontros reflexivos, ensaios, apresentações e capacitações. Todas estas ações contribuíram para que o grupo
alcançasse projeção e reconhecimento tanto entre os próprios integrantes quanto entre o público que assistia a seus trabalhos percussivos. Cabe ressaltar que estas etapas formativas aconteceram a partir do ano de 2008, período de surgimento do referido grupo na escola, e que passaram nos anos seguintes, a contar com várias gerações de integrantes, os quais desenvolveram habilidades e experiências significativas através do contato com estas práticas criativas e musicalizadoras.
A Escola de Ensino Fundamental Filomena Martins dos Santos, é uma instituição pública localizada em um bairro periférico do município de Cruz-CE, conhecido como: “Bairro de Canema”, o qual abrange dois conjuntos habitacionais adjacentes: ‘O conjunto São Miguel’ e o ‘Conjunto São Raimundo’. Atualmente, existe a inserção de um terceiro e recém-inaugurado conjunto habitacional, sendo este maior que os outros descritos anteriormente: o ‘Conjunto Nova Cruz’ - batizado carinhosamente por “Correginho dos Muniz286”, que também é situado nas proximidades do referido Bairro onde a escola encontra- se inserida.
A referida escola situada no bairro de Canema, atende crianças e adolescentes oriundas de famílias com renda advinda do exercício da agricultura familiar, atividades domésticas, costura e construção (pedreiros e auxiliares). Abrange famílias do bairro e também de bairros vizinhos como São João, São Pedro e localidade de Correguinho dos Muniz. Grande parte de seus alunos reside em dois conjuntos habitacionais [...] (PPP da Escola Filomena Marins dos Santos, 2012, p. 35)
Imagem 60 - Escola Filomena Martins dos Santos - (Canema)
Fonte: Escola Filomena Martins dos Santos
É de suma importância destacar que, dentre todas as escolas da rede pública municipal287, esta é a que recebe a maior parte dos alunos residentes destes bairros - muitas vezes desassistidos de políticas públicas, o que infelizmente acarreta em estereótipos preconceituosos, que inclusive, se reflete no baixo índice de procura por matrículas. Tal fato
286 Correguinho dos Muniz: também conhecido como “conjunto São José”.
se torna injusto ao considerarmos que a escola sempre se sobressai entre os melhores índices de alfabetização, ganhando premiações externas e o reconhecimento da Secretaria de Educação. Nos anos de 2008, 2010, 2011 e em 2014, por exemplo, foi destaque ao receber o “Prêmio Escola Nota Dez”, do Governo do Estado, como uma forma de reconhecimento pelos resultados significativos obtidos na alfabetização de suas crianças.
Tal reconhecimento propiciou além de homenagem pública em solenidade realizada em Fortaleza, uma melhor equipagem da mesma com a construção de uma ampla biblioteca escolar provendo-a de acervo variado e atualizado de livros e jogos educativos, construção de arquibancadas defronte à quadra esportiva e também de equipamentos como máquina de Xerox, data show, TV de LCD, etc. (PPP da Escola Filomena Martins dos Santos, 2012, p.34)
Além destes investimentos, conquistados através das importantes premiações citadas, a escola conta com um considerável número de salas de aula, especificamente 08, todas em perfeitas condições de funcionamento. Dispõe ainda de uma sala de informática, dois almoxarifados, uma secretaria, uma coordenação, uma biblioteca, uma sala de professores, uma diretoria, uma cantina e uma sala de música. Esta última encontra-se climatizada e equipada com diversos acessórios e instrumentos musicais, os quais podem ser destacados no quadro abaixo:
Tabela 13: Instrumentos disponíveis na EEF Filomena Martins dos Santos (Obs. Vale ressaltar que estes instrumentos percussivos convencionais foram introduzidos na sala de música após a criação do Batucan, sendo
oriundos da implementação do programa “Mais Educação” do Governo Federal)
Instrumentos Quantidade Violão 16 Teclado 04 Pandeiro 05 Bateria 01 Cavaquinho 01 Zabumba 02 Repique 01 Bacurinha 01 Repique de Mão 01 Agogô 01 Escaleta 06 Bongô 01 Timbal 03 Tamborim 02
Fonte: Elaborada pelo autor.
