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Os rituais públicos do terreiro Babá Agboula, geralmente, envolvem cânticos sagrados, dança de algumas mulheres que inicialmente em um xirê homenageiam os orixás, porém a grande expectativa paira sobre a apresentação do egun. A performance30 da dança constitui um dos principais canais de comunicação e expressão do sagrado. Simbolicamente, o corpo do egun, no momento da dança, funciona como veículo de expressão. Aliado à palavra, através das técnicas do corpo, o egun transmite o axé; mais tarde essas são reproduzidas pelas crianças do Bela Vista na sua arte de imitar os mais velhos. Para Mauss (2003), não há técnica e não há transmissão se não houver tradição. Eis em que o homem se distingue dos animais.

A dança ritual de egun constitui um verdadeiro espetáculo, isto é, algo que se apresenta a um público que o contempla. Aliam-se à construção do espaço sagrado, objetos rituais, a ornamentação que, normalmente, se faz de acordo com as preferências do egun homenageado; a presença dos Ojés (oficiantes) e do próprio público que, na sua maioria, interage com os gestos feitos pelo Babá; tudo isso lhe permite adentrar no mundo misterioso dos ancestrais. Para Segato (1995), a modelagem de um imaginário multifacetado de cada divindade advém de elementos diversos, como a linguagem verbal, a música e a dança, importantes na prática de um dado culto.

Durante a apresentação, o egun fala ao povo com uma voz gutural, às vezes rouca, aguda, metálica e estridente, todas incompreensíveis para os iniciantes e leigos, o que requer a presença de um intérprete para decifrar o que o Babá deseja comunicar; de igual modo ocorre quando o egun deseja falar com a pessoa específica que se encontra presente no lesen.

30 Utilizamos o termo performance a partir da definição de Schechner (1985) que compreende tal termo como sendo qualquer atividade realizada por um indivíduo ou grupo, na presença de outros indivíduos ou grupo. No caso da dança ritual de Babá trabalhamos no campo do simbólico, já que não se acredita que dentro da roupa tenha uma pessoa, mas o vento que deu ao ancestral a forma humana.

O barração é subdividido em três espaços. No lado direito, parte é destinada aos homens, e é também onde fica a orquestra e seus alabês. O lado esquerdo é destinado às mulheres; em ambos os lados, as primeiras cadeiras são ocupadas pelas pessoas com relevância no culto ou visitantes ilustres. Já na parte frontal, próximo à parede ficam algumas cadeiras, previamente preparadas e decoradas, nas quais se sentam os eguns e não é permitido que nenhuma mulher as toque. Esta atitude demonstra que a mulher jamais deve penetrar na esfera do masculino. Ela é considerada impura e o simples toque parece desorganizar a ordem vigente. Para Douglas (1991, p. 14-15), a impureza é uma ofensa contra a ordem e esses pretensos perigos são uma ameaça que permite o exercício do poder sobre o outro.

As noções de direita/esquerda estão presentes em vários sentidos dados às funções e coisas. Às mulheres é atribuída a esquerda, que representa a fraqueza, a impureza, o que orienta o imaginário e define o lugar das mulheres dentro da esfera ritual religiosa.

O pensamento primitivo atribui um sexo a todos os seres do universo, até mesmo aos objetos inanimados. Todos eles se dividem em duas grandes classes principais: a de macho ou fêmea. Entre os Maori, a expressão tama tane, “lado macho”, designa as coisas mais diversas: a virilidade do homem, a descendência paterna, a força que cria, a magia ofensiva, etc., ao passo que a expressão oposta, tama wabine, “lado feminino”, se aplica a todos os contrários. [...] Esta distinção, de alcance cósmico, encobre, de fato, a antítese religiosa primordial. Com efeito, em termos gerais, o homem é sagrado e a mulher profana. Excluída das cerimônias de culto, a mulher não é admitida senão em uma função que esteja de acordo com ela: quando tem que portar um tabu, quer dizer, levar a cabo, pelas condições exigidas, uma verdadeira profanação. (HERTZ, 1990, p. 114, grifo do autor)31.

É também neste espaço que os eguns dançam, descansam e desfrutam da companhia de outros eguns. Entre as cadeiras dos eguns e o público fica o espaço considerado sagrado, no qual as mulheres não circulam. Sendo facultada sua circulação apenas quando Babá as chama e solicita que cantem para ele. Geralmente essas mulheres possuem alguns privilégios dentro do culto Babá por possuírem posto ou oiê. Normalmente essas mulheres são iniciadas no lesen-orixá, ocupando o cargo de Iyalorixá; é um momento em que é reverenciada como se fosse a própria Oiá.

31 Tradução livre de: “El pensamiento primitivo atribuye um sexo a todos los seres del universo, incluso a los

objetos inanimados. Todos ellos se reparten en dos grandes clases según se les considere machos o hembras. Entre los Maori, la expresión tama tane, „lado macho‟, designa las cosas más diversas: la virilidad del hombre, la descendencia por línea paterna, la fuerza que crea, la magia ofensiva, etc., mientras que la expresión opuesta, tama wabine, „lado hembra‟, vale para todos los contrarios. [...] esta distinción, de alcance cósmico, encubre de hecho la antítesis religiosa primordial. En efecto, en términos generales, el hombre es sagrado y la mujer profana. Excluida de las ceremonias del culto, la mujer no es admitida más que para una función acorde con ella: cuando hay que levantar un tabú, es decir, llevar adelante en las condiciones exigidas una verdadera profanación.” (HERTZ, 1990, p. 114).

Antes de desenrolarem os rituais para egun, as mulheres cantam e formam uma grande roda (xirê), para homenagear os orixás; elas cantam, batem na palma da mão e cuidam da confecção da roupa usada pelos Babás. É da mulher a responsabilidade de zelar pelo culto fora da parte do segredo. Já os homens têm a obrigação de cuidar do espaço sagrado nos momentos em que egun vem ao encontro de seus descendentes. Com o ixã, os sacerdotes separam simbólica e ritualmente o mundo dos vivos e o mundo dos mortos; isto é, vida e morte. É através do ixã que os Ojés conseguem manter a distância entre o egun e o público; o egun jamais desrespeita um ixã, o que justifica muitas vezes que o Ojé coloque o ixã no chão, impedindo que o ancestral, algumas vezes chateado, toque nas pessoas. Em caso de fúria, o Ojé é obrigado a colocar o ixã no peito do egun a fim de controlá-lo, posto que esta vara é o instrumento que o faz vir ao aiyê e é também o que o controla; por isso é um objeto ritual de suma importância. No caso do amuixã ter dificuldade de controlá-lo em caso de fúria, é solicitado a presença do Atokun – sacerdote responsável por zelá-lo e invocá-lo; assim, a intervenção é mais ríspida e eficaz, já que o egun nutre grande respeito por ele.

Vale lembrar que o culto de Babá Egun segue uma organização hierárquica funcional, isto é, os títulos recebidos pelos adeptos são outorgados e funcionam ao mesmo tempo como nomes-títulos; ou seja, correspondem também aos papéis desempenhados por eles (BRAGA, 2006, p. 26). Nesse espaço, cabem às mulheres pequenos papéis que não possuem quase ou nenhuma relevância social, pelo menos para a sociedade mais ampla.