3. METODE
3.5 D RØFTING AV VALIDITET
3.5.3 Teoretisk validitet
Escrever é prosseguir uma obra coletiva anterior. Uma literatura é uma história: o domínio do particular e do mutável, uma história dentro da história maior que é a de cada sociedade. Mas há em cada obra de arte um elemento irredutível à casualidade histórica.
(Bella Jozef)
Com essas palavras a professora Bella Jozef inicia o seu livro História da literatura hispano-americana (2005), referindo-se à importância de uma leitura historiográfica do texto literário, além da sua interferência no sentido histórico. Percebe-se o mesmo em autores como T. S. Eliot no que concerne à tradição literária. O autor salienta que é preciso buscar o individual, ou seja, o essencial para o homem; afinal, a tradição não é somente o que é deixado à geração seguinte, mas as relações que se estabelecem a partir de uma obra.
A tradição torna o escritor aguçadamente consciente, além de tornar-lo apto ao diálogo com outra geração de seu país e até mesmo de outro país. Sobre a tradição, Eliot afirma:
A tradição implica um significado muito mais amplo. Ela não pode ser herdada, e se alguém a deseja deve conquistá-la através de um grande esforço. Ela envolve, em primeiro lugar, o sentido histórico, que podemos considerar quase indispensável a alguém que pretenda continuar poeta depois dos vinte e cinco anos; e o sentido histórico implica a percepção, não apenas da caducidade do passado, mas de sua presença; o sentido histórico leva um homem a escrever não somente com a própria geração a que pertence em seus ossos, mas com um sentimento de que toda a literatura europeia desde Homero e, nela incluída, toda a literatura de seu próprio país têm uma existência simultânea e constituem uma ordem simultânea. Esse sentido histórico, que é o sentido tanto do atemporal quanto do temporal e do atemporal e do temporal reunidos, é que torna um escritor tradicional. (ELIOT, 1989: 38-39)
44 O crítico uruguaio Mario Benedetti propõe o tema “La comarca no es el mundo”, referindo-se à marginalidade do discurso latino-americano e à consciência desta por parte dos intelectuais e corroborando assim com a ideia apresentada anteriormente de que a relevância da manifestação literária está atrelada à economia e à tradição. Sobre esta última deve-se destacar a citação de T.S. Eliot ao afirmar que é “[a tradição] que, ao mesmo tempo, faz com que um escritor se torne mais agudamente consciente de seu lugar no tempo, da sua própria contemporaneidade.” (ELIOT, 1989: 39)
O escritor inglês defende que o vocábulo tradição seja visto não com preconceito, mas como uma proposta para se entender a dinâmica da literatura. Para Eliot os textos dialogam entre si criando laços e particularizando estilos, construindo assim uma rede de textos que se pode acessar para que as inferências possam ser feitas. Assim, cria-se uma das bases da literatura, inclusive da hispano-americana, contudo deve-se atentar para outros aspectos.
O autor uruguaio, em El escritor latinoamericano y la revolución posible (1977), trata do tema da crescente tradição que se forma na América, agora, não mais formada por escritores ilhados, incomunicáveis. Ele comenta que o Modernismo traz consigo essa inovação, sobretudo no que diz respeito a esse distanciamento da Europa. A crescente tradição e a singularidade da literatura aparecem como tema da obra de Benedetti como se pode verificar:
Ahora bien, la literatura pasa hoy por una de las etapas más vitales y creadoras de su historia. Evidentemente, ya no se trata de grandes nombres aislados, que siempre los hubo, sino de una primera línea de escritores capaces de asumir su realidad, su contorno, y también de inscribirse, con un estilo propio, en las corrientes que constantemente y a escala mundial, se encargaban de renovar el hecho artístico. Las renovaciones literarias europeas o norteamericanas ya no deben esperar varias décadas para llegar a los escritores de América Latina (…) (BENEDETTI, 1977: 28)
A construção da identidade se dá na troca, no contato com o outro. Na modernidade, esse contato é intermediado pela máquina burocrática que permeia
45 as relações humanas. A modernidade contempla esta nova construção identiária e perpassa os diálogos a fim de contemporizar a alteridade. A burocracia, inerente aos processos de modernização, legitimiza-os, fazendo parecer que é o cerne da modernidade, mas, não é o que ocorre realmente. A liquidez moderna faz com que a representação artística seja uma mescla do real e do engenho tal qual afirma Camões quando defende: “Cantando espalharei por toda a parte / Se a tanto me ajudar o engenho e arte”. Percebe-se na composição poética que o engenho, ou seja, o talento, aliado à arte, aqui entendida como representação artística, devem nortear a modernidade. Benedetti busca estabelecer como traço comum da modernidade, a burocracia da população mergulhada nos novos valores modernos, e fazer da extrema valorização da burocracia o fio condutor e o laço que une seus contos, poemas e textos críticos.
