Em determinados casos um “código moral” pode ser inversamente proporcional à ética. Quando as escolhas dos indivíduos são guiadas por códigos de sociabilidade “relativamente” fixos, a moral nunca será conflitante. Ao passo que a ética não contribui necessariamente para a convicção no momento da escolha, pelo contrário, em alguns casos, diminui o grau de certeza do indivíduo. A ética tende a reconhecer, sob diversas perspectivas, a situação e o caráter da escolha, e não oferecer um “conselho concreto”. (HELLER, 1972)
O eixo que conduziu nossa apreensão do projeto ético-político da Psicologia da Libertação é posto pelas determinações e mediações que incidiram sobre ele; ou seja, tratamos o próprio projeto como expressão concreta de uma das possibilidades inscritas na produção de uma Psicologia desde a América Latina.
Ainda que uma teoria não exponha com clareza seus pressupostos éticos, não significa que ela não tenha uma forma “costumeira” de expor conceitualmente seus conteúdos e que deles não seja possível depreender o código moral em que se pauta. Este não é o caso da Psicologia da Libertação, que tem como marca característica convicção (e clareza) ética. Se a historicidade do conhecimento é a coluna vertebral da teoria de Martín-Baró, o direcionamento ético é medula óssea.
Para Martín-Baró os vetores axiológicos devem dirigir o labor transformador do mundo. Onde não há valores não pode haver verdadeira ciência. (MARTÍN-BARÓ, 1971)
Sua orientação ética, em 1974, o conduziu à conclusão de que era necessário, como imperativo ético: “canalizar forças revolucionárias para a consecução de objetivos comunitários”. (MARTÍN-BARÓ, 1974b: 14)
177 Em 1975, diz:
A ética é algo intrínseco à realidade mesma, aquilo que refere o ser ao dever- ser e, portanto, impulsiona a história para adiante, a formas cada vez mais superiores. (MARTÍN-BARÓ, 1975a: 272)
A ética não salvaguarda uma teoria de produzir distorções sobre a realidade social; no entanto, aleija qualquer intenção teórica que a deixe de lado. Sem orientação ética vinculada aos interesses das classes exploradas é impossível avanços científicos na direção da valorização da liberdade e humanização do homem.
Para Martín-Baró (1975a), é impossível estabelecer juízo ético desde fora da forma concreta como determinado fenômeno social se apresenta. A eticidade deve ser apreendida a partir das possibilidades e exigências reais da cultura, sociedade ou grupo social. Ele critica, portanto, o etnocentrismo ético, que contribui para impor, (por meio da violência moral), os valores sociais de uma classe dominante.
Não esqueçamos que a Psicologia da Libertação é proposta por um psicólogo social - jesuíta. Sua orientação em nada nega princípios éticos e pressupostos filosóficos da Teologia da Libertação; talvez, no que tange a questão da violência, alguns diriam que sua obra destoaria da ética cristã142 clássica.
Martín-Baró (1983a/2005) distingue moral e ética. A moral “pretende regular os comportamentos a fim de possibilitar a satisfação do indivíduo de forma conveniente aos interesses da coletividade”. A moral social revela natureza parcial e classista143, e pode ser substituída pelas morais de grupo, conscientemente assumidas como tais.
Percebemos a relevância da moral para sua teoria na definição que ele dá para socialização moral:
142 Em síntese: “Não fazer ao outro ser humano algo que o indivíduo não gostaria que fosse feito a ele”.
Observamos, com relativa nitidez, os valores cristãos de sua teoria na definição de dá para ação pró-
social. Ação prosocial é aquela cujo produto é socialmente benéfico a outras pessoas. (MARTÍN-BARÓ, 1983a/2005: 304).
143Segundo o autor: “toda a moral é, por principio, moral de um grupo social e, numa sociedade cindida
em classes sociais contrapostas, como a de El Salvador, a moral será classista”. (MARTÍN-BARÓ, 1983a/2005: 163)
178 [A socialização moral] consiste, pois, na incorporação por parte da pessoa daqueles princípios e valores que definem os fins e ações dos membros de uma sociedade enquanto bons e maus, e em desenvolver aquelas virtudes e hábitos pessoais coerentes com esses princípios e valores. (MARTÍN-BARÒ, 1983a/2005: 147)
A moral se adquire numa sociedade concreta onde bem e mal são definidos ou impostos pelos interesses do grupo dominante. Para ele, “conhecimentos, afetos e aprendizagens dependem de maneira direta dos esquemas de vida exigidos por cada sistema social, assim como o discurso ideológico tende a justificar as práticas exigidas por quem detém o poder”. (MARTÍN-BARÓ, 1983a/2005: 159)
Para Martín-Baró (1983a/2005) as normas morais são normas sociais (surgem no nível da organização coletiva); entretanto, estão dirigidas primordialmente ao comportamento individual. A capacidade humana em empatizar com os outros, e o conhecimento das repercussões que essa ação tem nos demais, leva os indivíduos a atuar de forma moralmente boa.
O esforço por revisar continuamente as próprias concepções morais e por assumir perspectivas cada vez mais amplas e profundas são, segundo Martín-Baró (1983a/2005: 162), formas maduras de interiorizar princípios do comportamento moral. Para discernir e fundamentar sua postura, Martín-Baró (1985e/1992) prima pelo uso da racionalidade social ao invés da científica/tecnológica144.
Em suas palavras:
O compromisso crítico dos cientistas sociais deve proporcionar este tipo de racionalidade nova, capaz de contribuir para a realização histórica dessas verdades hoje negadas e impedidas pelos regimes de “segurança nacional”, (...) e inclusive das democracias formais da América Latina. (MARTÍN- BARÓ, 1985e/1992: 335)
Os processos de mudanças populares que tomavam conta da realidade social latino-americana impunham a necessidade de nova perspectiva aos cientistas sociais. Segundo Martín-Baró (1985e/1992), assumir essa necessidade significava, além de experiência ética, honestidade científica.
144 Há nesta definição clara influência do pensador vinculado à escola de teoria crítica de Frankfurt,
179 Sua proposta psicológica parte de uma opção axiológica consciente. Martín-Baró (1988b/2002) percebe que esta opção era discutível, mas afirmava que ela estava subordinada aos interesses das maiorias despossuídas dos povos latinos, ”e isso não só por razões éticas ou políticas senão também por razões próprias da mesma Psicologia”. (pág. 110)
Nas palavras de Martín-Baró145:
(...) a parcialidade que sempre supõe uma tomada de postura, não tem porque eliminar a objetividade (...). O que se pode e deve exigir, é que se analisem esses fenômenos com todo o rigor e com abertura total aos dados da realidade. Ou seja, que objetividade não é o mesmo que imparcialidade. Mas a opção axiológica, que chega a rechaçar certas coisas e desejas outras, deve constituir sempre um horizonte que ilumine nosso quefazer, e ela deve ser entendida não como algo separado, senão com algo intrínseco à própria atividade científica, acadêmica ou profissional. (MARTÍN-BARÓ, 1989c/2002: 81)
Em 1986, ele foi mais específico:
Que um conhecimento seja parcial não quer dizer que seja subjetivo; a parcialidade pode ser consequência de uns interesses, mais ou menos conscientes, mas podem ser também resultado de uma opção ética. E, enquanto todos estão condicionados por interesses de classe que parcializam nosso conhecimento, nem todos realizam uma opção ética consciente que assuma uma parcialização coerente com seus próprios valores. (MARTÍN- BARÓ, 1986b: 229)
Para Martín-Baró (1988b/2002) colocar-se a serviço das maiorias significa vincular-se a instâncias e organizações concretas; cuja representatividade popular (com frequência) poderia ser questionada, e cuja abordagem às causas dos povos (por diversas vezes) era mediada (quando não assimilada ou cooptada) por outros interesses e forças sociais.
145 Fixamos essa citação do autor na dissertação, para que sua perspectiva seja exposta, mas discordamos
dela. Imparcialidade se vincula à análise da realidade tal como ela é apreendida, sem rodeios e mistificações. Que todo conhecimento é “parcial” (no sentido de uma perspectiva classista) concordamos, no entanto, pode/deve ser imparcial na análise.
180 O critério de sua ética não estava tanto na comprovação quanto na verificação, em seu sentido etimológico, o fazer verdadeiro algo que originalmente não era. “A verdade, assim, não se encontra tanto no passado quanto no futuro, não há que buscá-la, senão fazê-la, não encontrá-la, antes realizá-la historicamente”. (MARTÍN-BARÓ, 2010: 100)
4.4 Martín-Baró: projeto ético-político
Já demonstramos que o conflito entre ciência e responsabilidade ética se baseia numa falsa questão. A Psicologia da Libertação, portanto, impele os psicólogos a situarem-se no marco da confrontação política posta em sua realidade social, assumindo uma posição pessoal frente a eles. Na prática isso representa envolvimento político.
Nesta perspectiva, libertação é desafio e responsabilidade histórica da psicologia latino-americana; entretanto a coerência ou não com esta abordagem ético-científica depende dos efeitos concretos que produz.
Nas palavras de Martín-Baró:
A libertação é processo e, como tal, seu ponto de partida é romper as cadeias de alienação. Mas o processo libertador não termina aí, porque a libertação, mais que “liberdade”, tem um “de”, e, sobretudo, tem um “para”. Do que se trata, definitivamente, é contribuir para a construção de um homem novo em uma sociedade nova. No caminho para essa meta configura-se uma nova identidade coletiva, um novo povo, senhor de sua história. E essa elaboração de psicologia, desse povo novo, é para onde tem que orientar esforços e recursos os psicólogos latino-americanos. Creio que a verdade de nossos povos não se encontra no presente de opressão, senão em seu futuro de liberdade. (MARTÍN-BARÓ, 1989c/2002: 87)
Impõe-se, segundo Martín-Baró (1985/1998b), fazer psicologia assumindo séria responsabilidade histórica; ou seja, contribuindo para mudar as condições subjetivas que mantêm desumanizadas as classes exploradas pelo capitalismo; que os alienam e bloqueiam o desenvolvimento de sua identidade histórica. Não se trata tanto de fixar-se
181 numa exclusiva área de trabalho, senão fixar-se num horizonte, no quefazer profissional, qualquer que seja a área específica em que se atue146.
É magna a opção ética pela defesa dos interesses da classe explorada pelo capitalismo – no caso de Martín-Baró, na América Latina. Se parece repetitivo dizer isso é porque esse é o tom da obra.
Seja teorizando sobre Educação (MARTÍN-BARÓ 1971:402), Teologia (MARTÍN-BARÓ, 1968a) ou mesmo Psicologia (praticamente todos os textos), sua práxis orientou-se por princípios ético-científicos que primam pela humanização plena dos humanos. E, se por um lado sua obra se transforma teoricamente, por outro observamos uma constância: seu fundamento ético.
A postura ético-científica desta Psicologia conduz, inevitavelmente, à adoção do compromisso crítico de transformação social que tem como horizonte a emancipação humana147.
Em suas palavras:
(...) a opção concreta passa sempre por sujar as mãos; só os “revolucionários de salão” creem manter-se íntegra sua pureza. Mas, como dizíamos antes, a opção axiológica não tem porque impedir a objetividade. Por que uma coisa é o custo da opção concreta e outra, muito distinta, o submetimento total a uma linha partidária; o manchar-se das mãos não tem porque nem deve significar abdicação da capacidade crítica frente à própria opção. (MARTÍN-BARÓ, 1988b/2002: 110)
Para o autor não se trata de boutade (simples saída engenhosa; brincadeira espirituosa). Trata-se da mudança de perspectiva que modifica profundamente os
146 Assumir a perspectiva das maiorias exploradas não era questão de boa vontade do psicólogo, antes, é
processo que exige continuo diálogo do psicólogo e da própria Psicologia com as pessoas e grupos que se relaciona. (MARTÍN-BARÓ, 1987c/1998: 313)
147 Ele diz: “Em síntese, frente ao dilema entre ditadura e democracia, a Psicologia tem a tarefa de
propiciar a participação popular; frente ao dilema entre dependência e autonomia, a Psicologia deve estimular o nacionalismo latino-americano; e, frente ao dilema entre alienação e identidade própria, a psicologia deve contribuir para um processo de libertação, pessoal e coletivo”. (MARTÍN-BARÓ, 1988b/2002: 109)
182 esquemas que estruturam o conhecimento científico. Em termos mais conhecidos, não se trata de explicar, senão transformar a realidade.
Segundo Martín-Baró:
De pouco serve compreender ou explicar os grandes problemas das maiorias populares latinoamericanas se com eles nos limitamos a refletir a realidade tal como é, abonando a situação de díspar dominação que hoje aflige a nossos países. Uma ciência histórica deve ver tanto o passado como o futuro e, portanto, não pode contentar-se com reconstruir mais ou menos fielmente o que se dá, antes deve esforçar-se por construir aquilo que não se dá, mas deveria; não os fatos, senão o por fazer. Em outras palavras, a Psicologia como ciência deve trabalhar, mais que encontrar, por construir a verdade do homem latino-americano, e nela deve estar o melhor sentido da predição científica: não tanto em dizer o que ocorrerá a partir da situação atual quanto possibilitar o que deve ter lugar, utilizando para tanto um saber dialético. (MARTÍN-BARÓ, 1989c/2002: 82)
Seu projeto de Psicologia popular requer exploração de novas formas de consciência. É trabalho conscientizador que envolve tanto a transformação do mundo material quanto práxis transformadora do mundo social.