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Analyse av intervjuer

Esta seção descreve os sentidos e as ressignificações atribuídas pelos próprios sujeitos participantes quanto às suas entradas no grupo, onde relatam sobre as primeiras percepções e vivências significativas construídas no ato de ingresso nestas atividades.

O primeiro participante: DJ Rick, é o integrante mais experiente do grupo. Sua presença no mesmo ocorre desde o ano de 2008 - período em que estas atividades se desenvolveram na escola. Conforme as declarações do entrevistado, compreendemos como se deu início a sua trajetória enquanto ritmista:

“[...] Eu iniciei no batucan na primeira geração de 2008, quando eu ainda era bem pequeno”. Eu via os meninos tocando e sentia muita vontade de aprender a batucar, mas eu achava difícil, quer dizer pensava que era difícil. Foi então que o professor me deu uma oportunidade, daí quando eu entre né? Eu pude sentir aquela sensação de felicidade, de compromisso. Virou um estilo de vida pra mim. Quando eu passei a tocar os ritmos e tocar em conjunto foi até complicado, eu errava muito, mas aí com o tempo né? Eu fui me desenrolando e hoje eu tenho talento pra várias coisas. Sou DJ, baterista, cajonista298, zabumbeiro, tudo isso eu aprendi graças ao grupo299”.

De acordo com o entrevistado, o estímulo à participação no grupo partiu prioritariamente da influência exercida implicitamente pelos outros alunos, os quais despertavam no mesmo a vontade de poder “batucar” em conjunto. Em outras de suas palavras, ele permite o entendimento de que estas primeiras experiências enquanto ritmista causavam momentos felizes, inclusive, motivando-o a se tornar um indivíduo mais compromissado. Não obstante, relata ainda no parágrafo final a contribuição que estas práticas proporcionaram para a sua capacitação enquanto DJ300 e percussionista.

Quando entrou nestas atividades, DJ Rick era apenas uma criança de 07 anos de idade, sem muita coordenação motora e com um pouco de dificuldade rítmica nos recém- confeccionados instrumentos. À medida que os anos se passaram, sua presença e habilidades no grupo foram crescendo. Hoje, percebe a sua importância dentro destas atividades, tanto como ritmista quanto como terceiro monitor.

“Quando eu entrei no grupo, ainda pequeno, eu me lembro que não tinha muito ritmo, meu corpo era duro que nem bambu, tive bastante dificuldade de acompanhar o compasso dos ritmos, mas aí, com o tempo, me dediquei muito, e pude perceber que quanto mais eu tentava mais eu queria aprender. Porque eu gostava daquilo, sentia que poderia ir longe. [...] O batucan se tornou tudo pra mim, por que dentro

298Cajonista: aquele que toca “Cajón” - instrumento de percussão de origem peruana, feito de madeira com esteiras ou cordas de aço internas, as quais vibram com a batida da mão do percussionista sobre a madeira. 299 Entrevista realizada com DJ Rick, 17 anos, em Novembro de 2017.

300 DJ: em inglês ‘disc jochey’ ou ‘disco-jóquei’ - artista profissional que seleciona e reproduz diversas composições previamente gravadas ou produzidas eletronicamente na hora para um determinado público.

dele eu despertei o talento tanto pra tocar como pra ensinar os outros. Hoje eu sou o terceiro monitor e se deus quiser vou continuar ainda e vou ensinar muitos meninos e meninas. Quero ficar na história do grupo301”.

Outros dois veteranos: Jason Xamã e Spinardi, ambos com 17 anos de idade, também participaram da primeira geração do grupo Batucan. Em seus depoimentos torna-se perceptível as constantes curiosidades e experimentações timbrísticas efetuadas pelos mesmos no ato de suas entradas nestas atividades, assim como às vezes em que improvisavam novas células rítmicas dentro do compasso proposto.

