Se a discussão sobre os conceitos de interação, interatividade e participação é tão cheia de nuances nos estudos de comunicação, quando sua aplicabilidade chega à imprensa e seus usuários, personagens que realmente fazem uso desses recursos, os efeitos não parecem ficar mais claros, mas ratificam as dificuldades e os entremeios que compõem as noções e condições de emprego. O fato é que a relação de proximidade, concretizada na adoção/permissão dessas faculdades, é uma estratégia que atende tanto aos interesses do público, que quer se sentir atuante na mídia que consome, quanto dos veículos, que têm no modelo uma estratégia editorial que vai lhes afiançar identificação e fidelização. De qualquer modo, toda essa transformação no perfil do consumidor e na postura da mídia até culminar, quem sabe, na adoção dos comentários de leitores como estratégia de aproximação e diálogo não aconteceu de maneira imediata nem apareceu como uma exclusividade da Era Digital. Conforme adverte Matheus (2013, p. 50), ao tratar de participação do público nos jornais brasileiros, já no século XIX “os jornais se empenharam em mobilizar a interação do leitor. Antes da ideia de credibilidade, o sucesso comercial e simbólico dos periódicos foi obtido graças à mobilização que conseguiram no público”.
Entre as estratégias de aproximação que eles adotavam, segundo a autora, estavam a oferta de brindes, promoções, colunas dedicadas às reclamações e queixas, o leitor
como personagem de narrativas, enigmas e as charadas que eram respondidas na edição seguinte, publicação de piadas e poemas enviados pelos leitores, bem como as visitações às redações.
No Brasil, entre as iniciativas históricas que marcam a relação de proximidade entre o jornal e seu leitor está a do jornal Última Hora (1951- 1954), que espalhava urnas pela cidade para que os leitores depositassem reclamações, sugestões e denúncias. Todas as “inquietações” do povo eram coletadas em praça pública e transformadas em uma seção do jornal intitulada Fala o Povo na UH. Segundo Siqueira (2003:2), outro serviço direcionado ao leitor dessa época era a Tendinha das reclamações do jornal Última Hora. Nela, o veículo montava uma réplica da redação em praças para ouvir o povo que, por sua vez, levava denúncias que “pautaram grandes reportagens”. (BUENO E THEOTONIA – no prelo)
Por fim, com espaços diversos, ora mais evidentes, ora mais controlados, o cidadão teve ao longo da história da imprensa alguma forma de se relacionar com a mídia. A diferença mais gritante é que antes da internet essa participação “se dava por meio de telefonemas, cartas, visitas pessoais às redações de jornais ou mesmo emissoras de rádio e TV” (ZANOTTI, 2010, p.30), ou seja, eram os profissionais de jornalismo “os atores principais”. Na atualidade, as empresas jornalísticas que estão hoje na rede, com raras exceções, disponibilizam alguma ferramenta que estimula a participação dos receptores, incluindo o famigerado comentário de leitores.
Tais comentários, apesar da sensação de novidade, não são tão inéditos assim e remetem a outras maneiras bem mais consolidadas de relacionamento. Comentar em textos já finalizados, por exemplo, era uma atitude bastante comum nos livros do século XVI, numa prática conhecida como “marginália”, em que citações de textos ou partes de outros textos eram feitas pelos leitores dos livros, anotadas nos cantos das páginas destes e depois transferidas para um caderno de “lugares comuns”, para que posteriormente pudessem ser consultadas.
Se trouxermos a discussão mais para perto, para o período da comunicação de massa, vamos ver, outra vez, que o costume, dadas as limitações do suporte, tanto de produção quanto de espaço, também era comum. As seções de cartas e opinião sempre existiram nos jornais e revistas. Esse formato de se relacionar com a mídia simplesmente acompanha uma expectativa anteriormente ensaiada e ansiada por leitores e veículos.
Tentando fazer um resgate do avizinhamento de leitor e mídia, Sbarai (2009) relembra que a primeira publicação impressa com um espaço destinado ao cidadão data do século XVII, mais precisamente de 1690, nos Estados Unidos. Segundo ele, o Publick Occurrences Both Forreign and Domestick foi o primeiro jornal publicado no continente americano que tinha uma de suas quatro páginas em branco. A estratégia era sugerir que o leitor produzisse o próprio conteúdo e divulgasse esse acontecimento antes de compartilhar o jornal com outra pessoa.