Enfatizamos ainda que todos estes instrumentos tradicionais compartilham o mesmo ambiente musical que os instrumentos reciclados, os quais, com base no número de integrantes, atinge um percentual de 44 instrumentos, todos confeccionados em oficinas
promovidas dentro da própria sala de música. Esta sala além de servir como espaço para oficinas ecológicas, recebe ainda em horários de contra-turno, estudantes para participarem do projeto “música na escola”, onde são disponibilizadas vagas para as modalidades: Percussão, Teclado e Violão.
Apesar de atuar coordenando e exercendo a regência do grupo Batucan, conto com o auxílio voluntário de um monitor, também ex-aluno da escola e morador da comunidade circunvizinha. Benedito Júnior, mais conhecido como “Bené” me auxilia nos ensaios, repassando o que aprendeu e incentivando os participantes a despertarem o gosto pela percussão. Hoje, com 22 anos de idade, é a principal referência rítmica para os alunos, os quais se espelham em seus conhecimentos e habilidades percussivas.
Eu sou como um ídolo pra eles, porque eles se espelham em mim. Eu sou muito bem respeitado lá dentro por todos eles, do menor ao maior. Eu dou o meu máximo pra ver eles evoluindo no grupo a cada dia que passa. Ensino vários ritmos, ajudo nos contratempos, converso com eles, incentivo a todos né?288
[...] é bastante frequente no ensino da percussão em coletivo o auxílio dos amigos ou de alguém com mais experiência que domine o instrumento e comece a ensinar o próximo. A figura do regente não é representada como o único professor, pois muito passa a ensinar a partir de um movimento espontâneo, consoante a afinidade com os companheiros. (SANTOS, Catherine, 2017, p.88)
Atualmente, a faixa etária dos integrantes do grupo, com exceção de Benedito Júnior, varia entre as idades de 10 a 17 anos, no entanto, verificamos que a média estabelecida aponta os 14 anos como a idade predominante. A maioria destes alunos estudam especificamente em turmas de 7º, 8º e 9º anos no turno vespertino desta escola. Já a minoria, estuda em turmas de 5º e 6º anos no turno matutino. Os outros integrantes, hoje no ensino médio, frequentam o 1º e o 2º ano com uma idade um pouco mais avançada (16 e 17 anos).
Quanto a configuração instrumental do grupo, esta encontra-se dividida em seis naipes, todos contendo um timbre único e diferenciado. Vejamos:
Tabela 14: Instrumentos confeccionados para o grupo percussivo “Batucan”
Instrumentos Quantidade Função
Galões/ou Garrafões 07 Caixa
Baldes 14 Surdo de Segunda
Latas 12 Repique
Tambores de Lixo 05 Surdo de Primeira Frascos de Aerossol 02 Ganzá
Caxixões 04 Xequerê
Fonte: elaborada pelo autor.
288 Entrevista realizada no dia 19 de junho de 2017 com Benedito Júnior Nascimento - atual monitor do grupo Batucan.
Na imagem abaixo, podemos visualizar a organização espacial destes instrumentos no ato da execução rítmica em ensaios ou apresentações:
Imagem 61 - Configuração Instrumental do grupo Batucan
Quadra da Escola Filomena Martins dos Santos. (Segundo semestre de 2017)
Fonte: Lidonildo Costa
As atividades percussivas do Batucan aconteciam anteriormente na sala de música, porém, com o aumento do número de alunos e consequentemente de instrumentos, tivemos que utilizar a quadra da escola como espaço para os ensaios. As oficinas recicláveis continuam ocorrendo na sala de música, assim como os momentos reflexivos sobre a cultura afro-brasileira.
Imagem 62 e 63 - À esquerda, sala de música e à direita quadra esportiva da escola Escola Filomena Martins dos Santos. (Segundo semestre de 2017)
Fonte: Lidonildo Costa
Para as apresentações, o grupo conta com três uniformes diferentes, patrocinados pela Secretaria de Educação e Cultura da cidade. O design destas indumentárias, além de trazer o emblema289do grupo, traz consigo as cores do Samba-Reggae (verde, amarelo, preto e vermelho), como uma forma de alusão ao ritmo “Reggae”. Estes uniformes derivam de minhas próprias invenções artísticas, as quais foram aprovadas pelos integrantes e gestão pedagógica da escola.
Imagem 64 e 65 - Em cima, imagem frontal dos uniformes do grupo Batucan Embaixo, imagem ilustrando a parte detrás dos mesmos
Fonte: Lidonildo Costa
O caráter prático e investigativo desta pesquisa baseou-se na estruturação de etapas metodológicas, as quais possibilitaram a descrição detalhada de experiências realizadas com o grupo ao longo de três anos de ação e investigação. A partir das observações destas etapas, realizadas cumprindo-se um cronograma específico, foram emergidas diversas interpretações que buscaram obter subsídios para a formação de uma base teórica consistente, a qual analisa pelo viés reflexivo os dados obtidos no campo de estudo.
