A origem do Culto de Babá Egun está fundada na mitologia negro-africana, especialmente nas concepções iyorubanas ou nagô. O mito relata que Oiá não podia ter filhos. Então ela resolveu consultar um Babalaô para verificar o que poderia ser feito. O Babalaô viu nos búzios que ela só teria filhos quando um homem a possuísse com violência. Não demorou muito e Xangô a possui com violência e dessa relação nascem nove filhos, dos quais oito nasceram mudos.
Após ter tido os oito primeiros filhos, preocupada, Oiá resolveu voltar ao Babalaô para verificar o que estava acontecendo, já que não conseguia ter filhos com voz. Após consultar o oráculo, o Babalaô recomendou que ela fizesse oferenda e assim a desejosa mulher o fez. Passou algum tempo e Oiá novamente engravidou e ao completar nove meses nasceu o filho
que, no tempo certo, emitiu a voz, porém esta era tão rouca, estranha, cavernosa que causava um certo pavor nas pessoas.
Novamente ela voltou-se para o Babalaô que lhe explicou que aquele filho era um Egungun; teria sido ele o antepassado fundador da família, da cidade ou de uma região.
Oiá entendeu a explicação e criou o filho com muito carinho.
Hoje, quando egun vem dançar entre seus descendentes, é admirado por todos. Mas egun não se curva diante de mulher alguma, exceto de Oiá; somente ela é digna de sua reverência32.
Este mito remonta à origem do surgimento de egun, isto é, localiza dentro da mitologia a origem biológica do egun, mas seria de igual importância localizar a própria morte. Ziegler (1977, p. 40)relata, através de um mito, que a origem do egun estaria em Ifé, que foi invadida inúmeras vezes pela morte e sua comitiva, e o restante, não sabendo o que fazer, pediu ajuda para os orixás que nada podiam contra a morte. Então, um morador destemido, chamado Ameiyegun, organizou uma emboscada e, com a ajuda de Oni, então Rei de Ifé, expulsou a morte e sua comitiva. Ao fugirem, deixaram cair os cajados que logo pararam nas mãos de Ameiyegun e do povo de Ifé.
Mais tarde, após a morte de Ameiyegun, um Babalaô confirmou aos filhos que seu pai pertencia ao mundo dos eguns e deveria ser adorado, venerado, e isso foi passado a todos os homens da família que passaram a venerá-lo na figura do egun. Desta forma, a palavra egun seria uma corruptela da palavra Ameiyegun.
Os dois mitos mencionados dão conta da origem do surgimento de egun enquanto entidade social, com origem materna na figura de Iyansã, o que justifica o respeito a ela reservado e também a etimologia da palavra, cujo radical é originário de Ameiyegun; portanto, ambas as explicações estão no plano mitológico, mas nem por isso são menos válidas quanto à própria aparição de egun no aiyê.
1.5.2.1 O culto de Babá Egun no Brasil, na Bahia
O culto chegou ao Brasil pelas mãos e na memória dos escravizados iyorubanos, cujo tronco étnico vem de variadas regiões da Nigéria, a saber: os povos de Ketu, Oyó, Ijexá, Ifan
e Ifé. Diferentemente das casas de orixás, quase que inumeráveis em todo o Brasil, o culto de Babá Egun apresenta um parco número, destacando-se, sobretudo, as principais delas que figuram em livros e na memória das pessoas de Itaparica.
Cumpre-nos situar historicamente o surgimento das primeiras e principais casas que cultuam Babá no Brasil, porém é necessário fazer uma diferenciação entre a Sociedade Egungun e o culto ancestral que se pratica nos candomblés de lesén-orixá e na umbanda. Em primeiro lugar, todo terreiro de culto ao orixá deve ter um lugar onde os antepassados são cultuados. Esse espaço é denominado Ibó. Geralmente, essa casa fica nos fundos dos terreiros, bem distante do lugar onde se cultuam os orixás. Outra diferença marcante é que nos candomblés de lesen-orixá e na umbanda não aparecem os eguns; nisso pode residir uma divergência entre os rituais invocados nas casas exclusivas aos eguns e aquelas que cultuam orixás.