“Eu via os meninos ensaiando depois da aula e ficava olhando, admirado. Daí o professor perguntou né? Se eu queria participar do grupo. Eu nem pensei duas vezes. No outro dia eu já tava fazendo meu tambor de balde. Eu me lembro que foi até um balde de manteiga de padaria, eu peguei na rua e trouxe pra sala, pra poder furar, colocar esponja, corda, adesivo, essas coisa né? Quando eu fui tocar eu me dei super bem, o professor ficou até admirado com minha capacidade. Eu acompanhava os ritmos bem direitinho. O Samba-Reggae era o que eu melhor fazia. [...] No primeiro ensaio eu fui pra casa e ficava até com aquele Tum, Tum, Tum, na cabeça (risos) daí que nos outros ensaios, eu inventa toque novo em cima do ritmo, do Samba-Reggae, aí o professor me mudou de instrumento, viu que eu tinha mais agilidade. Eu fui repinicar no garrafão, que é o repique né? Eu improvisava que só, era massa. [...] Nas oficinas eu tentava criar umas baquetas junto com o Biano (Fabiano), eu tentava criar umas bem resistente, e procurava também uns balde bem diferente, de tamanho menor, pra poder variar o som do ritmo, deixar mais preenchido. [...] foi uma experiência assim, que, eu sempre vou guardar na memória. Amo o Batucan302”. “No meu caso foi o professor que insistiu pra mim entrar. Ele tinha me visto batendo na mesa do refeitório com um copo daqueles azul né? Da merenda, e eu pensei que ele ia até brigar comigo, devido a zuada que eu tava fazendo. [...] eu tava tocando justamente o ritmo dos ensaios dos meninos. Daí que quando ele viu ele foi lá e me perguntou assim: “Ei! Tô precisando de uma criança com habilidade que nem a sua,

pra tocar na lata, que participar não?” Daí eu disse que não né? por causa da

minha vergonha de tocar com aqueles lixo tudo. Mas aí quando foi entrando muita gente e os meninos me convidavam dizendo que era massa, aí foi eu que fui nele né? E perguntei se podia entrar ainda. Ele me colocou no primeiro dia já na lata. Eu me lembro que os meninos ficaram admirado com minha rapidez. Eu me entrosei rapidinho com eles. Eu nem sabia que eu sabia tocar, fiquei admirado comigo mesmo. E até hoje to aqui, e não pretendo sair nunca, só se o professor me tirar (risos)303”.

Conforme explicitado na fala do primeiro entrevistado (Jason Xamã), percebe-se o seu interesse na participação destas atividades enquanto criança, procurando inclusive nas ruas de seu próprio bairro o material pelo qual iria desenvolver suas aptidões rítmicas. Em outro de seus relatos, deixa a entender que a experimentação e a improvisação caracterizaram a sua experiência inicial com o grupo, tendo a curiosidade como a mola motriz que o impulsionava em busca do conhecimento que estava sendo construído.

301 Questionário escrito realizado com DJ Rick, 17 anos, em Novembro de 2017. 302 Entrevista realizada com Jason Xamã, 17 anos, em Agosto de 2016.

Spinardi, assim com Jason Xamã, teve a capacidade de entender que suas próprias experiências iniciais no grupo revelaram as suas habilidades ocultas que antes nem ele mesmo sabia que existia. O impedimento que dificultava a sua entrada nestas atividades, traduzia-se simplesmente na timidez de tocar instrumentos oriundos de resíduos recicláveis. A partir da influência exercida através de seus amigos e de sua curiosidade em experimentar estas novas práticas que surgiam no espaço escolar, acreditou no seu potencial, e deixou de lado o acanhamento que antes o inibia.