Neste intuito, descreveremos as principais ações pedagógicas realizadas durante o período investigado, onde foi elaborada primeiramente uma proposta que traz a musicalização através da percussão em coletivo como a primícia básica de nossas ações.
No ano de 2016, ingressaram novos participantes nas atividades coletivas do Batucan. Anteriormente, no ano de 2015, o grupo contava com apenas 30 alunos. Como a procura por vagas foi grande no ano seguinte, houve o acréscimo de 14 novos participantes, os quais permanecem atualmente desempenhando suas funções rítmicas.
Para o alcance desta proposta de musicalização através percussão, houve a necessidade de elaborarmos como primeira estratégia metodológica a realização de oficinas ecológicas de música percussiva, visando produzir entre os alunos iniciantes, diversos instrumentos a partir de materiais reciclados - trazidos por eles mesmos de suas próprias comunidades.
Esta etapa metodológica inicial, classificada nesta pesquisa como Etapa 01 - “Oficina Artesanal”, ocorreu sempre no início do segundo bimestre de 2016, 2017 e 2018, onde capacitamos estes alunos demonstrando como se confecciona ganzás de frascos de aerossol, baquetas e outros instrumentos percussivos como: latas, garrafões, baldes e caxixões. Estas atividades duraram em média 02 hs aula, sendo repetidas em torno de 05 encontros
consecutivos durante a semana, no horário de pós-turno escolar, especificamente das 17 às 19hs da noite na sala de música. Além da exploração timbrística destes materiais, os alunos estimulavam sua criatividade, enfeitando através de adesivos coloridos os seus “novos” instrumentos percussivos.
Imagem 66 e 67 - À esquerda, oficina realizada em 2016, à direita, instrumentos confeccionados
Fonte: Lidonildo Costa
Paralelamente a estas atividades coletivas, houve momentos de diálogo (roda de conversa) que duraram em torno de 40 minutos por encontro, onde tratamos de temáticas relacionadas ao meio ambiente como: a importância da reutilização e sobre os efeitos prejudiciais da poluição. Através destas oficinas, instigamos a criticidade, a reflexão e a sensibilização sobre as consequências atreladas ao desperdício de materiais no nosso ambiente. Os alunos se expressavam contextualizando situações ocorridas em suas próprias comunidades, em alguns casos, era perceptível o repúdio da maioria quando tratavam de questões associadas ao acúmulo de lixo jogado na rua.
Além destas competências educativas voltadas ao meio ambiente, estas oficinas se caracterizaram como importantes espaços de socialização, pois os estudantes traziam materiais e compartilhavam entre si, colaborando ainda para a confecção conjunta de seus respectivos instrumentos musicais.
Ao todo foram realizadas 03 oficinas artesanais, distribuídas entre os referidos anos de pesquisa: 2016, 2017 e 2018, totalizando em média uma carga horária de 30hs. Ao final de cada oficina, era realizada uma culminância da proposta ecológica em formato de aula de campo. No ano de 2016, por exemplo, conduzimos os alunos para as suas próprias comunidades em forma de cortejo percussivo, visando sensibilizá-los sobre a quantidade de lixo jogado nas ruas durante a caminhada. No ano de 2017, levamos os participantes para
refletirem sobre o desgaste ambiental causado nas margens do rio local: o rio Acaraú290. E em 2018, fomos conhecer a situação do lixão da cidade.
[...] é necessário ressignificar as atividades de ensino, pesquisa e extensão indo aos territórios. Nesse sentido, a ida aos territórios é formativa, pois proporciona aos estudantes conhecerem, sensibilizarem-se e confrontarem-se com realidades, na maioria das vezes, muito distintas das suas, construindo assim esse vínculo de confiança com os sujeitos. (FREIRE, Ludmila, 2015, p.105)
Imagem 68 - Cortejo Ecológico Imagem 69 - Passeio Ecológico Conjunto São Miguel (2016) Margens do Rio Acaraú (2017)
Fonte: Lidonildo Costa Fonte: Lidonildo Costa Imagem 70 - Visita ao lixão da cidade (2018)
Fonte: Lidonildo Costa
A segunda etapa metodológica desta pesquisa, cujo período de execução sempre ocorreu no 2º, 3º e 4º bimestre dos anos de 2016 e 2017 (com exceção de 2018 que ocorreu apenas no 2º bimestre), é classificada como Etapa 02 - “Experimentação Sonora”, onde foi colocado em prática aprendizagens rítmicas com os instrumentos recém-confeccionados. Através desta etapa, desenvolvida em horários de pós-turno (17 às 18hs), foram trabalhados com os alunos, diversos conhecimentos práticos, além de noções teóricas sobre a pauta musical, onde aprenderam valores, pausas, compassos e contratempos, contextualizando-os no
290 Rio Acaraú: nasce na serra das matas, corta Sobral e chega ao mar, em Acaraú. Nesse percurso, banha 18 municípios do vale do Acaraú.