46
Montevidéu e a modernidade periférica
Ancora, vela Qual me leva? Qual me prende? (Humberto Guessinger)
Quando abordamos termos como modernidade, pós-modernidade, sujeito moderno, pós-moderno, pré-modernidade e até modernidade tardia, muitas vezes todos esses conceitos são contemporâneos aos fenômenos aos quais fazem menção. Uma vez definidos eles reafirmam a pluralidade de nomenclaturas e aplicabilidades, reiterando o fato de que há diversidade nas produções dessas épocas, embora sejam semelhantes. Além disso, muitos autores usam de dois ou mais desses termos para se referir ao mesmo contexto. Vale lembrar que neste trabalho usar-se-á o termo modernidade, uma vez que é o mais abrangente e os autores consultados sobre esse tema não o encerram, mesmo quando tratam de pré-modernidade e pós-modernidade. A modernidade não possui uma fronteira definida.
A falta de parâmetros, a instabilidade emocional causada pelo declínio e a fragmentação das identidades aliadas à falta de unificação do sujeito são características levantadas por Stuart Hall, em sua obra A identidade cultural na pós-modernidade (2002) para dar conta do fenômeno moderno. Além disso, na representação artística, novos paradigmas entraram em choque com antigos modelos de representação. A humanidade está à mercê de sua própria sorte, não mais ancorada sobre valores ancestrais, mas com bases novas, instáveis e, vale ressaltar, móveis.
A discussão sobre a origem da modernidade é extensa e a maioria dos autores não chega a uma conclusão definitiva sobre um início exato. A própria mobilidade do fenômeno e a ausência teórica não impedem nem retiram a
47 relevância do tema, que é debatido na interface com a literatura de autores como Luís de Camões quando canta:
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades. [...]
E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía. (Camões)
É importante ressaltar que modernidade e modernismo não são sinônimos, pois ao estabelecer um paralelo entre Camões e a modernidade, não se quer afirmar que ele pertence ao modernismo. Este último é uma referencia estilística que está atrelada ao fenômeno moderno, mas que pode, por sua natureza fluida estabelecer intertextualidade com um início da Idade Moderna.
Segundo Zigmunt Bauman, a modernidade se caracteriza principalmente pela “relação cambiante entre tempo e espaço”, logo eles são separados e teorizados como categorias distintas, dando uma nova significação ao tempo. Este, na modernidade tem “capacidade de carga”, dando solidez à história. A divagação inicial de Bauman assume propostas mais pessimistas no decorrer da obra. Em suas reflexões o autor reconhece o papel da classe dominante, “uma pequena elite que manejava todos os cordões.” (BAUMAN, 2001: 64). Essa classe assume papel de guia das subalternas, uma vez que detem autoridade para tal, autoridade conseguida através de instâncias de poder, como, por exemplo, a hierarquia num posto de trabalho.
Marshall Berman, por sua vez, parte para uma análise mais literária do fenômeno moderno. Cita a enorme importância que se dá à máquina burocrática e lê à luz dela Goethe e Baudelaire, entre outros. Para o autor americano, uma característica que se atrela à modernidade é a brevidade das relações. Intitulado
48
Tudo que é sólido desmancha no ar, a aventura da modernidade (2005) 8, o livro de Berman se apóia em Karl Marx para nomear sua obra incluindo a “aventura da modernidade”, e deixando entender que a modernidade é algo em que todos estão inseridos. Assim, fazendo parte dela, somos convidados a alterá-la. Ela não é algo estático, imóvel, é movimento, incerteza, é, de fato, uma aventura inerente à força humana. Inclusive, ao fazê-lo, estamos afirmando o fenômeno da modernidade, que espera e comporta a negação tanto quanto sua aceitação. Ser moderno é estar em movimento, embora essa afirmativa aceite também a estagnação.