Novidade ou evolução de antigos modelos consolidados, vale ponderar que esses posts em formato de comentários nos sítios de notícias surgiram no jornalismo como parte da cultura da interatividade, uma das marcas mais festejadas do modelo de jornalismo na web. Para Bardoel e Deuze (2000), essa seria uma das quatro marcas mais significativas da produção de notícias na web, junto com a hipertextualidade, a multimidialidade e a customização de conteúdo. No Brasil, Palácios (1999), um dos pioneiros nos estudos que organizaram a descrição do modelo de jornalismo praticado na web, já havia colocado a interatividade como basilar desse padrão de produção midiática, além da convergência, hipertextualidade, personalização e memória.
Para todos eles – Bardoel e Deuze e Palácios – entre outros, a interatividade seria indiscutivelmente uma das marcas mais importantes do jornalismo na web, sendo que, no âmbito da potencialidade, garantiria aos usuários a impressão do pertencimento, de integrar o processo de modo menos controlado. Mielniczuk (s/d, p.4) lembra que, ligado à internet, o internauta que navega em um conteúdo jornalístico estabelece pelo menos três formatos de interação “a) com a máquina; b) com a própria publicação, através do hipertexto; e c) com outras pessoas – seja autor ou outros leitores”.
Conforme Quadros (2005, p. 25), os comentários começaram a existir na rede inicialmente de maneira muito controlada. A autora coloca-os no que classifica de quarta etapa do jornalismo participativo, quando “alguns jornais digitais adotam a possibilidade de enviar comentários sobre os assuntos em pauta. Não há troca de comunicação entre mediadores e usuários, mas o mediador responsável por determinada reportagem pode citar alguma mensagem que desperte o seu interesse”. Só na etapa seguinte é que os comentaristas passariam a ter mais voz, interagir e até a produzir conteúdo.
A “novidade” da participação mais efetiva instigou diálogos inflamados sobre a possibilidade de esse sistema modificar o jornalismo de massa. Para autores como Flew e Wilson (2010), por exemplo, o modelo poderia, talvez, incentivar um formato de jornalismo mais democrático, plural, disposto a ouvir a expectativa do seu público e atender a ela. Ao tratarem dos comentários, Barros & Sampaio (2010, p. 183) argumentam que:
Interessada por este fenômeno, há uma linha de estudos que defende essas novas ferramentas como possibilidade de um modo de fazer jornalismo mais aberto ao público ou mesmo que todo o processo seja participativo, o que se apresenta como uma reconfiguração do campo jornalístico.
Outros autores, menos entusiasmados, temiam que a ferramenta pudesse comprometer a estabilidade da carreira de jornalista. Quando colocaram os comentários nas discussões sobre construção coletiva de notícias, eles entenderam que esse seria o primeiro passo para a morte da profissão. Ao compilarem o pensamento de diversos autores sobre o papel da participação do usuário na construção colaborativa do jornalismo, Barros e Sampaio (2010, p. 183) pontuaram que Newman (2009) defende a ideia de que “a construção colaborativa torna a empresa jornalística desnecessária”, Rebillard e Touboul (2010) que “as promessas de igualitarismo da web 2.0 não colocam jornalistas e usuários de internet no mesmo nível”; e que Palácios (2009) entendia que essa participação “estaria circunscrita a locais de pouca visibilidade, guetos”. Como ressalta Fidalgo (2004), seja qual for a amplitude dessa ação, mudando ou não o formato jornalístico, engajando ou não as pessoas em comunidades, o fato é que ela produz “densidade semântica”, isto é, agrega sentido e serve de entendimento social.
Verdade seja dita, eles (comentários e comentadores) modificaram rotinas estabelecidas pela profissão. Porque, de um dia para o outro, o simples leitor se viu na posição de coautor das notícias, passando a dialogar com o texto, seus autores e com os outros leitores (HERCULANO, 2011, p. 04).
Mesmo que não representem como se temia o fim da profissão, ou efetivamente um jornalismo mais democrático no sentido de ouvir o outro, os comentários servem, ao menos, para a medição da impressão sobre como o público olha para certos assuntos veiculados. E os jornais percebem isso. A maioria deles disponibiliza, na própria matéria ou no ícone de leitura das postagens, o número total de comentários. Alguns dão destaque também aos títulos mais comentados.