referido pentagrama291. Tais aprendizagens enfatizaram ainda exercícios de técnica como: rudimentos, manulações, baquetamentos, rulos292, rebotes293 e rufos294. Além destas habilidades, foram instigadas outras competências, como: a performance, o entrosamento coletivo, a métrica sonora, a improvisação, noções temporais e espaciais, a lateralidade, a percepção rítmica e a coordenação motora. Saberes relacionados aos parâmetros sonoros (intensidade, duração, altura e timbre) também foram colocados em prática na medida em que foram ensinados diversos ritmos do repertório afro-brasileiro: Samba-Reggae, Axé- Music, Pagode, Baião e Maracatu. Ressalta-se que para o ensinamento prático destes ritmos, houve como principal recurso metodológico a oralidade, seguida de observação, imitação e repetição.
A aprendizagem deste repertório afro-brasileiro, trazia conhecimentos associados à história e à organologia dos instrumentos tradicionais peculiares às práticas da cultura popular. Os alunos compreendiam os instrumentos característicos de cada tradição rítmica, como exemplo: A zabumba no Baião, o pandeiro no Pagode, o timbal no Axé, o caixa no Maracatu, o surdo no Samba entre outros.
Através da divisão de naipes, compreendiam a função que cada instrumento reciclado exercia no balanceamento (equilíbrio) da estrutura sonora de cada ritmo. A sincronização entre a maioria dos alunos foi trabalhada através da imitação, já os alunos mais habilidosos improvisavam contratempos através de células rítmicas mais complexas, como forma de “preenchimento” das lacunas sonoras que existiam.
Imagem 71 - Etapa 02: Experimentação Sonora Sala de música
Fonte: Lidonildo Costa
291 Pentagrama: conjunto de cinco linhas horizontais, paralelas e equidistantes que formam, entre si, quatro espaços onde são escritas as notas musicais.
292 Rulos: sequência de notas feitas em toque duplo bem rápido, acentuando as baquetas na pele do instrumento de forma que se aproveite o rebote das mesmas.
293 Rebotes: ricochete da baqueta quando se choca com a membrana do instrumento. 294 Rufos: o mesmo que rufar.
Antecedendo às práticas percussivas do grupo, sempre era realizado um trabalho de aquecimento corporal, visando à obtenção de um melhor rendimento físico entre os alunos, pois, como alguns ritmos eram acelerados, exigia-se pulso e constância rítmica, além de resistência e firmeza corpórea. Ao final, fazíamos o relaxamento do corpo através de diversos alongamentos, principalmente voltados aos membros superiores295. “A importância dada ao corpo para uma sensibilização musical e corpórea antes de executar um instrumento percussivo, tem como ligação direta o toque de um tambor com o movimento corporal” (SANTOS, Catherine, 2013, p.30).
À medida que os ensaios foram acontecendo no decorrer dos anos investigados, foram também realizadas diversas apresentações, internas e externas à escola. O grupo participou de diversos eventos como: festejos carnavalescos, semana do meio ambiente, festas juninas, noites folclóricas, dia da criança, dia da consciência negra, entre outras apresentações que, no quadro abaixo, estão divididas em quantidades por anos:
Tabela 15: Apresentações do grupo Batucan, de 2016 a 2018.
Ano das apresentações Quantidade por ano 2016 14
2017 12 2018 06
Total: 32 apresentações
Fonte: elaborada pelo autor.
Ao término dos ensaios e das apresentações, dialogávamos sobre as aprendizagens atingidas, focalizando as dificuldades e os erros encontrados na tentativa de saná-los para os próximos encontros. Sobre os problemas relatados, a maior reclamação por parte dos alunos tratava-se dos contratempos intercalados nos ritmos, pois havia no começo uma nítida disparidade entre algumas cadências executadas. A reflexão e o diálogo coletivo neste ponto, exerciam um papel determinante no planejamento das competências que seriam atingidas e aperfeiçoadas.
