Posta a fundação (a realidade social) e os pilares (seus pressupostos filosófico- científicos), seguem vigas e lajes do edifício teórico proposto por Martín-Baró. A ordem de apresentação dos conceitos/categorias se deu menos pela importância delas à obra (ainda que haja relação) do que pela pretensão de facilitar o estudo.
3.2.1 Processos Grupais
O interesse de Martín-Baró pelos processos grupais acompanha, praticamente, todo seu trajeto intelectual. No texto Cabeleleiros Institucionais, de 1972, percebe-se, claramente, seu interesse pelo estudo da formação dos grupos sociais, entretanto a perspectiva teórica adotada pouco se parece com a que ele adotará na década seguinte; neste mesmo texto, ele dá interpretação freudiana para o “trote” nas universidades.
Segundo Martín-Baró (1989b), o termo grupos originou-se do italiano groppo ou grupo, vocábulo técnico para designar a presença de vários indivíduos de uma obra (pintura ou escultura), formando um só sujeito temático.
116 No livro publicado em 1989 (Sistema, Grupo e Poder) chega a sínteses esclarecedoras para compreensão de sua teoria; grupo é definido como:
Aquela estrutura de vínculos e relações entre pessoas que canaliza em cada circunstância suas necessidades individuais e/ou interesses coletivos. (MARTÍN-BARÓ, 1989b: 206)
Cada grupo constitui-se assim realização, numa configuração histórica determinada de algum aspecto das exigências ou potencialidades humanas91. Ele conclui que grupo é:
A materialização de uma consciência coletiva que reflete, fidedigna ou distorcidamente, a demanda de interesses pessoais e coletivos. (MARTÍN- BARÓ, 1989b: 219)
Martín-Baró estava mais preocupado em integrar a seus pressupostos as teorias de grupos já existentes, do que formular uma nova caracterização para cada grupo. Para ele (1987j) uma teoria psicossocial sobre o grupo humano92 deve:
a) Apreender a realidade social do grupo enquanto tal, realidade não redutível às características pessoais dos membros que os constituem, nem aos vínculos entre eles, sem perder, contudo, a singularidade do grupo;
b) Ser suficientemente compreensiva tanto para aplicação a grupos pequenos quanto para os grandes, assumindo que a diferença é simplesmente de ordem quantitativa;
c) Incluir em aspectos essenciais o caráter histórico dos grupos humanos. Cada grupo deve ser analisado em suas circunstâncias concretas - como parte do processo social que o configura, no interior de um conjunto de estruturas e forças próprias de uma sociedade num determinado momento histórico.
91 Grupo é lugar privilegiado onde se produz a ideologia social.
92 Três elementos são essenciais a qualquer grupo: a) caráter estrutural (realidade unitária de vínculos e
relações entre pessoas que surge precisamente em sua mútua referência); b) caráter instrumental a respeito dos interesses e necessidades humanas; e c) canalizam tanto necessidades pessoais como interesses coletivos e, em geral, há articulação entre umas e outras; deste modo, todo grupo tem sempre uma dimensão de realidade referida a seus membros e outra mais estrutural referenciada a sociedade que o produz. (MARTÍN-BARÓ, 1987j: 7)
117 Para Martín-Baró (1989b) a teoria histórico-dialética (expressão dele) dos grupos humanos leva-nos a postular três dimensões essenciais de sua constituição: sua identidade, seu poder e sua atividade.
a) Identidade grupal: é o caráter que define a essência do grupo e diferencia-o de qualquer outro. Três aspectos conformam essa identidade: a) formação organizativa (grau de estruturação interna do grupo); b) relações com outros grupos (canais por meio dos quais se configura a identidade e depois faz com que ela se mantenha); e c) consciência de seus membros (onde se configura a pertença subjetiva dos indivíduos ao grupo, entretanto, a pertença ou não a um grupo não se reduz a consciência subjetiva dos indivíduos que o formam93
); b) Poder grupal: o poder não deve ser concebido como objeto que se possua ou
não; pessoas ou grupos possuem recursos que lhes permitem ou não alcançar poder em suas relações sociais (segundo o caráter de cada relação e seus desdobramentos). O poder não pode ser medido abstratamente, mas sim em relação aqueles frente aos quais pretende afirmar-se. Ele é definido como: caráter desigual das relações sociais baseado na possessão diferencial de recursos que permite a uns realizar seus interesses pessoais, grupais ou de classe, impondo-os aos outros94
. O poder de um grupo não é uma característica que dependa de sua identidade já constituída, mas um dos elementos constitutivos dessa identidade; (MARTÍN-BARÓ, 1987j);
c) Atividade grupal: a definição do que é grupo humano deve, necessariamente, incluir o que esse grupo faz ou realiza. O grupo é, em boa medida, o que faz. Três elementos são importantes para compreender as atividades grupais: a) o que
93 Consciência e identificação de um grupo não são as mesmas coisas, ainda que estejam intrinsecamente
relacionadas. Possibilidades de identificação contraditórias dão base para a distinção que Michael Billis (apud MARTÍN-BARÓ, 1987j: 9) faz entre grupo-em-si e grupo-para-si (retomando as distinções clássicas das classes sociais para o marxismo). “Todo grupo que têm uma existência objetiva é um grupo- em-si; mas nem todo o grupo tem aquele grau de consciência coletiva operativizada que lhe permita adequar sua identidade e atividade aos interesses da classe social a que objetivamente pertence. Só quando um grupo adquire essa consciência e trata de adequar sua identidade e suas metas a seus vínculos objetivos, ou seja, quando se orienta a canalização dos interesses da classe social de que é parte, pode falar-se de um grupo-para-si”.
118 ele faz; b) como e quando faz (com que frequência ou intensidade, com que autonomia ou dependência); e c) qual efeito tem o que o grupo faz e sobre quem; se sobre seus membros, outros grupos, setores da sociedade ou sobre ambos. A atividade do grupo influencia em sua identidade e seu poder95
.
A postura teórica assumida por Martín-Baró em 1981 (no livro Las Raíces Psicossociais de la guerra en El Salvador) é mais enfática que a de 1987 (no texto: Los grupos con historia). Martín-Baró diz (em 1987) que seu modelo teórico requeria, todavia, maior elaboração teórica, mais refinamento conceitual e submeter-se mais amplamente ao veredicto da aplicação a diversos grupos e circunstâncias. Seu objetivo era comprovar concretamente se ela auxiliava a compreensão dos processos grupais e, sobretudo, se servia para fazer avançar as causas libertadoras dos povos96.
Martín-Baró tipificou os grupos da seguinte maneira: