“(...) cada idade tem o seu prazer e a sua dor e é preciso que eles escorram entre nós.”
Vitor Hugo
Vitor Hugo, em suas palavras, chama a atenção para a importância de se viver intensamente cada idade que se tem, pois cada idade tem sua própria dinâmica de desenvolvimento. O tempo não volta e a “velhice é algo que vai crescendo por dentro, do jeito mesmo como num jardim cresce uma flor” (RUBEM ALVES apud LAHUD LOUREIRO, 2004 c, p. 38). Qualquer fase da vida deve ser encarada com naturalidade e tentar aproveitar da forma mais prazerosa possível as suas vivências, de forma sutil e tranqüila.
Segundo Neri (2000, p. 102),
“O envelhecimento é o processo de mudanças universais pautado geneticamente para a espécie e para cada indivíduo, que se traduz em diminuição da plasticidade comportamental, em aumento da vulnerabilidade, em acumulação de perdas evolutivas e no aumento da probabilidade de morte. O ritmo, a duração e os efeitos desse processo comportam diferenças individuais e de grupos etários, dependentes de eventos de natureza genético-biológica, sócio-histórica e psicológica.”
Convém lembrar que vai depender da aceitação ou negação desta realidade registrada pela autora que se pode perceber ou descobrir o imaginário do grupo. Lembra-se aqui a obra de Lya Luft (2005) onde a autora analisa a realidade sem otimismos vãos nem pessimismos agudos e assim considera as perdas e os ganhos em toda a vida.
O envelhecimento é um processo abstrato, pessoal, mas também, um processo, de natureza cultural, pois ocorre de maneira diferente em cada indivíduo, respeitando a sociedade ao qual está inserido. A velhice física pode ser antecipada, em conseqüência de vários fatores como dificuldades sócio-econômicas e emocionais. Para Salgado (apud SILVA, J.C., 2003, p. 99).
“(...) é também cercado por determinantes sociais que contribuem para que esse processo varie de cultura para cultura e de sociedade para sociedade. (...) O aspecto social do envelhecimento é fundamental, pois significa que a idade social é determinada por normas e expectativas sociais, que enquadram as pessoas em termos dos direitos e deveres, atribuindo tarefas a serem desempenhadas dentro das idades biológica e cronológica.”
Aqui lembramos a obra de Guita Debert intitulada “a reinvenção da velhice” (1999), onde a autora diz que se a sociedade inventou o velho, o velho agora precisa reinventar a sociedade; bem como a obra de Jack Messy “a pessoa idosa não existe” (1999), onde este autor também registra que a velhice foi uma categoria inventada pela sociedade.
Em consonância com o acima dito pelos autores citados, na teoria do imaginário, G. Durand (2001, p. 41) alude as “pressões do meio cósmico e social”, os entendimentos e opressões exercidas pelo meio, sociedade e cultura, sobre a humanidade a serem consideradas na simbiose com os desejos, aspirações, “pulsões individuais” do ser humano, no “trajeto antropológico”.
O envelhecimento, visto como processo de declínio do ser humano se baseia em pressupostos duvidosos, em mitos arraigados na sociedade. Boa parte dos idosos vive sua velhice com tranqüilidade e aceitação, suas vidas não são negativas, dependentes e de inutilidade, embora este desenvolvimento caminhe em direção oposta aos valores predominantes da sociedade atual: beleza, força, trabalho, poder econômico e político. Vivemos em uma sociedade que esteriotipa, mas que diz ser democrática e pluralista. E, neste pluralismo, é importante que haja espaço para o velho contribuir, com seus conhecimentos, saberes e experiência, com os mais jovens sem esquecer de também de usufruir.
O Brasil, considerado por até bem pouco tempo um país de jovens, pensa ser, ainda, este “país jovem” e não se preparou para receber a população que envelheceu, está envelhecendo e que o transforma em “um país jovem com cabelos brancos” (VERAS, 1994). O Brasil ainda não se deu contas de seus cabelos brancos, pois como escreve Beauvoir (apud (FEATHERSTONE, 1998, p. 11) a “velhice é algo não realizável, que não entendemos até sermos velhos” e como diz Sartre, é um “etre pour outre” (um ser para o outro). É no outro que percebemos o passar do tempo, as rugas: a velhice. Quem envelhece são os outros!
A sociedade que envelhece pode valorizar os talentos dos velhos/idosos, a capacidade que ainda possuem. Nossos velhos/idosos representam a história viva de nosso passado, com suas lembranças, memórias, com poucos direitos legislados, com raras oportunidades e muitas vezes silenciados pela ideologia dominante, pelas pressões do “meio
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cósmico e social” (DURAND, G., 2001, p. 41). Como diz Lahud Loureiro, (1994, p. 75) “são arquivos vivos, a se deixarem, com prazer, folhear (...)”.
“Pensar e agir no que pode e estender a sabedoria e a experiência, espargindo a doçura da calma conquistada, é a oposição salutar para o velho desmentir seu desvalor, desvalor considerado, em geral, afobadamente pela sociedade, sem a parada maior de reflexão sobre o gravado; opinião preconcebida, cunhada nas cabeças dos ‘sócios’, como idéias formatadas no molde do igual, do conveniente, necessário para a continuação da situação.” (LAHUD LOUREIRO, 2000, p. 38)
Atualmente, um novo olhar sobre a velhice se faz sentir. A criação do Estatuto do Idoso normatiza regras que, no entanto, deveriam ser valores intrínsecos no homem, como o respeito, e o não mal-tratar. Não deveria ser necessária uma legislação para dizer que devemos respeitar o nosso próximo, este cidadão que já não contribui com os valores materiais desejados pela sociedade. Não deveriam ser ameaçados castigos para quem não fosse humano, desprezando seus próprios velhos.
A qualidade de vida para o idoso e esperança para um envelhecer saudável pode se dar com novas aprendizagens, novas experiências e novas conquistas, que levem o idoso a reconhecer-se como cidadão consciente de suas responsabilidades e de seus direitos.
Hoje, políticas envolvendo o tema do envelhecimento e da velhice vêm sendo discutidas e ações positivas já refletem na criação de Centros de Convivência, Núcleos de Estudos e Pesquisas sobre o envelhecimento bio-psico e social e sobre qualidade de vida. Instituições particulares se apresentam financiando projetos nesta área e Instituições de Ensino Superior desenvolvendo programas extensionistas, como é o caso das UUnnAATTII’s. Tudo isto visando o resgate ou a conservação da auto-estima e da auto-imagem dos idosos, visando o “reencantamento da vida”. Para tanto vem se buscando entender, cada vez mais, o processo do envelhecimento, o fenômeno da velhice em si e a situação do velho em uma sociedade capitalista, que cobra a força do trabalho, a assunção de papéis, ainda para o idoso, e a produtividade quantitativa.
A representação pessimista criada pela sociedade – os preconceitos -, agora, vem dando lugar para o envelhecimento com qualidade como resposta que convida o idoso a ocupar o seu lugar numa inclusão ou re-inserção social. As sociedades sempre mudaram no tempo e continuam mudando, são dinâmicas, e, nesta dinamicidade, se vislumbra a consideração da velhice, mesmo porque o contingente nesta etapa da vida se alarga continuamente, apontando, como dito anteriormente, para breve sermos um país com muitos velhos.