Uma estratégia encontrada para o aprendizado simultâneo destes contratempos, foi a divisão separada de pequenos grupos de naipes dentro dos próprios ensaios, onde houve a escolha de determinados alunos mais habilidosos para repassarem o que haviam apreendido, despertando assim, uma autonomia de regência entre os mesmos.
A importância da função de líder de naipe no grupo se apresenta como uma prática colaborativa, tendo a atuação do ritmista como um participante que atua e interage diretamente no processo de formação e construção das atividades do grupo ensinando e aprendendo ao mesmo tempo. Essa dinâmica de função proporciona o
desempenho da motivação, autoconfiança e cooperação nas relações sociais e musicais do grupo. (SANTOS, Catherine, 2013, p.104)
Imagem 72 - Divisões de grupo para o domínio rítmico. Quadra da escola (2017)
Fonte: Lidonildo Costa
Em novembro de 2017, como complementação desta etapa prática da pesquisa investigativa, levamos os alunos à capital Fortaleza, especificamente à Universidade Federal do Ceará296, onde novamente tivemos uma capacitação rítmica com a professora Catherine Furtado dos Santos, responsável pelo ensino de percussão no curso de música desta instituição. Tal formação estava prevista como uma forma de encerramento (culminância) das atividades práticas realizadas com o grupo durante todo o ano. Com o apoio da Secretaria de Educação e Cultura de Cruz e da Gestão Pedagógica da Escola Filomena Martins dos Santos, os alunos puderam conhecer o espaço físico da universidade, os instrumentos tradicionais, técnicas de execução, saberes culturais e ritmos afro-brasileiros diferentes dos que já praticavam, como o Ijexá e o Maracatu cearense297. Além destes ensinamentos, os alunos foram sensibilizados quanto às questões que envolviam o preconceito e a discriminação com a tradição percussiva de origem africana.
Imagem 73 - Capacitação rítmica Universidade Federal do Ceará (2017)
Foto: Lidonildo Costa
296 UFC: Campus do Pici, Av. Mister Hull, nº 2965. Em 2013 já havíamos visitado a casa de José de Alencar - importante centro cultural mantido pela UFC, onde inclusive, também funciona o curso de música-licenciatura. 297 Maracatu cearense: ritmo cadenciado, com uma batida mais lenta que a do Maracatu Nação de Pernambuco.
Como processo final desta ação metodológica, intitulado: Etapa 03 - “Momentos Reflexivos sobre a Cultura Afro”, foi desenvolvido um trabalho educativo que se alinhou à etapa anterior, onde contextualizamos a história da percussão afro-brasileira através das origens africanas. Nestas ações, discutíamos reflexivamente em grupo sobre a nossa afrodescendência, levantando temáticas que instigavam os alunos a relatarem acontecimentos marcantes ocorridos em suas vidas. Tais temáticas enfatizavam questões como preconceito e discriminação racial, além das influências e costumes culturais afro-brasileiros. Vale ressaltar que a capacitação rítmica realizada na universidade serviu como subsídio para o enriquecimento dialógico destes encontros, fornecendo debates ancorados em conhecimentos apreendidos durante aquela formação percussiva.
Estes encontros aconteceram no final do 3º e 4º bimestre dos anos de 2016 e 2017, em horários de pós-turno, das 18 às 19hs da noite. Entretanto, no ano de 2018, em circunstância do período conclusivo desta pesquisa, ocorreu apenas no 2º bimestre, no mesmo horário em que vinha acontecendo nos anos anteriores.
Nestas atividades, além de estimularmos a reflexão e a criticidade, incentivamos o diálogo em forma de rodas de conversa, dando autonomia para que os alunos pudessem se expressar livremente através de suas ideias e sentimentos. Para uma melhor apreensão de conhecimentos e como uma forma de contextualização dos saberes explanados, repassamos filmes que tratavam da cultura afro-brasileira, sempre associando a música percussiva às origens e às tradições africanas.
As discussões tratavam-se de questões musicais, mas podemos concluir que estas eram sempre entrelaçadas com aspectos da formação humana, como poder escutar o outro e fazer juntos as construções colaborativas no trabalho percussivo. (SANTOS, Catherine, 2013, p.121-122)
Imagem 74 - Momentos reflexivos sobre a cultura afro-brasileira. Sala de música (2017)