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Teoretisk tilnærming til diskonteringsrenten

4 Leieavtaler og tilnærming til diskonteringsrenten

4.1 Teoretisk tilnærming til diskonteringsrenten

É muito difícil uma pessoa crescer aqui e não ver a maldade, porque as escolas... Os únicos colégios que tem perto é o Delma e o André Luiz. Tem um que é do outo lado, onde eu te falei, mas a gente não pode passar pra lá, é muito perigoso. Tem o André Luiz ali, mas eu não vou nem falar do André Luiz não, porque senão eu vou ficar é com ódio! (Ametista, integrante do grupo Meninas do Rap) A história do Pinóquio é aquela em que o garoto de pau vira gente... A história da maior parte das escolas é aquela em que a pessoa entra gente e vira pau...

(Rubem Alves). O sentimento de Ametista tem lá as suas razões. Em sua longa e polêmica entrevista, ela descreve com uma incrível precisão de detalhes o descaso com a educação em seu bairro, o descaso com as juventudes e a realidade de escolas onde o que reina é o controle, e a cultura do “tem, mas tá faltando”. Nelas, o olhar e o fazer, voltados para uma visão transformadora, longe de ser um direito, não chega a ser sequer, figura de retórica; o direito aqui sendo visto como traço de uma razão jurídica que é percebida como ideologizada.

Lá não é mais nem um colégio, já é um presídio, botaram mais guardas, redobraram a proteção. A diretora não conversa com os alunos. Ela fica vigiando a aula da educação física, vigiando a quadra, vendo se tem alguém de fora, perguntando se já está perto de terminar pros meninos saírem. Ela disse: “Gente a quadra é dos alunos, não é de ninguém de fora”. Tudo bem. Mas quando todos os alunos tão em aula e, os meninos vendo que a quadra tá desocupada e se eles tão querendo jogar é melhor ficar fumando maconha e a quadra ficar vazia? Como é que se combate às drogas desse jeito? Certo que tem o campo, mas não tem a mesma estrutura que tem lá e lá ela não deixa, só final de semana. Mas tem final de semana, às vezes que eles têm de pular o muro porque os guardas não deixam entrar pelo portão. Fica difícil, até pras mães, como é que as mães vão pular o muro? Tem muita mãe que joga... Ficou foi um conflito. Tudo ela chama os guardas. Teve até um caso recente de um rapaz que levou uma pisa de um guarda. O guarda não tava em horário de serviço, não tava de farda, mas simplesmente era marido de uma mulher que trabalha lá. E ficou por isso mesmo, ele apanhou e pronto! Ninguém fez nada (Ametista, Meninas do Rap, entrevista, 01/08/2012). No corpo estão colocadas as possibilidades de transbordamento, de desfiguração das fronteiras entre o individual e o social. A quadra dos alunos não é dos alunos; o pular o muro das mães e a atitude dos guardas evidenciam o quão as razões disciplinares funcionam como dispositivo de poder. E no corpo... a fala interdita.

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Por isso é a escola, também, um lugar de intervenção, de construção de um saber capaz de modificar os contextos sociais. E se há dispositivos de poder, há resistência por parte dos moradores do Jangurussu visando a sua contra-análise, sua contramanipulação e seu anticontrole. A vigilância nas aulas de educação física e nos jogos de futebol pela diretora citada por Ametista reflete claramente um movimento disciplinar falando a linguagem da violência estrutural que ali, na violência relacional, os catadores conhecem bem. Vejamos:

Lá é aquele tipo de colégio que tudo é direitinho. Mas nenhum colégio é perfeito. Lá, só pode ter três ocorrências. Na primeira, eles conversam com a gente, na segunda, eles chamam os pais e na terceira, vai pro conselho tutelar. Tá certo. Mas lá tem muita briga. E eles não fazem isso. Teve o caso de uma menina que foi agredida e ela é que foi expulsa do colégio. Foi até pra delegacia, pro conselho tutelar. Até hoje tá impune esse caso. Além de ser agredida, ainda foi expulsa do colégio. (Ametista, Meninas do Rap, Entrevista 01/08/2012).

Percebemos que na escola de Ametista, a negação explícita de direitos garantidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e os dispositivos de disciplinamento coexistem de forma amalgamada, se entrelaçam e se retroalimentam com o intuito de formar o que Foucault (1983, p. 127) veio a chamar de “corpos dóceis”. Vejamos o que ele nos diz sobre isso:

Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade são o que podemos chamar as “disciplinas” [...] A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos dóceis [...] Ela dissocia o poder do corpo; faz dele por um lado uma “aptidão”, uma “capacidade” que ela procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potência que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita.

Enquanto escutávamos Ametista, íamos refletindo sobre o poder do estigma. Nós que pensamos em deixá-la de fora das entrevistas, pois não teríamos como conversar com todas mesmo, só a tínhamos conhecido depois... Além do que ela ainda era muito nova no grupo... E tantas outras racionalizações de nossa parte. Assim Ametista, muito tímida, surpreendia-nos a cada nova frase, repleta de criticidade e coragem. Além de uma sinceridade de quem sabe ou intui que não é preciso ser moralmente perfeito pra ter “direito a direitos”:

Eu ainda não briguei no colégio, ainda não. Mas tem uma menina lá que me tira do sério. Ontem eu briguei, mas foi lá na avenida; tava com a minha amiga e aí vieram três garotas pra bater nela. Aí, três contra uma é covardia! Me meti também. Ela ia ficar sozinha.