Para exemplificar o supracitado, pode-se retomar o tema dos processos migratórios na América Latina, em especial, no caso uruguaio. O país sofreu um esvaziamento do interior com a sua modernização, com a injeção de incentivos na capital. Esse processo atraiu a população do interior para Montevidéu deixando a capital com quase metade da população total do país e desenvolvendo mais algumas áreas em detrimento de outras. O vazio demográfico e, consequentemente, do desenvolvimento de bens de serviço, gera nas demais cidades um vazio que se esperava pela centralização da modernização. Não se pode esperar que ela se dê uniformemente pelo país, pois a modernidade vem como ondas que alternam a intensidade de seus golpes contra os muros das cidades convidando seus habitantes ora a permanecer, ora a retirar-se.
A maioria dos montevideanos dos contos de Benedetti não nasceram em Montevidéu; são, como seu criador, do interior. Esse movimento gera nas palavras campo (interior) e cidade (cosmopolita) um novo sentido. Uma cidade passa a ser o destino de todo um país, devido a seu rápido crescimento. Como salientou Raymond Williams na obra O campo e a cidade (2011):
“Campo” e “cidade” são palavras muito poderosas, e isso não é de se estranhar, se aquilatarmos o quanto elas representam na vivência das comunidades humanas. [...] Na longa história das comunidades humanas, sempre esteve
8
Tanto Berman quanto Bauman fazem alusão à não mais solidez das relações e à brevidade das mesmas. O livro de Berman é dedicado ao seu filho que faleceu aos cinco anos. Ele, mais do que o pai, experimentou a
49 bem evidente essa ligação entre a terra da qual todos nós, direta ou indiretamente, extraímos nossa subsistência, e as realizações da sociedade humana. E uma dessas realizações é a cidade: a capital, a cidade grande, uma forma distinta de civilização. (WILLIAMS, 2011: 11)
A modernidade contempla a pré e a pós-modernidade latino-americanas. Ela se manifesta não só pelo avanço, mas também pelo retrocesso, como salientou García Canclini, ao discutir as discrepantes concepções de modernidade. Ele defende que, ainda que avanços sejam conquistados, ainda existem ranços pré-modernos e ilustra sua proposição quando afirma:
Para que vamos ficar nos preocupando com a pós- modernidade se, no nosso continente, os avanços modernos não chegaram de todo nem a todos? Não tivemos uma industrialização sólida, nem uma organização sociopolítica baseada na racionalidade formal e material, que, conforme lemos de Kant e Weber, teria sido transformado em senso comum no Ocidente, o modelo de espaço público onde os cidadãos conviveriam democraticamente e participariam da revolução social. (GARCÍA CANCLINI, 2000: 24)
Ainda sobre esse tema, o ensaísta argentino discorre sobre a natureza da modernidade, corroborando o que vem ao encontro do que se defende nessa pesquisa: a nomenclatura não é mais importante do que o fenômeno. García Canclini ainda afirma que
A modernidade é vista como uma máscara. Um simulacro urdido pelas elites e pelos aparelhos estatais, sobretudo os que se ocupam da arte e da cultura, mas que por isso mesmo os torna irrepresentativos e inverossímeis. (GARCÍA CANCLINI, 2000: 25)
A modernidade se alterna em força e frequência, mas sua natureza impede a paralisação. Ela se dá de maneira não uniforme, mas mantém algumas características como o esvaziamento e a brevidade das relações interpessoais. A brevidade das coisas, sobretudo da vida.