Outros três entrevistados, ingressos nestas atividades já no período de 2016, também relatam através de suas memórias marcantes, os momentos singulares de suas inserções no grupo, onde descrevem sobre suas primeiras expectativas, experiências, influências e dificuldades que caracterizaram suas trajetórias artísticas enquanto ritmistas. O primeiro participante desta nova geração a documentar sobre suas vivências, trata-se de Ziggy Marley, de 14 anos de idade. Este estudante, atualmente no 9º ano da Escola Filomena Martins dos Santos, atribui ao batucan à importância de ter desenvolvido sua capacidade rítmica e motora, despertando suas habilidades em tocar violão e também em dançar o ritmo do forró. De acordo com suas reflexões:

“Quando eu tinha 12 anos, acho que lá pro ano de 2016, eu sentia que não tinha muito ritmo pra tocar violão. Eu sentia dificuldade em tocar a batida acompanhando o ritmo da música que o professor me passava. Eu também percebia que meu corpo era um pouco desengonçado pra dançar. Minhas primas dançavam forró comigo e eu ficava um pouco desajeitado, por que eu não tinha aquele molejo no corpo sabe? Daí que eu entrei no grupo e, nos primeiros ensaios eu senti bastante essa falta de ritmo, eu acompanhava, mais, daquela forma bem atravessada, um pouco fora do ritmo. Me deu vontade até de desistir algumas vezes mais aí eu via o pessoal se entrosando, brincando, se interagindo sabe? Aí eu permaneci. Depois de um tempo eu percebi que meu ritmo tava bem melhor, eu já acompanhava as batidas dentro do tempo. Como eu tocava no balde, que é o tambor né? Eu tinha que marcar o tempo bem forte, e isso me ajudou a entender que naquela hora era a minha vez de tocar e depois de esperar. [...] O batucan me ajudou muito a trabalhar essa dificuldade que tive, hoje eu danço, toco bem violão e marco direitinho o tempo da batida do tambor. Eu entendo o momento de esperar e de tocar. Hoje eu entendo muito isso304”.

Através das palavras do aluno percebemos anteriormente à sua entrada no grupo uma limitação quanto à sua capacidade de acompanhar o compasso rítmico da dança e do instrumento violão que o mesmo praticava. Conforme seu ingresso nestas atividades, tornou- se evidente que houve uma evolução tanto nos aspectos temporais quanto motores, uma vez que este reconhece e afirma que “seu ritmo estava bem melhor”, contribuindo inclusive para ajudá-lo a minimizar as dificuldades em tocar e em dançar. Ademais, este aluno ainda frisa

que algumas vezes sentiu vontade de desistir de tais práticas. No entanto, percebendo as constantes interações e colaborações que o coletivo musical proporcionava, decidiu permanecer e frequentar ainda mais estas atividades, sendo contemplado depois de um curto espaço de tempo, com habilidades rítmicas mais desenvolvidas.

[...] a prática em conjunto, além de aproximar os alunos da realidade musical (principalmente tratando-se de instrumentos de percussão que normalmente estão inseridos em grupos, conjuntos, bandas ou orquestras), contribuiu muito para o processo de motivação dos alunos, possibilitando em ambos os contextos discussões e trocas de experiências com o professor e com os colegas de grupo [...]. (PAIVA, 2004, p.64)

As alunas Sophia Garcia e Mika Garcia, ambas com 13 anos de idade, frequentam o 8º ano desta mesma instituição de ensino. Assim como Ziggy Marley, também trazem algumas experiências musicais associadas ao instrumento violão. Vale ressaltar que estes três últimos entrevistados participaram dos cursos de música do programa “Música na Escola”, no período dos anos de 2015 a 2016, tendo por isso, algumas habilidades prévias nesta área de aprendizagem musical. Na fala destas alunas, verificamos suas primeiras percepções quanto às suas participações nestas práticas percussivas desenvolvidas no seio escolar.