O importante nesse contexto é enxergar, a partir da apropriação que o usuário, as novas funções que foram conjugadas à plataforma. Longe do diálogo direto com a imprensa ou com a cocriação tão temida pelos profissionais e teóricos mais saudosistas do jornalismo, os internautas deram ao comentário uma função nova: um balão de conversação entre si. Tanto é assim que os formulários, que até pouco menos de dois anos se limitavam à inserção do texto, nome do autor, hora da postagem e, quando muito, compartilhamento nas redes sociais, hoje agregam diversos ícones que instigam o diálogo entre os internautas. Foi da postura dos comentaristas que mais conversavam entre si do que comentavam o conteúdo que os dispositivos trazem agora ícones como curtir ou descurtir postagens, bem como o link responder diretamente ao autor do post. Um ponto interessante nessa discussão é perceber que apesar da euforia que o sistema traz, em particular no seu potencial colaborativo, a verdade é que boa parte dos sítios que usam esse recurso não está preocupada em aproveitar o material para a produção jornalística. A maioria dos comentários não chega aos editores, tanto que, quando o comentarista quer falar com o jornalista responsável, é orientado a enviar um e-mail. Além disso, os sites oferecem ao leitor canais de colaboração direta, o que ratifica a hipótese de que os comentários não teriam, na sua essência, a função de produção colaborativa de conteúdo.
Sobre o assunto, Palácios (2009) defende o ponto de que os jornais apostaram em comentários por uma expectativa do usuário e que essa atitude teria, em última instância, o objetivo de fidelizar leitores. Ao que parece, ele está certo. Boa parte dos veículos, ao cadastrar os leitores para que autorizem a postagem do comentário, oferece, ainda, a opção de incluí-los num sistema personalizado, no qual vão dispor de uma página para encontrar as matérias de sua preferência, conhecer outros comentaristas e dialogar com eles, selecionar os próprios comentários, entre outros benefícios.
Herculano (2011) acredita que os comentários são parte da evolução dos suportes de mídia. Na sua avaliação, trata-se de um processo natural que passou das Cartas do Leitor ou seções semelhantes, moderadas e submetidas aos critérios de espaço, para o contato via telefone e deste para a internet. Recuero (2012, p. 13) reforça essa reflexão ao dizer que “essas conversações não são, desse modo, determinadas pela existência desses novos meios, mas elementos de apropriação dos grupos sociais de ferramentas com potencial comunicativo”.
E Herculano (2011) diz mais. O autor está certo de que essa mudança no potencial de interação pela qual a imprensa passou ampliou também o desejo do leitor de ser mais atuante. Em sua concepção, o novo receptor não se contenta em ver publicado seu comentário ou simplesmente poder emitir sua opinião; ele quer ser reconhecido por isso.
Com a experiência trazida no embalo do tempo, é fácil detectar que o usuário de internet que acessa um site de notícias não está apenas perseguindo uma informação, mas se abrindo para as conexões possíveis através dela (HERCULANO, 2011, p. 6).
A plataforma também ratifica essa hipótese uma vez que autoriza o compartilhamento do conteúdo com as redes sociais. Em outras palavras: os veículos entendem que o leitor não quer apenas comentar, mas partilhar sua opinião com seus amigos, com seus conhecidos, divulgar seu ponto de vista na sua rede de relacionamentos. A plataforma possibilita e convida a uma interação além da postagem.
Outro ponto que ainda gera divergência é a moderação dos diálogos. Se por um lado os veículos têm tentado atender a essa demanda, por outro, ainda não sabem como lidar com ela. Isso é perceptível quando pensamos na proporção quase igualitária entre os veículos que usam a figura do moderador, que atrasa e controla o conteúdo da conversa, e os que permitem as postagens automáticas. Essa dúvida parece compreensível uma vez que o sistema ainda é novidade na rede e tanto os veículos como o público estão aprendendo a lidar com ele. Decisão difícil essa, já que a opção não mediada é muito mais fluente, no entanto mais passível de abusos e ofensas. Ela também gera entraves com os próprios consumidores ou comentaristas. Como pontua muito bem Dalpiaz (2013), o comentário é uma prótese na qual se realiza a interação. O conteúdo, “é só um pretexto”.