50 modernidade, como já abordado, não possui forma definida, por isso é “líquida” ou “desmancha no ar” afinal:
[...] os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade. Os fluidos, por assim dizer, não fixam o espaço, nem prendem o tempo. Enquanto os sólidos têm dimensões espaciais claras, mas neutralizam o impacto e, portanto, diminuem a significação do tempo (resistem efetivamente a seu fluxo e o tornam irrelevante), os fluidos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos ( e propensos) a mudá-la; assim, para eles, o que conta é o tempo, mais dos que o espaço que lhes toca ocupar; espaço que, afinal, preenchem apenas “por um momento”. (BAUMAN, 2001:08)
A questão espacial ganha força nos estudos de Benedict Anderson sobre a relação que se estabelece com a comunidade a que se pertence. Para ele, embora os limites geográficos estejam mais elásticos do que já estiveram, há um sentimento em comum ou uma pretensa coletividade que nos une a um espaço físico. Dividem, pois, os habitantes, uma memória coletiva, criada a partir de anos de histórias em comum, lembranças que eles compartilham e que caracterizam um passado comum; em nome deste o sentimento de coletividade ganha força. Mesmo quando há inúmeras diferenças entre os habitantes ou trata-se de um país de grandes proporções, busca-se algo para que se possa compartilhar. Salienta- se o supracitado no trecho abaixo:
É imaginada (a comunidade) porque até os membros da mais pequena nação nunca conhecerão, nunca encontrarão e nunca ouvirão falar da maioria dos outros membros dessa mesma nação, mas, ainda assim, na mente de cada um existe a imagem dessa comunhão. (ANDERSON, 2005: 25) A modernidade cria nas pessoas um sentimento de não pertencimento, uma agonia avessa aos benefícios que se propõe. Os limites territoriais e de nação começam a ser abalados. Sofre-se com as mudanças que geram mais desconforto à medida que passam os anos. Alia-se a dificuldade de delimitar o sentido de nação em tempos líquidos. Anderson afirma que o “fim da era dos
51 nacionalismos” não está á vista, uma vez que estes estão diretamente relacionados aos valores políticos:
Nação, nacionalidade e nacionalismo revelam-se claramente difíceis de definir e ainda mais de analisar. Contrastando com a enorme influência que o nacionalismo exerceu sobre o mundo moderno, a teorização plausível sobre o assunto é manifestamente escassa. (ANDERSON, 2005: 22)
A dificuldade ocorre porque os termos a serem delimitados são líquidos. Sua natureza fluida os impede de estabelecerem limites. Eles não se adequam a barreiras, eles a transpassam. Delimitar nações torna-se ainda mais complicado com a expansão das fronteiras e a universalização das nacionalidades. Os cidadãos do mundo carregam consigo marcas identitárias nacionais à medida que elegem um lugar para enunciar seus discursos. Esses lugares, escolhidos por fatores externos como preferência, labor ou exílio, por exemplo, e não por nacionalidade, faz com que o discurso esteja mais carregado de uma pretensa supranacionalidade, atingindo um público maior.
No cancioneiro popular uruguaio está o compositor Jorge Drexler, que ilustra algumas epigrafes desta dissertação. Em sua canção intitulada Frontera, a composição poética se constrói com versos como: “Yo no sé de dónde soy,/ mi casa está en la frontera [...] Y las fronteras se mueven,/ como las banderas.” Percebe-se a preocupação do autor com sua produção itinerante e com as fronteiras cada vez mais dispersas no mundo. Drexler compõe, muitas vezes sobre esse tema, do exílio, de estar em outra terra falando sobre a sua. Sua nacionalidade uruguaia é muitas vezes enaltecida em suas canções.
52
2- Montevidéu rememorada desde o “entre-lugar”
Para dar continuidade aos estudos propostos no presente trabalho há de se atentar para a sequência das ideias de Benedetti em sua obra crítica. Em El escritor latinoamericano y la revolución posible (1977), o escritor aborda diversos temas, entre eles a questão da construção de uma identidade latino-americana, sobretudo a uruguaia. Ao partir do tópico “Atrasos y adelantos” o escritor propõe a pequenez do discurso uruguaio em relação ao domínio cultural europeu.
Benedetti insere questões em seus textos críticos nos quais afirma falar desde a comarca, concretizando o Uruguai como um país cuja voz estaria longe de ecoar na intelectualidade européia. A partir desta ideia da pequenez do discurso uruguaio, não por falta de qualidade, mas por não integrar o cânone, o autor responde às questões levantadas em seus ensaios. A falta de tradição deve ser compensada com a construção de uma identidade nacional. Ele, então descreve, em seus contos, o montevideano típico, que, desde a comarca da América Latina dá vida a seu discurso.