“Eu sempre tive vontade de entrar no grupo. Eu até já sabia o ritmo do Samba- Reggae. Eu escutava os ensaios lá de casa, que é pertinho da escola, e batia no braço do sofá, nas minhas pernas e até na escola, no horário mesmo da aula, eu pegava o lápis e a caneta e ficava batucando no caderno, como se fosse as latas e os baldes. Com a mão esquerda eu fazia o toque do tambor, marcando, e com a mão direita eu fazia o papel da lata. [...] Eu entrei no grupo em 2016, depois que eu pedi o professor pra ele ver a minha habilidade. Depois que ele me colocou eu não tive muita dificuldade não, eu conseguia acompanhar os meninos nas latas, porque eu entrei no naipe desses instrumentos. [...] De primeiro eu queria o tambor, mais o professor viu que eu pegava os contratempos direitinho na lata aí ele disse que era melhor eu ficar nela. Como eu já sabia um pouco de violão, acho que isso me ajudou pra não sentir tanta dificuldade nos ritmos. E vive-versa, porque até o meu ritmo de tocar no violão foi melhorando devido a minha prática na lata. [...] O Batucan foi uma experiência que eu nem consigo descrever. Me ajudou muito a fazer amizades e deixar de lado um pouco a vergonha. Amo o Batucan305.

“Quando a Sophia Garcia entrou no Batucan, eu fiquei com muita vontade de participar também, aí ela disse que eu tentasse entrar, falar com o professor. Eu já tinha muita vontade, mais depois que eu vi ela tocando com todo mundo eu fiquei mais motivada ainda. Aperreava o professor todo dia (risos). [...] Quando eu entrei, um pouco depois dela. Eu tive dificuldade. Eu tocava violão direitinho no curso, mais no ritmo do tambor eu não conseguia nos primeiros dias fazer a marcação dos tempos. Eu me perdia muito. Mais eu gostei demais, eu nunca tinha passado por uma situação única daquela, de tocar em grupo com todo mundo fazendo barulho, tocando como se fosse na Bahia, que nem o Olodum.[...] Depois de um tempo, eu fui percebendo que nem tava errando tanto, e hoje eu consigo pegar com facilidade as coisas que o professor passa306”.

305 Questionário escrito realizado com Sophia Garcia, 13 anos, em Novembro de 2017. 306 Entrevista com Mika Garcia, 13 anos, em Novembro de 2017.

No primeiro depoimento, verificamos como a aluna Sophia Garcia apreendia estas habilidades rítmicas, sendo estas desenvolvidas através de um processo de imitação e repetição inclusive em vários objetos e em partes de seu próprio corpo. “A repetição de ritmos através da voz e do corpo eram preparativos para a execução das técnicas e ritmos na percussão (SANTOS, Catherine, 2013, p.120). Também vimos que suas aprendizagens no violão contribuíram de fato para a facilidade de assimilação dos conhecimentos, assim como os novos ritmos praticados “na lata” colaboravam para o aperfeiçoamento de seu desempenho no violão. Não obstante, atribui à sua entrada no grupo uma experiência indescritível, a qual lhe proporcionou a construção de laços afetivos e necessários para minimizar os efeitos da timidez.

Já nas palavras de Mika Garcia, percebemos a influência exercida por sua amiga - Sophia Garcia, inclusive na escolha deste nome fictício para o processo de entrevista. Mika, ao ver sua melhor amiga frequentando estas atividades percussivas, motivou-se a também participar, demonstrando inicialmente um pouco de dificuldade na marcação dos compassos e nos contratempos trabalhados nos ensaios. Em suas reflexões percebemos que mesmo tendo uma habilidade significativa no violão, apresentou certas limitações quanto ao acompanhamento rítmico dentro do coletivo. Apesar disso, destaca estas experiências em grupo como uma “situação única”, a qual contribuiu posteriormente para a sua facilidade em apreender novos conhecimentos.

Até aqui, os relatos dos entrevistados propiciaram um melhor entendimento sobre suas iniciações musicais no grupo, onde foram apresentadas suas memórias, influências, vivências, significados e conhecimentos prévios, destacando estas atividades como significativas para suas vidas. A partir destas primeiras informações, teremos subsídios para nos apropriarmos e nos aprofundarmos reflexivamente dos outros tópicos, os quais visam à compreensão dos processos formativos emergidos através destas atividades percussivas.

No próximo assunto, continuaremos interpretando os dados levantados através do discurso destes alunos, apresentando ao leitor(a) os sentidos e ressignificações atribuídos pelos mesmos em relação ao presente objeto de investigação.