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[...] Eu gosto de estudar, mas depende das matérias, quer dizer, dos professores. E as precariedades aqui são muitas. Muitas mesmo. Tem lixo por toda parte, lama. No colégio mesmo, sinceramente! Se for algum agente de saúde ali, vai fechar aquele colégio porque tá muito perigoso pra gente tem muito mato. Muito mato mesmo. Aí quando chove fica alagado, alaga mesmo (Ametista, Meninas do Rap, Entrevista em 01/08/2012).

O relato denúncia de Ametista aponta por princípio as limitações impostas estruturalmente a uma comunidade que aparece à margem de elementos básicos que compõem um quadro de cidadania. Mais vai além... aponta para as múltiplas nuances que compõem a estrutura disciplinar – e a reação a ela –, tão analisada por Foucault (1998) em obras como Microfísica do Poder e Vigiar e Punir.

Estudando instituições como presídios, manicômios e a escola, Foucault (1983) reconhece no ato de disciplinar, ao invés do uso propriamente dito da força, elementos mais sutis de modelagem e adestramento, com o intuito da preparação de

corpos dóceis. Sua descrição do Panopticon, arquitetura que se faz disciplina, detalha

de maneira impressionante a construção do olho vigilante, que impõe nos indivíduos sentimentos de medo e culpa, e que está ali, mesmo sem ser visto.

Tem uma líder comunitária que não é a dona do colégio, mas é como se fosse. Ela tem muitos amigos no colégio. Muitas cunhadas dela trabalhando, muita gente da família. Por exemplo, quando acontece alguma coisa, quando um menino daqui rouba as coisas de lá, ela chama o filho dela, ela não chama o ronda. Ela chama o filho dela, depois é que ela chama o ronda. Olhe lá se o filho dela não bater antes! Ela fica como se fosse dona do Jangurussu também. Só que assim, é muito difícil. Teve um menino que morreu, o Tinoco, ele fazia as coisas errada. Ele tava gritando lá, na quadra. Ao invés de chamarem um guarda, ou alguém pra conversar, foram chamar a Mana. E a Mana foi com um colega dela do Ronda. Aí foram lá na casa dele e disseram: “Dona Iraci, bote o seu filho pra fora”. Aí ela: “O que foi que ele fez?”. “Ele estava badernando no colégio, vou levar preso”. Aí ela disse: “Mas ele estar badernando no colégio não é motivo pra ele ir preso não”. Queriam invadir a casa dela, mas aí ela não deixou e aí não levaram ele não. Ficaram de marcação nele. E é assim, aqui. (Ametista, Meninas do Rap, Entrevista em 01/08/2012).

O olhar aguçado da “líder comunitária” e sua disponibilidade em “resolver” os problemas da escola manifestam relações tradicionais de tutela, apadrinhamento e troca de favores, traduzindo-se, na visão foucaultiana, em complexos feixes de relações de poderes de reprodução.

Na contramão disso, no entanto, felizmente há iniciativas relevantes no bairro, propostas, nesse caso, pelo movimento social organizado, aqui representado pela REAJAN. Seu Manoel é quem nos conta mais sobre isso e sobre a questão da educação no grupo Meninos de Deus, desenvolvida pela REAJAN em articulação com o Conselho Nova Vida:

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Teve todo um trabalho junto ao CEDECA, judicialmente, para esses meninos voltarem a estudar, e hoje, todos estudando, tem menino querendo fazer faculdade, e o melhor de tudo o que eles conquistaram foi o respeito da família e o da própria comunidade. Antigamente eles eram temidos, antigamente na comunidade. E hoje tem meninos trabalhando em instituições da própria comunidade. Tem menino trabalhando em instituição filantrópica da comunidade, isso não é bom? Não tem dinheiro que pague. Sem falar que isso a um custo baixíssimo, sem uma grande estrutura, porque a gente se reunia embaixo da mangueira, em frentea um campo de futebol, e acho que essa foi uma grande estratégia que a gente fez e que poderia replicar isso em outras comunidades, vários grupos de Meninos de Deus, As Meninas do Rap... (Sr. Manoel, Entrevista em 24/07/12).

Afora isso, a REAJAN também teve e tem um importante papel na luta pela educação, sendo essa uma importante característica do movimento, nos diz seu Manoel:

Uma das lutas da REAJAN é a questão da educação.A REAJAN esse tempo todo vem fazendo algumas coisas nessa questão das políticas; conseguimos atuar em três escolas que hoje têm padrão MEC, e que foram uma reivindicação da REAJAN. Eram as três escolas que nós queríamos que trabalhassem com educação integral, mas não tivemos êxito. Não conseguimos entregar esse documento na prefeitura, conseguimos entregar pro governo do Estado, pro ministro da educação, em Brasília, mas aqui em Fortaleza não conseguimos. Tinha até uma discussão com o professor Bodião, antigo secretário de educação, que ele, a partir da universidade, iria acompanhar essas escolas de educação integral, como um projeto piloto, que a gente queria que essas três escolas começassem e que a partir daí iria pras outras cidades (Sr. Manoel, Entrevista em 24/07/12).

Ao chegarmos ao final desse tópico que versa sobre a educação, podemos concluir que, de acordo com a voz das jovens do grupo Meninas do Rap, se no Jangurussu ainda se reproduz por meio da maior parte das escolas, a visão de uma educação bancária alicerçada em fortes mecanismos de poderes e disciplinamento coercitivo, percebemos também que nele vem se gestando um caminho que busca uma educação transformadora, caminho esse que só se faz em função de uma das maiores potencialidades do bairro – o movimento social organizado. E como isso se gesta? Por meio do potencial reflexivo advindo dos grupos organizados, e em especial por inserções em grupos não formais de educação, como se está a ver na pesquisa.

2.4.3 Alguns dos maiores desafios para as juventudes do Jangurussu: as