A memória é parte formativa da identidade de uma nação, no entanto, na América colonizada, calada durante anos por uma Europa que buscou ao máximo explorar não só as terras, mas também a população originária, nota-se, nos anos seguintes a conquista, uma escassa produção literária. A produção intelectual europeia, de larga e extensa tradição, não precisava se afirmar a cada obra. Já o subdesenvolvimento econômico latino-americano parecia atravancar a produção intelectual do continente que até o boom jazia adormecido, esperando para estabelecer-se como tal, a fim de figurar ao lado da Europa como produção valiosa do Ocidente.
O continente americano sofria de uma crise de identidade uma vez que nem era o continente indígena que foi um dia, nem era o continente Europeu; ainda que fosse seria uma tentativa ultramarina de estabelecer uma Europa nos trópicos. O intelectual latino-americano, logo se deu conta de que devia alocar-se na
53 enunciação. Para se apoiar nesse tema, lança-se mão, nesta pesquisa, da leitura de Uma literatura nos trópicos (1992) de Silviano Santiago, que direciona seu texto para a questão do hiato em que se insere a América Latina e seu discurso. De acordo com ele, a literatura do continente propõe simultaneamente ao texto um campo teórico para servir de base ao seu discurso crítico. O lugar da literatura num continente de literatura marginal é o caminho entre o texto e a crítica, a prosa e a poesia. Assim, percebe-se, em sua abordagem, que
Entre o sacrifício e o jogo, entre a prisão e a transgressão, entre a obediência e a rebelião, entre a assimilação e a expressão - ali, nesse lugar aparentemente vazio, seu templo e seu lugar de clandestinidade, ali, se realiza o ritual antropófago da literatura latino-americana. (SANTIAGO, 1978: 28)
A questão do entre-lugar pressupõe passagem, e é exatamente o que o país já foi um dia, como bem observou a pesquisadora Mirian Lidia Volpe:
O Uruguai era, nos primórdios da conquista, um mero lugar de passagem para o trânsito dos aventureiros que remontavam as veias da América – através do estuário do Rio da Prata, em que confluem os rios Uruguai, Paraná e Paraguai – em busca das riquezas de metais e pedras preciosas escondidos em suas entranhas. (VOLPE, 2002: 68)
Além de uruguaia, a professora Mirian Lidia Volpe 9 debruça-se sobre a obra de Mario Benedetti há alguns anos, sendo uma das maiores especialistas em sua obra em atividade no Brasil.
Estar num lugar transitório, experimentar uma situação móvel é exilar-se dentro de si mesmo num movimento de que só a representação artística pode dar conta. Esse caminho, que não é um lugar estático e sacralizado, torna-se paradoxalmente o lugar e o não lugar da literatura latino-americana. A analogia do
9
54 caminho, da mudança vai ao encontro do que Bauman e Berman defendem como modernidade. Ora, o discurso do continente marginal é simbolicamente o que pode advir de um espaço em constante movimento. Um espaço de enunciação que desde o contato com o europeu se desvirginou e perdeu a pureza do discurso. Além disso, deve-se atentar que não foram somente os que foram estigmatizados de conquistados que mudaram, mas houve também uma mudança de perspectiva global que, de alguma forma, marca o início da modernidade.
A modernidade permite a existência de não-lugares. A ausência de parâmetros e referências para dar conta da realidade especificamente uruguaia, por ser tema central desta dissertação, é a preocupação maior de Mario Benedetti. O escritor assume, pois, o papel do intelectual que se inclina para responder às perguntas que o incômodo moderno provoca. Ele procura instituir o lugar do montevideano no mapa da civilização ocidental, sobretudo na manifestação artística. O Uruguai, o contexto histórico em que é escrito Montevideanos (1959) e o próprio autor, são a metonímia do entre-lugar. Benedetti é de uma geração de montevideanos que advêm do interior, o Uruguai é o estado tampão, a passagem entre as duas potências do cone sul, e o período histórico em que a obra fora escrita está à margem da história uruguaia.