Segundo os adeptos de lesen-egun, existem muitas responsabilidades para quem cuida dos eguns, fato que talvez justifique o parco número de casas que se dedicam apenas a egun. Segundo relato de Nina Rodrigues (2005), na obra O animismo fetichista dos negros baianos, esse culto ancestral teve início no Brasil, por volta de 1796, e teria sido fundado por um africano. Rodrigues não menciona nem o nome do fundador nem o local das primeiras aparições públicas de egun, por isso essa data pode ser apenas uma referência fictícia, uma vez que os documentos33 encontrados relatam apenas algumas invasões nas casas de culto em Vera Cruz, Itaparica, o que talvez tenha acontecido apenas no início do século XIX. Diferentemente dos escritos sobre o início do culto no Brasil, um entrevistado afirma que antes do culto de Babá chegar à Bahia, ele teria sido iniciado em Pernambuco e só depois chegaria pelo Litoral à Encarnação34, Itaparica, na Bahia.
Outros depoimentos de adeptos antigos apontam que o terreiro mais antigo é o de Vera Cruz, fundado em 1820, por um africano, conhecido como Tio Serafim, cujo egun de seu pai biológico é invocado pelos moradores do Bela Vista. Trata-se do famoso Egun Okulelê. Em Mocambo, também na Ilha de Itaparica, fundou-se em 1830 um outro terreiro, idealizado e edificado por Marco-o-Velho. Ojé, ainda hoje, é reverenciado por moradores das localidades do Bela Vista, Barro Branco e adjacências, bem como fora dos domínios da Bahia. Foi nesta casa que se invocou pela primeira vez o famoso egun de Babá Olukotun, considerado pelos
33 Arquivo Histórico Ultramarino. Catálogo Castro e Almeida, na secção Brasil Geral, Dos. 143, rolo 101 e Doc. 7807 cod. 005.
34 É bom esclarecer que não encontrei qualquer registro que corrobore com essa informação, dada pelo Ojé mais antigo do culto de Babá Egun. Os relatos na memória são tão válidos quanto os documentos encontrados nos arquivos.
adeptos dos terreiros como Olari-Egun, isto é, o ancestral primordial do candomblé de lesen- egun, da nação nagô.
Mas o culto continua em franca expansão no século XIX, quando, em Encarnação, na Ilha de Itaparica, por volta de 1840, foi iniciado pela primeira vez o culto ao Babá Agboula. A sua fundação se deu por um dos filhos do famoso Tio Serafim, o conhecido Ojé João-Dois- Metros. O egun de Babá Agboula é um dos patriarcas desse povo nagô e é sobre este terreiro que recai o nosso interesse, por ser considerado até hoje como a matriz de todas as casas de culto de Babá Egun do Brasil. Já em aproximadamente 1850, o filho do venerado Marco-o- Velho, o conhecido Tio Marco, funda o terreiro do Tuntum, também situado na Ilha de Itaparica, cujas atividades são garantidas através dos seus descendentes. Além dos terreiros de Itaparica, Babá também possui casas em Salvador, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Salienta-se que todas as casas descendem de alguma casa de Itaparica, ou seja, o axé da casa foi plantado por algum Ojé baiano.
Esse pequeno relato mostra o percurso histórico das primeiras casas de lesen-egun. Podemos nos perguntar qual o motivo do número de casas ser tão pequeno? Essa pergunta talvez encontre resposta no pavor e horror que as pessoas têm da morte. O povo de candomblé, em sua maioria, possui a concepção da morte como algo infinito, mas isso não significa que essas pessoas a encarem com naturalidade; portanto, é uma visão que sofre as influências ocidentais, na qual a morte é assunto tabu. Esta ideia foi difundida principalmente pelo cristianismo, como afirmado anteriormente.